Arquivo mensal: Fevereiro 2026

Christy Moore – “Prosperous” + “The Iron Behind The Velvet” + “Live At The Point”

pop rock >> quarta-feira >> 12.07.1995


Christy Moore
Prosperous (7)
The Iron Behind The Velvet (8)
TARA, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO
Live At The Point (6)
GRAPEVINE, DISTRI. ETNIA


Na Irlanda e, em particular em Dublin, de onde é natural, o nome de Christy Moore é uma lenda. A ele pertence uma das vozes mais fortes e interventivas da música tradicional irlandesa actual, em que o timbre intimista e aveludado estabelece um contraste único com a violência das suas convicções políticas, ferozmente republicanas. “Prosperous” (“próspero”, mas também o nome de uma localidade no condado de Kildare, onde o álbum germinou), gravado em 1971 e editado em 1972, é a semente que daria origem, no ano seguinte, a um grupo lendário da “Irish folk”, os Planxty. Neste álbum, encontra-se já a formação que viria a lançar a revolução: Donal Lunny (com quem Moore viria a formar mais tarde os Moving Hearts), Liam Og O’Flynn e Andy Irvine. Moore participaria ainda no álbum seguinte, a obra-prima absoluta do grupo, “Cold Blow and the Rainy Night” e no álbum da ressurreição fugaz, “Words & Music”, de 1982, curiosamente um retorno à fase mais politizada da produção a solo do cantor e o regresso a um tema de Dylan, cujo reportório se encontra representado em “Prosperous” por “Tribute to Woody”, homenagem ao tronco mais antigo e comum ao norte-americano e ao irlandês, Woody Guthrie. “Prosperous” abre com “The raggle taggle gipsies” – que viria a ser repescado na estreia homónima dos Planxty – acoplado a “Tabhair dom do lamh”, presente com título diferente no volume cinco dos Chieftains, um grupo com quem Christy Moore viria a manter um contacto regular ao longo dos anos. Em “Prosperous” as palavras – do próprio Woody Guthrie, em “Ludlow massacre” – brilham mais do que a música, ao contrário do que viria a ser a estética dos Planxty, em que a valorização dos aspectos intrinsecamente musicais se sobrepõe a qualquer mensagem ideológica. Além do citado tema de abertura, apenas “Spancillhill”, uma maravilhosa balada ferida pela distância do mar, “The cliffs of Dooneen” (marcada pelas “uillean pipes de Lyam O’Flynn) e “Ramblin Robin” (marcada pelo bandolim de Andy Irvine) trazem já no ventre o embrião dos Planxty.
“The Iron Behind the Velvet”, bastante mais tradicional que o seu antecessor, reúne, além de vários “trad. Arr.”, composições do próprio Moore (como tema inicial, “Patrick was a gentleman”, emblemático de uma forma característica de contar histórias, que se pode encontrar no extraordinário manifesto desta arte que é “Ordinary Man”), Ian Campbell e Joe Dolan, respectivamente fundadores de dois grupos pioneiros do “Irish folk revival”, Ian Campbell Folk Group e Sweeney’s Men. Com uma formação que inclui Andy Irvine, Gabriel McKeon, Jimmy Faulkner, Noel Hill e Tony Linnane (todos fazendo parte da nata…), “Prosperous” é um complemento indispensável da obra dos Planxty.
Para quem não dispensa esta faceta de contador de histórias, há ainda o álbum ao vivo extraído da digressão britânica do ano passado. Sem rede, apenas com uma guitarra acústica, a língua inglesa e o prazer de dizer o que se tem a dizer de caras para o público. “Sempre que as pessoas se congregam e entregam os seus ouvidos à actuação de um artista, algo de único acontece, seja com uma audi~encia de dezenas, de centenas ou de milhares de pessoas…”, escreve Christy na capa. “Live at the Point”, com as suas anedotas, a clássica “drinking song”, ou mais do que isso, “Delirium tremens”, “(…) Sonhei que estava em êxtase no paraíso e em agonia no inferno…” (incluída em “Ordinary Man”), o tema dos Planxty “Well below the valley” e uma interpretação antológica de um original de Ewan McColl, “Go, move, shift”, constituem sem dúvida um momento a conservar.

Quadrilha – “Quadrilha Lança ‘Até O Diabo Se Ria’ – ANTES DE SE SENTAR NUMA CADEIRA”

pop rock >> quarta-feira >> 12.07.1995


Quadrilha Lança “Até O Diabo Se Ria”
ANTES DE SE SENTAR NUMA CADEIRA



Com “Até o Diabo se Ria”, os Quadrilha subiram mais um degrau na escada de evolução dos grupos que tomam como ponto de partida a música tradicional portuguesa, depois da primeira etapa “Contos de Fragas e Pragas”. “Começámos a substituir algumas coisas. Havia um excesso de sintetizador e de computador. Substituímos tudo o que era acordeão sintético no anterior disco por um acordeão mesmo. Ficaram também mais evidentes as guitarras acústicas e a bateria. Fundamentalmente, teve a ver com a produção. Não caminhamos num sentido purista. Não sabemos onde queremos chegar. Temos influências populares, influências simples, bebemos muito na música portuguesa e, de alguma forma, aparece uma influência celta, sem haver qualquer objectivo de purismo. Não somos candidatos a ser uma banda de música popular propriamente dita”.
“Até o Diabo se Ria” sofre (como se referia na crítica ao disco publicada neste suplemento na seman passada) de uma certa aus~encia de peso e profundidade musicais. “Nesse sentido, a Quadrilha é uma banda que musicalmente não tem um carácter muito aprofundado. Talvez haja mais essa concepção ao nível da letra, é aí que procuro ir buscar a raiz. A minha formação musical não é muito popular, venho de uma escola do rock, do chamado rock de garagem; o gosto pela música popular aparece depois. A concepção popular da música em termos de harmonia e melodia nunca é muito aprofundada; aliás, o próprio recurso ao sintetizador como tentativa de expressar alguns instrumentos, como flautas ou acordeões, já por si revela alguma superficialidade em relação à música popular. Digamos que, por enquanto, não consigo arranjar uma forma de conciliar o gosto de tocar instrumentos tradicionais com uma fórmula que permita passar de um tema tradicional para um tema que dê para tocar num concerto para duas mil pessoas. Ao vivo, acabamos por ter uma postura um bocado rock.”
A influência dos Romanças é compreensível, na medida em que os músicos destes dois grupos tocam frequentemente em conjunto, num bar em São Pedro de Sintra: “Os Romanças têm uma vertente muito mais popular que a nossa. Convidámos para o disco alguns elementos, se calhar inconscientemente, até porque a gravação já foi feita há algum tempo e, nessa altura, havia ainda uma certa distância entre os dois grupos. Mas acabamos, de facto, por beber uma influência ou outra, embora nunca tenha sentido que a Quadrilha andasse na peugada deles”, diz Sebastião Antunes. Já as marcas da música irlandesa em “Até o Diabo se Ria” pedem alguma clarificação: “As influências são difíceis de explicar para quem compõe. Gosto de música irlandesa, tenho muitos discos; independentemente de essa influência ser positiva ou negativa, é natural sermos influenciados por aquilo de que gostamos. Um dia, estou a compor e aquilo sabe-me um pouco a irlandês, da mesma forma que outro tema pode ser influenciadopela Beira Baixa ou pelo Alentejo. É lógico que não quero chamar a isso música alentejana ou música irlandesa.”
Por enquanto, os Quadrilha não têm pretensões a ser “um projecto mais profundo, com mais substância, destinado a um número mais restrito de pessoas” – atitude de humildade de Sebastião Antunes, cuja actividade fora do grupo inclui uma faceta pedagógica, de divulgação da música e dos instrumentos tradicionais portugueses, em colóquios e seminários nos estabelecimentos de ensino. “Isso talvez aconteça”, diz, “quando perder um bocado aquele gosto de contactar de forma directa e mais imediata com o público. Acho que preciso de passar mais alguns anos até gostar de me sentar numa cadeira numa sala e fazer o mesmo que grupos como os Toque de Caixa ou Vai de Roda. As coisas têm que ter uma fase própria e é preciso escoar primeiro uma data de energias… Se calhar, é daí que vem a tal falta de pruridos…”

Alt – “Altitude”

pop rock >> quarta-feira >> 12.07.1995


Alt
Altitude
PARLOPHONE, DISTRI. EMI-VC



Alguma crítica estrangeira espancou esta colecção de canções pop que, a cada momento, fogem da norma e dão a volta aos lugares-comuns. Mas “Altitude” não merece ser tão maltratado. É verdade que falta uma certa coer~encia e que, por vezes, não se percebe muito bem para onde é que os músicos querem ir. O que pode ser ultrapassado se contabilizarmos o sentido de humor que preside ao projecto, previsível, na medida em que um dos elementos da banda é Tim Finn, ex-Crowded House e, ainda antes, ex-Spilt Enz, australianos com sentido nato para a diversão. Por aqui passa a excentricidade que encontramos, embora com percentagem maior de inspiração, em Peter Blegvad ou Kevin Ayers. Roy Harper e Neil Young surgem à vez num tema como “I decided to fly”, a psicadelia é ridicularizada em “Girlfriend guru” e “Mandala”, e as convenções da pop em geral são desmontadas, em melodias que têm algo de familiar mas, ao mesmo tempo, nos escapam por entre os dedos, numa oscilação constante entre a vulgaridade e a invenção. A produção deixa voluntariamente as costuras de fora, reforçando ainda mais um certo ar de “desleixo” (ao ponto de haver um fenomenal desafinaço vocal em “When the Winter comes”) minunciosamente planeado. Pode soar desconfortável mas a verdade é que voltamos à audição mais do que uma vez e uma canção como “Penelope tree” tem dentro de si os germes de um potencial “hit”. (6)