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Franco Battiato – “Shadow, Light”

pop rock >> quarta-feira >> 06.03.1996


Franco Battiato
Shadow, Light
HEMISPHERE, DISTRI. EMI-VC



Veterano Da música popular italiana, Battiato é o responsável pela introdução da música minimal repetitiva, num contexto pop, no seu país, através de um álbum lançado nos anos 70 pela Island, “Clic”. Nunca mais se ouviu falar dele depois disso até aparecer há alguns anos atrás envolvido com uma cantora de variedades, em “Mondi Lontissimi”, numa operação de pop sofisticado mas sem grande criatividade. “Shadow, Light” assinala o retorno à música séria e às peças conceptuais. Neste caso uma missa composta há dois anos, uma “Messa Arcaica” dividida em seis partes, com títulos em latim, coros gregorianos e um ambiente geral que tanto evoca a liturgia tradicional como a difusão harmónica da música de Gavin Bryars. A completar esta compilação, encontramos uma cançoneta mística e mais algumas divagações de música religiosa, carregadas de instrumentos tradicionais, a fazer jus à inclusão na editora. (6)

Simon Jeffes / Penguin Café Orchestra – “Simon Jeffes, Dos Penguin Café Orchestra, Apresenta Concerto De Amanhã, Em Lisboa – Pinguins À Mesa Com Pitágoras”

cultura >> terça-feira >> 05.03.1996


Simon Jeffes, Dos Penguin Café Orchestra, Apresenta Concerto De Amanhã, Em Lisboa
Pinguins À Mesa Com Pitágoras


Temos pinguins. Temos bica. Temos Gulbenkian. Não temos é uma orquestra de um café de pinguins. Por isso é de aproveitar a segunda vinda a Portugal da banda do “maestro” Simon Jeffes, a Penguin Café Orchestra. No Coliseu dos Recreios, a prometer sabe-se lá o quê. Música mais ou menos clássica, “world” mais ou menos étnica. Os pinguins de fraque também sonham. Um divertimento sério.



É a segunda vez que Simon Jeffes e a sua Penguin Café Orchestra vêm tocar a Portugal. Amanhã, às 22h, no Coliseu dos Recreios em Lisboa. De 1993, data da sua primeira visita, para cá, nada de significativo mudou na atitude e na estética do grupo. Simon Jeffes, com quem o PÚBLICO falou em Londres, continua a defender as mesmas ideias e uma música que teima em não ter número de catálogo. São as intuições. É o prazer, cada vez mais intenso, de tocar em concerto. Razão por que gravaram recentemente um duplo compacto ao vivo, “Concert Program”. Só que, como bons perfeccionistas e excêntricos que são, por via das dúvidas, dispensaram a assistência. Doidos.
PÚBLICO – O que é que podemos esperar de novo nesta segunda visita do grupo a Portugal?
SIMON JEFFES – Fizemos uma derradeira digressão antes de parar para um período de introspecção. Estou a mudar-me de Londres para um lugar bastante mais afastado, Somerset, no Oeste, onde poderei idealizar novas peças para o grupo. Nos últimos tempos não parámos de viajar por todo o mundo. Descobri, nesses espectáculos, uma serenidade na nossa música. Uma serenidade que nasce da própria experiência de tocar. “Concert Program” é isso. Uma gravação ao vivo, embora sem público. Fizemos tudo o que é suposto fazer-se num álbum ao vivo, com uma garrafa de “Jack Daniels” e cervejas à disposição. Mudámos de roupa e tudo. Até ficámos nervosos. Fomos para o auditório do estúdio e demos um concerto.
P. – Quiseram provar alguma coisa?
R. – Bem, quando se ouve um disco de estúdio, há uma compreensão inconsciente da situação com que se lida. Quando gravo uma peça de estúdio, repito a gravação umas dez vezes num só dia. E posso tocar sozinho os instrumentos todos. O que pretendo captar, agora, é a interactividade dos músicos ao vivo, a cada instante. Captar a sensibilidade destes dez músicos a tocarem juntos. Para mim, representa uma obra-de-arte. Uma experiência física, emocional, mental e espiritual.
P. – Essa experiência vai afectar a próxima gravação de estúdio?
R. – Sim. Para já, foi como tocar sem amplificação. Houve muitas lições para aprender. Vai ser como começar tudo de novo, no estúdio, agora que já me interconectei com o mundo. Os meus sonhos encontraram-se com as minhas experiências.
P. – Que espécie de sonhos?
R. – Sonhos sobre o que os Penguin Café representam na sua essência. A vida vivida de uma forma espontânea. Sem planeamentos excessivos.
P. – Dos primeiros álbuns para os mais recentes, algum sentido de humor ficou pelo caminho, não acha?
R. – Talvez. Bem vê, estou com 47 anos. Tinha 24 nessa altura…
P. – Já não aprecia uma boa piada?
R. – Pode crer que sim! Mas já não me preocupo se a música é bem humorada ou não. Faço aquilo que faço e é tudo. Há pessoas com os pontos de vista mais extraordinários sobre a nossa música. Existe, claro, uma ironia…
P. – Mesmo nos aspectos formais da música do grupo, não é verdade?
R. – O truque é ser sério sem ser sério. Sou apaixonadamente sério sobre a minha música mas não gosto de música que seja demasiado séria. Mas também adoro música séria…
P. – Tantos paradoxos. Era essa a atitude, quando gravou o seu álbum com música para bailado?
R. – Bem… Isso foi relativamente sério. Não de uma seriedade absoluta. Não é um disco muito bom. A versão em vídeo não é má… Não é fácil para uma orquestra sinfónica tocar este género de música. São precisos muitos ensaios, numa orquestra com estas dimensões.

“As Imagens Distraem-me”

P. – Há um vídeo do grupo bastante interessante, com pessoas disfarçadas de pinguins…
R. – … Mas o elemento visual desvia as atenções da música. Gosto de ouvir música na rádio mas nunca, nunca mesmo, ouço música na televisão. Não consigo. As imagens distraem-me. Talvez faça sentido, com um “single”… Claro que se alguém viesse ter connosco, propor algo mais experimental, um documentário, por exemplo, aceitaria. Mas como isso custa imenso dinheiro, não posso ter veleidades de pôr em prática esse tipo de experimentalismo.
P. – Vai buscar para a música do grupo muitos elementos da música étnica, sobretudo ritmos…
R. – Costumava ouvir muito esse tipo de música, nos anos 70. Aprendi algumas coisas com ela. Hoje, já não. O que aprendemos já não é tanto sobre culturas mas sobre a própria música. Gosto de pensar em termos rítmicos da mesma maneira que em termos de harmonia. Simples números e justaposições são bastante eficazes. Como um compasso de 3 por 2, que uso bastante.
P. – Quer dizer que aplica a matemática à música?
R. – Num certo sentido, sim. Pode chamar-lhe uma ligação mística e mítica a Pitágoras. Pitágoras via a música, o som, a consonância e a dissonância, em termos de simples proporções numéricas. Algo que descobri ser verdade.
P. – … Sem deixar espaço à intuição?
R. – É intuitivo! O que se pode fazer é chamar a atenção, fazer com que a intuição venha até nós. Se se acredita que a tal proporção do 3 por 2 quer dizer realmente qualquer coisa, isso ajuda a descobrir algo de novo.
P. – Os Penguin Café Orchestra, quer queira quer não, fazem hoje parte do imaginário de muitas bandas folk. “Music for a found harmonium”, do álbum “Broadcasting”, é cada vez mais um “standard” do género…
R. – Já o disse algumas vezes. Quando compus esse tema, em Kioto, no Japão, encontrei o tal “harmonium” abandonado… Hoje o tema foi absorvido pelos músicos irlandeses, escoceses e de outros países, como uma espécie de canção “folk” que serve todos os propósitos. É de facto estranho. Sem querer parecer pretensioso, sinto que, de algum modo, quando escrevi essa peça, me encontrava como que vazio, no meio do ambiente espiritual que me rodeava. Tem uma qualidade universal. Algo que encontrei. Ou que me encontrou… Algo em que sempre acreditei, que toda a minha música provém dessa espécie de … de fonte.
P. – O silêncio?
R. – Certamente o silêncio. E aquilo que nasce do silêncio. Um silêncio fecundo [“a pregnant silence”, perde com a tradução]. [em voz solene e misteriosa]: “a child born from a pregnant silence!”. Terrível!
P. – Depois de muitos álbuns editados na E.G., “Concert Program” saiu no vosso selo particular, Zopf…
R. – A E.G. acabou. Vendeu todo o catálogo à Virgin. Abandonaram o barco. Gostaria de ter permanecido na E.G. para sempre. Era uma boa editora, com gente simpática. Também tínhamos boas relações com a Virgin, mas a Virgin foi, por sua vez, vendida à EMI… Pus-me a imaginar quem é que iria comprara a EMI… [risos].
P. – “Zopf” é o título de uma canção do primeiro álbum, “Music from the Penguin Café”. O que significa?
R. – É uma palavra em alemão engraçada. Significa “cauda de porco”. Parece não querer dizer absolutamente nada. O que é fantástico!

Vários (Jorge Arduth, Nélida & Jorge) – Fantasista Do Teclado Encerra Ciclo Em Lisboa – “Tango Dito!”

cultura >> segunda-feira >> 04.03.1996


Fantasista Do Teclado Encerra Ciclo Em Lisboa
Tango Dito!


Tango, tango. O verdadeiro. À maneira de Jorge Arduth, o “fantasista do teclado”, da sua orquestra e dos seus bailarinos. Músicos da velha guarda. Músicos sábios. Para quem cada tango “es un recuerdo”. Com eles, testemunho vivo do passado, terminou a 3 edição de tangos no Trindade.



Depois do rei, Carlos Gardel, “De Gardel a Gardel”, pela Companhia Tango Session, e de um salto até Piazzolla, com as suas “As Quatro Estações”, por Nestor Marconi e El Borde, “Tango, tango”, pela Companhia de Jorge Arduth, fechou no sábado o ciclo de tango que o Inatel organizou, pelo terceiro ano consecutivo, no Teatro da Trindade, em Lisboa. Grande espectáculo. Grande tango. Grandes músicos. Tudo em grande numa noite que terá feito rolar alguma lágrima marota ao canto do olho a um ou outro espectador mais entradote, recordado dos “amores fatais” da sua juventude.
Jorge Arduth, o “fantasista do teclado”, como é conhecido, ama o tango antigo, sem farpas, num formato clássico que vem defendendo com a sua orquestra – a mais antiga em actividade, na Argentina – desde os anos 40, época áurea do tango. Dois homens no bandoneon, um deles, Samuel Lis, figura de Peter Lorre arrancada do museu de cera de Mme. Tussaud, garantiram o soluço amoroso sobre o qual os dois pares de dançarinos, Martha e Manuel e Nélida e Jorge, desenrolaram as suas coreografias de paixão. Um vendaval, sobretudo Nélida e Jorge, mais raçudos e voadores. Dois violinos foram doçura, surdina a ampara a tempestade. As vozes pertenceram a Rodolfo Ferreyra, ao jovem Luis Roman e a uma castiça Elsa Tettamanti. Dos três, Rodolfo, galã esquecido, quase Valentino – referência mítica do tango recém chegado a Hollywood – arrancou dos pulmões todo o fogo e nostalgia que fazem do tango a música mais sensual e trágica do universo. Cantou com gestos e sentimentos largos. Num dos temas, só, no meio da plateia e sem amplificação. Cesar Corrado fez, por sua vez, chorar o violino, entrando também ele pelo meio da assistência. Uma raiva tocada em silêncio e vertigem, a fazer ranger as cordas do violino e a uma plateia espantada. Num dos lados da sala, encostado a uma parede, não do teatro mas de uma viela mal iluminada e pior afamada dos subúrbios de Buenos Aires ou Montevideu, o bandoneon de Heriberto Olguin dava-lhe razão.
Dançou-se sempre pela noite dentro. Na quietude das recordações, como em “Juventude de 40” – “cada tango es un recuerdo” – ou na sedução dos pares em desfio. Símbolos, ele do emigrante chegado no final do século passado; ela, da pátria argentina. Numa luta pela posse. Da alma e do território.
Gardel, Hector Varela, o “nuevo tango” de Piazzolla, várias épocas do tango, correram para aquele ponto onde o céu se confunde com o precipício e o amor necessita de sangue para ser dito. “El corazón emborrachado”, para melhor “brindar a los fracassos del amor”, na letra de um dos tangos cantados por Elsa Tettamanti.
“La Cumparsita”, o “standard” composto pelo uruguaio Gerárdo Mattos Rodriguez e, já em “encore”, a milonga “Azúcar, pimienta e sal”, finalizaram em apoteose, para uma plateia inteira a aplaudir de pé, uma sessão de tangos que a memória há-de guardar.