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Art Zoyd – “‘Nosferatu’ E Art Zoyd Encontram-se No Apocalipse – Um Vampiro Na Galáxia Zoyd”

cultura >> sábado, 07.10.1995


“Nosferatu” E Art Zoyd Encontram-se No Apocalipse
Um Vampiro Na Galáxia Zoyd


Com os Art Zoyd as separações musicais deixam de fazer sentido. Música rock para eruditos ou música erudita para “rockers”, ninguém consegue aprisioná-la nem a ela ficar indiferente. Adeptos e praticantes de uma arte total, discípulos de Wagner e dos Magma, os Art Zoyd vão ter neste fim-de-semana as imagens de Murnau por companhia.



O espectáculo que hoje e amanhã, pelas 21h30, terá lugar no Grande Auditório da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, inserido na programação da Culturgest, sob o “Ciclo Apocalipse”, é absolutamente a não perder. Anuncia-se o cruzamento das obras expressionistas de Friedrich W. Murnau, “Faust” e “Nosferatu”, com a música ao vivo do quarteto francês Art Zoyd. Síntese a preto e branco do terror e da loucura humana com a visão totalitária e “wagneriana” que preside à estética do grupo e, em particular, da composição “Nosferatu” (o vampiro que traz a peste), assinada por Thierry Zaboitzeff e Gérard Hourbette. Cardíacos, dogmáticos e mentes simples, abstenham-se.
Existirão hoje em dia na Europa poucos grupos conotados com o universo da música rock com a dimensão dos Art Zoyd. Numa época em que o efémero predomina e o sucesso a todo o custo se sobrepõe ao trabalho em profundidade, os Art Zoyd movimentam-se na direcção contrária. Desde 1969, ano da sua formação, que o grupo vem construindo uma obra cujos alicerces mergulham simultaneamente na música europeia – das correntes eruditas deste século às tradições folk mais remotas – e em linguagens contemporâneas que vão do rock ao minimalismo, da electrónica à revisitação, em moldes revolucionários, da música de câmara.
Coincide com a eclosão do movimento “punk” a deflagração das actividades discográficas do grupo, acompanhadas, ao longo da década seguinte, pela participação intensa em festivais de música contemporânea em todo o mundo. Em 1977, em plena confusão desencadeada pelos Sex Pistols, era difícil classificar uma banda cuja música tinha a sua força em motivações estéticas e filosóficas e que ainda por cima não se envergonhava de utilizar em cena violinos e violoncelos. Foi talvez esse o motivo que, na ausência de outros parâmetros, levou, na altura, um crítico alemão a classificar o som dos Art Zoyd como “música de câmara para punks”.
A editora e cooperativa cultural Recommended, de Chris Cutler (Henry Cow, Art Bears, Cassiber, Pere Ubu…) foi a primeira a alertar para a qualidade da obra do grupo e da urgência em conhecê-la. Os Art Zoyd surgem então como impulsionadores de uma corrente musical que, para alguns, prolonga, segundo critérios já totalmente libertos do lastro do psicadelismo e de um “sinfonismo” mal assimilado, a música progressiva da primeira metade dos anos 70. Ao seu lado estão outros grupos, como Univers Zero, Présent, Conventum, Aksak Maboul ou Débile Menthol, determinados em dar um rosto novo e menos empoeirado à nova música nascida no velho continente.
Da obra discográfica dos Art Zoyd, ao todo nove álbuns, todos disponíveis em importação nacional, destacam-se as obras-primas “Symphonie pour le Jour où Brûleront les Cités” (1976, para uma coreografia de Roland Petit), “Génération sans Futur” (1980), “Les Espaces Inquiets” (1983), “Le Marriage du Ciel et de l’Enfer” (1985), “Nosferatu” (1989), o último “Marathonnerre” (1992), em dois volumes que resumem 12 horas de uma ópera multimédia de Serge Noyelle, e, sobretudo “Berlin”, de 1987, alucinação premonitória e apocalíptica sobre o futuro da cidade-mito, cujo muro viria a cair dois anos mais tarde.
Na música dos Art Zoyd acotovelam-se referências musicais e poéticas díspares que vão de Bela Bartok a Frank Zappa, dos Van Der Graaf Generator aos minimalistas americanos, da folk da Europa central a Wagner, de Hoelderlin a William Blake, de Shakespeare a Friedrich Nietzsche. E, no lugar cimeiro do alter, Christian Vander e os Magma, dos quais os Art Zoyd são os legítimos herdeiros.
Os Art Zoyd são Thierry Zaboitzeff (violoncelo, baixo eléctrico, teclados, voz, percussão, electroacústica, misturas), Patricia Dallio (teclados) e Daniel Denis (percussão, teclados). Uma galáxia à parte, nos confins da arte deste século.

UHF – “Os Melhores De Sempre” (dossier | editado em livro)

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995
OS MELHORES DE SEMPRE


MÚSICA PORTUGUESA

Esta selecção dos melhores álbuns de sempre da música produzida em Portugal até aos anos 90, resulta de uma votação feita pela equipa do suplemento Pop/Rock. São privilegiados os trabalhos concebidos sob a forma de álbum, mas também sendo aceites compilações e mini-álbuns quando estes forem os melhores ou únicas edições dos respectivos autores. A ordem de publicação é aleatória.

UHF À Flor Da Pele



Como Foi

GNR, CTT, NZZN, UHF. Não se sabe bem por que estranho fenómeno (para António Manuel Ribeiro tratar-se-ia de uma “maneirismo do pós-25 de Abril2), parte das bandas de rock português que emergiram no início dos anos 80 adoptaram siglas como designação. Apenas a primeira e a última sobreviveram. Muito por força de duas personalidades dominantes do a partir de então denominado “rock português”: Rui Reininho e António Manuel Ribeiro, ambos apostadores natos na importância das palavras. No som das palavras, Reininho. Na sua carga existencial, Ribeiro. “À Flor da Pele”, disco de estreia da banda almadense, vive em grande parte dos textos empenhados de AMR, cantor por força de uma necessidade interior e da circunstância de ter nascido onde nasceu. No estúdio foi difícil. AMR acha apenas que foi “curioso”: “O início da gravação coincidiu com a altura em que a Valentim começou a transformar os seus estúdios. Então, a meio das gravações, era completamente impossível cantar. Na altura em que comecei a meter as vozes, de noite, ou de manhã, tinham lá estado os pedreiros a partir paredes e o estuque pairava no ar. Começava a tossir e não conseguia cantar. Houve ali uns dias em que tivemos que parar”. Foram ainda as circunstâncias que obrigaram o vocalista a desempenhar as funções de guitarrista. “Comecei a tocar guitarra solo, uma coisa para a qual não estava sequer vocacionado. Tudo porque o Renato Gomes estava a fazer o SMO [N.A: Ainda a mania das siglas. Para os menos conhecedores, SMO significa ‘Serviço Militar Obrigatório’] que na altura durava dezoito meses. Dezoito meses duros, sobretudo os primeiros quinze dias, da chamada recruta. Ninguém podia sair do quartel. Houve uma altura em que o Renato não podia estar em estúdio. Aliás há uma canção, ‘Rola roleta’, em que ele pura e simplesmente não toca”.
Descontando as dificuldades causadas pelo estuque e pela tropa, problemas que hoje AMR considera “giros” (“habituámo-nos àquilo tudo!”), o clima de trabalho que se gerou foi, segundo diz, “fabuloso”. “Sobretudo”, diz, “porque tivemos a ajuda de uma pessoa importante, o Hugo [Hugo Ribeiro, técnico de som], para mim um dos mestres de som deste país. Era o técnico da Amália e foi ele que nos foi destinado. Percebeu perfeitamente que nós, músicos, éramos demasiado ingénuos em algumas coisas e ajudou-nos bastante. No meio disto tudo havia ainda a mão patronal de Francisco Vasconcelos que nos deixou fazer tudo o que quisemos”. Tamanhas facilidades não era costume serem dadas às bandas que pela primeira vez entravam em estúdio, o que levou a que muitas delas, as quais, diga-se de passagem, nem sequer lá deveriam ter entrado, fossem trucidadas no processo. Enquanto algumas gravavam um álbum em dois ou três dias, os UHF estiveram lá dentro perto de três meses. “Era um ‘modus operandi’ esquisito”, reconhece o líder do grupo, “banda que entrasse em estúdio gravava quatro canções para dois ‘singles’, o primeiro saía logo e o outro muitas vezes só seis meses depois, já a banda estava desfasada”. Tal não aconteceu com os UHF, talvez porque esse fenómeno tenha acontecido “somente depois do sucesso do ‘Cavalos de corrida’ e do ‘Chico fininho’, ou ainda dos Táxi, que reconfirmam todo este sucesso de uma música nova feita em Portugal. A partir daí é que é a bagunça total”.
A banda de Almada ultrapassou essa bagunça. Desde logo transformados em estrelas do rock’n’roll, o seu estilo de vida adaptou-se ao novo estatuto. “Na altura foi um bocado ofuscante. Quando se passa de concertos em clubes pequeninos, em Almada, para trinta pessoas, para audiências de milhares, é outra dimensão, é quase passar para o infinito. E depois são as vendas. Sem querer fazer uma leitura pelo lado negativo, o que começa a criar alguns problemas é o dinheiro que se passa a ganhar. De repente, começámos a ser solicitados para todo o tipo de actuações. Em 1981 demos qualquer coisa como 140 espectáculos, algo que hoje ninguém mais fez em Portugal”. Os UHF precaveram-se bem cedo contra este tipo de pressões, assegurando para os seus espectáculos uma qualidade de som à altura, criando para tal a sua própria empresa de som, Furacão. “Garantimos a nossa autonomia, sem dependermos de ninguém. Até 1979, a980, tínhamos tido muito más experiências com o som de estrada”. O resto do dinheiro serviu para fins menos utilitários: “Passámos da imperial para o whisky duplo de doze anos!”. Quanto à imagem de estrela, não tiveram vontade nem tempo para a cultivar. “Não tínhamos muito tempo para a pose, até porque não havia este culto que hoje existe. Os UHF nunca foram, a esse nível, muito ofuscados nem pelo estrelato nem pela pose, ter que estar todo o dia vestido assim, ou maquilhar-se e pentear-se para as fotografias”.
Estava, ,ais preocupados em ferir a realidade que os rodeava. Em particular do “ambiente citadino de Almada nos anos 70 e princípio dos 80”. “Nomeadamente a questão do 25 de Abril, para quem vai fazer 20 anos na altura, era um bocado confusa. Estávamos na fronteira de nada”. AMR era “contra o antigamente, mas não de uma forma partidária”. Estava simplesmente “contra”: “Contra a guerra”, por exemplo, e “à espera que aparecesse alguma coisa que valesse a pena”. Em Almada, sobretudo, AMR via à sua volta “muitas pessoas andando pelos mesmos caminhos, ou pelos mesmos becos”. Não é por acaso que, ainda hoje, ele é considerado como porta-voz dos habitantes mais jovens da cidade. “Os UHF cresceram no meio da rua”, diz, “eu andava na faculdade, mas simultaneamente ia ao café onde toda a gente ia. Os UHF cresceram um bocado nessa onda, conheces um baixista, conheces um baterista, foi assim que as coisas aconteceram. Juntaram sempre à sua volta um grande grupo de pessoas”. Muitas dessas pessoas foram ponto de partida para canções, como no caso de “Rapaz caleidoscópio”, um “cruzamento de vários sujeitos”. Histórias, como essa, de “amigos que iam buscar três meses de trabalho aos estaleiros da Lisnave para poderem passar as férias de Verão num parque de campismo no Algarve”, escreveu-as AMR na solidão do seu quarto: “Sempre escrevi muito sozinho. Só depois é que começa a escrita de estrada”. Cita “Ébrios (pela vida)”, uma canção “mágica”. Na prática, porém, essa magia manifestou-se de forma pouco ortodoxa: “Foi escrita na primeira casa que tive na Costa da Caparica. Ensaiávamos no segundo esquerdo e havia uma vizinha por baixo que batia com a vassoura por causa do barulho”. Catorze anos depois de “À Flor da Pele”, ainda há quem bata com a vassoura.

Como É

Rui Veloso abrira o caminho, com “Chico Fininho”. Na rádio, Luís Filipe Barros pegara a fera de caras, nas tardes da Rádio Comercial, com o seu “Rock em Stock”. Era o “boom” do rock português que pouco tempo depois explodia num “bum!” que se ouviria por alguns anos de distância. Mas nessa altura, despontavam os anos 80, era só euforia e a descoberta de que o produto português afinal também vendia. Proliferavam as bandas, quase todas más. Não fazia mal, desde que fossem portuguesas. Os UHF, na primeira linha, não eram maus. Não tocavam muito bem, é certo, mas sobrava-lhes uma convicção, uma honestidade e uma energia que lhes dava um cunho de autenticidade e os colocava num lugar à parte da chusma de bandas oportunistas que iam cavando a sepultura do movimento. Quando António Manuel Ribeiro cantava “Jorge Morreu” (edição anterior em “single”, não incluída em “À Flor Da Pele”), em homenagem a um amigo falecido, ou martelava as palavras, sentidas na pele, de “Ébrios (pela vida)” ou “Nove e Trinta”, percebe-se que havia nele uma raiva genuína, uma sensibilidade de “rocker” assumida no sentido mítico do termo, enquanto herói existencial e porta-voz solitário de uma geração que sobrevivia na prisão de uma cidade dos subúrbios, Almada. “à Flor da Pele” funciona porque é sincero. É um disco cru, por vezes cruel, que recusa as imagens pelas imagens. Não se refugia no solipsismo da auto-análise fechada sobre si mesma, antes volta o olhar – por vezes de uma forma ingénua mas sempre destituída do verniz da superficialidade – para o cerco e os estigmas sociais, personificados por pessoas (“Modelo fotográfico”, “Rapaz caleidoscópio, “Geraldine”) ou lugares (“Rua do Carmo”, um dos “hits” do grupo). “Rapaz caleidoscópio” é a fotografia em negativo de “Chico fininho” (o lado negro niilista da vivência do “rocker” nacional, em oposição à leviandade jovial da canção de Rui Veloso) e um murro nos olhos vidrados do psicadelismo. Um sinal do que viria a ser no futuro o caminho traçado, sem desvios, por AMR e os UHF, com uma legenda decalcada dos versos finais de “Anjo Feiticeiro”: “Não vou ficar por aqui / escolho por mim, passei por ti / podes guardar a imagem”.

ALINHAMENTO
Lado A
1 – Rua do Carmo (texto & música: António Manuel Ribeiro)
2- Rapaz Caleidoscópio (texto: António Manuel Ribeiro; música: Renato Gomes e António Manuel Ribeiro)
3 – Nove e trinta (texto & música: António Manuel Ribeiro)
4 – Anjo Feiticeiro (texto & música: António Manuel Ribeiro)
Lado B
1 – Modelo Fotográfico (texto & música: António Manuel Ribeiro)
2 – Rola roleta (texto: António Manuel Ribeiro; música: Carlos Peres, António Manuel Ribeiro, Zé Carvalho)
3 – Geraldine (texto: António Manuel Ribeiro; música Carlos Peres)
4 – Ébrios (pela vida) (texto: António Manuel Ribeiro; música: Carlos Peres)

MÚSICOS
Zé Carvalho (bateria)
Carlos Peres (baixo, voz)
Renato Gomes (guitarras)
António Manuel Ribeiro (voz, guitarras, sintetizador, órgão)

PRODUÇÃO
Luís Filipe Barros e Nuno Rodrigues

GRAVAÇÃO
Estúdios Valentim de Carvalho, Paço de Arcos, entre 16 de Março e 6 de Maio de 1981.
Técnico de som: Hugo Ribeiro

FOTOGRAFIAS E CAPA:
Luís Vasconcelos

EDIÇÃO
EMI, 11C 076-40554,
1981
Reeditado em compacto, pela mesma editora, em 1993



Vários – “XIX Festa Do ‘Avante!’ Ao Ritmo Do Mississipi – Crocodilos Do ‘Cajun’”

cultura >> segunda-feira, 04.09.1995


XIX Festa Do “Avante!” Ao Ritmo Do Mississipi
Crocodilos Do “Cajun”


O bicho do “cajun” dos French Alligators mordeu forte na Atalaia. Ficou meio mundo a dançar, com o seu “cocktail” de danças francófonas afogadas nos pântanos do Louisiana. Ainda com mais força bateram os “blues” dos Chicago Blues Explosion!, numa memorável noite de sábado em que a música ascendeu, sanguínea, pela veia do Misssissipi, desde Bâton Rouge até à pátria dos “blues” electrificados.



Estiveram menos pessoas este ano na Festa do “Avante!”. Em parte porque, para muitos, as férias se prolongaram pelo fim-de-semana, em parte devido ao programa ser menos apelativo. Mesmo assim foram muitos os milhares de uma população nómada maioritariamente jovem a percorrerem como formigas o tapete verde da Atalaia (sim, sim, acabou o pó, o vermelho cobriu-se de verde, agora só falta plantarem flores), para ouvir música onde calhasse ou simplesmente derivar ao sabor da curtição.
Com os espectáculos musicais divididos pelo palco principal 25 de Abril e o habitual “auditório” do 1º de Maio, procurar seguir o programa nos dois lados era tarefa impossível. Horários foi coisa que cedo se tornou num conceito subjectivo. Um exemplo, entre muitos: a actuação dos White Horse Ceilidh Band, marcada para as19h30 no “1º de Maio2, teve início já passava das 22h. Enfim, o que se ouviu valeu, na generalidade, o esforço de tentar contrariar o caos.
Sexta-feira, noite calma, deu-se por inteiro à Brigada Victor Jara, na apresentação do seu novo álbum “Danças e Folias”. Concerto competente, de rodagem do novo material, a mostrar algumas hesitações e a promessa, lá mais para a frente, de um futuro glorioso para este novo lote de canções tradicionais recriadas pela banda coimbrã.
Houve “caretos” transmontanos a darem cor e movimento ao início e fim do concerto, convidados dos quais sobressaíram Tomás Pimentel, no trompete, e José Medeiros, cuja vocalização, em “A fofa”, empurrou uma plateia estarrecida para os abismos da alma açoriana, e citações das tradições vizinhas, bretã, galega e irlandesa. Faltou à Brigada a folia prometida, folia que, já a meio da tarde do dia seguinte, sobrou na actuação dos Quinta do Bill, um grupo, como os Sitiados, vocacionado para este tipo de ambientes.
Aguardada com alguma expectativa, a actuação dos canadianos La Bottine Souriante passou ao lado dos grandes momentos da Festa. A hora era de debandada para o jantar, o que significa que a combinação das tradições celtas do Quebeque com as sacudidelas “funky” de um naipe de metais em forma apurada não chegou para manter as pessoas agarradas ao que a “Bota Sorridente” tinha para contar.
No fundo, apenas mais uma oportunidade desperdiçada, pela ausência de um contexto apropriado, de fruir em pleno uma das grandes bandas folk da actualidade, a juntar ao que já acontecera em edições anteriores com os Chieftains e os Boys of the Lough.
Nos bastidores, a ingestão apressada de uma sandes e uma cerveja teve a companhia de algumas notícias chegadas em primeira mão: de Júlio Pereira, que se encontra a gravar um disco de parceria com o acordeonista basco Kepa Junkera; ou de José Medeiros, que em breve lançará a banda sonora, da sua autoria, de O Feiticeiro do Vento, uma série – na linha do que já fizera em Xailes Negros – produzida pela RTP-Açores e a exibir futuramente no continente.
De volta ao “1º de Maio”, a hora era de dança com os White Horse Ceilidh Band, banda irlandesa animadora de bailes que cumpriu aquilo a que já está habituada a fazer, ou seja, pôr os corpos a rodopiar. Uma senhora do grupo fez mesmo algumas demonstrações de passos de dança mais complexos, com a colaboração de jovens voluntários da assistência.
Acabou tudo aos pulos, num baile mandado algo caótico que serviu para mostrar, uma vez mais, que há uma costela irlandesa em cada português. Impávido e sereno, estendido entre a confusão de pernas e pés em movimento, outro jovem, imerso no seu paraíso pessoal, sonhava, alheio a tudo. Alguém, piedoso, rodeou-lhe a cabeça com uma grinalda de latas de Superbock vazias.
Logo a seguir, os French Alligators – com a acordeonista e vocalista Katherine Bersoux, cuja pose foi evoluindo dos esgares “zombie” até à da fada que, de repente, se descobre no prazer da música e levanta voo – conquistaram a pulso um público de início desconfiado e perplexo com o inusitado das valsas e “two steps” sincopadas da música “cajun”, mas que no final se rendeu sem reservas à dolência excitada destes sons que se deixaram adormecer nos “bayous” do Louisiana e foram picados pelo mosquito dos “blues”. Não foi fácil o triunfo dos French Alligators, se se levar em conta que, durante largos minutos da sua actuação, as colunas debitaram ao mesmo tempo a música dos Red Hot Chilli Peppers, que alguém se esquecera de desligar, enquanto lá fora o baixo tonitruante que animava a montanha russa “Dragão”, instalada a 50 metros do auditório, aproveitava cada pausa para se fazer escutar.
Cerca da meia-noite, “round midnight”, hora perfeita para uma entrega ao feitiço dos “blues”, a superbanda Chicago Blues Explosion! Deu início à sua lição de como arrancar ao coração todo o ritmo e emoções que ele pode dar. Foi a festa máxima dentro da Festa! Na euforia dos músicos, perdidos na alegria de se tocarem por dentro a si próprios e à multidão. Na comunicação perfeita de gestos e sentimentos. Sidney James Wingfield, o organista que não se conteve e saltou para fora das notas do seu órgão Hammond, A.C. Reed, 69 anos de energia inesgotável a brotar de um saxofone tenor e, sobretudo, a tempestade eléctrica da guitarra de Cash McCoil, figuras da lenda, fizeram história na Atalaia.
Já perto dos acordes derradeiros ficou a imagem mágica deste último, em transe, tocando por entre as primeiras filas da multidão, lançando na noite as afirmações de orgulho, os queixumes e as gargalhadas da sua guitarra. Uma noite tingida com os reflexos rubros de um Mississipi em chamas e em sangue.