pop rock >> quarta-feira >> 05.07.1995
Cinco Anos De Ensemble J.E.R.
ZARATUSTRA NO PÁTIO DE RECREIO

José Eduardo Rocha, J.E.R., estudou pintura, mas a sua paixão “mais antiga” é a música. Fundou há cinco anos os Ensemble J.E.R., cuja especialidade é a execução musical em instrumentos de plástico. Formação plástica que se revela determinante na estética global do grupo, capaz de estimular não só o ouvido como o olhar. J.E.R. concebe todos os aspectos ligados ao projecto, dos figurinos ao desenho das partituras, passando pela coreografia de palco. Os Ensemble J.E.R. interpretam composições clássicas de Wagner, Stravinsky, Bruckner, Ravel, Richard Strauss (uma maravilha, o que fizeram à abertura do “Assim Falava Zaratustra”, no espectáculo que deram recentemente no cinema monumental, integrado nos “Mistérios de Lisboa”), ou Viana da Motta, mas também originais como “A saga da formiga”, “Mezcal” e “Futebol”, compostos pelo próprio José Eduardo Rocha, em instrumentos como o clarinete Antonelli, o saxofone Bontempi ou o violino Chicco. O importante, diz, é “explorar todas as potencialidades polifónicas, melódicas, harmónicas, semânticas e agógicas dos instrumentos de plástico, simultaneamente objectos sonoros e adereços, de modo a permitir uma relação entre a sua poética e as suas possibilidades dramáticas”.
Nestes instrumentos, ou em outros brinquedos musicais, encontrou J.E.R. uma genealogia, inscrita na história da música. “Se formos à antiguidade, reparamos que há instrumentos que eram na altura considerados nobres e que hoje em dia consideraríamos brinquedos, como certos cornos ou tambores, depois, já mais recentemente, no chamado período clássico, há uma série de instrumentos ‘esquisitos’ que aparecem de vez em quando nas formações orquestrais, É sabido, por exemplo, que o pai do Mozart, Leopold, compôs uma sinfonia para brinquedos, com um naipe de cordas e um naipe de brinquedos. O Haydn também tem uma sinfonia infantil…”. A escolha dos instrumentos dos Ensemble J.E.R. passa precisamente por “um cero imaginário da orquestra”, por isso o seu líder escolhe apenas instrumentos “que sirvam a ideia de naipe, de sopros, cordas ou percussões”.
O humor é outra das tónicas na estética dos J.E.R. Vários tipos de humor, do mais evidente, manifesto na escolha da indumentária, na encenação de certos temas (Em “Futebol” os músicos entram em palco a galope, nas suas vestes de legionários romanos, fazendo lembrar uma situação dos Monty Python) ou no mimetismo de certos gestos “eruditos” do executante, até a um nível mais subtil, que se desenrola no interior do próprio discurso musical. “A questão do humor é séria”, diz J.E.R. “Se calhar as pessoas que poderão encontrar mais motivos de graça real, no sentido intelectual, são as pessoas com maior sensibilidade musical. Quando, em termos de música clássica, exploro a ‘fuga’ ou a sonata, as pessoas mais especializadas se calhar serão as que melhor podem entender esse humorismo até às últimas consequências”. Mas, garante, mesmo o público leigo pode captar esse humor. Quando as pessoas se riem quando toco a abertura do ‘Zaratustra’ é sinal de que a peça está a resultar. Claro que há também o riso histérico. Por vezes as nossas roupas, ou os nossos instrumentos, por si sós, já provocam o riso. Mas as pessoas também se riem em certas passagens de Mozart… Já tenho visto pessoas a rir com obras de Ligetti…”.
“Pesquisar é comprar”, diz J.E.R., a propósito da maneira como adquire os instrumentos de que o grupo necessita. “Ando pelo país todo, pelas feiras, pelas lojas de brinquedos. No Norte, em Aveiro ou no Porto, há lojas de brinquedos incríveis. Alguns retalhistas já me fazem descontos”. Sai barato? “Desde Setembro já gastei para aí trezentos contos!…”.
Neste universo peculiar saído da mente de J.E.R. tudo encaixa no seu lugar, obedecendo a lógicas das quais se calhar já esquecenmos o segredo, como num sonho de uma criança. “A fenomenologia infantil é importante em todas as artes. Nós só exageramos um bocadinho quando puxamos essa corda sensível. Daí o projecto de adaptar obras-primas a instrumentos de plástico, de José Afonso até um projecto futuro com uma ópera de Wagner”. É música no sentido mágico do termo, que nos reconcilia com os movimentos – sem outro objectivo senão o prazer e a liberdade do voo – do Espírito. O humor, na sua expressão mais elevada, como o entendia Nietzsche.













