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Vários (XFM | Aníbal Cabrita, Rui Neves, António Sérgio) – “Segundo Aniversário De Transmissões – XFM, Dois Anos Que Prometeram O Futuro” (rádio | dossier))

pop rock >> quarta-feira >> 11.10.1995


Segundo Aniversário De Transmissões
XFM, Dois Anos Que Prometeram O Futuro


A XFM, que hoje faz dois anitos, vai formosa e insegura. Depois do prazo de seis meses dadopelo grupo Lusomundo para viabilizar um projecto que custa quase cinco mil contos mensais, a geração X saiu à rua para, até Dezembro, provar a urg~encia da sua continuidade. A “operação Xarme” surgiu a defender a dama jeitosa e sofisticada: os Tindersticks, na Aula Magna deram o brilho sentimental requerido, que agora continua, em regime de “cabaret” moderno, com as quartas-feiras do Ritz Club. É o coração que apela à resistência, é uma geração de muitas idades que defende o direito à diferença: porque somos vaidosos, porque temos bom-gosto e porque aderimos à causa das novas e alternativas estéticas musicais. A XFM não representa uma cambada de palermas elitistas com gostos esquisitos, a XFM é uma larga quantidade de indivíduos (pelo menos 30 mil), atentos à contemporaneidade, às suas angústias e promessas, sendo a música uma das expressões de um fim de século que caminha a esticões para o terceiro milénio. “Exagerámos no início com as novidades, é preciso construir os nossos próprios sucessos, nãio estar constantemente a passar música nova: não dá tempo para se sedimentarem determinadas tendências que se vão criando”, admite hoje Luís Montez, director da XFM. Era o entusiasmo daquilo que há-de vir, continuando agora com a disciplina e a irreverência, tanto dos DJs jovens como dos mais velhotes. O Pop Rock falou com três dos mais sabidos – Aníbal Cabrita, António Sérgio e Rui Neves -, deixa a programação semanal completa da X à escolha dos leitores e ouvintes, mas só apaga as velas se para o ano houver mais.
Rui Catalão

OPERAÇÃO XARME, RITZ CLUB
DIA 11, COOL HIP NOISE E MIND DA GAP, 22H
DIA 18, KUSSONDULOLA E BOSS AC, 22H
DIA 25, ORQUESTRA DOS ALUNOS DO HOT CLUB COM A PARTICIPAÇÃO DOS DJ’S DA XFM, 22H

Programação
2A A 6A FEIRA
7h – Nuno Galopim, Geração X
10h – Sofia Morais
12h – Nuno Reis
15h – Sílvia Alves
17h – António Sérgio, Grande Delta
20h – Carlos Cardoso, Radar
22h – Aníbal Cabrita, Café Virtual
2A FEIRA
24h – José Carlos Tinoco, Auto-Retrato Sob Transístor Molhado
3A A 6A FEIRA
24h – Ricardo Saló, Crónicas do Quarto Mundo
SÁBADO
10h – Rui Portulez, Fidelidadex
12h – Carlos Cardoso, América, América
14h – Lucinda Sebastião, Triplex
17h – Isilda Sanches, Zoom
20h – Hélder Antunes. Destinos Cruzados
22h – Sofia Morais, X Acto
24h – Nuno Carlos, Independança
DOMINGO
10h – Luís Rei, Terra Pura
12h – Luís Mateus, Global X
14h – Nuno Reis, Raio X
17h – Sílvia Alves, Curva do Rio
19h – Rui Neves – Bluesiana
20h – Aníbal Cabrita, Heterofonias
22h – Ricardo Saló – Labirinto
24h – Rui Neves, Metropolis

Aníbal Cabrita
“Não Quero Abrir Os Olhos A Ninguém”



quem nos últimos anos apanhou no éter programas de Aníbal Cabrita, guardará decerto na memória a ideia de emissões onde a importância do texto era igual ou superior à música. Programas como Contraponto, Café-Concerto ou Noites de Luar, onde o fundamental passava pela criação de ambientes específicos.
Há um quarto de século a ir para o ar, entrou no éter, em 1970, como técnico, na Rádio Universidade. “Fui para a rádio porque gostava de jogar futebol, nessa altura a R.U. tinah uma equipa.” Hoje, na XFM, onde realiza o Café Virtual, de segunda a sexta entre as 22 e a meia-noite, e Heterofonias, uma vez por semana, aos domingos, à mesma hora, Aníbal Cabrita fala menos do que dantes, talvez porque nessa altura, “ao nível dos outros órgãos de comunicação”, fosse “menor o interesse por assuntos algo marginais, intelectuais ou culturais”. “Havia uma grande lacuna”, diz.
Num futuro próximo, pensa regressar ao tipo de emissões que o celebrizaram, já que por enquanto, no seu actual posto de trabalho, “faltam os meios logísticos” para o fazer. “Há uma ou outra pista nesse sentido, como entrevistas”, ou uma espécie de “argumentos”, já utilizados (por exemplo, num programa intitulado “Labirinto), mas entretanto abandonados, devido à tal “falta de meios”. “Será um processo gradual e não sistemático, se a Xis tiver um sopro de crescimento.”
Tem recorrido com frequência nas últimas emissões do seu café à música dos Soul Coughing, Morphine, Bem Harper, Whale ou Tindersticks. A sua preocupação não é a busca desenfreda da novidade. “A datagem não é importante, mas sim o ambiente que se pode criar ao colar diferentes tipos de música.” Ambientes que passam pela sua sensibilidade ou disposição de momento, mas onde, acima de tudo, coloca em jogo o seu maior trunfo: a voz.
“Tento ouvir-me – nem sempre o consigo -, às vezes ouço ‘a posteriori’ coisas gravadas onde noto grandes disparates, como falar muito alto ou utilizar expressões que não devia ter utilizado.” Muita humildade de quem procura, acima de tudo, “ser natural” e que “as coisas se aproximem, sem necessidade de uma linguagem demasiado rebuscada ao microfone”.
Aníbal Cabrita prefere as ondas da noite, em que “há mais silêncio” e maior disponibilidade para ouvir rádio e, ao mesmo tempo, “não é preciso estar aos berros para chamar a atenção”. “Se calhar neste momento muitas pessoas com horários semelhantes e na mesma sintonia que eu.” Pessoas, afinal, “com hábitos e atitudes semelhantes às que a Xis tem” e com as quais Aníbal Cabrita procura estabelecer um tipo de relação diferente da que professava há uns anos: “Se calhar estava convencido de que a rádio era muito importante, fazer discursos altamente teóricos, para abrir os olhos às pessoas. Hoje não quero abrir os olhos a ninguém. Quando muito posso fornecer pistas, fornecer alguma emoção, comunicação, mas sem querer dar lições a ninguém.” Uma “companhia virtual” a justificar a visita nocturna ao seu café.
FERNANDO MAGALHÃES

Rui Neves
“Estou Com O Grande Marx”



Pertence à ala radical da estação. Divulgador de longa data das músicas alternativas, com raízes no jazz e um gosto recente pela “tecno”, Rui Neves estreou-se a fazer rádio em 1966, na Rádio Dundo, em Angola, de onde é natural. Tinha então 18 anos. Mais tarde foi responsável por programas como Abandajazz, Subterrâneos de Veludo, Pedras Rolantes, Blues Index, História do Rock, com Ricardo Camacho, ou Musonautas, com Jorge Lima Barreto.
Na XFM tem a seu cargo a realização de Bluesiana, dedicada em exclusivo aos “blues”, aos domingos, entre as 19 e as 20 horas, e Metrópolis, no ar na noite de domingo para segunda, da meia-noite às duas, e em cujas emissões recentes tem passado gravações do festival de música de Nova Iorque “Bang on a can” (“peido na lata”), nomes como Michael Gordon ou Louis Andriessen, mas também a última sinfonia de Glenn Branca. Há ouvidos disponíveis para este tipo de propostas, para muitos demasiado hermética?
Rui Neves não tem quaisquer espécie de dúvidas. Assumindo uma orientação global da emissora voltada para minorias, bate-se pela sua dama com entusiasmo: “Estou-me a borrifar para o grande público. Cada vez estou mais elitista. Com muito orgulho. Porque isto do elitismo não é nada elitismo. Há pessoas mais inteligentes do que outras, sempre as houve, assim como umas mais estúpidas do que outras. Eu estou com o grande Marx, quando dizia que a ‘luta de classes é para sempre’. A luta de classes, hoje em dia, não é do tipo que nasce mais rico e é patrão ou do que nasce mais pobre e é empregado. A luta de classes é de cabeça, conforme a inteligência de cada um. Há-de haver sempre pessoas mais inteligentes e sensíveis, como grandes burros e idiotas. Nós dirigimo-nos aos mais inteligentes e sensíveis.”
Para Rui Neves, existe “uma clientela nova de ouvintes que só ouvem rádio nos seus automóveis” e que não constam nas sondagens, numa alusão ao número, alegadamente reduzido, que sintoniza a XFM. O autor de Metrópolis sabe quem carrega no botão: “São os estudantes, na média dos 24 anos, até indivíduos na roda dos 30, 40, de classes sociais altas, engenheiros, advogados ou arquitectos…” “Pessoas mais exigentes nos seus gostos”, sintetiza, “que não tinham nada”. É a XFM “a preencher um espaço que não havia cá”. Com união de esforços entre todos os que nela trabalham.
“Somos todos radialistas que, de facto, adoram música.” Toda a gente, sobretudo os veteranos, “estava chateada com as outras rádios, que são uma porcaria incrível”. Cita, como exemplo, “os meandros da RDP”, “kafkianos” e onde tudo são “favoritismos” devidos “à política de um e de outro”. Rui Neves aponta mesmo um dos seus actuais colegas, na XFM a quem, na anterior estação onde trabalhava, teria sido “posta à frente, com o maior desplante, uma proposta de um partido para assinar, e à qual, obviamente, disse que não”.
A resolução dos problemas que actualmente afligem a estação passa, segundo diz, pelo aparecimento de “sponsors” sensibilizados para o tipo de música, sem concessões, que na casa todos fazem questão em defender e divulgar. “Acredito que a qualidade artística também pode ser vendida!” – afirma. “É preciso é sabê-la vender.” A “operação Xarme”, actualmente em curso, é “um aspecto prático disto”.
Hoje, dia em que se celebra o segundo aniversário da XFM, Rui Neves garante que há algo para festejar, mais que não seja o facto de “há mês e meio a XFM ter sido posta em questão e estar quase a fechar, e um mês e meio depois poder ter esperança de que vai continuar”.
F.M.

António Sérgio
“’Speed’ Eterno”



Comparam-no a John Peel, o lendário DJ da rádio britânica responsável pela descoberta e divulgação de tudo ou quase tudo o que de novo apareceu na pop e no rock das últimas três décadas. António Sérgio tem desempenhado um papel semelhante no nosso meio radiofónico. Como Peel, só largará o microfone se ficar mudo, surdo ou, entretanto, a música acabar. Como Peel, sente a r´dio como um “sacerdócio” e a vertigem do som a morrer-lhe nas veias. Sérgio conheceu Peel pessoalmente e considera-o “um homem muito activo, com uma noção de combatividade terrível”. Peel deve ter achado o mesmo de Sérgio.
Quem, entre os mais crescidos, nunca ouviu nem aprendeu a ouvir de modo diferente, nos anos 70, a Rotação da Rádio Renascença? Ou Rolls Rock, já na década 80, na Rádio Comercial, e o seu prolongamento, Som da Frente, que fizeram igualmente História? O Sérgio que abriu as portas ao “punk” em cima da hora em que a explosão deflagrava em Inglaterra é o mesmo Sérgio que não tem pejo em passar dezoito minutos seguidos de Wagner ou em dedicar uma emissão inteira a Stockhausen, e não despega os ouvidos das boas bandas de “heavy metal”.
Critica alguns colegas da sua geração que “encostaram às ‘boxes’”: “A mudança de pneus não correu bem e não voltam à pista!” Isto é algo de estranho para ele, alguém para quem o “mundo da música continua a ser intrinsecamente interessante”, “E picante!”, acrescenta. “Vivo um bocado do ‘new act’, por muito que a gente às vezes saiba e veja e sinta que há aquela busca constante da ‘next big thing’, sobretudo dos ingleses, a originar polémicas ridículas como aquela que opôs os Blur aos Oasis. “Mas admite que a apresentação de nomes novos, para além da recuperação de “coisas boas que foram esquecidas”, é a sua “razão de ser” para estar na rádio.
Para os mais novos da XFM, António Sérgio é encarado quase como um herói. “Cá dentro o Luís Montês costumava chamar-me “o mestre”, diz, com um sorriso nos lábios. Ele tem aquela intuição que o faz, por vezes, apostar, sem qualquer razão aparente, num nome desconhecido. Aconteceu no ano passado com um ‘single’ dos Jacob’s Mouse, que Sérgio trouxe de uma das suas visitas a Inglaterra, apenas pelo “atrevimento” da capa. “Daí a um tempo”, conta, “lá estava o Peel a tocar o mesmo ‘single’”.
A influência de António Sérgio estende-se à própria edição discográfica no nosso país, embora assuma este aspecto com a modéstia de quem faz parte de um colectivo. “A Xis viu várias vezes as editoras andaram positivamente a reboque, um reboque desastrado, do que andávamos a tocar, como aconteceu com os Tricky, em 1994, ou os Portished. Estavam completamente atrasadas em termos de atitude editorial. “Admite, contudo, que nos casos “de perfil mais rock” seja ele a dar o empurrão.
António Sérgio é um dos locutores mais velhos da estação e paradoxalmente, aquele que é escutado por uma faixa de auditores mais jovens. Dentro da XFM, gostaria de transmitir alguma da sua experiência aos companheiros mais novos. Mas admite que, muitas vezes, são estes que lhe dão a conhecer coisas que “nunca ouviu”. “Há, por vezes, uma ciumeira criativa”, reconhece, entre os vários radialistas da estação, mas isso não quebra, de modo algum, a solidariedade e o espírito de frontalidade e colaboração que reinam na XFM. Une-os a necessidade de assegurar a “sobrevivência” da música de qualidade mais difícil e arredada dos “tops”.
Nos últimos tempos, entre as 17h e as 20h, de segunda a sexta, no Grande Delta, o “Peel” português tem divulgado em força os Sleeper, Elastica, Echobelly, Black Rose e o novo de Morrissey, além dos portugueses More República Masónica, Cosmic City Blues e Flood, estes “ainda em DAT”.
António Sérgio não vai parar nos tempos mais próximos, a não ser, como diz, que venha a ter “necessidades espirituais”. A velocidade é algo de vital para si? “Se calhar é! Um ‘speed’ eterno!”, responde com uma gargalhada, enquanto lança pragas ao computador que deu o berro e põe no ar os Young Gods.
F.M.

UHF – “Os Melhores De Sempre” (dossier | editado em livro)

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995
OS MELHORES DE SEMPRE


MÚSICA PORTUGUESA

Esta selecção dos melhores álbuns de sempre da música produzida em Portugal até aos anos 90, resulta de uma votação feita pela equipa do suplemento Pop/Rock. São privilegiados os trabalhos concebidos sob a forma de álbum, mas também sendo aceites compilações e mini-álbuns quando estes forem os melhores ou únicas edições dos respectivos autores. A ordem de publicação é aleatória.

UHF À Flor Da Pele



Como Foi

GNR, CTT, NZZN, UHF. Não se sabe bem por que estranho fenómeno (para António Manuel Ribeiro tratar-se-ia de uma “maneirismo do pós-25 de Abril2), parte das bandas de rock português que emergiram no início dos anos 80 adoptaram siglas como designação. Apenas a primeira e a última sobreviveram. Muito por força de duas personalidades dominantes do a partir de então denominado “rock português”: Rui Reininho e António Manuel Ribeiro, ambos apostadores natos na importância das palavras. No som das palavras, Reininho. Na sua carga existencial, Ribeiro. “À Flor da Pele”, disco de estreia da banda almadense, vive em grande parte dos textos empenhados de AMR, cantor por força de uma necessidade interior e da circunstância de ter nascido onde nasceu. No estúdio foi difícil. AMR acha apenas que foi “curioso”: “O início da gravação coincidiu com a altura em que a Valentim começou a transformar os seus estúdios. Então, a meio das gravações, era completamente impossível cantar. Na altura em que comecei a meter as vozes, de noite, ou de manhã, tinham lá estado os pedreiros a partir paredes e o estuque pairava no ar. Começava a tossir e não conseguia cantar. Houve ali uns dias em que tivemos que parar”. Foram ainda as circunstâncias que obrigaram o vocalista a desempenhar as funções de guitarrista. “Comecei a tocar guitarra solo, uma coisa para a qual não estava sequer vocacionado. Tudo porque o Renato Gomes estava a fazer o SMO [N.A: Ainda a mania das siglas. Para os menos conhecedores, SMO significa ‘Serviço Militar Obrigatório’] que na altura durava dezoito meses. Dezoito meses duros, sobretudo os primeiros quinze dias, da chamada recruta. Ninguém podia sair do quartel. Houve uma altura em que o Renato não podia estar em estúdio. Aliás há uma canção, ‘Rola roleta’, em que ele pura e simplesmente não toca”.
Descontando as dificuldades causadas pelo estuque e pela tropa, problemas que hoje AMR considera “giros” (“habituámo-nos àquilo tudo!”), o clima de trabalho que se gerou foi, segundo diz, “fabuloso”. “Sobretudo”, diz, “porque tivemos a ajuda de uma pessoa importante, o Hugo [Hugo Ribeiro, técnico de som], para mim um dos mestres de som deste país. Era o técnico da Amália e foi ele que nos foi destinado. Percebeu perfeitamente que nós, músicos, éramos demasiado ingénuos em algumas coisas e ajudou-nos bastante. No meio disto tudo havia ainda a mão patronal de Francisco Vasconcelos que nos deixou fazer tudo o que quisemos”. Tamanhas facilidades não era costume serem dadas às bandas que pela primeira vez entravam em estúdio, o que levou a que muitas delas, as quais, diga-se de passagem, nem sequer lá deveriam ter entrado, fossem trucidadas no processo. Enquanto algumas gravavam um álbum em dois ou três dias, os UHF estiveram lá dentro perto de três meses. “Era um ‘modus operandi’ esquisito”, reconhece o líder do grupo, “banda que entrasse em estúdio gravava quatro canções para dois ‘singles’, o primeiro saía logo e o outro muitas vezes só seis meses depois, já a banda estava desfasada”. Tal não aconteceu com os UHF, talvez porque esse fenómeno tenha acontecido “somente depois do sucesso do ‘Cavalos de corrida’ e do ‘Chico fininho’, ou ainda dos Táxi, que reconfirmam todo este sucesso de uma música nova feita em Portugal. A partir daí é que é a bagunça total”.
A banda de Almada ultrapassou essa bagunça. Desde logo transformados em estrelas do rock’n’roll, o seu estilo de vida adaptou-se ao novo estatuto. “Na altura foi um bocado ofuscante. Quando se passa de concertos em clubes pequeninos, em Almada, para trinta pessoas, para audiências de milhares, é outra dimensão, é quase passar para o infinito. E depois são as vendas. Sem querer fazer uma leitura pelo lado negativo, o que começa a criar alguns problemas é o dinheiro que se passa a ganhar. De repente, começámos a ser solicitados para todo o tipo de actuações. Em 1981 demos qualquer coisa como 140 espectáculos, algo que hoje ninguém mais fez em Portugal”. Os UHF precaveram-se bem cedo contra este tipo de pressões, assegurando para os seus espectáculos uma qualidade de som à altura, criando para tal a sua própria empresa de som, Furacão. “Garantimos a nossa autonomia, sem dependermos de ninguém. Até 1979, a980, tínhamos tido muito más experiências com o som de estrada”. O resto do dinheiro serviu para fins menos utilitários: “Passámos da imperial para o whisky duplo de doze anos!”. Quanto à imagem de estrela, não tiveram vontade nem tempo para a cultivar. “Não tínhamos muito tempo para a pose, até porque não havia este culto que hoje existe. Os UHF nunca foram, a esse nível, muito ofuscados nem pelo estrelato nem pela pose, ter que estar todo o dia vestido assim, ou maquilhar-se e pentear-se para as fotografias”.
Estava, ,ais preocupados em ferir a realidade que os rodeava. Em particular do “ambiente citadino de Almada nos anos 70 e princípio dos 80”. “Nomeadamente a questão do 25 de Abril, para quem vai fazer 20 anos na altura, era um bocado confusa. Estávamos na fronteira de nada”. AMR era “contra o antigamente, mas não de uma forma partidária”. Estava simplesmente “contra”: “Contra a guerra”, por exemplo, e “à espera que aparecesse alguma coisa que valesse a pena”. Em Almada, sobretudo, AMR via à sua volta “muitas pessoas andando pelos mesmos caminhos, ou pelos mesmos becos”. Não é por acaso que, ainda hoje, ele é considerado como porta-voz dos habitantes mais jovens da cidade. “Os UHF cresceram no meio da rua”, diz, “eu andava na faculdade, mas simultaneamente ia ao café onde toda a gente ia. Os UHF cresceram um bocado nessa onda, conheces um baixista, conheces um baterista, foi assim que as coisas aconteceram. Juntaram sempre à sua volta um grande grupo de pessoas”. Muitas dessas pessoas foram ponto de partida para canções, como no caso de “Rapaz caleidoscópio”, um “cruzamento de vários sujeitos”. Histórias, como essa, de “amigos que iam buscar três meses de trabalho aos estaleiros da Lisnave para poderem passar as férias de Verão num parque de campismo no Algarve”, escreveu-as AMR na solidão do seu quarto: “Sempre escrevi muito sozinho. Só depois é que começa a escrita de estrada”. Cita “Ébrios (pela vida)”, uma canção “mágica”. Na prática, porém, essa magia manifestou-se de forma pouco ortodoxa: “Foi escrita na primeira casa que tive na Costa da Caparica. Ensaiávamos no segundo esquerdo e havia uma vizinha por baixo que batia com a vassoura por causa do barulho”. Catorze anos depois de “À Flor da Pele”, ainda há quem bata com a vassoura.

Como É

Rui Veloso abrira o caminho, com “Chico Fininho”. Na rádio, Luís Filipe Barros pegara a fera de caras, nas tardes da Rádio Comercial, com o seu “Rock em Stock”. Era o “boom” do rock português que pouco tempo depois explodia num “bum!” que se ouviria por alguns anos de distância. Mas nessa altura, despontavam os anos 80, era só euforia e a descoberta de que o produto português afinal também vendia. Proliferavam as bandas, quase todas más. Não fazia mal, desde que fossem portuguesas. Os UHF, na primeira linha, não eram maus. Não tocavam muito bem, é certo, mas sobrava-lhes uma convicção, uma honestidade e uma energia que lhes dava um cunho de autenticidade e os colocava num lugar à parte da chusma de bandas oportunistas que iam cavando a sepultura do movimento. Quando António Manuel Ribeiro cantava “Jorge Morreu” (edição anterior em “single”, não incluída em “À Flor Da Pele”), em homenagem a um amigo falecido, ou martelava as palavras, sentidas na pele, de “Ébrios (pela vida)” ou “Nove e Trinta”, percebe-se que havia nele uma raiva genuína, uma sensibilidade de “rocker” assumida no sentido mítico do termo, enquanto herói existencial e porta-voz solitário de uma geração que sobrevivia na prisão de uma cidade dos subúrbios, Almada. “à Flor da Pele” funciona porque é sincero. É um disco cru, por vezes cruel, que recusa as imagens pelas imagens. Não se refugia no solipsismo da auto-análise fechada sobre si mesma, antes volta o olhar – por vezes de uma forma ingénua mas sempre destituída do verniz da superficialidade – para o cerco e os estigmas sociais, personificados por pessoas (“Modelo fotográfico”, “Rapaz caleidoscópio, “Geraldine”) ou lugares (“Rua do Carmo”, um dos “hits” do grupo). “Rapaz caleidoscópio” é a fotografia em negativo de “Chico fininho” (o lado negro niilista da vivência do “rocker” nacional, em oposição à leviandade jovial da canção de Rui Veloso) e um murro nos olhos vidrados do psicadelismo. Um sinal do que viria a ser no futuro o caminho traçado, sem desvios, por AMR e os UHF, com uma legenda decalcada dos versos finais de “Anjo Feiticeiro”: “Não vou ficar por aqui / escolho por mim, passei por ti / podes guardar a imagem”.

ALINHAMENTO
Lado A
1 – Rua do Carmo (texto & música: António Manuel Ribeiro)
2- Rapaz Caleidoscópio (texto: António Manuel Ribeiro; música: Renato Gomes e António Manuel Ribeiro)
3 – Nove e trinta (texto & música: António Manuel Ribeiro)
4 – Anjo Feiticeiro (texto & música: António Manuel Ribeiro)
Lado B
1 – Modelo Fotográfico (texto & música: António Manuel Ribeiro)
2 – Rola roleta (texto: António Manuel Ribeiro; música: Carlos Peres, António Manuel Ribeiro, Zé Carvalho)
3 – Geraldine (texto: António Manuel Ribeiro; música Carlos Peres)
4 – Ébrios (pela vida) (texto: António Manuel Ribeiro; música: Carlos Peres)

MÚSICOS
Zé Carvalho (bateria)
Carlos Peres (baixo, voz)
Renato Gomes (guitarras)
António Manuel Ribeiro (voz, guitarras, sintetizador, órgão)

PRODUÇÃO
Luís Filipe Barros e Nuno Rodrigues

GRAVAÇÃO
Estúdios Valentim de Carvalho, Paço de Arcos, entre 16 de Março e 6 de Maio de 1981.
Técnico de som: Hugo Ribeiro

FOTOGRAFIAS E CAPA:
Luís Vasconcelos

EDIÇÃO
EMI, 11C 076-40554,
1981
Reeditado em compacto, pela mesma editora, em 1993



Ficções – “Zambra”

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995
portugueses


Ficções
Zambra
POLYDOR, DISTRI. POLYGRAM



No terreno que escolheram para se movimentar, a música de fusão, os Ficções dão cartas aos melhores. O problema está em que se no estrangeiro, nomeadamente nos Estados Unidos, existe uma franja vasta de público consumidor deste tipo de sonoridade, em Portugal devem contar-se pelos dedos os seus apreciadores. É música agradável, superiormente tocada (condição indispensável no género), que se aproveita de diversas tipologias étnicas e as reveste da fluidez e da (muitas vezes aparente) capacidade de improvisação do jazz.
Na mistura própria dos Ficções cabem em geral todas as latinidades – do flamenco às aflorações marroquinas -, as meditações orientalizantes e os calores brasileiro e africano. O desenvolvimento de cada tema é quase sempre previsível e estilisticamente espartilhado, o que, curiosamente, acontece com frequência em grande parte da produção de um género que se pretende o mais democratizante possível. Há uma entrada e um final “exóticos”, onde se dá um cheirinho da fonte onde se foi beber e um interminável desenvolvimento intermediário onde cada intérprete mostra o que vale. Aqui a regra é o “jazz rock” convencional e a sequência virtuosa de “clichés”.
“Zambra”, é pena, não foge à regra. Será bom como manual técnico, mas como objecto criativo não difere de milhares de outros, sem chama nem uma vontade declarada de romper novos caminhos. Faz sentido perguntar o que distingue a verdadeira arte do funcionalismo, a coragem de arriscar da resignação de quem se refugia no conforto dos lugares-comuns. Mas isso é um mal da música portuguesa em geral e os Ficções lá saberão a que porto pretendem chegar. Com as ferramentas de que dispõem poderiam navegar para bem mais longe. Também é verdade que o mundo está cada vez mais pequeno e não falta quem se contente em mandar um postal ilustrado… (4)