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Vários (Brigada Victor Jara, La Bottine Souriante) – “A 19ª Edição Abre Hoje Na Quinta Da Atalaia – Militantes Da Folia”

cultura >> sexta-feira, 01.09.1995


CULTURA | FESTA DO “AVANTE!”

A 19ª Edição Abre Hoje Na Quinta Da Atalaia
Militantes Da Folia


“Danças e Folias”, o novo álbum da Brigada Victor Jara, é apresentado esta noite ao vivo no espectáculo de abertura da XIX edição da Festa do “Avanat!”. É o regresso em força da banda coimbrã que há 20 anos cantava o trovador chileno Victor Jara e hoje surge como uma das bandas de música de raiz tradicional portuguesa com mais pergaminhos.



Depois de “Monte Formoso”, editado em 1989, e da colectânea “15 Anos de Recriação da Música Tradicional Portuguesa”, “Danças e Folias” traz finalmente a Brigada de novo para a ribalta, com um lote de 11 novos temas inspirados no nosso folclore, fruto de recolhas efectuadas por Michel Giacometti. Margot Dias, Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, António Maria Moutinho e Aurélio Malva.
Com este último elemento do grupo, o PÚBLICO falou a propósito do disco e do concerto agendadopara hoje.
PÚBLICO – A apresentação desta noite tem características especiais?
AURÉLIO MALVA – Vai ter um alinhamento especial, com incidência no novo trabalho, ao qual acrescentámos três temas antigos. Por outro lado, vai haver algumas coreografias, uma vez que o disco incide realmente sobre danças: uma entrada de “caretos” [bailarinos mascarados] de Trás-Os-Montes, uma coreografia sobre o tema da mazurca e outra, uma dança, sobre a “Cana Verde”, numa linha mais tradicional, com a colaboração do GEFAC, Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra.
P. – Estão previstos convidados?
R. – Sim, todos os que participaram no disco. André Sousa Machado, na bateria, António Pinto [colaborou nos últimos anos com Fausto], na guitarra, José Medeiros [trabalhos na área da televisão e do vídeo, na RTP dos Açores, tendo produzido a série “Xailes Negros”, gravou ainda, a solo, o álbum “Ala Bote”], voz, Jorge Reis, no saxofone, Pedro Jóia, que vai fazer um solo de guitarra andaluza na “Moda da zamburra”, Tomás Pimentel, no trompete, e uma rapariga, muito pouco conhecida mas que canta divinamente, Margarida Miranda. Tem uma formação mais clássica, ligada à música sacra, e uma voz muito trabalhada.
P. – Alguns desses nomes, como André Sousa Machado, Jorge Reis e Tomás Pimentel, vêm do jazz…
R. – São nossos amigos. E gostam de música de raiz tradicional. Penso até que os músicos de jazz em geral, mesmo a nível internacional, de alguma maneira procuram raízes étnicas, até como forma de análise da música modal ou das harmonias. Nós procuramos percorrer o caminho inverso, não nos fecharmos nem cristalizarmos na mera reprodução do tradicional.
P. – A que se deve um intervalo tão longo entre este novo disco e o anterior, “Monte Formoso”?
R. – É complicado. É feio dizer isto, mas talvez tenha havido alguma preguiça… Por outro lado, o processo de criação no grupo passa de cada vez por um ou outro músico particular que avança com propostas, soluções ou arranjos. No caso de 2Danças e Folias”, a maior parte dos arranjos passaram por mim e pelo Ricardo Dias. O que significa que, de certa forma, tenho que ser eu a penalizar-me por não ter acelerado um pouco mais as coisas…
P. – Até agora tem valido a pena esperar, com o pormenor de todos os discos da banda serem bastante diferentes uns dos outros…
R. – Tentamos apresentar-nos como um grupo homogéneo, ao nível do produto final, do que aparece em cima do palco ou no disco, mas essa homogeneidade é difícil de conseguir. A Brigada começou por ser um grupo muito ligado à recolha e à sua reprodução, mas hoje, e de há uns anos a esta parte, quer ir avançando mais e mais. É evidente que há várias linguagens musicais no seio deste grupo. Chegarmos a uma estética final coerente não é fácil.
P. – A Brigada tem tocado ao vivo com assiduidade nos últimos tempos?
R. – Temos feito bastantes espectáculos e continuamos a fazê-los, quer neste jardim à beira-mar plantado, quer lá fora. O ano passado, por exemplo, estivemos em Macau. E na Bélgica, em Bruxelas, ombreando com bandas de alto gabarito, inglesas e irlandesas. Tem-nos é faltado uma gestão de carreira. Agora já temos alguém para cuidar deste aspecto, o Soares Neves, da Vachier e associados. Vamos lá ver como é que a coisa vai funcionar. Há ideias curiosas no sentido de mediatizar mais aquilo que fazemos.
P. – Volvidos 20 anos de carreira, não existe um desfasamento entre a designação do grupo e a sua estética musical actual?
R. – Um nome demora muito tempo a construir. Temos 20 anos e recomeçarmos tudo de novo, pelo menos ao nível da designação, seria um perfeito suicídio. Mesmo assim, o nome Brigada continua a fazer sentido. É claro que a questão do Victor Jara, podemos talvez, enfim, pô-la um bocado em segundo plano. Não porque tenhamos reservas em relação a ele – a Brigada, quando surgiu, em 1975, começou por cantar música da América Latina, fundamentalmente do Chile. De resto, os nossos cartazes, destacam “A Brigada”, o nome Victor Jara aparece já relegado para segundo plano. Continuamos a assumir o nome de Brigada porque continuamos a ser, de certa forma, militantes. Não a nível politiqueiro, mas de uma militância cultural. Choca-nos bastante que a nossa música, a música portuguesa, verdadeiramente popular, que se revê nas raízes do que somos, passe horas e Às vezes até dias sem ser ouvida na rádio. A Brigada rema contra essa maré.

(Fernando Magalhães com Jorge Dias)
O Humor Do Quebeque Com La Bottine Souriante
Uma Bota, Crocodilos, “Blues” E Um Pé De “Ceilidh”



LA BOTTINE Souriante, o humor e a diferença a música do Quebeque, vão aterrar na Quinta da Atalaia, vindos do Canadá, para mais uma edição, a 19ª da Festa do “Avante!”. Directamente de Montreal, a “Bota Sorridente” apresenta (no palco 25 de Abril, no sábado, pelas 20h00) a sua mestiçagem de sons que sintetizam as tradições francesa, inglesa, irlandesa e escocesa, chegadas ao novo continente no século XVII. Ou seja, música de raiz celta, filtrada pela bonomia e o espírito de aventura dos colonos para quem o respeito pelos antepassados não obsta a mil e uma tropelias e transgressões. Algo que se nota sobretudo no seu álbum mais recente, “La mistrine”, uma orgia de jogos bem humorados com a língua francesa, os ritmos de “reel” e incursões no rock, no jazz e até num “Rap a Ti-pé-tang” que contrastam com a maior seriedade dos álbuns anteriores “Chic & Swell” e “La Traversée de l’Atlantique”, ambos com o selo Green Linnet e distribuição nacional pela MC – Mundo da Canção.
Do Sul, oriundos dos pântanos (“bayou”) da Louisiana, chegam os French Alligators, um quarteto de música “cajun”, essa mistura bizarra de influências europeias, africanas e caraibenhas com os “blues” nativos (actuam também no sábado, mas no auditório 1º de Maio, pelas 21h00). Os “blues” que marcarão presença em força nesta Festa através dos Chicago Rhythm & Blues Kings, uma superbanda que trará consigo convidados de renome como A.C. Reed, Cash McCall, Sidney James Wingfield e Katherine Davis, e que são apresentados como fazendo “uma fusão entre os ‘blues’ eléctricos de Chicago, o impacte dos metais da ‘soul’ de Memphis e o enérgico balanço do ‘rhythm ‘n’ blues” (sábado, palco 25 de Abril, pelas 23h00).
Os White Horse Ceilidh Band representam, por seu lado, a Irlanda, este ano menos sofisticada, mas com uma reserva adicional de danças “ceilidh” em duas actuações (sábado e no domingo, no auditório 1º de Maio, respectivamente pelas 19h30 e 15h00). Fapy Lafertin, guitarrista francês de origem cigana (“manouche”), fará com os Le Jazz uma homenagem a uma das lendas da guitarra, Django Reinhardt, também ele de ascendência cigana (sábado, auditório 1º de Maio, pelas 22h00).
Numerosa e diversificada vai ser a presença portuguesa, este ano com a inclusão de algumas surpresas, com especial destaque para Pedro Abrunhosa e os Bandemónio, que irão fechar a programação do palco maior da Festa (domingo, palco 25 de Abril, pelas 20h45), e Fausto, que regressa às lides comunistas após longos anos de ausência com a apresentação do seu mais recente álbum, “Crónicas da Terra Ardente” (sábado, também no palco 25 de Abril, pelas 21h30).
Em alta, a Brigada Victor Jara vem estrear à Atalaia o seu novo álbum “Danças e Folias” (sexta, no palco 25 de Abril, pelas 22h00) – ver texto principal), o mesmo acontecendo com os angolanos Kussundolola (que, na sexta, irão abrir o palco 25 de Abril, pelas 21h00) com os sons reggae de “Tá-se Bem”. De resto, este ano, e no campo dos nomes nacionais, a Festa é mais diversificada que nunca em termos de estilos, com a presença de General D (sexta, palco 25 de Abril, pelas 23h30) em antestreia do seu primeiro álbum com os Karapinhas; o novo fado apresentado por Mísia (sexta, auditório 1º Maio, 23h00); o jazz apresentado pelo quarteto de João Paulo (no mesmo dia e local, às 22h00) e o Quinteto de Carlos Barreto (sábado, também no auditório 1º Maio, pelas 23h00); o heavy metal dos Ramp (sábado, no palco 25 de Abril, pelas 15h30), o rock de Xana (mesmo dia, mesmo local, pelas 16h30); o folk-rock dos Quinta do Bill (idem, pelas 17h45); mais música de raiz tradicional com a Quadrilha (idem, pelas 19h00), e a música de vanguarda e o jazz com os Telectu que se apresentam com a colaboração do “terrorista” da “downtown” novaiorquina Elliott Sharp (sábado, auditório 1º Maio, 18h00) e ainda Vítor Rua, que mostrará o seu projecto paralelo Vidya Ensemble (domingo, no auditório 1º de Maio, às 16h00).
Jorge Palma apresentará o espectáculo “Na Terra dos Sonhos”, acompanhado por uma grande banda e com uma retrospectiva das melhores canções da sua carreira (domingo, no palco 25 de Abril, pelas 19h30), os Tabanka Djazz introduzirão os presentes aos ritmos de África (mesmo dia, mesmo palco, pelas 15h00), enquanto o novel grupo Navegante irá apresentar canções de tradição portuguesa com homenagens a Zeca Afonso e Fernando Pessoa (domingo, palco 25 de Abril, 16h00). De destacar ainda uma “Noite de Fado Clássico”, com Beatriz da Conceição, António Rocha, Camané, Aldina Duarte, Maria da Nazaré e um grupo de guitarra e violas sob a direcção do professor José Fontes Rocha (domingo, auditório 1º Maio, pelas 20h30), e uma apresentação da Orquestra Metropolitana de Lisboa dirigida pelo maestro Miguel Graça Moura (sábado, no mesmo local, pelas 16h00).

Rolling Stones – “Rolling Stones Diabólicos Deitam Fogo Aos Clássicos Em Alvalade – Retro Activos”

cultura >> quarta-feira, 26.07.1995


Rolling Stones Diabólicos Deitam Fogo Aos Clássicos Em Alvalade
Retro Activos


Os Stones ainda mexem. Como cobras. O espectáculo “Voodoo Lounge” que apresentaram em Lisboa combina canções antigas, energia em doses transbordantes e cheiro a enxofre. Significa que os Rolling Stones foram “retro” e mais activos do que nunca. Cinquenta mil pessoas receberam em Alvalade o que estavam à espera: “Satisfaction”.



O estádio de Alvalade, em Lisboa, encheu na noite de segunda-feira para cumprir o segundo ritual português de adoração aos Rolling Stones. Mick Jagger e companhia corresponderam com a celebração de outro ritual, este pagão, inspirado no fogo e no rock ‘n’ rol remetido às suas origens e premissas de base: os “blues”, o sexo, a dor e a revolta. Claro que aos cinquenta anos de idade tudo se reduz à encenação, com o espectáculo a sobrepor-se às convicções e os quatro Stones a funcionarem como actores de si próprios e de um passado com o qual agora procuram estabelecer contacto a todo o custo.
Mas funcionou. Durante duas horas e um quarto Jagger, Richards, Watts e Wood conseguiram oferecer a ilusão de que ainda acreditam. Melhor ainda, que têm força para continuar a acreditar.
O mesmo não aconteceu com os Black Crowes, que durante a hora de aquecimento que lhes coube, deram a ideia de já estarem mortos há muito.
O seu “hard rock” fabricado sobre intermináveis e massacrantes solos de guitarra constituiu uma barragem decibélica que em vez de animar cortou a excitação que pairava no ar. Foram chatos. Foram Inúteis. Foram incomodativos. Ninguém lhes ligou. Quando puseram, por fim, termo à chinfrineira, nas bancadas suspirou-se de alívio.
Quinze minutos antes das 11h00, Mick Jagger irrompe sobre o palco e é a primeira descarga de adrenalina. Os seus movimentos reptilíneos adaptam-se na perfeição à temática do concerto. Como uma serpente, o avô do rock, hipnotizou e segregou veneno. “Fade away” inaugura, por entre um mar de fogueiras, uma sequência de canções que no final registaria um total de vinte e três.
Em termos visuais, depois da cobra de metal que se erguia de um dos lados do palco, já ter cuspido um jacto de chamas, o primeiro grande momento acontece durante “Sparks will fly”, “trompe lóeil” luminotécnico em que as luzes de palco se prolongam pelo espaço virtual criado no gigantesco ecrã (o termo técnico é “jumbotron”) instalado atrás dos músicos. À explosão de luzes segue-se de imediato a explosão de meia centena de milhar de gargantas que entoam em coro cada verso de (I can’t get no) Satisfaction”, o “single” de 1965. Ilusão ou não, foi impossível não sentir um arrepio ao ver Jagger vociferar e correr como um possesso, como se, passados 30 anos, ainda conservasse a mesma insatisfação e a mesma raiva. Estava instalada a cumplicidade. A partir daí Jagger estabeleceu várias vezes com o público aquele tipo de comunicação só possível num concerto de música rock, a qual consiste na emissão e recepção de urros entre o artista e a assistência. O tribalismo na sua versão mais mediática. Chamam-lhe “show business”.
“Beat of burden” é acompanhado, no ecrã, por imagens animadas subtilmente escabrosas, e “Angie” faz levantar os isqueiros. Nas bancadas e na relva vêem-se pares enlaçados. Uns dançam, outros aproveitam para ensaiar outro tipo de encaixes anatómicos, como forma de luta contra o frio da noite. Mas Jagger não lhes dá descanso e regressa em alta voltagem, com “Like a rolling stone”, de Dylan, harmónica na boca e uma sessão de pulos. Depois de “Ooh ooh the heartbreaker” tem início a parte erótica, com Lisa Fisher a assumir o protagonismo e os olhos da multidão em bico contra os primeiros-planos da senhora oferecidos pela câmara. 2Gimme Shelter”, “I go wild” e, sobretudo, “Miss you” pertencem-lhe. “O melhor da noite”, exclama alguém. Bobby Keys dispara num solo desenfreado no saxofone enquanto Ron Wood faz o seu número da corrida para finalmente Jagger exclamar em português: “Vocês são fantásticos!”. A multidão não se fez rogada e a apreciação de Lisa Fisher encontra uma nova forma de expressão: “Tira, tira, tira!”. “Honk tonk women” mantém os ânimos acesos com nova série de imagens projectadas no “jumbotron” – desta feita “bad girls” de várias épocas e feitios – algumas delas em poses pouco ortodoxas. Richards pontapeia o piano, pondo fim a um apropriado solo “honky tonk”.
É preciso põr água na fervura e, par tal, nada melhor que pôr Keith Richards a cantar. O que ele faz, conseguindo num ápice gelar a assistência com as interpretações paquidérmicas de “Happy” e “Slipping Away”. 2Está na altura de a gente se ir embora”, diz uma voz mais enfastiada. Não era caso para isso.
Das trevas surge entretanto um aglomerado de insufláveis de aspecto diabólico. O palco transforma-se num “Grand Guignol”, com várias personagens sinistras a balouçarem-se sobre os músicos que cantam “Sympathy for the devil”. Mick Jagger, – de óculos escuros e um chapéu como os de um velho alquimista dos sons de New Orleans e das artes “voodoo”, Dr. John – não esqueceu um velho amigo. “Old Mick” e “Old Nick”. Os dois, por vezes, confundem-se…
Até ao final é uma sucessão imparável de velhos êxitos: “Street fighting man”, demoníaco, entre a orgia das luzes, “Start me up”, acompanhado de nova explosão de fogo, “It’s only rock ‘n’ rol (but I like it)”, “Brown sugar”, e, no “encore” previsto, “Jumpin’ Jack flash”, em que Jagger leva ao extremo as suas proezas atléticas. Tudo termina como começou. Com fogo, já não das fogueiras do “bayou”, mas o dourado do fogo de artifício. Os répteis recolheram à toca.

The Rolling Stones – “Reeditada Discografia Americana Dos Stones Dos Anos 60 – Arco-Íris Desbotado”

cultura >> segunda-feira, 24.07.1995


Reeditada Discografia Americana Dos Stones Dos Anos 60
Arco-Íris Desbotado


HOJE à noite, os Stones regressam ao Estádio de Alvalade para mais um grandioso espectáculo geriátrico, perdão, mediático. A acompanhar esta nova prova de vitalidade dos avozinhos do rock, acabam de ser reeditados, pela Polygram, as versões “digitally remastered from original master recordings” de toda a discografia dos anos 60 do grupo. Bom, a chatice é que não se trata exactamente dos discos originais – edições inglesas com o selo Decca -, mas de reproduções das edições americanas que até 1967 se publicaram em paralelo do outro lado do Atlântico. E daí, não é a mesma coisa? Não é bem. Os álbuns americanos não respeitavam os alinhamentos originais e tinham o mau costume, muito americano, de acrescentarem aos discos, como quem não quer a coisa, alguns “hits” do grupo, sacrificando outros temas que foram e simplesmente deitados para o lixo.
Significa isto que os discos agora relançados com o chamariz de um som mais consentâneo com os pergaminhos daquela que foi considerada “a maior banda de rock ‘n’ roll do planeta”, constituem o que se pode chamar publicidade enganosa. Em local algum dos mesmos vem mencionado que se trata das edições americanas. Estão incluídos neste caso o disco de estreia dos Stones, de 1964, no original inglês sem qualquer título, conhecido simplesmente por “The Rolling Stones”, que na versão americana da London passou a chamar-se “England’s Newest Hitmakers” – The Roling Stones”, 2Out of Our Heads”, de 1965, “Aftermath”, de 1966, e “Between the Buttons”, de Janeiro de 1967. A partir de “Their Satanic Majesties Request”, também de 1967, as versões inglesa e americana passaram a ter alinhamentos coincidentes.
Temos então o disco de 1964 que aparece aumentado com “Not Fade Away”, enquanto “Out of our Heads”, de 1965, se viu “enriquecido” com “The last time” e o megahit “8I can’t get no) satisfaction”. “Aftermath” ganhou uma nova abertura, “Paint it black”, que não existe no original inglês, tendo desaparecido “Mother’s little helper”, “Out of time” e “Take it or leave it”. Quanto a “Between the Buttons”, arranjou-se “Let’s spend the night together” para abrir e deitou-se fora “Back street girl” e “Please go home”. Os alinhamentos diferem igualmente dos ingleses. Se não se compreende muto bem esta opção pelas edições “adulteradas” menos se compreende ainda que tenha sido deixado de fora o segundo álbum do grupo, de 1965, igualmente sem título na versão original inglesa e conhecido por “The Rolling Stones no. 2”.
Em resumo, o lote de reedições inclui, além da já citada reconversão do primeiro disco, “Out of our Heads” e “Between the Buttons”, ainda “Their Satanic Majesties Request”, “Beggar’s Banquet” (1968) e “Let it Bleed”, o último dos Stones dos anos 60, lançado em Novembro de 1969, tudo gravações de estúdio. Depois há as colectâneas destinadas mais a quem não gosta propriamente dos Rolling Stones mas sim das canções que andaram nos ouvidos ou nos “tops”: “12×5” (64, espécie de contrapartida do segundo álbum inglês de originais), “The Rolling Stones now!” (65), “December’s Children (and everybody’s)” (65), “Big Hits (High tide and Green Grass)” (66), “Flowers” (67, nunca editado em Inglaterra) e “Through the Past Darkly (Big hits, Vol.2)”.
Ainda mais recicladas são as colectâneas de colectâneas, caso dos compactos duplos “Hot Rocks 1964-1971” e “More Hot Rocks (Big Hits & Fazed Cookies2)” que misturam os temas das colectâneas “Big Hits” e “Through the Past Darkly”. Confusos? Considerem que é preciso rentabilizar o produto, baralhar de novo, impingir o mito às gotas, custe o que custar! Já nos estávamos a esquecer: também voltou a sair o disco ao vivo “Got Live if you Want” que não é mais do que o correspondente americano de “Have you Seen your Mother Live1”, de 1966. Por fim aí está o ajuntamento de “singles”, “The Singles Collection, The London Years”. Fica um sabor a frustração e a oportunidade perdida.
Os Stones não têm culpa. A música, façam o que lhe fizerem, há-de perdurar em desafio. A erguer a espada dos “rhythm ‘n’ blues” negros na voz de brancos contra a imagem “clean” projectada na mesma época pelos Beatles. A obrigar a pensar no “rock ‘n’ rol” como um acto de revolta e transgressão. Dizem que o Jagger assinou um contrato com o diabo. É bem possível que tal tenha acontecido. O que este lhe deu em troca estamos nós agora a levar com isso em cima. Cada pulo e correria pelo palco do vocalista da banda de cinquentenários é uma facada no coração, um dó de alma, uma traição à música e ao próprio passado do grupo.
Consta que os Stones estão a vender saúde e que no seu novo espectáculo ainda são capazes de não deixar cair as guitarras no chão. Folgamos em sabê-lo. Até os respeitamos. Mas se quiser mesmo saber o que o diabo lhes ofereceu na altura, realmente valioso, talvez seja preferível escutar esse manifesto do psicadelismo voltado do avesso que é “Their Satanical Majesties Request”, resposta maldita a “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (Porque será que existem tantas respostas a este disco?…) dos “fabulous four” de Liverpool, o compêndio de Pop malsã chamado “Between the Buttons” ou a obra-prima “Beggar’s Banquet”, onde os “blues” voltam com um brilho estranho, como se ainda não tivessem secado da inundação de LSD. Mas quem é que acredita que o demo se escondia entre os “hippies”, tinha rosto de mulher e as cores do arco-íris’”?