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Stephen Kent – “Landing” + Land – “Land” + Elliott Sharp – “Tectonics” + Tuu – “All Our Ancestors”

pop rock >> quarta-feira >> 18.10.1995


TERRA FIRMA

Os quatro discos que se seguem têm em comum o facto de procurarem estabelecer o contacto com as forças vitais – ou com o seu inverso, as sombras – do planeta.

Stephen Kent
Landing
CITY OF TRIBES, DISTRI. SYMBIOS



Kent toca didjeridu, espécie de trompa ritual utilizada pelos aborígenes australianos. Elemento de grupos e projectos vários, como os Lights In A Fat City, Trance Mission, Rocking Horse People e Beasts of Paradise, Kent entrega-se aqui à tricotagem de texturas hipnóticas no seu instrumento preferido, com a ajuda subliminar de “drones2 electrónicas, percussões hipnóticas e cânticos arrancados directamente dos primórdios do tempo. Uma “trip” electroacústica para os anos 90 com as raízes mergulhadas nos sonhos de um continente imaginário. (9)

Land
Land
EXTREME, DISTRI. ANANANA



Primeiro projecto colectivo de Jeff Greinke, os Land congregam o ambientalismo pedregoso de obras a solo, como “Places of Motility” ou “Changing Skies”, com uma linha vagamente hasseliana personificada pela trompetista Lesli Dalara e divagações jazzy que não destoariam num catálogo como o da ECM (“Nightnoise”). “Bustle” é etno-industrial, “Jacks” a redenção da “etno seca” e “Ku” um grito primordial que brota das entranhas revolvidas da terra. A música dos Land abre brechas no convencionalismo e desforra-se da beatitude visionada por Eno, o profeta. (8)

Elliott Sharp
Tectonics
ATONAL, DISTRI. SYMBIOSE



“Tectonics parte de onde “Virtual Stance” havia estacionado. Sharp, visionário e anarquista da guitarra, regressa a um tipo de organização mais matemática, com o auxílio de computadores em estado de convulsão que fazem avançar o ritmo a murro e a pontapé. Implacável, gutural, tribal e com o martelo pneumático ligado na máxima força do princípio ao fim, “Tectonics” atinge o caos no cataclismo devastador do tema “Newtage”. Um dos melhores Sharp de sempre. (9)

Tuu
All Our Ancestors
BEYOND, DISTRI. SYMBIOSE



Depois de “One Thousand Years” os Tuu inflectem ainda mais na direcção das origens, na busca desse ponto alephiano onde convergem os antepassados sonoros do universo. Música de transe, constrói-se de fora para dentro, da superfície pintada com imagens de “mantras” psicadélicos para o âmago do psiquismo colectivo. Mas cuidado, porque por vezes leva-nos de vista a lugares em ruínas onde os abutres da mente estão à espera. (7)

Art Zoyd – “‘Nosferatu’ E Art Zoyd Encontram-se No Apocalipse – Um Vampiro Na Galáxia Zoyd”

cultura >> sábado, 07.10.1995


“Nosferatu” E Art Zoyd Encontram-se No Apocalipse
Um Vampiro Na Galáxia Zoyd


Com os Art Zoyd as separações musicais deixam de fazer sentido. Música rock para eruditos ou música erudita para “rockers”, ninguém consegue aprisioná-la nem a ela ficar indiferente. Adeptos e praticantes de uma arte total, discípulos de Wagner e dos Magma, os Art Zoyd vão ter neste fim-de-semana as imagens de Murnau por companhia.



O espectáculo que hoje e amanhã, pelas 21h30, terá lugar no Grande Auditório da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, inserido na programação da Culturgest, sob o “Ciclo Apocalipse”, é absolutamente a não perder. Anuncia-se o cruzamento das obras expressionistas de Friedrich W. Murnau, “Faust” e “Nosferatu”, com a música ao vivo do quarteto francês Art Zoyd. Síntese a preto e branco do terror e da loucura humana com a visão totalitária e “wagneriana” que preside à estética do grupo e, em particular, da composição “Nosferatu” (o vampiro que traz a peste), assinada por Thierry Zaboitzeff e Gérard Hourbette. Cardíacos, dogmáticos e mentes simples, abstenham-se.
Existirão hoje em dia na Europa poucos grupos conotados com o universo da música rock com a dimensão dos Art Zoyd. Numa época em que o efémero predomina e o sucesso a todo o custo se sobrepõe ao trabalho em profundidade, os Art Zoyd movimentam-se na direcção contrária. Desde 1969, ano da sua formação, que o grupo vem construindo uma obra cujos alicerces mergulham simultaneamente na música europeia – das correntes eruditas deste século às tradições folk mais remotas – e em linguagens contemporâneas que vão do rock ao minimalismo, da electrónica à revisitação, em moldes revolucionários, da música de câmara.
Coincide com a eclosão do movimento “punk” a deflagração das actividades discográficas do grupo, acompanhadas, ao longo da década seguinte, pela participação intensa em festivais de música contemporânea em todo o mundo. Em 1977, em plena confusão desencadeada pelos Sex Pistols, era difícil classificar uma banda cuja música tinha a sua força em motivações estéticas e filosóficas e que ainda por cima não se envergonhava de utilizar em cena violinos e violoncelos. Foi talvez esse o motivo que, na ausência de outros parâmetros, levou, na altura, um crítico alemão a classificar o som dos Art Zoyd como “música de câmara para punks”.
A editora e cooperativa cultural Recommended, de Chris Cutler (Henry Cow, Art Bears, Cassiber, Pere Ubu…) foi a primeira a alertar para a qualidade da obra do grupo e da urgência em conhecê-la. Os Art Zoyd surgem então como impulsionadores de uma corrente musical que, para alguns, prolonga, segundo critérios já totalmente libertos do lastro do psicadelismo e de um “sinfonismo” mal assimilado, a música progressiva da primeira metade dos anos 70. Ao seu lado estão outros grupos, como Univers Zero, Présent, Conventum, Aksak Maboul ou Débile Menthol, determinados em dar um rosto novo e menos empoeirado à nova música nascida no velho continente.
Da obra discográfica dos Art Zoyd, ao todo nove álbuns, todos disponíveis em importação nacional, destacam-se as obras-primas “Symphonie pour le Jour où Brûleront les Cités” (1976, para uma coreografia de Roland Petit), “Génération sans Futur” (1980), “Les Espaces Inquiets” (1983), “Le Marriage du Ciel et de l’Enfer” (1985), “Nosferatu” (1989), o último “Marathonnerre” (1992), em dois volumes que resumem 12 horas de uma ópera multimédia de Serge Noyelle, e, sobretudo “Berlin”, de 1987, alucinação premonitória e apocalíptica sobre o futuro da cidade-mito, cujo muro viria a cair dois anos mais tarde.
Na música dos Art Zoyd acotovelam-se referências musicais e poéticas díspares que vão de Bela Bartok a Frank Zappa, dos Van Der Graaf Generator aos minimalistas americanos, da folk da Europa central a Wagner, de Hoelderlin a William Blake, de Shakespeare a Friedrich Nietzsche. E, no lugar cimeiro do alter, Christian Vander e os Magma, dos quais os Art Zoyd são os legítimos herdeiros.
Os Art Zoyd são Thierry Zaboitzeff (violoncelo, baixo eléctrico, teclados, voz, percussão, electroacústica, misturas), Patricia Dallio (teclados) e Daniel Denis (percussão, teclados). Uma galáxia à parte, nos confins da arte deste século.

Ensemble J.E.R. – “Cinco Anos De Ensemble J.E.R. – ZARATUSTRA NO PÁTIO DE RECREIO”

pop rock >> quarta-feira >> 05.07.1995


Cinco Anos De Ensemble J.E.R.
ZARATUSTRA NO PÁTIO DE RECREIO



José Eduardo Rocha, J.E.R., estudou pintura, mas a sua paixão “mais antiga” é a música. Fundou há cinco anos os Ensemble J.E.R., cuja especialidade é a execução musical em instrumentos de plástico. Formação plástica que se revela determinante na estética global do grupo, capaz de estimular não só o ouvido como o olhar. J.E.R. concebe todos os aspectos ligados ao projecto, dos figurinos ao desenho das partituras, passando pela coreografia de palco. Os Ensemble J.E.R. interpretam composições clássicas de Wagner, Stravinsky, Bruckner, Ravel, Richard Strauss (uma maravilha, o que fizeram à abertura do “Assim Falava Zaratustra”, no espectáculo que deram recentemente no cinema monumental, integrado nos “Mistérios de Lisboa”), ou Viana da Motta, mas também originais como “A saga da formiga”, “Mezcal” e “Futebol”, compostos pelo próprio José Eduardo Rocha, em instrumentos como o clarinete Antonelli, o saxofone Bontempi ou o violino Chicco. O importante, diz, é “explorar todas as potencialidades polifónicas, melódicas, harmónicas, semânticas e agógicas dos instrumentos de plástico, simultaneamente objectos sonoros e adereços, de modo a permitir uma relação entre a sua poética e as suas possibilidades dramáticas”.
Nestes instrumentos, ou em outros brinquedos musicais, encontrou J.E.R. uma genealogia, inscrita na história da música. “Se formos à antiguidade, reparamos que há instrumentos que eram na altura considerados nobres e que hoje em dia consideraríamos brinquedos, como certos cornos ou tambores, depois, já mais recentemente, no chamado período clássico, há uma série de instrumentos ‘esquisitos’ que aparecem de vez em quando nas formações orquestrais, É sabido, por exemplo, que o pai do Mozart, Leopold, compôs uma sinfonia para brinquedos, com um naipe de cordas e um naipe de brinquedos. O Haydn também tem uma sinfonia infantil…”. A escolha dos instrumentos dos Ensemble J.E.R. passa precisamente por “um cero imaginário da orquestra”, por isso o seu líder escolhe apenas instrumentos “que sirvam a ideia de naipe, de sopros, cordas ou percussões”.
O humor é outra das tónicas na estética dos J.E.R. Vários tipos de humor, do mais evidente, manifesto na escolha da indumentária, na encenação de certos temas (Em “Futebol” os músicos entram em palco a galope, nas suas vestes de legionários romanos, fazendo lembrar uma situação dos Monty Python) ou no mimetismo de certos gestos “eruditos” do executante, até a um nível mais subtil, que se desenrola no interior do próprio discurso musical. “A questão do humor é séria”, diz J.E.R. “Se calhar as pessoas que poderão encontrar mais motivos de graça real, no sentido intelectual, são as pessoas com maior sensibilidade musical. Quando, em termos de música clássica, exploro a ‘fuga’ ou a sonata, as pessoas mais especializadas se calhar serão as que melhor podem entender esse humorismo até às últimas consequências”. Mas, garante, mesmo o público leigo pode captar esse humor. Quando as pessoas se riem quando toco a abertura do ‘Zaratustra’ é sinal de que a peça está a resultar. Claro que há também o riso histérico. Por vezes as nossas roupas, ou os nossos instrumentos, por si sós, já provocam o riso. Mas as pessoas também se riem em certas passagens de Mozart… Já tenho visto pessoas a rir com obras de Ligetti…”.
“Pesquisar é comprar”, diz J.E.R., a propósito da maneira como adquire os instrumentos de que o grupo necessita. “Ando pelo país todo, pelas feiras, pelas lojas de brinquedos. No Norte, em Aveiro ou no Porto, há lojas de brinquedos incríveis. Alguns retalhistas já me fazem descontos”. Sai barato? “Desde Setembro já gastei para aí trezentos contos!…”.
Neste universo peculiar saído da mente de J.E.R. tudo encaixa no seu lugar, obedecendo a lógicas das quais se calhar já esquecenmos o segredo, como num sonho de uma criança. “A fenomenologia infantil é importante em todas as artes. Nós só exageramos um bocadinho quando puxamos essa corda sensível. Daí o projecto de adaptar obras-primas a instrumentos de plástico, de José Afonso até um projecto futuro com uma ópera de Wagner”. É música no sentido mágico do termo, que nos reconcilia com os movimentos – sem outro objectivo senão o prazer e a liberdade do voo – do Espírito. O humor, na sua expressão mais elevada, como o entendia Nietzsche.