cultura >> domingo, 26.11.1995
Gaiteiros De Lisboa “Arrasam” CCB
Forçar As Portas Do Céu
REVOLUÇÃO! O grito de guerra foi solto pelos Gaiteiros de Lisboa no pequeno auditório do Centro Cultural de Belém. Sexta e sábado, para uma plateia entusiasta que não regateou aplausos ao agora sexteto formado por Carlos Guerreiro, José Manuel David, Paulo Marinho, Rui Vaz e os novos recrutas José Salgueiro e Pedro Casais. Esqueçam-se as falinhas mansas e os paninhos quentes com que a música portuguesa se vem aconchegando nos últimos tempos, com o beneplácito de uma Europa ávida de folclore terceiro-mundista. Os Gaiteiros são originais. Portugueses até à medula, cidadãos do universo, anarquistas do espírito. Verdadeira e orgulhosamente originais. A sua música mergulha no Passado mais remoto da nossa Tradição e dispara à descoberta do desconhecido. Bastaram doze temas, todos os que compõem “Invasões Bárbaras” – álbum de estreia do grupo – dois repetidos nos “encores” para confirmar ao vivo que a proposta dos Gaiteiros não se parece com nada. No início o grunhido telúrico modulado por José Salgueiro, de um estranho monstro tubular que poderíamos designar por “roncofone”, deu o mote para uma actuação de grande nível.
Os Gaiteiros manipulam o som como alquimistas. Manejam-lhe a matéria, o feitio, a poesia. Usaram instrumentos como a sanfona, o “kissange” e o balafone africanos, flautas várias, trompa, ponteiras, as gaitas-de-foles e tambores, muitos e furiosos tambores, a forçar as portas do céu. José Manuel David, Carlos Guerreiro e José Salgueiro assumiram a maior dose de protagonismo. O primeiro nos sopros (incluindo a trompa, ou “french horn”), na delicadeza de cristal do “kissange”, em “Se eu soubesse que voando”, e no canto; o segundo cantando, percutindo e girando a manivela da sanfona como um verdadeiro guerreiro. Quanto a José Salgueiro é o novo maestro das percussões. Dirigiu as marcações, dramatizou os acentos e as respirações, solou num tambor japonês, caminhou nos trópicos do balafone. Salgueiro deu aos Gaiteiros a disciplina necessária quando, como é o caso, se ensaiam os primeiros passos em palco.
Houve momentos exaltantes na noite de sexta-feira. Entre o terramoto dos bombos espancados em uníssono e as vibrações de terra das gaitas-de-foles destacaria a interpretação, quase sobrenatural, de “La sarandillera”, polifonia de vozes, ao centro do palco, em dança secreta com as flautas de Pã sopradas por quatro dos gaiteiros e o “french horn” de David.
“Talvez que sonhando”, outra prestação de antologia, incluiu uma dedicatória ao autor, Sérgio Godinho, “outro bárbaro”, como lhe chamou Carlos Guerreiro, enquanto “Marcha” e “O menino está na neve” tiveram a participação, no tambor e na voz, de José Mário Branco.
Os Gaiteiros escancararam as portas do Futuro. No jardim de delícias de plástico em que se compraz a música portuguesa com nota alta em bom comportamento, apetece dizer: Bem-vinda seja a barbárie!





