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Rockfellows – “TACO A TACO COM OS ANOS 60” (artigo de fundo)

pop rock >> quarta-feira >> 28.02.1996


TACO A TACO COM OS ANOS 60

Têm todos o ar respeitável de chefes de família e, alguns deles, umas não menos respeitáveis barrigas. A média de idades ronda o meio século, mas tocam com a genica de adolescentes. Não querem gravar discos nem fazer da música profissão. Chegam-lhes os amigos, para quem tocam em festas selecionadas e a quem enviam “mails” a avisar. São os Rockfellas, um quinteto da linha que se dedica exclusivamente a tocar versões de êxitos dos anos 50, 60, sobretudo 60, e 70. Elvis, Cliff Richard, Adamo, Beatles, Doors, nomes que amaram na adolescência e que não foram capazes de largar. As suas versões respeitam, na medida do possível, os originais. Os Rockfellows são por isso uma espécie de museu. Andaram nessa época por bandas da segunda divisão, nos concursos yé-yé do Monumental, e quando passaram por algumas da primeira nem deram por isso. Gozavam o máximo que podiam. Hoje ainda gozam e agarram-se à música como um escape para aliviar as tensões do dia-a-dia. Não há mais nenhum grupo em Portugal como os Rockfellas. Sintonizem, por favor, como eles dizem, na Rádio Nostalgia.

JOSÉ SANTOS FERNANDES




Teclas. Tem 43 anos e é proprietário agrícola em Vendas Novas. Vive em São João do Estoril e foi aí que os Rockfellows se formaram na passagem dos anos 80 para os 90. O grupo nasceu do seu encontro com Michel Monier, da Ala Praia, que na altura tocava no Conjunto Mistério. “Usavam mascarilhas, para os pais não saberem.” Antes, José Fernandes costumava “tocar sozinho” em casa, “navegando na área dos ‘blues’”. O bichinho da música começou a morder com mais força quando ouviu o Tony Jackson Group, na passagem deste grupo inglês por Portugal. É convidado posteriormente para integrar os Bridge. Não entrou porque precisavam de alguém com um órgão Hammond e ele não tinha. Fez “algumas brincadeiras” com os Ephedra, grupo mítico da cena progressiva nacional dos anos 70. Aliás, José Fernandes é o “progressivo” dos Rockfellows. Os seus heróis são os Gentle Giant e toma como modelos, em matéria de teclistas, Keith Emerson, “do tempo dos Nice”, Rick Wakeman (“tenho um órgão igual ao que ele usava, um CX3, da Korg”). Tony Banks, dos Genesis, e Steve Winwood, dos Traffic. “Mais para trás”, menciona Booker T. Jones, Jimmy Smith, Alan Price com Georgie Fame, e Johnny Pearson, “aquele gajo dos Sounds Orchestra”. E o merseybeat em geral, os Searchers, ou os Easybeats, da Austrália. “’Hello, how are you’, ‘Friday on my mind’ e ponto final!” Na música electrónica, Walter Carlos, de “Switched on Bach”, depois Wendy Carlos. Ainda não desistiu de pôr em prática um outro projecto, com “músicas dos King Crimson”, “com grandes ‘mellotrons’ e grandes sons de ‘Moog’”. Mas nessa altura contentava-se em tocar em casa versões dos Santana ou dos Chicago. Nunca tencionou levar a música a sério. Hoje orgulha-se de ter conseguido “samplar” na perfeição o som de flauta de Ian Anderson, dos Jethro Tull e de reproduzir, nota a nota, os acordes de um “mellotron”. “Um dos meus gozos é simular o som de outros instrumentos.” Recorda os tempos de decadência do “progressivo”, por volta de 1975, quando os grandes grupos do género são substituídos por nomes como Chris de Burgh, Gerry Rafferty ou Electric Light Orchestra. “The ‘real thing’ tinha acabado!” Ao pop inglês que surge depois, chama “uma coisa serôdia”. É a partir de 1975 que começa a colecionar a música que ficara mais para trás, The Byrds, Beach Boys, Mamas & Papas, Lovin’ Spoonful e The Monkees, que “não eram tão maus como pareciam”.

MICHEL MONIER



Bateria. Tem 53 anos e é supervisor de cabina da TAP. Fanático de Cliff Richard e dos Shadows, fez parte do Conjunto M e foi um dos membros fundadores do Quarteto 1111. Recorda a origem deste número. “Era o número de telefone da garagem onde ensaiávamos”, no Estoril. Como os restantes elementos dos Rockfellows, nunca pensou em seguir uma carreira profissional. “Para isso teria sido preciso saber ler música à primeira.” Cita Steve Gadd como seu baterista preferido. “Toca tudo, desde o jazz ao rock.” É Michel quem avisa para ouvir a música dos Rockfellows “de uma certa maneira”. “Somos um grupo de garagem, o verdadeiro grupo de garagem. Ensaiamos numa garagem e damos fífias. Faz parte.”

JAIME DOS SANTOS PEREIRA




Baixo e voz. 48 anos, “feitos à dias”. É chefe de vendas e trabalha numa multinacional inglesa. Está ligado ao ramo náutico. Está há quatro anos nos Rockfellows. O seu percurso iniciou-se com a música brasileira. Fez parte de uma escola de samba de Sesimbra, os Trepa no Coqueiro. Andou oito, dez anos a tocar música brasileira. No Xafarix, por exemplo. Insiste em referir o nome de “um grande guitarrista” com quem tocou nessa época, Reinaldo Nunes. Com ele formou um trio, o Saque Trio. Depois, “por razões diversas” foi perdendo o contacto. “Sesimbra cada vez estava mais longe.” “A música tem destas coisas”, explica com a naturalidade de quem nunca se levou demasiado a sério. Daí passou para a amúsica popular portuguesa, integrando grupos desconhecidos, da Moita, “de tipos que faziam a pesquisa do cancioneiro”, como os Off e Sina da Música. Jaime Pereira andou, portanto, “muitos anos afastado da música anglo-americana”, afinal aquela que fora, desde sempre, a sua “raiz”. “Aos 14 anos ouvia os Beatles.” Gota , em particular, dos nomes da pop inglesa mais melodiosos. Beatles, Bee Gees (embora estes sejam australianos), Donovan, Cat Stevens. Durante os anos 60 contentou-se em fazer parte de grupos de bairro, “sem dinheiro nem material para ir a lado nenhum”. Há uma passagem muito rápida pelos Bábulas, “uma experiência que atirava um bocado para o ‘jazz’”. “Queriam que eu fizesse vozes roucas.” A verdade é que hoje tem gosto emm cantar Otis Redding. Os Beatles voltam à baila como “a maior influência”. Mais a influência “marginal”, os Rolling Stones. “Vivia um pouco dividido” entre as duas. “Os Beatles eram o ‘show business’ e os Stones a verdadeira pop inglesa de rua.” Mais tarde, na Força Aérea, viaja até Angola, onde encontra uma banda no regimento AB3, no Norte do território, chamada Os Génios, que, na sua opinião, integrava “um dosmaiores guitarristas contemporâneos, o Carlos Velez, que hoje toca fados”. A primeira bateria de Jaime Pereira custou 400 escudos. “Um bombo, uma tarola e um prato”. Chegou para formar os Full Stop Group, “porque havia o Spencer Davis Group”. Jaco Pastorius, que o seu filho lhe deu a conhecer, é o seu herói actual da guitarra baixo. Mas, lá está, o músico que mais aprecia é Paul McCartney, “em termos de baixista e de compositor”. “Comecei a cantar o ‘My bonnie’, do tempo do Tony Sheridan, dos Beat Boys.” Diziam-me que eu tinha a voz igual à do Tony Sheridan.” Há ainda a “soul” e o rhythm ‘n’ blues a integrar o lote das suas preferências. Otis Redding, Sam & Dave.

ALFREDO LARANJINHA




Guitarra ritmo. 50 anos. Professor de Educação Física e treinador de Ténis da Federação Portuguesa desta modalidade. Os Rockfellows representam “uma parte importante” da sua vida, “um escape espectacular para os ‘stresses’ todos que envolvem as profissões das pessoas”. No seu currículo constam, “a sério”, um dueto com o Luís Pinto de Freitas “que vem do Liceu Francês, a cantar as músicas dos Everly Brothers”. Depois vem Elvis, “muito Elvis”, “a discografia quase toda do Elvis”. E Cliff Richard. 2Tudo até aos Beatles.” É o homem do rock ‘n’ roll, nos Rockfellows. Ou melhor, do rockabilly, “rockabilly puro”. Há uma história desses tempos que conta com prazer. “Deu origem à única música que fiz na minha vida.” “É mesmo uma rebeldia”, garante. “Havia na Nazaré, o sítio onde passava férias, um tipo, o Zeca do Rock. O Zeca do Rock andava com as miúdas todas da Nazaré. Tinha um descapotável e uma garrafa de whisky na alavanca das mudanças. Os borrachos estavam todos do lado dele. Estava um bocado complicado para o meu lado. Ainda por cima ele tinha um rock que era o ‘Rock da Nazaré’, uma coisa assim, ‘Nazaré rock, Nazaré roll” [imita a voz gutural]. É pá, uma noite deu-me um ataque de mau génio e disse de mim para mim que não podia ser. Tinha que dar a volta à situação. Fiz o ‘Twist da Nazaré’, sobre o ‘Let’s twist again’ do Chubby Checker, com uma letra adaptada à Nazaré. Teve um grande sucesso. Na Nazaré, claro. Saía nos altifalantes da praia. Trouxe a raparigada toda para o meu lado.“ Hoje Alfredo Laranjinha confessa o desgosto que sente “em não ser músico”, uma “estrela do rock ‘n’ roll”. Desforra-se projectando-se e acompanhando de perto a carreira de um familiar seu famoso, Rui Veloso, que é seu primo. “É o segundo ‘teddy boy’ da família. Eu fui o primeiro.” Nos Rockfellows canta canções de Elvis Presley, Cliff Richard, Ricky Nelson, mas também “as francesas e italianas”. “Os Chats Sauvages e Johnny Halliday.” E, em Portugal, Vítor Gomes e os Gatos Negros, a quem os Rockfellows ainda há pouco tempo “dedicaram uma música”. Alfredo Laranjinha recorda de súbito uma banda por onde passou, Les Fanatiques: “Um grupo do Liceu Francês com um elemento de cada nacionalidade, um belga, um turco, um marroquino, um português. Penso que o marroquino era o Michel, o cozinheiro.” Participou, como não podia deixar de ser, com Les Fanatiques, nos concursos yé-yé do Monumental e fizeram uma primeira parte dos Gatos Negros, no Teatro Sá da Bandeira, no Porto. Houve ainda os Jotas, “gente de Torres” e Os Camberras. “Nos Jotas tínhamos uma máquina, a ‘Cliff Richard Reverberation’. Uma máquina que reverberava a voz. Dava uns efeitos que faziam com que a minha ficasse idêntica à do Cliff Richard.” Esteve ainda nos Charruas, na Escola Agrícola de Santarém, de onde fez parte o Dany Silva. “Era o nosso viola-baixo.” Mas “o máximo dos máximos” foi mesmo tocar no Conjunto Mistério ao lado do seu companheiro actual nos Rockfellows, Michel Monier.

LUÍS PINTO DE FREITAS




Guitarra solo e voz. “Meio século” de idade. Na vida profissional faz “o mínimo possível”. Está nos Rockfellows há meia dúzia de anos. Como músico, aprendeu a tocar guitarra com Alfredo Laranjinha, “na quarta classe”. Dez anos sem se verem e, mais tarde, o reencontro “na tropa”. “Enquanto toda a gente ia fazer aquelas semanas de campo, nós ensaiávamos a festa do fim da recruta.” Mais dez anos sem se verem e, por fim, os Rockfellows. “O mais curioso é que tocamos sempre as mesmas músicas que aprendemos na quarta classe” [‘E ainda não as sabem!’, grita alguém do lado]. Everly Brothers, Elvis, Little Richard. “Canto umas coisas do Georgie Fame, outras francesas, e Shadows, gosto imenso de tocar Shadows.” “Tudo única e exclusivamente como um divertimento. Mas um divertimento a sério. Não queremos enganar as pessoas.” Luís Freitas participou, claro, num concurso yé-yé, contra outras “cem bandas” concorrentes, distribuídas pelas várias eliminatórias. Um desses concorrentes eram Os Claves, que ganharam o concurso. E os Rocks, de Eduardo Nascimento, do “oiçam, oiçam…”. O solista dos Rockfellows não nutre grande simpatia pelos sons actuais. “Há umas épocas de música sintética, que não diz nada a ninguém, mas depois volta outra vez uma música com mais conteúdo.” A brincar, Luís Pinto de Freitas confessa que ouve apenas a Rádio Nostalgia. “E o meu filho que tem 18 anos e também toca umas coisas.” Não é tanto assim. Afinal, o homem que vibra a tocar e a cantar “Born to be Wild”, dos Steppenwolf, até vê assiduamente a MTV. “E esta coisa do ‘unplugged’”, para si também “um bom sinal” de que se está a voltar “aos instrumentos acústicos” e a “coisas mais naturais”. Luís Pinto de Freitas não consegue ver o futuro, como músico, fora dos Rockfellows. Vai ser tocar até ao fim. “Lembro-me de ver um ‘videoclip’ em que o baterista vinha de cadeira de rodas.”

NASCIDOS PARA SER SELVAGENS




O t Club (clube das tias) recebeu os Rockfellows na noite de quinta para sexta-feira. O início do espectáculo estava marcado para as 23h30, mas foi preciso esperar mais uma hora até os músicos tomarem os seus lugares num dos lados da pista, onde se amontoavam os instrumentos. É sabido que nesta sala, localizada em pleno Espelho de Água, em Belém, o ambiente não costuma ser propriamente esfusiante. Em primeiro lugar, é preciso manter as aparências e só depois, se a ocasião se proporcionar, arriscar dar nas vistas. O ideal é conseguir as duas coisas ao mesmo tempo.
Quando so Rockfellows começaram, a tocar, atirando-se com fúria a “Rock around the clock”, de Bill Halley, era como se toda a gente estivesse mergulhada numa tina de gelo na Gronelândia. Ninguém mexeu um músculo. José Santos Fernandes, teclista do grupo, gesticulava a apelava ao tumulto, mas a verdade é que ninguém pareceu interessado em acompanhar, assim de chofre, o “speed” dos músicos. Os Rockfellows não esmoreceram. As canções mais aceleradas intercalavam com baladas de Cliff Richard, um instrumental dos Shadows ou “House of the rising sun”, dos Animals. Ó tempo, volta para trás. E o tempo ia voltando.
De súbito, quando nada o fazia prever, uma balada fez “clic” num ponto crítico qualquer da assistência. “Ma vie”, de Adamo, expoente máximo nos anos 60 do rock sentimentalão, “má vida”, como foi apresentada na galhofa, atirou toda a gente para a pista, pares bem colados, o “slow” – lembram-se? – um dos momentos mais ansiosamente aguardados pelos frequentadores das “boîtes” (antigamente era assim que se chamava às, hoje, discotecas) nos idos de 70. A partir daí foi o triunfo. Ninguém arredou pé e era ver os velhotes de lágrima ao canto do olho finalmente levados pela máquina do tempo até ao local e à época onde as suas almas ficaram cativas.
Também havia gente mais nova, divertida e convencida com a música dos tios, das tias e dos “pappies”. De entre aquela faixa etária de transição entre a verdura da adolescência e a sabedoria dos 30, destacava-se uma graciosa figura feminina, loura, de vestido negro com gola de rendinhas brancas à minhota, muito justo, vestido ascético, dos que vão evoluindo no sentido ascendente ao ritmo das sacudidelas da perna. Com este género de estímulos visuais a ajudar, a música dos Rockfellows tornou-se tórrida, tresandando a pecado. Estou a exagerar um bocadinho, confesso, mas é porque sem o recurso à imaginação a coisa corria o risco de ficar chata.
“Don’t let me down”, dos Beatles, “Jailhouse rock”, dos Doors, pelos Rockfellows, ou as tornamos perversas ou sabem a espuma a quem seguiu viagem. Os Rockfellows, entre um copo e um dedo de conversa, mais do que um grupo de música “moderna” constituem um repto à imaginação. As suas canções são um inebriamento, um cenário, um quadro vivo do passado, um pretexto para quem quiser reinventar uma época que, sendo a sua, foi, evidentemente, a melhor de todas. Só assim é possível conter o sorriso – pu a lágrima – e ver para além da mera sessão de nostalgia a incarnação de um sonho que teima em não se desfazer. Então olhamos para a figura responsável de Luís Pinto e Freitas, cabelos brancos, patriarcais, agarrado à guitarra a cantar com raiva “Born to be Wild”, dos Steppenwolf, e vislumbramos nessa figura aparentemente recortada de outro livro o verdadeiro rebelde, que recusa submeter-se à espada do destino.

Danças Ocultas – “Danças Ocultas Estreiam AS CONCERTINAS TAMBÉM CHORAM”

pop rock >> quarta-feira >> 21.02.1996
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Danças Ocultas Estreiam
AS CONCERTINAS TAMBÉM CHORAM


Um disco instrumental, ainda por cima só de concertinas, é uma operação arriscada, por mais calculado que seja o risco. Foi isso que fizeram os Danças Ocultas, um grupo de Águeda que, no seu álbum de estreia, decidiu elevar aquele instrumento de fole à categoria de música de câmara.



“danças Ocultas” rejuvenesce um instrumento considerado durante muito tempo parente pobre, remetido para a animação de romarias ou para o peditório do cego. Se Júlio Pereira tirou o cavaquinho e a braguesa do gueto, e Tentúgal e Fernando Meireles fizeram o mesmo com a sanfona, o quarteto de Águeda devolveu a concertina à sua condição de nobre que é capaz de chorar a melancolia de Satie. Artur Fernandes, mentor do projecto, num intervalo das filmagens do vídeo promocional, explicou ao PÚBLICO os segredos do instrumento.
PÚBLICO – Como decorreu a gravação?
ARTUR FERNANDES – No início trazíamos uma forma de execução, um tipo de reportório e uma determinada afinação das concertinas, a tradicional, com as palhetas mais vibrantes. A pedido do Tó Pinheiro da Silva [engenheiro de som e responsável pela sonoplastia], estudámos a possibilidade de ter o som mais afinado, com as palhetas mais próximas. Foi o que fizemos. Não podemos igualmente negar a influência, no modo de trabalhar, do produtor Gabriel Gomes, determinante na feitura dos arranjos. Nos três dias que antecederam a gravação, alterámos alguns aspectos dos temas.
P. – Gravaram ao vivo no estúdio?
R. – Como temos vindo a tocar sempre os quatro desde há seis anos, criou-se entre nós um balanço próprio. O Tó Pinheiro entendeu que isso devia ser aproveitado, essa envolvência, gravando não por pistas mas todos juntos. Claro que deu mais trabalho, sempre que alguém se enganava tínhamos de gravar outro “take”.
P. – A relação com a tecnologia deu-se sem atritos?
R. – Tenho essa relação, mas a outro nível. Estou neste momento a fazer estágio no curso superior de Composição, mantendo uma relação com a música electro-acústica, com sistemas digitais e analógicos. Este trabalho com as concertinas funciona, no entanto, a outro nível.
P. – O tema inicial, “Folia”, constitui uma experiência radical na utilização da concertina…
R. – No acordeão e na concertina existe um botão do ar que liberta o fole sem ser necessário tocar nos botões. No acordeão, este botão serve essencialmente para, no fima da música, fechar o fole. Na concertina ele tem outra função, que é, durante a música, compensar a necessidade de maior ou menor tempo a abrir e a fechar o fole. Havendo esta funcionalidade do movimento do fole, optámos por explorá-lo isoladamente, de maneira a produzir uma sensação de respiração humana.
P. – As pessoas costumam ver na concertina um instrumento folião, extrovertido, mas “Danças Ocultas” é um disco bastante melancólico, poderíamos mesmo dizer de música de câmara…
R. – Exacto. Comecei na música tradicional, a tocar concertina nos grupos folclóricos. Depois fui para o Conservatório e iniciei experiências com a concertina, precisamente na área da música erudita. Verifiquei que o instrumento afinal não era tão limitado assim. O que era necessário era explorar as suas potencialidades. Fui descobrindo então o tipo de trabalho que se faz na música de câmara, com distribuição das vozes pelos instrumentos, o tipo de envolvência, ou a necessidade de tocar com o máximo de conforto. Anatomicamente, há a necessidade de tocarmos sentados, para obtermos um máximo de rendimento em termos de expressão.
P. – O “No8c) turno das 7” traz-nos ecos de uma “gnossienne” de Erik Satie…
R. – Não posso negar. Sobretudo no acompanhamento harmónico e no tipo de ritmo. Mas há no disco todas as influências da música que ouço e estudo, Piazzola (em “Quartetra”), de quem sou grande fã, músicas tradicionais da Europa, menos Stravinsky, Messiaen e Webern, este último pelo culto da forma. Um pouco o que eu tento disciplinar neste projecto e que aprendi com a análise de Webern. Na “moda assim ao lado”, não poso negar a inspiração de um Riccardo Tesi ou de um Kepa Junkera. Mas o nosso som resulta pessoal, em parte devido à afinação diferente que procurámos. Em Portugal, a concertina tem um som estridente. Em Itália ou nos países celtas, trabalha-se um som que os afinadores chamam mais “ligado”. Nós ainda fomos a um extremo maior. Tentámos, nos vários arranjos, explorar a diferença de timbres, nas mãos esquerda e direita, além dos tais movimentos do fole.
P. – Já pensou na possibilidade de desenvolver o instrumento, liga-lo à electrónica, como faz, por exemplo, Valentin Clastrier com a sanfona?
R. – Para já não penso nisso, gosto imenso do som acústico. Sinto mais vibração no corpo assim do que com os sons electrónicos ou electrificados.
P. – Está consciente do risco que é editar em Portugal um disco instrumental, para mais centrado num único instrumento?
R. – O projecto, quando começou, partiu precisamente da tal influência da música de câmara. Sei que, por vezes, as pessoas precisam de seguir, ouvir uma letra, mas, talvez por estudar música, consigo dispensar a voz. Neste aspecto tenho como modelo o “Quinteto do novo Tango”, do Piazzola, onde os instrumentos têm como função imitar as vozes humanas. É um pouco pedagógico tentar ensinar as pessoas a ouvir música e a aperceber-se de que não interessa se uma música é comercial ou não.
P. – Para eventuais interessados, quanto custa uma concertina?
R. – Há concertinas a três e duas vozes. Quer dizer, cada botão dispara três ou quatro palhetas. Com três palhetas, o som é mais potente. A de três vozes é mais cara, custará agora à volta de 200 contos. As italianas, que são as melhores, custam ainda mais.
NOTA: Os Danças Ocultas apresentam o seu disco de estreia num espectáculo a realizar a 16 de Março, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. Por agora, estão a gravar um vídeo de promoção com realização de Tó Forte, um jovem de 27 anos cujo currículo inclui já trabalhos com os Kussondulola, Diva, Sacred Sin, Sérgio Godinho, Mário Laginha e Janita Salomé, além da assinatura em programas para a televisão como o extinto Pop-Off ou, actualmente, o de moda, “86-80-86”.

René Bertholo – “‘Desconserto De Mosika’, Na Assírio & Alvim, Em Lisboa – Músico-Reparadora Mecânica De Bertholo, Lda.”

cultura >> quarta-feira >> 14.02.1996


“Desconserto De Mosika”, Na Assírio & Alvim, Em Lisboa
Músico-Reparadora Mecânica De Bertholo, Lda.

UMA MÁQUINA de fazer música? Obrigado, já temos! Órgão electrónico, piano eléctrico, “Theremin”, “mellotron”, sintetizador, sequenciador, “sampler”… Sim, mas que tal uma máquina de fazer “mosika”? A diferença poderá ser conferida hoje, pelas 22h, na sala de exposições da Livraria Assírio & Alvim, na Rua Passos Manuel, 67-B, em Lisboa, onde o inventor da engenhoca, René Bertholo, dará um “desconserto de mosika”. A ortografia, com “s” em vez de “c”, faz supor um desconstrutivismo qualquer. Bertholo lá nos vai avisando: “Orelhas sensíveis, abstenham-se!”, para logo a seguir se apressar num “talvez não!”.
O som vai “viajar à volta da sala reproduzido por seis altifalantes”. O programa, é “visualizado por 600 luzes vermelhas e verdes”. Vai durar cerca de uma hora.
René Bertholo, pintor neofigurativo com um percurso iniciado nos anos 60 em Paris, onde fundou o grupo “KWY” (“Ká Wamos Yndo”, no gozo), concebeu, desenhou e fabricou a enigmática máquina – “espécie de sintetizador-sequenciador digita programável” – quando, em 1973, um amigo lhe deu a conhecer um artefacto bizarro designado “caixa-de-música”, dessas pequeninas, em forma de cilindro, com picos, um pente metálico e de dar a manivela, que tocam “Au claire de la lune”. Iluminação! Qual capitão Marvel, logo ali os céus desferiram um raio sobre a sua cabeça. Foi nesse momento que Bertholo resolveu construir uma coisa parecida, mas em grande e electrónica.
“A princípio”, diz, “era mais uma máquina que produzia ruídos”. Ainda hoje o pintor duvida de que o que ela produz “seja música”. Por isso optou pelo termo “mosika”. A máquina toca sozinha, funciona com programações de memória electrónicas possui duas unidades melódicas bifónicas (dos sons tocados em simultâneo) e trifónicas (três sons), três unidades de ruído (pássaros, rãs, etc) e dois mini “samplers” (de 16 segundos de memória cada). Há ainda unidades de percussão, filtros de modulação e um controlador de “envelope” (ataque, duração, “decay”) sonoro, como num sintetizador.
A curiosidade desta “máquina de mosika” está precisamente na junção de elementos arcaicos da chamada “música mecânica” (caixas-de-música, realejos, carrilhões, relógios musicais) com a síntese digital do “sampler”. Para o seu inventor possui a vantagem adicional de “tocar coisas diferentes das cassetes e discos” que tem lá em casa.