Arquivo da Categoria: Rock

John Hiatt – “Walk On”

pop rock >> quarta-feira >> 31.01.1996


John Hiatt
Walk On
CAPITOL, DISTRI. EMI-VC



Ao fim de 13 álbuns e de temas de sucesso na voz de Rosanne Cash (“The way we make a Broken heart”, do álbum “King’s Record Shop”, 1987, de Rosanne) e de Bonnie Raitt (“Thing called love” do álbum “Nick of Time”, de 1989, de Bonnie), John Hiatt continua à procura de um disco que lhe permita passar de excelente compositor elogiado pela crítica a cantor conhecido do grande público. Infelizmente, mais uma vez, a voz bluesy de Hiatt, a sua preferência pelo som acústico e as letras enfatizando a urgência de partir parecem demasiado subtis para atingir as rádios. É um facto que se trata de um álbum com momentos de folk-rock e country-rock belíssimos, como em “Dust down a country road”, na dylanesca “You must go” ou em “The river knows your name”, que nos faz regressar aos tempos dos Creedence Clearwater Revival. O álbum, parcialmente gravado em Nashville e em LA, não dispensa o piano eléctrico do próprio Hiatt e do ex-Heartbreaker Benmont Tench em temas mais sofisticados como “I can’t wait” ou mais roqueiros como “Shredding the document”. Se fosse radialista, não perdia de vista 2Cry love”, o tema mais comercial. (7)

Paolo Conte – “Una Faccia In Prestito”

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996


PAOLO CONTE
Una Faccia In Prestito (9)
East West, distri. Warner Music

Não Atirem A Nostalgia Para A Sanita



Paolo Conte é um músico e uma personalidade únicos no planeta. A sua figura, misto de macho latino, tuaregue engravatado e António Silva, tanto quanto a sua voz de “crooner” engripado e o seu piano, com a subtileza do mais requintado licor, não engana. Tudo nele é diferente e afastado do que estamos habituados a ouvir e a ser massacrados. Eu habituei-me. Mias, fiquei viciado, dependente, sem cura possível. Desde o dia, já lá vão alguns anos, em que com ele travei conhecimento, através da colectânea “Il Primi Tempi”, fabulosa e, como viria a descobrir mais tarde, a ponta do “iceberg” de uma obra absolutamente ímpar na música popular deste século. A partir daí, fui descobrindo aos poucos a sua discografia, desde os anos 70, com “Paris Milonga”, até à actualidade, por álbuns disponíveis para quem consegue ter calma para parar e ouvir, como “Aguaplano”, “Parole d’Amore Scritte a Macchina”, “900” ou os dois registos ao vivo “Paolo Conte Live” e “Tournée”, para já os que existem com distribuição no mercado nacional.
A música de Paolo Conte tem, primeiro que tudo, poesia, mais aquela faculdade, rara, de evocar estados emocionais e secretos perfumes que guardamos no inconsciente. As suas letras desdobram-se entre o popularucho e o épico, nalguns casos, na mesma canção, fazendo-nos passar por situações cinematográficas ou literárias, mas nem por isso menos reais. É um universo de milongas, rumbas, tangos, foxtrotes, hananeras, “swing” e “dixieland”, o seu. Um universo invadido pelas sombras de uma Hollywood sublimada, a abarrotar de ternura por um cinema ou um teatro vazios onde passam filmes a preto e branco. De um “Western spaghetti”, do neo-realismo poetizado, do “Cinema Paraíso”, de Giuseppe Tarnatore, do tempo em que nos ríamos das piadas pueris de Franco Francchi e Ciccio Ingrassia. Um copo de tinto, a celebrar recordações, mas também uma taça de “champagne” entornada para esquecer na madrugada de uma festa. Uma música trôpega, mas iluminada por fulgores melódicos que ofuscam a razão. Num instante atravessa-se na estrada um acordeão surgido das esquinas da meia-noite. No seguinte preguiça-se a tarde ao som de palavras de espuma sem sentido, numa estância de veraneio. Agora embala-nos uma languidez rouca, sentada ao colo de um piano que ainda hesita em acordar. Logo sobressaltam-nos os metais da “big band” do cine-teatro lá da terra.
Percebe-se que Paolo Conte é um bêbedo – enquanto opção estética, como Tom Waits – e um “gentleman”. Um homem de paixões, em que a altercação de tasca toma as dimensões da tragédia grega. Galã ou facínora? Um poeta, com a visão filtrada por um copo cheio de vida até acima. Esqueça-se Brian Ferry, seu hipotético filho espiritual. Conte é o verdadeiro rei dos “crooner”, das causas perdidas e dos amores sem remédio. Beba-se devagar, de olhos semicerrados e expressão canalha, o primeiro gole. Pode ser “Il miglior sorriso dela mia faccia”. A seguir, bater com a cabeça na sanita e, sobretudo, evitar puxar o autoclismo, em “Don’t throw it in the W. C.”. A tragicomédia à escala de uma retrete. “Não te recordas daquele pedaço de papel azul? / só com algumas notas / apenas em rascunho? / era uma melodia / escrita para ti / não a atires para o W. C. / não deixa de ser uma bonita melodia, hã? / não a atires agora para a água que redemoinha / a minha canção está a navegar, socorro! / não a atires! Não a atires!”
Vá-se até ao fim. A bela adormecida repousa, à espera, na letargia de um sonho de ópio em “L’incaritatrice”. É como olhar para o céu com o olhar toldado. “Una faccia in Prestito”, “um rosto de empréstimo”, não é um disco nostálgico. É a própria nostalgia.

J. A. Deane – “Nomad”

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996


J. A. Deane
Nomad
VICTO, DISTRI. ÁUDEO



Toca trombone, apaixonou-se em tempos pelo calor analógico de um A.R.P. 2600, passou pelo Rova Saxophone Quartet, aprendeu a teatralidade da música com Sam Shepard, acompanhou Ike e Tina Turner, fez parte do grupo “new wave” Indoor Life. Deixou o trombone durante alguns anos, para tocar percussões acústicas e electrónicas com Jon Hassell. John Zorn, Shelley Hirsch, Jim Stanley, Butch Morris e Bill Horvitz fazem parte do lote das suas comparticipações musicais. Apareceu, entre nós, em disco, numa colectânea tripartida da Earational Records, ao lado dos Art Zoyd e Jeff Greinke, em que deixava antever o melhor. “Nomad”, composto para coreografias de Colleen Mulvihill, sintetiza as diversas vertentes e influências assimiladas ao longo dos tempos por este trombonista e manipulador de electrónica que, até certo ponto, se pode equiparar ao trompetista Bem Neill, na medida em que ambos, antes de serem executantes, no sentido clássico do termo, se assumem como conceptualistas e reestruturadores das sonoridades originais dos respectivos instrumentos. “Nomad” ordena e esculpe sequências de sons acústicos samplados (o “ney” de Richard Horowitz, por exemplo), que tanto podem tomar a forma de amplas explanações ambientais (“Wolfrun/Priests”, “Algebao”, “Dark heart”), como submeter-se às programações rítmicas (“Standing wave”) ou ainda divagar pelas regiões menos exploradas de uma “world music” digital (“Liquid time”) ou do minimalismo programático (“Last Supper”). A influência de Steve Reich e do Maciunas Ensemble faz-se sentir nos dez minutos finais de “Thread of life”, composto para a City Contemporary Dance Company de Hong Kong. Um álbum multi-sensorial em que Deane concretiza as suas aspirações em fazer uma música que, mais do que uma experiência linear, constitua um detonador de estados emocionais. “As peças em si não mudam”, diz, “mas as perspectivas sobre elas podem mudar.” (8)