Arquivo da Categoria: Electrónica

Alexander Balanescu – “Angels & Insects”

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996


Alexander Balanescu
Angels & Insects
MUTE, DISTRI. BMG



Longe vão os tempos em que o quarteto do violinista romeno Alexander Balanescu armava ratoeiras aos clássicos do fraque e da borboleta. Para trás, esquecidos, ficaram a aventura em torno da música dos Kraftwerk, em “Possessed”, ou o manifesto político “Luminitza”. “Angels & Insects”, banda sonora do filme de Philip Haas, com o quarteto abraçado, ou a braços, À Luminitza Chamber Orchestra, regressa à formatura e marca pontos em bom comportamento. É o bonitinho, vá lá, o bonito, a sobrepor-se ao risco e à provocação. Provavelmente o realizador não quis. O compositor, no interior do folheto, começa por dizer que fazer música para filmes é fácil, para depois chegar à conclusão final de que afinal é difícil. Após a audição, fica-se no entanto com a ideia de que é fácil. Basta ter aprendido com o mega-sucesso de “O Piano”, de Michael Nyman, com quem, aliás, Alexander Balanescu trabalhou durante vários anos. Ou seja, bonito significa neste caso redondo, romântico e previsível. Para a consagração nos “tops” falta a “Angels & Insects” uma melodia como “The heart ask pleasure first”, de “O Piano”. Terá alguma importância? (6)

Telectu – “Telectu, Cutler, Berrocal”

pop rock >> quarta-feira, 15.11.1995


Telectu
Telectu, Cutler, Berrocal
ED. FÁBRICA DE SONS, DISTRI. MOVIEPLAY



Quem porfia sempre alcança, diz-se, e Jorge Lima Barreto tem porfiado bastante. O mais recente “opus” da dupla Barreto / Rua reúne actuações ao vivo com os convidados Chris Cutler, nas percussões e electrónica, e Jac Berrocal, trompete e electrónica, realizadas o ano passado, no Teatro S. Luiz, em Lisboa; só com Berrocal, no mesmo ano, na Casa de Serralves, no Porto; e com Cutler, há dois anos, no Teatro Gil Vicente, em Coimbra. Os 42 minutos e 13 segundos da “performance” em Lisboa constituem o prato forte da improvisação em quarteto, onde o principal atractivo reside em tentar descortinar onde termina o aleatório e começa o discurso previamente, pelo menos em parte, estruturado. O caos mostra deter as rédeas de comando neste périplo pela cacofonia que substitui os anteriores “mimetismos” da dupla portuense. Há sons estranhos, encadeamentos com a duração de segundos onde os músicos se surpreendem a tocar juntos, instantes de poesia, até de silêncio. É óbvio que tanto Rua como Barreto assimilaram convenientemente algumas das cifras correntes da chamada “new music”. A maior virtude dos Telectu tem sido, desde sempre, a de tirar o máximo partido da limitações próprias. Por fora, este disco tem um néon a piscar “novidade” e “experimentação”. Difícil, a exigir esforços da imaginação, é descortinar nele um sentido mais além, um dizer algo que não se esgote no próprio instante do acto interpretativo. Por ora os Telectu parecem comprazer-se nas delícias do fugaz. Guardamos na memória o bom entendimento de Rua com Cutler no tema do Gil Vicente, e o “tour de force”, de Lima Barreto, nos sintetizadores do terceiro e último acto. O invólucro pictórico leva a assinatura, como de costume, de António Palolo. (7)

Rafael Toral – “Wave Field”

pop rock >> quarta-feira, 15.11.1995


Rafael Toral
Wave Field
ED. E DISTRI. MONEYLAND



“The Wave Field está situado algures numa região longínqua do território ambiental, junto à fronteira de uma área pantanosa onde vibrações abstractas de rocha líquida se dissolvem sob nuvens carregadas de ruído, ecoando alguma irradiação eléctrica”, diz o autor a propósito da sua obra. Nem mais, escrito em inglês e tudo, sem esquecer uma dedicatória (em inglês) a Alvin Lucier e outra, em letras mais pequenas, aos My Bloody Valentine, nem o indispensável aviso (em inglês) aos ouvintes de que “não foram utilizados sintetizadores, mas apenas filtros”. Bom, são três longas composições, sem sintetizador, apenas com filtros, uma do ano passado, as outras deste ano, nas quais Rafael Toral põe a guitarra a ressonar num “continuum” perpétuo. Ao pé dele, a “infinite guitar” de Michael Brook parece uma ejaculação precoce. A bíblia da guitarra demoníaca, “Evening Star”, de Robert Fripp com Brian Eno, continua a ser o ponto de referência. Ouvido com muita atenção e com dez quilos de LSD no bucho consegue-se mesmo descortinar o som de “vibrações de rocha líquida dissolvidas sob nuvens carregadas de ruído, ecoando alguma irradiação eléctrica”. Ou será o ruído do motor do leitor de compactos? (4)