Arquivo da Categoria: New Age

Clannad – “Banba”

pop rock >> quarta-feira >> 26.05.1993

Clannad
Banba
CD RCA, distri. BMG




Brennan & Brennan, Máire e Ciarán, conseguiram finalmente apagar todos os vestígios de música tradicional de uma banda que chegou a gravar, há muitos, muitos anos, um belíssimo disco chamado “Dúlaman”. Agora devem vender que se fartam. Que lhes faça bom proveito. A música, essa, reduziu-se a um pote de mel e a névoas de produção, nas quais o mínimo sobressalto de energia ameaça escaqueirar a estrutura de porcelana irlandesa. A voz de Máire não podia ser mais frágil e etérea, os teclados mais avanescentes. As melodias, desenhadas a lápis número quatro, são fininhas, fininhas, tanto que mal se distinguem. Numa delas julgamos vislumbrar, ao longe, as belezas do passado: “Ca dé sin do’n té sin.” Deve ser do título em gaélico. A flauta e o “tin whistle” são soprados com ordens de nunca ultrapassar o risco, por Frankie Kennedy, dos Altan. Quem não o conhecesse, jamais adivinharia. E é assim: um título apropriado para uma banda na corda bamba que, quase de certeza, já deveria concorrer ao Festival da Eurovisão do próximo ano. (2)

Wim Mertens – “Shot And Echo”

pop rock >> quarta-feira >> 19.05.1993


Wim Mertens
Shot And Echo
CD Les Disques Du Crépuscule, distri. Warner Music, Edisom e Megamúsica



Do mesmo autor de obras que ajudaram a abrir a porta à escola minimalista europeia, como “Vergessen” ou “Maximizing the Audience”, de jardins de melodia “naive”, como “Struggle for Pleasure”, e do radicalismo “pinball machine” de “For Amusement only”, acabou por emergir um suporte estético central que, partindo de uma base barroca, veio a cristalizar-se aos poucos na obsessão por um motivo melódico eternamente recorrente e dissecado até à exaustão. De tanto o escutar, o público decorou-o, reduzindo-o a uma moda, em sucessivas passagens de modelo pela “passerelle”. “Shot and Echo”, que na caixa em edição limitada vem acompanhado por um segundo disco, “A Sense of Place”, simulando o “ensemble” instrumental Soft Veredict, procura sair do labirinto. É visível a busca de soluções tímbricas que rompam o anátema do “agradável” mas estas nem sempre resultam de forma equilibrada. “Silver lining” parte de um diálogo do piano com as deambulações intestinais de uma tuba baixo que progressivamente é contaminado por uma guitarra eléctrica e pela voz, excessivamente onstrutiva, de Katelijne Van Laethem. “Shot one” e “Their duet” são temas bonitos à maneira de Mertens: simples e pianístico o primeiro, salpicado de coros barrocos, por vezes bacocos, o segundo. O resto é o tipo de exercícios de escrita que caracterizam este compositor, nos quais os sons surgem mais da pauta que da alma. Mertens, não obstante as suas “boutades” de místico iluminado, é afinal um matemático. Em casos esporádicos, com asas de anjo.

Vários – “Etnoscopias – ECM” (editora)

fim de semana >> sexta-feira >> 07.05.1993


Etnoscopias


Jan Garbarek é o fio de prumo e o fio condutor das muitas músicas que se espraiam pela ECM. O saxofonista e compositor norueguês perfila-se como um catalisador das propostas não jazzísticas que o selo de Manfred Eicher desde sempre vem apresentando. Não espanta, nesta medida, que lhe tenha cabido a honra de assinar o disco número 500 do catálogo, através de “Twelve Dreams”, por sinal um dos seus piores discos de sempre. Mas festa é festa e há maneiras piores de apagar as velas.
Do “free” que caracterizava as primeiras obras a uma postura contemplativa que em absoluto renega a improvisação, longo e tortuoso tem sido o trajecto de Garbarek no seio da ECM. Se nos congirmos ao território, repleto de armadilhas e decorativismos enganadores, dos sons indirecta ou directamente conotáveis à “world music” (designação que nada diz mas que facilita a arrumação da música que não é rock nem jazz nem provém da Ingalterra ou dos Estados Unidos…), Jan Garbarek lá está, sonoplasta das culturas não ocidentais e não anglo-americanas do mundo.



A perspectiva sob a qual Garbarek aborda as diversas linguagens tradicionais é, no mínimo, curiosa. Não se trata, como no caso dos Oregon, de qualquer tipo de fusão, mas antes do confronto e do diálogo entre códigos diferentes num processo de estimulação mútua. O resultado desta estratégia pode ser apreciado em obras como “Making Music”, com o tocador de tablas inidiano Zakir Hussain, “Song for Everyone”, com o violinista damesma nacionalidade, Shankar, ou, mais recentemente, com o cantor paquistanês Ustad Fateh Ali Khan. A vertente étnica planificada e colorida segundo uma visão cinematográfica. Enredos ancestrais projectados em cinemascope e technicolor.
Mas é na reconversão do folclore do seu próprio país para forma contemporâneas que Jan Garbarek alcançará uma maior coerência estética entre o lirismo do seu saxofone e as raízes tradicionais.
Experiência que o músico aprofundará em “Legendo f the Seven Dreams” e, em estado de graça, na liturgia “Rosensfole”, inteiramente baseada em temas da tradição medieval norueguesa que a cantora Agnes Buen Garnas interpreta à beira do sublime. Em “I Took up the Runes”, na companhia de outra cantora tradicional, Ingor Antte Ailu Galp, é já visível a cedência ao “bonito e agradável” em detrimento do sentido do sagrado. Compromisso com uma fórmula que terá resultado em termos comerciais, mas que no disco 500, “Twelve Moons”, se traduz num festival de lugares-comuns e piscadelas de olho ao gosto dominante, não faltando sequer as vozes, neste caso perfeitamente dispensáveis, de Agnes Buen Garnas e Mari Boine Persen, de “Gula Gula”, editado na Real World.
Felizmente as incursões pelas paisagens musicais exóticas do planeta não se esgotam num glaciar da Noruega. Outros músicos apresentam obra consistente e uma alternativa, sonora e conceptual, ao papado de Garbarek. Entre eles, três nomes se destacam, com discografias plurais na ECM: Shankar, Steve Tibbetts e Stephan Micus, aos quais se poderão acrescentar os de Jon Hassell, em “Power Spot”, e de Egberto Gismonti, em “Kuarup”, inspirado nos sons da Amazónia. Num nicho separado habita, resplandecente, o álbum “Nafas”, de Rabi Abou-Khalil, na companhia dos altos dignatários da corte “etno”, Glen Velez, Selim Kusur e Setrak Sarkissian. Um dos monumentos mais belos alguma vez erigidos à música árabe.



Shankar, o “virtuose” do violino de dois braços, alterna na sua obra o excelente com o péssimo. No cume da montanhya respiram “Who’s to Know” e “Pancha Nadai Pallavi”, fiéis na forma e no estilo ao arquétipo da “raga” indiana. O encontro feliz da Índia com a música pop ocorre em “Nobody Told Me” e “Song for Everyone”. O descalabro ficou reservado para o projecto Epidemics, no qual a pop vestida de “saari” desce ao nível dos filmes indianos que há alguns anos esgotavam as lotações do Odeon.
Sem descidas ao pantanal está a totalidade da obra assinada pelo guitarrista Steve Tibbetts, algures entre o intimismo e misticismo de John McLaughlin do príodo Shakti, o rock de alta tensão e a levitação nas brisas orientais. Se “Yr” e “Big Map Idea” raramente condescendem em sair da beatitude, já “Safe Journey”, “Northern Song” e “Exploded View” são capazes de proporcionar genuínas descargas de adrenalina.
Wuem preferir, pelo contrário, permanecer no nirvana, pelo menos durante o tempo que demora uma audição, tem à sua disposição o incenso, as orações e o altar de Stephan Micus. Na obra deste compositor de ascendência bávara, a música nasce a partir de um profundo acto de interiorização a par do estudo aprofundado dos timbres de instrumentos exóticos recolhidos um pouco por todo o mundo. Desta confluência entre espírito e forma (enquanto “molde”), entre o silêncio e a vibração pura, entre o canto regido pelos cânones tradicionais e a manipulação de objectos sonoros como vasos (“Wings over Water”) ou pedras (“The Musico f Stones”), a arte de Stephan Micus atinge o ponto máximo de depuração no minimalismo zen de “Koan”, nas vagas de cristal de “Ocean” e no sorriso de felicidade que se abre em “To the Evening Child”.
Desperto para a eternidade, alquimista da matéria sonora, asceta vagueando por entre a pluralidade e a voragem consumista do mundo, Stephan Micus devolve-nos a simplicidade e ensina-nos a escutar as águas da fonte.