Arquivo da Categoria: Ao Vivo

Michael Nyman – “Michael Nyman Actua Este Fim-De-Semana No Porto E Em Lisboa – O Homem Que Confundiu O Minimalismo Com Um Piano”

cultura >> sexta-feira, 27.10.1995


Michael Nyman Actua Este Fim-De-Semana No Porto E Em Lisboa
O Homem Que Confundiu O Minimalismo Com Um Piano



MICHAEL NYMAN actua hoje no Coliseu do Porto, às 21h30, e amanhã em Lisboa, no Coliseu dos Recreios, à mesma hora, acompanhado por uma banda de nove elementos. No programa figuram, na primeira parte, temas de “The Draughtman’s Contract”, “A Zed & Two Noughts” e 2Water Dances”, enquanto a segunda será preenchida por música de “O Piano2 e três secções da obra “The Fall of Icarus”.
Nos anos 60 a música era dominada pelos Beatles, enquanto no lado “erudito” mandavam os serialistas, como Boulez a Stockhausen. Micheal Nyman não se sentia à vontade nem num lugar nem no outro. Num intervalo da sua actividade jornalística, a que então se dedicara, decidiu inventar uma música nova e chamou-lhe minimalismo, a propósito de um artigo que escreveu sobre a obra “The Great Learning” de Cornelius Cardew. Pouco tempo depois, em 1974, assina a bíblia sobre o assunto: “Experimental Music – Cage and Beyond”. A música ocidental nunca mais voltou a ser a mesma e a Europa entrou em estado de hipnose.
Claro, foi nos Estados Unidos que o movimento ganhou corpo e alento. LaMonte Young, Steve Reich, Terry Riley e Philip Glass puseram em prática as suas teorias sobre uma música infinita e em eterna mutação que procurava reproduzir os padrões (“patterns”) do tempo e do Cosmos.
Nyman não dava muita importância ao Cosmos. Preferia desafinar e dar gargalhadas em conjunto com os parodiantes da sisudez académica que davam pelos nomes de Scratch Orchestra e Portsmouth Sinfonia. Grupos de música “séria” compostos por executantes de técnica vulgar ou mesmo medíocre. Os Portsmouth deram, aliás, guarida a outro génio, então desconhecido, Brian Eno. Este, por sua vez, quando a oportunidade surgiu, fundou a sua própria editora, a Obscure records, onde viria a ser editado o disco que deu a conhecer em maior escala o nome de Michael Nyman, “Decay Music”.
A partir daí o compositor inglês afastou-se progressivamente da estética minimalista, enveredando por um classicismo assente na sobreposição e saturação de módulos do Barroco, nomeadamente de Mozart (em quem Nyman se inspirou de forma directa, numa composição sua, “In re Don Giovanni”), e onde muitos vêm uma “pastiche” de Henry Purcell.
O encontro com o cineasta Peter Greenaway representou outro ponto de viragem na sua carreira. As bandas-sonoras “The Draughtman’s Contract”, “A Zed and Two Noughts”, “Drowning by Numbers” e “The Cook, the Thief, his Wife & her Lover” e “Prospero’s Books” instituíram o chamado “som Nyman”. Mas foi com a música de “O Piano”, de Jane Champion, que a música deste compositor se democratizou em definitivo e ganhou lugar nas prateleiras dos hipermercados. Nyman é, na sua fase actual, a mais produtiva de sempre, puro “mainstream” e as suas partituras raramente escapam ao estereotipo. O melhor, ou o pior, que se pode dizer hoje da sua música, é que é agradável. Só neste ano já assinou quatro álbuns, o último dos quais, mais uma banda-sonora, “Carrington”. Nyman tornou-se sinónimo de sucesso. O mesmo Nyman que há oito anos compôs uma ópera sobre a história clínica de um homem que confundia a sua mulher com um chapéu. Um “piano” descobriu-lhe, por assim dizer, a careca.

Hinten – “Percussões Asiáticas No Chiado – O Rei Vai Nô”

cultura >> sexta-feira, 20.10.1995


Percussões Asiáticas No Chiado
O Rei Vai Nô


MÚSICA do teatro nô, na primeira parte. Percussões, na segunda. No papel, não parecia mal. O que aconteceu na noite de quarta-feira no Teatro da Trindade, com o grupo asiático Hinten, não esteve à altura das expectativas. À música do teatro nô faltou o teatro nô propriamente dito. Na ausência do gesto e das coreografias rituais, essenciais nesta forma de expressão, os olhos e os ouvidos tiveram de contentar-se com sequências impenetráveis de tambores, uma flauta perdida e uns grunhidos zen que perdem todo o seu sentido fora do seu contexto teatral.
Tudo se perdoaria, não fora uma interminável lenga-lenga, a meio de duas peças de música “hayashi”, onde pela enésima vez nos foi explicada a aliança cultural de séculos que une Portugal ao Japão. Também nos forneceram alguns dados técnicos sobre os tais tambores e pistas para a utilização da imaginação criativa, de maneira a preencher os silêncios da música.
Faltou o mais importante neste cerimonial: a comunicação imediata e intuitiva com os sons. E a precisão rigorosa do gesto musical, demasiado folclórico para poder materializar as geometrias espirituais cruzadas dos dois tambores, um tocado na horizontal, outro na vertical. A segunda parte não foi melhor. Os momentos “diferentes”, foram-no pelo seu lado divertido. A improvisação a dois, tambor contra “tablas” indianas, revelou algum (pouco) virtuosismo e a total ausência de ideias. Mais aparato percussivo envolveu a derradeira peça, nova improvisação, desta vez em trio e com recurso a instrumentação percussiva ocidental.
A pseudo-seriedade da pose sofreu logo de início um duro revés, quando um dos músicos deitou acidentalmente ao chão o gongo que instantes antes manuseara. Metal chocalhado, chinfrim de tachos e panelas e lá se foi a solenidade. Ou seria, pelo contrário, o “satori” programado, o instante de lucidez que de súbito irrompe sem se fazer anunciar?
Seria isso, mas é de desconfiar, sobretudo quando se sabe que, nesta música, como nas artes marciais, a concentração e o domínio do corpo são essenciais para esse estar coincidindo com o real a que toda a manifestação zen almeja. A improvisação, em si, foi fracota. Ritmos primários, sintonia entre os três músicos sofrível, a pose e o exotismo uma vez mais a disfarçarem a ausência de um discurso profundo. Ou jovialmente superficial, se quisermos ainda permanecer arreigados aos referenciais zen…
Parte do público aplaudiu de pé e os Hiten ganharam direito a um “encore”, por detrás de um imenso “bouquet” de flores que escudou uma derradeira sessão de tamboriladas e grunhos arrancados do fundo da alma. A Ásia e em particular o Japão, esses, ficaram mais longe.

Art Zoyd – “Aliança Murnau / Art Zoyd Provoca Agitação Na Culturgest – Depósitos De Loucura”

cultura >> segunda-feira, 09.10.1995


Aliança Murnau / Art Zoyd Provoca Agitação Na Culturgest
Depósitos De Loucura


A loucura do vampiro. A loucura de Fausto que vende a alma ao diabo. A loucura de Murnau, ao expor a essência demoníaca do cinema. A loucura musical dos Art Zoyd, ao surripiarem a alma de Murnau. A loucura de João César Monteiro, na tentativa de boicote ao espectáculo. Noite desvairada no Auditório da Caixa Geral de Depósitos.
Sob o ciclo do Apocalipse – Templo da revelação.



A loucura assentou praça no Grande Auditório do Edifício Sede da Caixa Feral de Depósitos, sábado à noite, durante a projecção do “Nosferatu” de Friedrich Murnau, com acompanhamento musical ao vivo do quarteto francês Art Zoyd. Um espectáculo fabuloso, sob vários aspectos, e que não poderia ser mais adequado à temática em questão: o Apocalipse.
Tempo de todas as sínteses, sobreposições e separações. E paradoxos. Tempo da anulação do tempo e, como tal, da História. A música “monstruosa” dos Art Zoyd foi a melhor ilustração e complemento para a grande ilusão (monstruosidade de outra espécie, menos aparente) tecida pelo cinema do mestre do Expressionismo alemão, em “Nosferatu” e “Faust”.
Não foi da mesma opinião o realizador português João César Monteiro. Volvidos escassos minutos após o início da projecção de 2Nosferatu”, o autor de 2ª Comédia de Deus” – cujas semelhanças fisionómicas com o vampiro de Murnau são notórias – invadiu o palco, encetando o seu “show” particular. Com o prémio obtido recentemente em Cannes debaixo do braço, lançou ali mesmo, aos músicos e a uma plateia divertida, um manifesto contra o que considerou um “crime lesa cinema” e que resumiu em três máximas fundamentais: “Já fui enganado!”, “Parem lá com essa merda!” e “Quero a minha maçaroca!”. Enquanto o diabo esfrega um olho, os Art Zoyd tinham conseguido destruir cem séculos de cinema e deitado por terra a respeitabilidade de Murnau… O circo encerrou quando um segurança tirou dali o senhor que ainda esboçou uns socos e pontapés, acabando por deixar abandonado no chão – quiçá num gesto simbólico – o seu prémio tão arduamente conquistado. No intervalo, o vampiro, perdão, o realizador Monteiro voltou a insistir na tese de “lesa cinema”, ao mesmo tempo que definia a música dos Art Zoyd como “chinfrineira”. No ar, deixou um terrível repto: “O cinema há-de voltar!” A César oq eu é de César.

Um “Intermezzo”

Acabou por ser um “intermezzo” saboroso que teve o condão de amenizar um ritual de três horas de emoções fortes. Uma sessão que terá abalado algumas convicções e posto em jogo o papel das imagens e da música, e da sua intersecção, enquanto formas de manipulação, física, mental e emocional. A música dos Art Zoyd, já o havíamos escrito e avisado, pode ser esmagadora. Para alguns até, como se viu, insuportável. Cadinho onde fervem as memórias de Wagner e dos Magma, ou a música industrial dos Laibach e Test Dept., nas sequências de metal percutido, autênticas marchas do Armagedão, capazes de põr os cabelos em pé a muita gente. Havia o perigo de este protagonismo excessivo dos sons prejudicar a concentração nas imagens e impedir a sua respiração ou parasitar o seu ritmo interno. Tal não aconteceu. O cinema de Murnau é suficientemente forte e, da mesma forma que a estética dos Zoyd, aferido por escalas que transcendem as normas vulgares. Combate titânico mas também uma aliança. Inferno contra inferno, mas também poesia potenciada por poesia. Acumulação de excessos até ao paroxismo.
O “Nosferatu” musical dos Art Zoyd é uma entidade autónoma, gravada em disco, peça fundamental da música contemporânea actual. O “Nosferatu” de Murnau, ao contrário do que muitos insistem que seja, não é mera peça de museu mas um raio de luz (e do seu inverso, as trevas) onde vem montado Lucifer, a reinar até ao presente. Juntos, são mais medo, um combate maior, aliança superior, linguagem fértil que se desdobra num outro tipo de brilho, tão ou mais intenso que o original.

O “Pecado” Das Manipulações

A questão em saber se os dois fimes, na origem mudos, ganham ou perdem com a “intrusão” da música é supérflua. Os Art Zoyd, entre outras operações de maior profundidade, assumem afinal a tal manipulação que toda a forma de arte em si encerra a neste final de século se revela como condição intrínseca ao próprio acto criativo. Vide, em música, a importância crescente das técnicas de samplagem, ou, em cinema, o exemplo dado pelo próprio César Monteiro… De resto, o grupo francês teve o cuidado, logo no genérico, de elucidar que se tratava do seu “Nosferatu”, interpretação que inevitavelmente iria provocar transformações – de significado e de percepção – no seu companheiro cinematográfico.
As duas longas composições, mais composta a de “Nosferatu” que a de “Fausto”, remetida a um papel de pontuação, vivem da acumulação e sobreposição de climaxes e distensões. O lado marcial e sinfónico das percussões electrónicas acumula tensões, saturando o lado narrativo das imagens. Por contraste, estas parecem ressuscitar para sentidos inéditos e ainda mais perturbantes, quando a música recua para o sussurro ou para a chuva miúda de uma caixa-de-música, ou ainda quando reinventa cânticos religiosos, uma gaita-de-foles ou sopros virtuais, iluminando lados de sombra, expressões singulares ou alguns momentos de humor que atravessam, sobretudo, o “Fausto” do cineasta alemão. Os Art Zoyd levaram o atrevimento ao ponto de ousar “canções” nos instantes preparatórios em que o sortilégio do preto e branco não lançara ainda a investida. Se é que se pode chamar “canções” aos cânticos guerreiros de Thierry Zaboitzeff, teletransportados do planeta “Kobaia”, de Christian Vander.
Noite de loucura, repetimos, e de revelação. Da grande música dos Art Zoyd. E de algumas carantonhas.