Lindisfarne – “Buried Treasures, vol. 1 & 2”

pop rock >> quarta-feira >> 02.06.1993


Lindisfarne
Buried Treasures, vol. 1 & 2
CD Virgin, distri. Edisom



Ao contrário do que se vai tornando norma, os Lindisfarne não pretendem com esta colectânea celebrar qualquer aniversário, embora também eles já existam há mais de duas décadas. A recolha destes tesouros enterrados prende-se antes com a descoberta de material das mais diversas origens que os músicos desencantaram nos arquivos da editora, estações de rádio e no baú das velharias. Abrangendo um período que vai de 1971 até à fase actual da banda, “Buried Treasures” inclui sessões para a Radio One, cassetes, um vídeo de uma digressão com Bob Dylan, “demos” variadas, versões alternativas, excertos declamados e todo o género de bugigangas musicais em que os seus autores garantem ter encontrado a verdadeira ess~encia da sua arte. Uma vontade de tudo querer mostrar que não adianta nem atrasa em relação ao que a banda produziu de melhor: os dois primeiros álbuns, “Nicely out of Tune” e “Fog on the Tyne”, nos quais figuaravam deliciosas melodias entre a folk e as histórias de embalar, como “Lady Eleanor” e “Meet me on the corner”. (5)

Holger Czukay – “Moving Pictures”

pop rock >> quarta-feira >> 02.06.1993

NOVOS LANÇAMENTOS


Holger Czukay
Moving Pictures
CD Mute, distri. Edisom



Enquanto os Can foram mestres da batida hipnótica e tribal via tecnologia, o seu venerando baixista, Holger Czukay, tem vindo a explorar os meandros da mente já na fase em que esta se encontra mergulhada no transe – os seus fantasmas, as suas zonas de menor luminosidade, as suas pulsões que gritam do inconsciente. As técnicas de “dub” que Czukay utiliza em “On the Way to the Peak of Normal”, “Der oste nis Rot” e “Rome remains Rome” e que tão bem servem à criação de realidades sonoras fantasmáticas (Arthur Russell, African Head Charge, Jah Wobble,…) como que foram cavando buracos negros no seu próprio interior, dilatando a dimensão temporal de maneira a reduzir o ritmo à quase sugestão. Faixas como “All night long”, onde não por acaso o baixo de Jah Wobble assume papel preponderante, e a extensa “Rhythms of a secret life” são neste aspecto exemplares. A segunda, uma viagem pela realidade virtual do “cyberspace”, recupera a tradição das “psicotropics” dos Can do duplo “Tago Mago” e o conceito de relatividade: um milionésimo de segundo de percurso pelos circuitos de um computador são ampliados para um filme ao retardador que permite observar com detalhe cada micro-acontecimento. Repare-se na bateria de Jaki Liebezeit, que era o principal motor da orgia rítmica dos Can, e aqui desacelera até ao limite da desagregação, transformando em pontuação subliminar o que antes era multiplicação polirrítmica.
Parecendo numa abordagem superficial que “Moving Pictures”, na riqueza das suas tapeçarias ambientais, se encontra mais próximo dos discos de Czukay com David Sylvian que duma continuação do seu trabalho a solo (descontando o incaracterístico “Radio Wave Surfer”), “Moving Pictures” acaba por ser afinal um álbum que, por tortuosos caminhos, vem ao encontro dos Can. Mas se não se quiser recuar a alguns capítulos brilhantes da história do rock que esta banda assinou, pode sempre olhar-se para Holger Czukay como o rádio-amador eternamente sintonizado nas ondas da Radio Marrakesh. (8)

Chico Buarque – “Chico Buarque Em Portugal – Quem Te Viu E Quem Te Vê”

cultura >> sábado >> 29.05.1993


Chico Buarque Em Portugal
Quem Te Viu E Quem Te Vê


No teatro S. Luiz, em noite de “jet set”, Chico Buarque cantou para uma plateia de convidados VIP, mas não lhes deu o prazer de canções para trautear. Ausente a festa, ficaram a bailar as palavras do poeta. Nos ouvidos de quem não se deixou ofuscar pelas aparências.



Socialmente falando, foi um acontecimento o concerto de Chico Buarque, na quinta à noite no Teatro S. Luiz, em Lisboa, reservado a convidados. Estiveram presentes Mário Soares com Maria Barroso, António Guterres, João Soares, Vítor Constâncio, Mira Amaral, Braga de Macedo, David Mourão Ferreira, Edite Estrela, Sérgio Godinho, Rui Veloso, Carlos do Carmo, Alçada Baptista, Eunice Munoz, Raul Solnado, Teresa Maiuko, o grande Roberto Leal, todo de branco, resplandecente como um anjo no centro da plateia, e um ou outro anónimo que veio despropositadamente só para ouvir a música do brasileiro. Um êxito. Um deslumbramento de “toilettes” e vaidades. “In”érrimo.
Hoje pelas 22h, como ontem, o espectáculo repete só para o povo que de longe prefere as condições do Pavilhão Carlos Lopes ao luxo intimidativo da velha sala do Chiado. Fez bem a aorganização, a Propalco, em separar o trigo do joio. Em relação às salas, claro.
Registe-se, à laia de curiosidade, que Chico Buarque também esteve presente. Em cima do palco, acompanhado pela sua banda, num espectáculo “cool”, “intimista” e “musicalmente apurado”, como tinhya anunciado na véspera, em confer~encia de imprensa. Enfiado na inevitável camisola de gola alta (que desta feita não era azul escura mas escarlate), o cantor brasileiro viajou pelas águas mais calmas do seu reportório, deixando de parte os temas que o público tinha na ponta da língua e reforçando a força das palavras de canções suas que andavam espalhadas por versões alheias. Vinte e quatro ao todo, emnos uma que no alinhamento previsto, ficando de fora “Morro dois irmãos”.
Não houve “show”, no sentido vulgar do termo, e Chico pouco comunicou, para além dos textos das canções. Apresentou, logo de início, os músicos, introduziu sem grande entusiasmo os temas “Futebol” e “Outra noite” (um dos quatro inéditos da noite). O resto foram as palavras, que tão bem domina – “d’ accord, d’ accord, a corda”, em “Joana francesa” – para se ouvir baixo (a sua voz também já não se presta a grandes explosões), ao sabor da tristeza do samba em fim de carnaval e de um violão que apenas abandonou, já em tempo de “encore”, em “Não existe pecado ao Sul do Equador”, para se permitir um tímido meneio de sambista.
“Ela desatinou”, “Pelas tabelas”, “Valsa brasileira” / “Piano” na Mangueira” / “Pivete”, estes dois últimos temas também inéditos, o quarto foi “Choro bandido”, destacaram-se numa actuação sem grandes contrastes, em que a banda de suporte se limitou a ser competente, aproximando-se por vezes perigosamente do tom “banda de casino”. “Eu ter amo”, “Gota d’água” e “O que será”, acompanhado em surdina pelo “lalaiá lalaiá” dos presentes, froam mesmo assim aqueles que conseguiram aquecer um pouco mais os ânimos.
No final, a organização ofereceu um beberete ao contingente VIP, que não se fez rogado. Champanhe e cervejola regaram apetitosas “tapas”, que compensavam os “destapas” de alguma indumentária feminina. No concerto desta noite, no Pavilhão Carlos Lopes, é de supor que o bar esteja de igual modo bem fornecido.
“Pai, afasta de mim esse cálice.” O tanas!