cultura >> sábado, 24.06.1995
Fausto No S. Luiz, Em Lisboa
A Chula Salva-se Assim

O QUE faz um bom concerto? A música, obviamente, mas não só. O ambiente, a cumplicidade com o público, a inspiração de momento, a própria imprevisibilidade contribuem para tornar um espectáculo de música em algo de especial e irrepetível. O concerto, um dos sues raros concertos, que Fausto deu anteontem e ontem, no teatro S. Luiz, em Lisboa, integrado na programação das Festas de Lisboa, teve um altíssimo desempenho dos executantes e o público, numeroso, aderiu por completo à síntese de música tradicional portuguesa com a leitura pessoalíssima que dela faz Fausto Bordalo Dias. Não houve falhas. Fausto, colocado à frente dos restantes seis músicos, voz clara e uma guitarra acústica a suportá-la, apresentou uma selecção de temas na maioria retirados do seu último trabalho discográfico, “Crónicas da Terra Ardente”. Entre a extroversão quase selvagem de “A chusma salva-se assim” e a introversão de solilóquios com a poesia e a guitarra acústica como únicas companheiras do canto, a música navegou por mares já dantes navegados, os do seu álbum e de todo o passado musical conhecido do autor.
Significa isto que faltou o elemento surpresa no que à partida, dada a raridade de aparições ao vivo de Fausto, poderia ter sido um espectáculo de excepção. Sobressaíram entre as mil e uma variantes sobre o ritmo de chula, as prestações individuais de Manuel Costa Reis, na bateria, e Fernando Molina (dos Romanças), nas percussões, num poderoso jogo percussivo a dois, a meio do tema “Os navegados”, e a entrega e entusiasmo totais de Ricardo Dias (da Brigada Victor Jara), no sintetizador, na gaita-de-foles com problemas de afinação e no acordeão, instrumento onde brilhou na vertigem do corridinho. Para que tudo decorresse como era de esperar, acabou toda a gente a dançar e a cantar e em coro O barco vai de saída, o tema mais popular de “Por Este Rio Acima”. Fausto e a sua banda regressaram para dois merecidos “encores”, no primeiro com uma canção de “Para Além das Cordilheiras” e “A guerra é a guerra”, também de “Por Este Rio Acima”, depois com a repetição de “O barco vai de saída”, em ambiente de euforia. Foi muito? Foi pouco? Só Fausto saberá como se livrar das malhas que o império tece.













