cultura >> sexta-feira, 15.12.1995
Brigada Victor Jara Apaga 20 Velas No S. Luiz
Folias Do “Anticriste”
Celebrou-se condignamente o 20º aniversário da Brigada Victor Jara, uma das bandas mais antigas no circuito da música popular portuguesa. Com música do novo álbum, “Danças e Folias”, pauliteiros e dançarinos e uma voz que encheu o S. Luiz. Do convidado Zeca Medeiros, açoriano, verdadeiro “anticriste” em noite de folia.

Duas horas e picos de música, a presença dos mesmos convidados que já haviam colaborado em “Danças e Folias”, figurantes e coreografias pitorescas e uma boa dose de comunicabilidade selaram a apresentação, na capital, da Brigada Victor Jara, quarta-feira á noite, no teatro S. Luiz.
O clima de festa estabeleceu-se logo de entrada com a invasão de pregoeiros que vindos dos esconsos invadiram todos os recantos da sala, pondo em sobressalto uma assistência surpreendida e deliciada com a cacofonia dos vários pregões entoados em simultâneo. “Pregões”, tema do álbum “Contraluz” abriu um espectáculo que evoluiu em crescendo, ao ponto do violinista Manuel Rocha exclamar, já no período de “encores”, que “no final é que apetece ainda mais tocar”.
Como era previsível, as danças, da “mazurca” à “chula de paus”, do “chote” ao “vira velho”, recolheram a fatia mais grossa de aplausos. Pessoalmente, prefiro a maior originalidade e trabalho de fundo da Brigada, no tratamento dado às baladas. Como “Bento airoso”, “Jota carvalhesa”, “Moda da zamburra” ou o clássico “Marião”, do primeiro álbum “Eito Fora”, recentemente reeditado pela Farol. Todas com desempenho vocal de Aurélio Malva, sóbrio e atento às modulações harmónicas. Mas foi outra voz, do convidado Zeca Medeiros (realizador de “Xailes Negros”) que arrasou. O modo como arranca das entranhas e das caves da alma a música, com “M” imenso, é qualquer coisa para contar de geração em geração. Medeiros gesticula, levita e afunda-se, gargalha e chora quando canta. Voz rouca, grave, antiga. Ela e os Açores formam um só. O Tempo (…) Parou.
Manuel Rocha, no violino, Ricardo Dias, no piano e sintetizador, Rui Curto, no acordeão, e Aurélio Malva, no bandolim e gaita-de-foles, solistas do grupo, estiveram à altura do que os pergaminhos da banda exigem, com destaque para o primeiro, nas ornamentações e mudanças de tom da “mazurca”, o segundo mexendo os cordelinhos da harmonia e assinando belos solos na gaita-de-foles e no “tin whistle”. Por falar em gaita-de-foles, a de Aurélio Malva, mal aquecida, desafinou nas primeiras notas. Dando mostras de uma sinceridade e um “savoir-faire” de causar inveja a muitos políticos, Manuel Rocha reconheceu-o de imediato, desdramatizando o contratempo, prontamente remediado por Ricardo Dias. Quanto a Malva superou-se no solo de ponteira – num fraseado de bombarda bretã – em “O mineiro”, onde o protagonismo foi partilhado com outro convidado, Tomás Pimentel, subtil e swingante no fliscórnio.
Os pauliteiros e dançarinos do GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra) animaram temas como “Campanitas de Toledo”, cabendo a Pedro Jóia, outro dos convidados aflorara o flamenco na guitarra, em “Moda da zamburra”. Dos convidados apenas Sónia (Sónia quê?) destoou, em “Mi morena”. Nervosa, não fez esquecer Margarida Mirante, cantora convidada para interpretar o mesmo tema, em “Danças e Folias”. Sónia redimiu-se um pouco, ao voltar a cantar o mesmo tema num “encore”. Manuel Rocha, brincalhão: “não é bem aquela do ‘canta até aprenderes’…”, mas…. O “mas” é nosso. Porém, o problema principal não desapareceu. Um problema que não é só dela mas de muitos vocalistas portugueses. Com medo de entrarem atrasados, entram prematuramente e batem nos tempos fortes, vestindo um colete-de-forças que retira grande margem de manobra às suas possibilidades expressivas (já sem insistir na estafada questão do swing, de modo algum pertença exclusiva do jazz). Algo que denota falta de calo. Zeca Medeiros deu o exemplo de como se deve fazer. Ele sabe que não há nenhum comboio para apanhar e que o compasso é circular. Logo, sempre à mão em cada nova passagem. Trata-se enfim de saber dançar.
Zeca Medeiros voltou, de resto, a impressionar, num dos cinco “encores” que consagraram a noite dos 20 anos da Brigada, transformando uma coisa tão simples como um “pezinho” açoreano num teatro de emoções. Entre a possessão e a ternura, gesticulando e cantando sem microfone diante de uma assistência estarrecida, Zeca Medeiros “mais parece o anticriste” da canção, com as suas barbas hirsutas e o fogo no olhar. Depois a euforia instalou-se quando Luís Garção abandonou os cordofones para tomar as rédeas do poder, comandando um “baile mandado” supersónico e picante q.b. e as palmas de acompanhamento de toda a plateia, nesta altura já literalmente de rastos. “Palminhas acabou, e ninguém se enganou”. A Brigada ultrapassou 20 anos de existência com classe e distinção.














