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Vários (Pedro Castelo, Ana Bravo, Pedro Tojal, David Ferreira) “Lei Dos 50 Por Cento Não Está A Ser Cumprida – VOZES DA RÁDIO NÃO CHEGAM AO CÉU” (rádio | dossier | polémica)
pop rock >> quarta-feira >> 11.10.1995
Lei Dos 50 Por Cento Não Está A Ser Cumprida
VOZES DA RÁDIO NÃO CHEGAM AO CÉU
Há quatorze anos, mais precisamente a 21 de Julho de 1981, é aprovada pela Assembleia da República a Lei nºm 12/81, destinada à “protecção da música portuguesa na sua difusão pela rádio e pela televisão”. Nunca foi cumprida, muito menos agora. Toda a gente se está nas tintas.

O artigo mais polémico é o 3º, respeitante à “difusão de música ligeira”, que preconiza que a “difusão de música ligeira, vocal ou instrumental, de autores portugueses preencherá o mínimo de 50 por cento da totalidade das composições do mesmo género difundidas por mês, por estação e por canal.” Parece ser uma lei boa. No papel. Na prática, porém, ninguém, ou quase ninguém, a respeita. Por um motivo muito simples: a música portuguesa que existe, diz quem a passa, não chega. O artigo 7º da mesma lei ameaça o seu não cumprimento com sanções pecuniárias, que vão de dez a cem mil escudos. Não há crise, até porque ninguém parece muito preocupado em fazer cumprir o estipulado.
A Média Aritmética
Pedro Castelo, director de programas da Antena 1 (onda média) e Antena 3 (FM) da RDP afirma que “a Antena 1 cumpre bastante mais do que os 50 por cento, seguramente entre os 65 e os 70”, ainda que, em relação à 3 seja “um bocado mais complicado”, com a percentagem a rondar os “30 por cento”. “A lei não diz claramente [N.A.: por acaso até diz] que cada canal tem que passar 50 por cento de música portuguesa, mas sim cada estação, daí que eu possa perfeitamente inferir que o conjunto da Antena 1, da Antena 2 e da Antena 3 passa 50 por cento de música portuguesa.
“Por outro lado, não acho que a música portuguesa vá para a frente – a prática dos últimos anos tem-no demonstrado – pelo facto de as pessoas serem ou não obrigadas a passa-la. De um modo geral, tirando agora esta vaga da música ‘pimba’, o que se passa é que a boa música portuguesa normalmente é tocada, enquanto a do calibre do ‘pimba’ é pouco tocada. É essa a nossa política. Embora em termos de Antena 1, como é óbvio, tenhamos que levar em conta que o perfil dos seus ouvintes é claramente diferente dos da Antena 2 e 3. Temos que fazer algumas concessões à qualidade.”
Nesta altura recorremos a um exemplo, perguntando se os dois canais da RDP tocavam um disco reconhecido como de qualidade pela crítica especializada, “Sex Symbol”, o mais recente dos Pop Dell’Arte. “Os Pop Dell’Arte não entram nas ‘play lists’ tanto da Antena 3 como da Antena 2 porque as pessoas que as fazem acham que o disco não tem qualidade. Por outro lado, os Pop Dell’Arte entram regularmente num programa que temos entre a meia-noite e a uma, onde só é tocada música portuguesa. Como sabe, os parâmetros da crítica andam bastante longe dos de quem toca a música.”
O Bombardeamento
Ana Bravo, animadora das emissões TSF, atira timidamente com uns 15, 20 por cento. “Não temos música portuguesa de qualidade que chegue para cobrir o horário diário.” Luís Mateus, outro animador da mesma estação, partilha uma opinião semelhante, referindo a dificuldade de “conciliar a informação, em espaços decisivos, com a música”. Contudo, “pode haver dias, ou situações específicas, em que se ultrapassa os 50 por cento, como aconteceu no dia das comemorações do 25 de Abril ou durante as eleições legislativas”.
Para Luís Mateus, o mais importante é “fazer sequências musicais curtas que melodicamente soem bem, independentemente da língua que é cantad”, algo que considera indicado numa estação como a TSF, em que “existe pouco espaço para a música”. Depois, há hoje um mercado que é “diferente”, onde a produção internacional impera: “Estamos constantemente a ser bombardeados por discos novos que se sobrepõem à produção nacional. Em relação a esta última, tem acontecido que, se calhar, há poucos discos de qualidade para FM, embora este conceito seja subjectivo.” Edições que Luís Mateus considera “prestigiantes” resumem-se a muito pouco, como o disco da Brigada Victor Jara, ou então a “expectativas que se vão criando”, como para os Gaiteiros de Lisboa.
A Auscultação
“Cinquenta por cento não estamos”, diz Pedro Tojal, director de programas da Rádio Renascença, “para aí uns 20! (…) Os 50 por cento são uma impossibilidade. Não há tanta música que nos dê um refresco em antena, de música nova portuguesa. Para cumprirmos a lei, teríamos que passar sempre muita música antiga.” O critério de escolha de discos passa, nesta emissora, por “tentar saber o máximo possível do auditório que se pretende atingir”.
Como tal, para saber do que “é que eles gostam” são seguidos métodos como “a auscultação telefónica”. “Pimba” é coisa que não passa na RR: “Primeiro que tudo, somos uma rádio católica e o público que pretendemos atingir tem entre 18 e 45 anos, é construído por estudantes, classe média e média-alta e quadros”. Respeitar a lei está fora de questão. “O exemplo é dado pelas rádios estatais, como a RDP, que teoricamente deveriam cumpri-la e não o fazem.”
Informado sobre a operação de aritmética, capaz de proporcionar a média mágica dos 50 por cento efectuada por aquela emissora, Pedro Tojal é peremptório: “Isso também nós! Temos uma rádio que só passa música portuguesa, a Voz de Lisboa. “E conclui: “A nossa contribuição está perfeitamente assegurada.”
Falta De Realismo
Para David Ferreira, administrador da EMI-Valentim de Carvalho, a actual lei da rádio “peca por total falta de realismo”. “O que nasce torto tarde ou nunca se endireita” – ironiza, acrescentando que “as boas vontades que estiveram na origem da lei não foram acompanhadas pelo indispensável diálogo com todos os interessados: artistas, editoras e profissionais da rádio”. É que, segundo diz, “a lei nasceu de encontros demasiado restritos entre alguns legisladores e um pequeno grupo de artistas”, ficando de fora todos os outros.
De resto, David Ferreira interroga-se sobre se “o problema da passagem na rádio e da própria sobrevivência da música portuguesa se resolve com meras medidas administrativas”. Não faz sentido, diz, “impor que 50 por cento da música ouvida seja portuguesa sem previamente apurar qual a passagem real antes de a lei entrar em vigor e quais seriam os problemas reais que os profissionais da rádio – que a lei deve encarar como parceiros e não como marginais que importa reprimir – haviam de encontrar no cumprimento da lei”.
A única “fundamentação” que David Ferreira encontra como justificação para a existência da lei é, de qualquer modo, para si, insustentável: “A ideia chauvinista de que a música portuguesa é tão boa como a estrangeira.” “Claro que não pode ser!”, pelo menos com a mesma quantidade. “Um simples cálculo de probabilidades permite-nos concluir que só por milagre é que Portugal conseguiria produzir tanta música boa como a Espanha, a França, a Inglaterra, os Estados Unidos, etc, todos somados!
Nana Simopoulos – “Gaia’s Dream”
pop rock >> quarta-feira >> 11.10.1995
Nana Simopoulos
Gaia’s Dream
B&C, DISTRI. ESOTÉRICO

Quem é Nana? Sabe-se lá. Ou sabe-se pouco. Ao certo, é grega e tem um fio agradável de voz. “Gaia’s Dream” é música new age, tendência world, de alguma qualidade, quer dizer, não anestesiante e com uma margem razoável de criatividade. O primeiro tema, “Kouls koula”, evoca de imediato o primeiro disco a solo do vocalista dos Yes, Jon Anderson, “Olias of Sunhillow”. Depois vem a música de influência indiana, num instrumental que serve para mostrar que, além de cantar afinada, Nana também toca “sitar” e “tampura”. As semelhanças com o seu compatriota Vangelis vêm ao de cima em “Artemis’ silver bow” e permanecem até ao final, com paragem em “Like You”, onde Nana faz questão de mostrar que sabe fazer de anjinho tão bem ou melhor que Enya, e em “Raphael”, onde faz o mesmo em relação a Virginia Astley, de “Hope in a Darkened Heart”. Estão a ver o quadro: coros épicos, electrónica de concerto, vozes elevatórias, grandiloquência, ecologia e misticismo. A fórmula não é original, mas Nana empresta-lhe a dignidade suficiente de modo a não resvalar para a caricatura. Os músicos gregos parecem ter esta tendência para imitar os seus antepassados e tentarem a conversa com os deuses. Não é inteiramente de chacha, a desta Vangelis de saias. (5)
Vários (XFM | Aníbal Cabrita, Rui Neves, António Sérgio) – “Segundo Aniversário De Transmissões – XFM, Dois Anos Que Prometeram O Futuro” (rádio | dossier))
pop rock >> quarta-feira >> 11.10.1995
Segundo Aniversário De Transmissões
XFM, Dois Anos Que Prometeram O Futuro
A XFM, que hoje faz dois anitos, vai formosa e insegura. Depois do prazo de seis meses dadopelo grupo Lusomundo para viabilizar um projecto que custa quase cinco mil contos mensais, a geração X saiu à rua para, até Dezembro, provar a urg~encia da sua continuidade. A “operação Xarme” surgiu a defender a dama jeitosa e sofisticada: os Tindersticks, na Aula Magna deram o brilho sentimental requerido, que agora continua, em regime de “cabaret” moderno, com as quartas-feiras do Ritz Club. É o coração que apela à resistência, é uma geração de muitas idades que defende o direito à diferença: porque somos vaidosos, porque temos bom-gosto e porque aderimos à causa das novas e alternativas estéticas musicais. A XFM não representa uma cambada de palermas elitistas com gostos esquisitos, a XFM é uma larga quantidade de indivíduos (pelo menos 30 mil), atentos à contemporaneidade, às suas angústias e promessas, sendo a música uma das expressões de um fim de século que caminha a esticões para o terceiro milénio. “Exagerámos no início com as novidades, é preciso construir os nossos próprios sucessos, nãio estar constantemente a passar música nova: não dá tempo para se sedimentarem determinadas tendências que se vão criando”, admite hoje Luís Montez, director da XFM. Era o entusiasmo daquilo que há-de vir, continuando agora com a disciplina e a irreverência, tanto dos DJs jovens como dos mais velhotes. O Pop Rock falou com três dos mais sabidos – Aníbal Cabrita, António Sérgio e Rui Neves -, deixa a programação semanal completa da X à escolha dos leitores e ouvintes, mas só apaga as velas se para o ano houver mais.
Rui Catalão
OPERAÇÃO XARME, RITZ CLUB
DIA 11, COOL HIP NOISE E MIND DA GAP, 22H
DIA 18, KUSSONDULOLA E BOSS AC, 22H
DIA 25, ORQUESTRA DOS ALUNOS DO HOT CLUB COM A PARTICIPAÇÃO DOS DJ’S DA XFM, 22H
Programação
2A A 6A FEIRA
7h – Nuno Galopim, Geração X
10h – Sofia Morais
12h – Nuno Reis
15h – Sílvia Alves
17h – António Sérgio, Grande Delta
20h – Carlos Cardoso, Radar
22h – Aníbal Cabrita, Café Virtual
2A FEIRA
24h – José Carlos Tinoco, Auto-Retrato Sob Transístor Molhado
3A A 6A FEIRA
24h – Ricardo Saló, Crónicas do Quarto Mundo
SÁBADO
10h – Rui Portulez, Fidelidadex
12h – Carlos Cardoso, América, América
14h – Lucinda Sebastião, Triplex
17h – Isilda Sanches, Zoom
20h – Hélder Antunes. Destinos Cruzados
22h – Sofia Morais, X Acto
24h – Nuno Carlos, Independança
DOMINGO
10h – Luís Rei, Terra Pura
12h – Luís Mateus, Global X
14h – Nuno Reis, Raio X
17h – Sílvia Alves, Curva do Rio
19h – Rui Neves – Bluesiana
20h – Aníbal Cabrita, Heterofonias
22h – Ricardo Saló – Labirinto
24h – Rui Neves, Metropolis
Aníbal Cabrita
“Não Quero Abrir Os Olhos A Ninguém”

quem nos últimos anos apanhou no éter programas de Aníbal Cabrita, guardará decerto na memória a ideia de emissões onde a importância do texto era igual ou superior à música. Programas como Contraponto, Café-Concerto ou Noites de Luar, onde o fundamental passava pela criação de ambientes específicos.
Há um quarto de século a ir para o ar, entrou no éter, em 1970, como técnico, na Rádio Universidade. “Fui para a rádio porque gostava de jogar futebol, nessa altura a R.U. tinah uma equipa.” Hoje, na XFM, onde realiza o Café Virtual, de segunda a sexta entre as 22 e a meia-noite, e Heterofonias, uma vez por semana, aos domingos, à mesma hora, Aníbal Cabrita fala menos do que dantes, talvez porque nessa altura, “ao nível dos outros órgãos de comunicação”, fosse “menor o interesse por assuntos algo marginais, intelectuais ou culturais”. “Havia uma grande lacuna”, diz.
Num futuro próximo, pensa regressar ao tipo de emissões que o celebrizaram, já que por enquanto, no seu actual posto de trabalho, “faltam os meios logísticos” para o fazer. “Há uma ou outra pista nesse sentido, como entrevistas”, ou uma espécie de “argumentos”, já utilizados (por exemplo, num programa intitulado “Labirinto), mas entretanto abandonados, devido à tal “falta de meios”. “Será um processo gradual e não sistemático, se a Xis tiver um sopro de crescimento.”
Tem recorrido com frequência nas últimas emissões do seu café à música dos Soul Coughing, Morphine, Bem Harper, Whale ou Tindersticks. A sua preocupação não é a busca desenfreda da novidade. “A datagem não é importante, mas sim o ambiente que se pode criar ao colar diferentes tipos de música.” Ambientes que passam pela sua sensibilidade ou disposição de momento, mas onde, acima de tudo, coloca em jogo o seu maior trunfo: a voz.
“Tento ouvir-me – nem sempre o consigo -, às vezes ouço ‘a posteriori’ coisas gravadas onde noto grandes disparates, como falar muito alto ou utilizar expressões que não devia ter utilizado.” Muita humildade de quem procura, acima de tudo, “ser natural” e que “as coisas se aproximem, sem necessidade de uma linguagem demasiado rebuscada ao microfone”.
Aníbal Cabrita prefere as ondas da noite, em que “há mais silêncio” e maior disponibilidade para ouvir rádio e, ao mesmo tempo, “não é preciso estar aos berros para chamar a atenção”. “Se calhar neste momento muitas pessoas com horários semelhantes e na mesma sintonia que eu.” Pessoas, afinal, “com hábitos e atitudes semelhantes às que a Xis tem” e com as quais Aníbal Cabrita procura estabelecer um tipo de relação diferente da que professava há uns anos: “Se calhar estava convencido de que a rádio era muito importante, fazer discursos altamente teóricos, para abrir os olhos às pessoas. Hoje não quero abrir os olhos a ninguém. Quando muito posso fornecer pistas, fornecer alguma emoção, comunicação, mas sem querer dar lições a ninguém.” Uma “companhia virtual” a justificar a visita nocturna ao seu café.
FERNANDO MAGALHÃES
Rui Neves
“Estou Com O Grande Marx”

Pertence à ala radical da estação. Divulgador de longa data das músicas alternativas, com raízes no jazz e um gosto recente pela “tecno”, Rui Neves estreou-se a fazer rádio em 1966, na Rádio Dundo, em Angola, de onde é natural. Tinha então 18 anos. Mais tarde foi responsável por programas como Abandajazz, Subterrâneos de Veludo, Pedras Rolantes, Blues Index, História do Rock, com Ricardo Camacho, ou Musonautas, com Jorge Lima Barreto.
Na XFM tem a seu cargo a realização de Bluesiana, dedicada em exclusivo aos “blues”, aos domingos, entre as 19 e as 20 horas, e Metrópolis, no ar na noite de domingo para segunda, da meia-noite às duas, e em cujas emissões recentes tem passado gravações do festival de música de Nova Iorque “Bang on a can” (“peido na lata”), nomes como Michael Gordon ou Louis Andriessen, mas também a última sinfonia de Glenn Branca. Há ouvidos disponíveis para este tipo de propostas, para muitos demasiado hermética?
Rui Neves não tem quaisquer espécie de dúvidas. Assumindo uma orientação global da emissora voltada para minorias, bate-se pela sua dama com entusiasmo: “Estou-me a borrifar para o grande público. Cada vez estou mais elitista. Com muito orgulho. Porque isto do elitismo não é nada elitismo. Há pessoas mais inteligentes do que outras, sempre as houve, assim como umas mais estúpidas do que outras. Eu estou com o grande Marx, quando dizia que a ‘luta de classes é para sempre’. A luta de classes, hoje em dia, não é do tipo que nasce mais rico e é patrão ou do que nasce mais pobre e é empregado. A luta de classes é de cabeça, conforme a inteligência de cada um. Há-de haver sempre pessoas mais inteligentes e sensíveis, como grandes burros e idiotas. Nós dirigimo-nos aos mais inteligentes e sensíveis.”
Para Rui Neves, existe “uma clientela nova de ouvintes que só ouvem rádio nos seus automóveis” e que não constam nas sondagens, numa alusão ao número, alegadamente reduzido, que sintoniza a XFM. O autor de Metrópolis sabe quem carrega no botão: “São os estudantes, na média dos 24 anos, até indivíduos na roda dos 30, 40, de classes sociais altas, engenheiros, advogados ou arquitectos…” “Pessoas mais exigentes nos seus gostos”, sintetiza, “que não tinham nada”. É a XFM “a preencher um espaço que não havia cá”. Com união de esforços entre todos os que nela trabalham.
“Somos todos radialistas que, de facto, adoram música.” Toda a gente, sobretudo os veteranos, “estava chateada com as outras rádios, que são uma porcaria incrível”. Cita, como exemplo, “os meandros da RDP”, “kafkianos” e onde tudo são “favoritismos” devidos “à política de um e de outro”. Rui Neves aponta mesmo um dos seus actuais colegas, na XFM a quem, na anterior estação onde trabalhava, teria sido “posta à frente, com o maior desplante, uma proposta de um partido para assinar, e à qual, obviamente, disse que não”.
A resolução dos problemas que actualmente afligem a estação passa, segundo diz, pelo aparecimento de “sponsors” sensibilizados para o tipo de música, sem concessões, que na casa todos fazem questão em defender e divulgar. “Acredito que a qualidade artística também pode ser vendida!” – afirma. “É preciso é sabê-la vender.” A “operação Xarme”, actualmente em curso, é “um aspecto prático disto”.
Hoje, dia em que se celebra o segundo aniversário da XFM, Rui Neves garante que há algo para festejar, mais que não seja o facto de “há mês e meio a XFM ter sido posta em questão e estar quase a fechar, e um mês e meio depois poder ter esperança de que vai continuar”.
F.M.
António Sérgio
“’Speed’ Eterno”

Comparam-no a John Peel, o lendário DJ da rádio britânica responsável pela descoberta e divulgação de tudo ou quase tudo o que de novo apareceu na pop e no rock das últimas três décadas. António Sérgio tem desempenhado um papel semelhante no nosso meio radiofónico. Como Peel, só largará o microfone se ficar mudo, surdo ou, entretanto, a música acabar. Como Peel, sente a r´dio como um “sacerdócio” e a vertigem do som a morrer-lhe nas veias. Sérgio conheceu Peel pessoalmente e considera-o “um homem muito activo, com uma noção de combatividade terrível”. Peel deve ter achado o mesmo de Sérgio.
Quem, entre os mais crescidos, nunca ouviu nem aprendeu a ouvir de modo diferente, nos anos 70, a Rotação da Rádio Renascença? Ou Rolls Rock, já na década 80, na Rádio Comercial, e o seu prolongamento, Som da Frente, que fizeram igualmente História? O Sérgio que abriu as portas ao “punk” em cima da hora em que a explosão deflagrava em Inglaterra é o mesmo Sérgio que não tem pejo em passar dezoito minutos seguidos de Wagner ou em dedicar uma emissão inteira a Stockhausen, e não despega os ouvidos das boas bandas de “heavy metal”.
Critica alguns colegas da sua geração que “encostaram às ‘boxes’”: “A mudança de pneus não correu bem e não voltam à pista!” Isto é algo de estranho para ele, alguém para quem o “mundo da música continua a ser intrinsecamente interessante”, “E picante!”, acrescenta. “Vivo um bocado do ‘new act’, por muito que a gente às vezes saiba e veja e sinta que há aquela busca constante da ‘next big thing’, sobretudo dos ingleses, a originar polémicas ridículas como aquela que opôs os Blur aos Oasis. “Mas admite que a apresentação de nomes novos, para além da recuperação de “coisas boas que foram esquecidas”, é a sua “razão de ser” para estar na rádio.
Para os mais novos da XFM, António Sérgio é encarado quase como um herói. “Cá dentro o Luís Montês costumava chamar-me “o mestre”, diz, com um sorriso nos lábios. Ele tem aquela intuição que o faz, por vezes, apostar, sem qualquer razão aparente, num nome desconhecido. Aconteceu no ano passado com um ‘single’ dos Jacob’s Mouse, que Sérgio trouxe de uma das suas visitas a Inglaterra, apenas pelo “atrevimento” da capa. “Daí a um tempo”, conta, “lá estava o Peel a tocar o mesmo ‘single’”.
A influência de António Sérgio estende-se à própria edição discográfica no nosso país, embora assuma este aspecto com a modéstia de quem faz parte de um colectivo. “A Xis viu várias vezes as editoras andaram positivamente a reboque, um reboque desastrado, do que andávamos a tocar, como aconteceu com os Tricky, em 1994, ou os Portished. Estavam completamente atrasadas em termos de atitude editorial. “Admite, contudo, que nos casos “de perfil mais rock” seja ele a dar o empurrão.
António Sérgio é um dos locutores mais velhos da estação e paradoxalmente, aquele que é escutado por uma faixa de auditores mais jovens. Dentro da XFM, gostaria de transmitir alguma da sua experiência aos companheiros mais novos. Mas admite que, muitas vezes, são estes que lhe dão a conhecer coisas que “nunca ouviu”. “Há, por vezes, uma ciumeira criativa”, reconhece, entre os vários radialistas da estação, mas isso não quebra, de modo algum, a solidariedade e o espírito de frontalidade e colaboração que reinam na XFM. Une-os a necessidade de assegurar a “sobrevivência” da música de qualidade mais difícil e arredada dos “tops”.
Nos últimos tempos, entre as 17h e as 20h, de segunda a sexta, no Grande Delta, o “Peel” português tem divulgado em força os Sleeper, Elastica, Echobelly, Black Rose e o novo de Morrissey, além dos portugueses More República Masónica, Cosmic City Blues e Flood, estes “ainda em DAT”.
António Sérgio não vai parar nos tempos mais próximos, a não ser, como diz, que venha a ter “necessidades espirituais”. A velocidade é algo de vital para si? “Se calhar é! Um ‘speed’ eterno!”, responde com uma gargalhada, enquanto lança pragas ao computador que deu o berro e põe no ar os Young Gods.
F.M.















