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Vários (XFM | Aníbal Cabrita, Rui Neves, António Sérgio) – “Segundo Aniversário De Transmissões – XFM, Dois Anos Que Prometeram O Futuro” (rádio | dossier))

pop rock >> quarta-feira >> 11.10.1995


Segundo Aniversário De Transmissões
XFM, Dois Anos Que Prometeram O Futuro


A XFM, que hoje faz dois anitos, vai formosa e insegura. Depois do prazo de seis meses dadopelo grupo Lusomundo para viabilizar um projecto que custa quase cinco mil contos mensais, a geração X saiu à rua para, até Dezembro, provar a urg~encia da sua continuidade. A “operação Xarme” surgiu a defender a dama jeitosa e sofisticada: os Tindersticks, na Aula Magna deram o brilho sentimental requerido, que agora continua, em regime de “cabaret” moderno, com as quartas-feiras do Ritz Club. É o coração que apela à resistência, é uma geração de muitas idades que defende o direito à diferença: porque somos vaidosos, porque temos bom-gosto e porque aderimos à causa das novas e alternativas estéticas musicais. A XFM não representa uma cambada de palermas elitistas com gostos esquisitos, a XFM é uma larga quantidade de indivíduos (pelo menos 30 mil), atentos à contemporaneidade, às suas angústias e promessas, sendo a música uma das expressões de um fim de século que caminha a esticões para o terceiro milénio. “Exagerámos no início com as novidades, é preciso construir os nossos próprios sucessos, nãio estar constantemente a passar música nova: não dá tempo para se sedimentarem determinadas tendências que se vão criando”, admite hoje Luís Montez, director da XFM. Era o entusiasmo daquilo que há-de vir, continuando agora com a disciplina e a irreverência, tanto dos DJs jovens como dos mais velhotes. O Pop Rock falou com três dos mais sabidos – Aníbal Cabrita, António Sérgio e Rui Neves -, deixa a programação semanal completa da X à escolha dos leitores e ouvintes, mas só apaga as velas se para o ano houver mais.
Rui Catalão

OPERAÇÃO XARME, RITZ CLUB
DIA 11, COOL HIP NOISE E MIND DA GAP, 22H
DIA 18, KUSSONDULOLA E BOSS AC, 22H
DIA 25, ORQUESTRA DOS ALUNOS DO HOT CLUB COM A PARTICIPAÇÃO DOS DJ’S DA XFM, 22H

Programação
2A A 6A FEIRA
7h – Nuno Galopim, Geração X
10h – Sofia Morais
12h – Nuno Reis
15h – Sílvia Alves
17h – António Sérgio, Grande Delta
20h – Carlos Cardoso, Radar
22h – Aníbal Cabrita, Café Virtual
2A FEIRA
24h – José Carlos Tinoco, Auto-Retrato Sob Transístor Molhado
3A A 6A FEIRA
24h – Ricardo Saló, Crónicas do Quarto Mundo
SÁBADO
10h – Rui Portulez, Fidelidadex
12h – Carlos Cardoso, América, América
14h – Lucinda Sebastião, Triplex
17h – Isilda Sanches, Zoom
20h – Hélder Antunes. Destinos Cruzados
22h – Sofia Morais, X Acto
24h – Nuno Carlos, Independança
DOMINGO
10h – Luís Rei, Terra Pura
12h – Luís Mateus, Global X
14h – Nuno Reis, Raio X
17h – Sílvia Alves, Curva do Rio
19h – Rui Neves – Bluesiana
20h – Aníbal Cabrita, Heterofonias
22h – Ricardo Saló – Labirinto
24h – Rui Neves, Metropolis

Aníbal Cabrita
“Não Quero Abrir Os Olhos A Ninguém”



quem nos últimos anos apanhou no éter programas de Aníbal Cabrita, guardará decerto na memória a ideia de emissões onde a importância do texto era igual ou superior à música. Programas como Contraponto, Café-Concerto ou Noites de Luar, onde o fundamental passava pela criação de ambientes específicos.
Há um quarto de século a ir para o ar, entrou no éter, em 1970, como técnico, na Rádio Universidade. “Fui para a rádio porque gostava de jogar futebol, nessa altura a R.U. tinah uma equipa.” Hoje, na XFM, onde realiza o Café Virtual, de segunda a sexta entre as 22 e a meia-noite, e Heterofonias, uma vez por semana, aos domingos, à mesma hora, Aníbal Cabrita fala menos do que dantes, talvez porque nessa altura, “ao nível dos outros órgãos de comunicação”, fosse “menor o interesse por assuntos algo marginais, intelectuais ou culturais”. “Havia uma grande lacuna”, diz.
Num futuro próximo, pensa regressar ao tipo de emissões que o celebrizaram, já que por enquanto, no seu actual posto de trabalho, “faltam os meios logísticos” para o fazer. “Há uma ou outra pista nesse sentido, como entrevistas”, ou uma espécie de “argumentos”, já utilizados (por exemplo, num programa intitulado “Labirinto), mas entretanto abandonados, devido à tal “falta de meios”. “Será um processo gradual e não sistemático, se a Xis tiver um sopro de crescimento.”
Tem recorrido com frequência nas últimas emissões do seu café à música dos Soul Coughing, Morphine, Bem Harper, Whale ou Tindersticks. A sua preocupação não é a busca desenfreda da novidade. “A datagem não é importante, mas sim o ambiente que se pode criar ao colar diferentes tipos de música.” Ambientes que passam pela sua sensibilidade ou disposição de momento, mas onde, acima de tudo, coloca em jogo o seu maior trunfo: a voz.
“Tento ouvir-me – nem sempre o consigo -, às vezes ouço ‘a posteriori’ coisas gravadas onde noto grandes disparates, como falar muito alto ou utilizar expressões que não devia ter utilizado.” Muita humildade de quem procura, acima de tudo, “ser natural” e que “as coisas se aproximem, sem necessidade de uma linguagem demasiado rebuscada ao microfone”.
Aníbal Cabrita prefere as ondas da noite, em que “há mais silêncio” e maior disponibilidade para ouvir rádio e, ao mesmo tempo, “não é preciso estar aos berros para chamar a atenção”. “Se calhar neste momento muitas pessoas com horários semelhantes e na mesma sintonia que eu.” Pessoas, afinal, “com hábitos e atitudes semelhantes às que a Xis tem” e com as quais Aníbal Cabrita procura estabelecer um tipo de relação diferente da que professava há uns anos: “Se calhar estava convencido de que a rádio era muito importante, fazer discursos altamente teóricos, para abrir os olhos às pessoas. Hoje não quero abrir os olhos a ninguém. Quando muito posso fornecer pistas, fornecer alguma emoção, comunicação, mas sem querer dar lições a ninguém.” Uma “companhia virtual” a justificar a visita nocturna ao seu café.
FERNANDO MAGALHÃES

Rui Neves
“Estou Com O Grande Marx”



Pertence à ala radical da estação. Divulgador de longa data das músicas alternativas, com raízes no jazz e um gosto recente pela “tecno”, Rui Neves estreou-se a fazer rádio em 1966, na Rádio Dundo, em Angola, de onde é natural. Tinha então 18 anos. Mais tarde foi responsável por programas como Abandajazz, Subterrâneos de Veludo, Pedras Rolantes, Blues Index, História do Rock, com Ricardo Camacho, ou Musonautas, com Jorge Lima Barreto.
Na XFM tem a seu cargo a realização de Bluesiana, dedicada em exclusivo aos “blues”, aos domingos, entre as 19 e as 20 horas, e Metrópolis, no ar na noite de domingo para segunda, da meia-noite às duas, e em cujas emissões recentes tem passado gravações do festival de música de Nova Iorque “Bang on a can” (“peido na lata”), nomes como Michael Gordon ou Louis Andriessen, mas também a última sinfonia de Glenn Branca. Há ouvidos disponíveis para este tipo de propostas, para muitos demasiado hermética?
Rui Neves não tem quaisquer espécie de dúvidas. Assumindo uma orientação global da emissora voltada para minorias, bate-se pela sua dama com entusiasmo: “Estou-me a borrifar para o grande público. Cada vez estou mais elitista. Com muito orgulho. Porque isto do elitismo não é nada elitismo. Há pessoas mais inteligentes do que outras, sempre as houve, assim como umas mais estúpidas do que outras. Eu estou com o grande Marx, quando dizia que a ‘luta de classes é para sempre’. A luta de classes, hoje em dia, não é do tipo que nasce mais rico e é patrão ou do que nasce mais pobre e é empregado. A luta de classes é de cabeça, conforme a inteligência de cada um. Há-de haver sempre pessoas mais inteligentes e sensíveis, como grandes burros e idiotas. Nós dirigimo-nos aos mais inteligentes e sensíveis.”
Para Rui Neves, existe “uma clientela nova de ouvintes que só ouvem rádio nos seus automóveis” e que não constam nas sondagens, numa alusão ao número, alegadamente reduzido, que sintoniza a XFM. O autor de Metrópolis sabe quem carrega no botão: “São os estudantes, na média dos 24 anos, até indivíduos na roda dos 30, 40, de classes sociais altas, engenheiros, advogados ou arquitectos…” “Pessoas mais exigentes nos seus gostos”, sintetiza, “que não tinham nada”. É a XFM “a preencher um espaço que não havia cá”. Com união de esforços entre todos os que nela trabalham.
“Somos todos radialistas que, de facto, adoram música.” Toda a gente, sobretudo os veteranos, “estava chateada com as outras rádios, que são uma porcaria incrível”. Cita, como exemplo, “os meandros da RDP”, “kafkianos” e onde tudo são “favoritismos” devidos “à política de um e de outro”. Rui Neves aponta mesmo um dos seus actuais colegas, na XFM a quem, na anterior estação onde trabalhava, teria sido “posta à frente, com o maior desplante, uma proposta de um partido para assinar, e à qual, obviamente, disse que não”.
A resolução dos problemas que actualmente afligem a estação passa, segundo diz, pelo aparecimento de “sponsors” sensibilizados para o tipo de música, sem concessões, que na casa todos fazem questão em defender e divulgar. “Acredito que a qualidade artística também pode ser vendida!” – afirma. “É preciso é sabê-la vender.” A “operação Xarme”, actualmente em curso, é “um aspecto prático disto”.
Hoje, dia em que se celebra o segundo aniversário da XFM, Rui Neves garante que há algo para festejar, mais que não seja o facto de “há mês e meio a XFM ter sido posta em questão e estar quase a fechar, e um mês e meio depois poder ter esperança de que vai continuar”.
F.M.

António Sérgio
“’Speed’ Eterno”



Comparam-no a John Peel, o lendário DJ da rádio britânica responsável pela descoberta e divulgação de tudo ou quase tudo o que de novo apareceu na pop e no rock das últimas três décadas. António Sérgio tem desempenhado um papel semelhante no nosso meio radiofónico. Como Peel, só largará o microfone se ficar mudo, surdo ou, entretanto, a música acabar. Como Peel, sente a r´dio como um “sacerdócio” e a vertigem do som a morrer-lhe nas veias. Sérgio conheceu Peel pessoalmente e considera-o “um homem muito activo, com uma noção de combatividade terrível”. Peel deve ter achado o mesmo de Sérgio.
Quem, entre os mais crescidos, nunca ouviu nem aprendeu a ouvir de modo diferente, nos anos 70, a Rotação da Rádio Renascença? Ou Rolls Rock, já na década 80, na Rádio Comercial, e o seu prolongamento, Som da Frente, que fizeram igualmente História? O Sérgio que abriu as portas ao “punk” em cima da hora em que a explosão deflagrava em Inglaterra é o mesmo Sérgio que não tem pejo em passar dezoito minutos seguidos de Wagner ou em dedicar uma emissão inteira a Stockhausen, e não despega os ouvidos das boas bandas de “heavy metal”.
Critica alguns colegas da sua geração que “encostaram às ‘boxes’”: “A mudança de pneus não correu bem e não voltam à pista!” Isto é algo de estranho para ele, alguém para quem o “mundo da música continua a ser intrinsecamente interessante”, “E picante!”, acrescenta. “Vivo um bocado do ‘new act’, por muito que a gente às vezes saiba e veja e sinta que há aquela busca constante da ‘next big thing’, sobretudo dos ingleses, a originar polémicas ridículas como aquela que opôs os Blur aos Oasis. “Mas admite que a apresentação de nomes novos, para além da recuperação de “coisas boas que foram esquecidas”, é a sua “razão de ser” para estar na rádio.
Para os mais novos da XFM, António Sérgio é encarado quase como um herói. “Cá dentro o Luís Montês costumava chamar-me “o mestre”, diz, com um sorriso nos lábios. Ele tem aquela intuição que o faz, por vezes, apostar, sem qualquer razão aparente, num nome desconhecido. Aconteceu no ano passado com um ‘single’ dos Jacob’s Mouse, que Sérgio trouxe de uma das suas visitas a Inglaterra, apenas pelo “atrevimento” da capa. “Daí a um tempo”, conta, “lá estava o Peel a tocar o mesmo ‘single’”.
A influência de António Sérgio estende-se à própria edição discográfica no nosso país, embora assuma este aspecto com a modéstia de quem faz parte de um colectivo. “A Xis viu várias vezes as editoras andaram positivamente a reboque, um reboque desastrado, do que andávamos a tocar, como aconteceu com os Tricky, em 1994, ou os Portished. Estavam completamente atrasadas em termos de atitude editorial. “Admite, contudo, que nos casos “de perfil mais rock” seja ele a dar o empurrão.
António Sérgio é um dos locutores mais velhos da estação e paradoxalmente, aquele que é escutado por uma faixa de auditores mais jovens. Dentro da XFM, gostaria de transmitir alguma da sua experiência aos companheiros mais novos. Mas admite que, muitas vezes, são estes que lhe dão a conhecer coisas que “nunca ouviu”. “Há, por vezes, uma ciumeira criativa”, reconhece, entre os vários radialistas da estação, mas isso não quebra, de modo algum, a solidariedade e o espírito de frontalidade e colaboração que reinam na XFM. Une-os a necessidade de assegurar a “sobrevivência” da música de qualidade mais difícil e arredada dos “tops”.
Nos últimos tempos, entre as 17h e as 20h, de segunda a sexta, no Grande Delta, o “Peel” português tem divulgado em força os Sleeper, Elastica, Echobelly, Black Rose e o novo de Morrissey, além dos portugueses More República Masónica, Cosmic City Blues e Flood, estes “ainda em DAT”.
António Sérgio não vai parar nos tempos mais próximos, a não ser, como diz, que venha a ter “necessidades espirituais”. A velocidade é algo de vital para si? “Se calhar é! Um ‘speed’ eterno!”, responde com uma gargalhada, enquanto lança pragas ao computador que deu o berro e põe no ar os Young Gods.
F.M.

Art Zoyd – “Aliança Murnau / Art Zoyd Provoca Agitação Na Culturgest – Depósitos De Loucura”

cultura >> segunda-feira, 09.10.1995


Aliança Murnau / Art Zoyd Provoca Agitação Na Culturgest
Depósitos De Loucura


A loucura do vampiro. A loucura de Fausto que vende a alma ao diabo. A loucura de Murnau, ao expor a essência demoníaca do cinema. A loucura musical dos Art Zoyd, ao surripiarem a alma de Murnau. A loucura de João César Monteiro, na tentativa de boicote ao espectáculo. Noite desvairada no Auditório da Caixa Geral de Depósitos.
Sob o ciclo do Apocalipse – Templo da revelação.



A loucura assentou praça no Grande Auditório do Edifício Sede da Caixa Feral de Depósitos, sábado à noite, durante a projecção do “Nosferatu” de Friedrich Murnau, com acompanhamento musical ao vivo do quarteto francês Art Zoyd. Um espectáculo fabuloso, sob vários aspectos, e que não poderia ser mais adequado à temática em questão: o Apocalipse.
Tempo de todas as sínteses, sobreposições e separações. E paradoxos. Tempo da anulação do tempo e, como tal, da História. A música “monstruosa” dos Art Zoyd foi a melhor ilustração e complemento para a grande ilusão (monstruosidade de outra espécie, menos aparente) tecida pelo cinema do mestre do Expressionismo alemão, em “Nosferatu” e “Faust”.
Não foi da mesma opinião o realizador português João César Monteiro. Volvidos escassos minutos após o início da projecção de 2Nosferatu”, o autor de 2ª Comédia de Deus” – cujas semelhanças fisionómicas com o vampiro de Murnau são notórias – invadiu o palco, encetando o seu “show” particular. Com o prémio obtido recentemente em Cannes debaixo do braço, lançou ali mesmo, aos músicos e a uma plateia divertida, um manifesto contra o que considerou um “crime lesa cinema” e que resumiu em três máximas fundamentais: “Já fui enganado!”, “Parem lá com essa merda!” e “Quero a minha maçaroca!”. Enquanto o diabo esfrega um olho, os Art Zoyd tinham conseguido destruir cem séculos de cinema e deitado por terra a respeitabilidade de Murnau… O circo encerrou quando um segurança tirou dali o senhor que ainda esboçou uns socos e pontapés, acabando por deixar abandonado no chão – quiçá num gesto simbólico – o seu prémio tão arduamente conquistado. No intervalo, o vampiro, perdão, o realizador Monteiro voltou a insistir na tese de “lesa cinema”, ao mesmo tempo que definia a música dos Art Zoyd como “chinfrineira”. No ar, deixou um terrível repto: “O cinema há-de voltar!” A César oq eu é de César.

Um “Intermezzo”

Acabou por ser um “intermezzo” saboroso que teve o condão de amenizar um ritual de três horas de emoções fortes. Uma sessão que terá abalado algumas convicções e posto em jogo o papel das imagens e da música, e da sua intersecção, enquanto formas de manipulação, física, mental e emocional. A música dos Art Zoyd, já o havíamos escrito e avisado, pode ser esmagadora. Para alguns até, como se viu, insuportável. Cadinho onde fervem as memórias de Wagner e dos Magma, ou a música industrial dos Laibach e Test Dept., nas sequências de metal percutido, autênticas marchas do Armagedão, capazes de põr os cabelos em pé a muita gente. Havia o perigo de este protagonismo excessivo dos sons prejudicar a concentração nas imagens e impedir a sua respiração ou parasitar o seu ritmo interno. Tal não aconteceu. O cinema de Murnau é suficientemente forte e, da mesma forma que a estética dos Zoyd, aferido por escalas que transcendem as normas vulgares. Combate titânico mas também uma aliança. Inferno contra inferno, mas também poesia potenciada por poesia. Acumulação de excessos até ao paroxismo.
O “Nosferatu” musical dos Art Zoyd é uma entidade autónoma, gravada em disco, peça fundamental da música contemporânea actual. O “Nosferatu” de Murnau, ao contrário do que muitos insistem que seja, não é mera peça de museu mas um raio de luz (e do seu inverso, as trevas) onde vem montado Lucifer, a reinar até ao presente. Juntos, são mais medo, um combate maior, aliança superior, linguagem fértil que se desdobra num outro tipo de brilho, tão ou mais intenso que o original.

O “Pecado” Das Manipulações

A questão em saber se os dois fimes, na origem mudos, ganham ou perdem com a “intrusão” da música é supérflua. Os Art Zoyd, entre outras operações de maior profundidade, assumem afinal a tal manipulação que toda a forma de arte em si encerra a neste final de século se revela como condição intrínseca ao próprio acto criativo. Vide, em música, a importância crescente das técnicas de samplagem, ou, em cinema, o exemplo dado pelo próprio César Monteiro… De resto, o grupo francês teve o cuidado, logo no genérico, de elucidar que se tratava do seu “Nosferatu”, interpretação que inevitavelmente iria provocar transformações – de significado e de percepção – no seu companheiro cinematográfico.
As duas longas composições, mais composta a de “Nosferatu” que a de “Fausto”, remetida a um papel de pontuação, vivem da acumulação e sobreposição de climaxes e distensões. O lado marcial e sinfónico das percussões electrónicas acumula tensões, saturando o lado narrativo das imagens. Por contraste, estas parecem ressuscitar para sentidos inéditos e ainda mais perturbantes, quando a música recua para o sussurro ou para a chuva miúda de uma caixa-de-música, ou ainda quando reinventa cânticos religiosos, uma gaita-de-foles ou sopros virtuais, iluminando lados de sombra, expressões singulares ou alguns momentos de humor que atravessam, sobretudo, o “Fausto” do cineasta alemão. Os Art Zoyd levaram o atrevimento ao ponto de ousar “canções” nos instantes preparatórios em que o sortilégio do preto e branco não lançara ainda a investida. Se é que se pode chamar “canções” aos cânticos guerreiros de Thierry Zaboitzeff, teletransportados do planeta “Kobaia”, de Christian Vander.
Noite de loucura, repetimos, e de revelação. Da grande música dos Art Zoyd. E de algumas carantonhas.

Art Zoyd – “‘Nosferatu’ E Art Zoyd Encontram-se No Apocalipse – Um Vampiro Na Galáxia Zoyd”

cultura >> sábado, 07.10.1995


“Nosferatu” E Art Zoyd Encontram-se No Apocalipse
Um Vampiro Na Galáxia Zoyd


Com os Art Zoyd as separações musicais deixam de fazer sentido. Música rock para eruditos ou música erudita para “rockers”, ninguém consegue aprisioná-la nem a ela ficar indiferente. Adeptos e praticantes de uma arte total, discípulos de Wagner e dos Magma, os Art Zoyd vão ter neste fim-de-semana as imagens de Murnau por companhia.



O espectáculo que hoje e amanhã, pelas 21h30, terá lugar no Grande Auditório da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, inserido na programação da Culturgest, sob o “Ciclo Apocalipse”, é absolutamente a não perder. Anuncia-se o cruzamento das obras expressionistas de Friedrich W. Murnau, “Faust” e “Nosferatu”, com a música ao vivo do quarteto francês Art Zoyd. Síntese a preto e branco do terror e da loucura humana com a visão totalitária e “wagneriana” que preside à estética do grupo e, em particular, da composição “Nosferatu” (o vampiro que traz a peste), assinada por Thierry Zaboitzeff e Gérard Hourbette. Cardíacos, dogmáticos e mentes simples, abstenham-se.
Existirão hoje em dia na Europa poucos grupos conotados com o universo da música rock com a dimensão dos Art Zoyd. Numa época em que o efémero predomina e o sucesso a todo o custo se sobrepõe ao trabalho em profundidade, os Art Zoyd movimentam-se na direcção contrária. Desde 1969, ano da sua formação, que o grupo vem construindo uma obra cujos alicerces mergulham simultaneamente na música europeia – das correntes eruditas deste século às tradições folk mais remotas – e em linguagens contemporâneas que vão do rock ao minimalismo, da electrónica à revisitação, em moldes revolucionários, da música de câmara.
Coincide com a eclosão do movimento “punk” a deflagração das actividades discográficas do grupo, acompanhadas, ao longo da década seguinte, pela participação intensa em festivais de música contemporânea em todo o mundo. Em 1977, em plena confusão desencadeada pelos Sex Pistols, era difícil classificar uma banda cuja música tinha a sua força em motivações estéticas e filosóficas e que ainda por cima não se envergonhava de utilizar em cena violinos e violoncelos. Foi talvez esse o motivo que, na ausência de outros parâmetros, levou, na altura, um crítico alemão a classificar o som dos Art Zoyd como “música de câmara para punks”.
A editora e cooperativa cultural Recommended, de Chris Cutler (Henry Cow, Art Bears, Cassiber, Pere Ubu…) foi a primeira a alertar para a qualidade da obra do grupo e da urgência em conhecê-la. Os Art Zoyd surgem então como impulsionadores de uma corrente musical que, para alguns, prolonga, segundo critérios já totalmente libertos do lastro do psicadelismo e de um “sinfonismo” mal assimilado, a música progressiva da primeira metade dos anos 70. Ao seu lado estão outros grupos, como Univers Zero, Présent, Conventum, Aksak Maboul ou Débile Menthol, determinados em dar um rosto novo e menos empoeirado à nova música nascida no velho continente.
Da obra discográfica dos Art Zoyd, ao todo nove álbuns, todos disponíveis em importação nacional, destacam-se as obras-primas “Symphonie pour le Jour où Brûleront les Cités” (1976, para uma coreografia de Roland Petit), “Génération sans Futur” (1980), “Les Espaces Inquiets” (1983), “Le Marriage du Ciel et de l’Enfer” (1985), “Nosferatu” (1989), o último “Marathonnerre” (1992), em dois volumes que resumem 12 horas de uma ópera multimédia de Serge Noyelle, e, sobretudo “Berlin”, de 1987, alucinação premonitória e apocalíptica sobre o futuro da cidade-mito, cujo muro viria a cair dois anos mais tarde.
Na música dos Art Zoyd acotovelam-se referências musicais e poéticas díspares que vão de Bela Bartok a Frank Zappa, dos Van Der Graaf Generator aos minimalistas americanos, da folk da Europa central a Wagner, de Hoelderlin a William Blake, de Shakespeare a Friedrich Nietzsche. E, no lugar cimeiro do alter, Christian Vander e os Magma, dos quais os Art Zoyd são os legítimos herdeiros.
Os Art Zoyd são Thierry Zaboitzeff (violoncelo, baixo eléctrico, teclados, voz, percussão, electroacústica, misturas), Patricia Dallio (teclados) e Daniel Denis (percussão, teclados). Uma galáxia à parte, nos confins da arte deste século.