Arquivo da Categoria: Post-Punk

Laurie Anderson – “Laurie Anderson Apresentou ‘The Nerve Bible’ No Coliseu Mãe, Conta-me Uma História”

cultura >> sexta-feira, 07.07.1995


Laurie Anderson Apresentou “The Nerve Bible” No Coliseu
Mãe, Conta-me Uma História



Há quanto tempo não nos contavam histórias? Há quanto tempo não nos manifestavam o amor pelas palavras, não tanto pelo que elas dizem mas pelo calor que delas se desprende? Laurie Anderson pegou no futuro, nas palavras e nas imagens para nos fazer parar no tempo e pensar. Uma questão de evolução.

O Coliseu dos Recreios em Lisboa encheu para ver e ouvir Laurie Anderson e a sua tralha electrónica audiovisual. Esperava-se um espectáculo de pasmar, tecnologia em passagem de modelos, o futuro ali à mão. Bom, foi mais ou menos o que aconteceu sem ser impressionante por aí além. O espectáculo da noite de quarta-feira da “performer” norte-americana, integrado na digressão The Nerve Bible Tour, ponto final no ciclo Mistérios de Lisboa, dividiu-se em duas partes distintas.
Na primeira, Laurie evidenciou os seus dotes de contadora de histórias. Os monólogos substituíram a música. Na segunda, pelo contrário, a norte-americana de cabelo espetado tocou violino, cantou e chegou-se mais ao conceito da artista rock ‘n’ rol da nova idade.
Em termos de tralha esperava-se mais. Houve um painel triplo que abria e fechava, servindo de ecrã a excelentes imagens elaboradas por computador, alguns fumos banais, duas aparições franciscanas de raios “laser” e, na segunda parte, uma esfera e um cubo suspensos onde eram igualmente projectadas imagens. O violino fluorescente e a voz moldada no sexo masculino são “gimmicks” já conhecidos que não causaram qualquer surpresa. Pouco, a este nível, para as expectativas criadas. Mas funcional ao máximo.
O público foi deste modo obrigado a concentrar-se no essencial que, no caso de Laurie Anderson, são mesmo as palavras. O fogo, metáfora cara à autora, como elemento agregador e transmutador no ritual de transmissão da palavra, apareceu logo de início, na imagem de um livro em chamas. “Fahreneit 451, grau de destruição”, o fim e o início de uma nova forma de comunicação que regressou às formas primitivas da oralidade. Logo num dos primeiros temas a artista referiu esse movimento bidimensional do tempo que simultaneamente caminha na direcção do passado e do futuro. Laurie Anderson sentou-se à lareira electrónica e contou-nos histórias onde a credibilidade se confunde com o absurdo. Numa delas, um episódio, fictício ou não, pouco importa, passado no Tibete, a narração foi inteiramente feita em português. Uma história de palavras, do som das palavras e do seu efeito mágico eu terão salvo uma vida. A vibração pura e simples da voz, cordão umbilical de uma humanidade anterior a Babel.

O Fantasma De John Cage

A questão, posta por Laurie Anderson no início e no fim do espectáculo, é só uma: “As coisas estão melhores ou piores do que antes?”.
Convocados o físico Stephen Hawking e o fantasma de John Cage, nem assim surgiu uma resposta conclusiva. O tempo, omnipresente nas imagens de relógios, no som dos batimentos cardíacos, relativizado e transcendido no tempo subjectivo das histórias.
A segunda parte teve uma estrutura mais convencional. Feita de canções, se assim lhes quisermos chamar. Laurie Anderson solou no violino monstruosamente amplificado e distorcido, desafinou como qualquer ser humano vulgar e ironizou sobre o discurso e os jargões da modernidade que se ligam a Internet e ao ciberespaço, fabulosas fontes de lixo informativo que entre outros prodígios nos permitem estar a par, por exemplo, dos boletins meteorológicos de todas as regiões do globo. À saturação das palavras e da pluralidade dos seus sentidos contrapunham-se, no ecrã, imagens de povos e danças primitivas.
E foi assim, alternando histórias de “The Ugly One with the Jewels” com canções de “Bright Red” que Laurie Anderson respondeu, de forma subtil, à tal questão, “Estamos melhor ou pior do que antes?”. A resposta é que estamos na mesma. Ou como dizia John Cage, “estamos mais rápidos mas somos demasiado lentos para o perceber”.

David Byrne – “A Câmara Sacralizadora” (integral no Cinema Monumental)

pop rock >> quarta-feira >> 14.06.1995


A Câmara Sacralizadora



David Byrne
Noite David Byrne – Exibição de “True Stories”, “Stop Making Sense”, “Between The Teeth”, “Ile Aye” e uma selecção de dez telediscos dos Talking Heads. Com a presença do autor.
Sexta, 16, 22h
Between The Teeth, vídeo de um concerto com uma orquestra de mambo de nove elementos – sábado, 17, 15h
Stop Making Sense – domingo, 18, 15h
True Stories – segunda, 19, 15h
Ile Aye e telediscos – terça, 20, 15h
Todos os espectáculos no cinema Monumental
Exposição de fotografias, “Sacred Objects”. Inauguração no sábado, 17, 22h, em local a anunciar.
Com a presença do autor.

A presença de David Byrne em Portugal, integrada na programação dos Mistérios de Lisboa, depois de duas anteriores visitas em que actuou ao vivo, reveste-se de um interesse especial, uma vez que desta feita será posta em destaque a sua faceta de realizador e fotógrafo, enquanto por outro lado, voltará a ser equacionada a sua relação com as músicas latinas.
Se “Stop Making Sense”, uma das longas-metragens a apresentar no Monumental, com imagens de um concerto dos Talking Heads, tem a assinatura de Jonathan Demme, já “True Stories”, que representa a estreia de Byrne como cineasta, revela uma visão singular da sociedade norte-americana actual, através de uma série de retratos em que as várias figuras se movem sob a luz de um surrealismo bem-humorado, ao longo de uma “Road to Nowhere”, imagem-ícone nos limites do filme e da humanidade.
“Ile Aye” é uma média-metragem realizada por Byrne sobre a música brasileira, que o autor tem vindo a registar na sua editora Lwaka Bop. Para os menos disponíveis para ensaios de maior profundidade, serão exibidos telediscos dos Talking Heads”, com os temas “Once in a lifetime”, “Wild wild life”, “Stay at late”, “Crossed-eyed and painless”, “Burnin’ down the house”, “The she was”, “This must be the place”, “The lady don’t mind”, “Road to nowhere” e “Love for sale”.
Numa espécie de complement à primeira actuação de David Byrne no nosso país, no Coliseu, em plena fase latina de “Rei Momo”, o vídeo programado para o dia 20 terá a participação de uma orquestra de mambo – presente, aliás, no teledisco “Make believe mambo” -, constituída por Boby Allende, Jonathan Best, Angel Fernandez, Ite Jerez, Lewis Khan, George Porter Jr., Hector Rosado, Steve Facks e Oscar Sallas.
Finalmente, poderá ser vista a colecção de fotografias de genérico “Sacred Objects, Sleepless Nights”, na qual David Byrne recolheu imagens de objectos variados, sacralizados, segundo as suas palavras pela objectiva da cãmara fotográfica: “Como actividade”, diz Byrne, “esta sacralização é algo que aprecio. É uma relação de amor. Uma relação com objectos inanimados. O amor mais elevado é o amor mais estúpido. O sublime está no ridículo. Quando alguma coisa nos faz sentir estranhos, faz-nos igualmente muitas vezes sentir bem. Estas duas sensações estão de algum modo ligadas. Estranho igual a bom. É uma sensação física que se sente no estômago e estabelece contacto com os centros de prazer no cérebro.”
Em termos mais concretos: A câmara ajuda isto a acontecer e torna-se também um prazer. Um instrumento para erguer as coisas até níveis mais elevados. O acto de enquadramento é essencial para isolar os objectos ou os lugares. A câmara torna-se uma máquina que investe de poder as coisas e os lugares. Uma ferramenta de elevação. Um artefacto para remover as coisas do seu contexto mundano, de maneira a transformá-las em algo de diferente do que eram anteriormente, mais especial, mais valioso, mais poderoso. As coisas passam a valer por algo que as transcende.”
Uma boa definição do sagrado, aplicável à totalidade da obra de David Byrne.

John Cale – “John Cale Em Lisboa Para Acompanhar Ao Vivo ‘The Unknown’ – A Europa Sem Braços”

cultura >> sexta-feira, 02.06.1995


John Cale Em Lisboa Para Acompanhar Ao Vivo “The Unknown”
A Europa Sem Braços


O cinismo é, para John Cale, a característica que mais o impressiona em “The Unknown” (“O Homem Sem Braços”), obra-prima do cinema mudo realizada por Tod Browning, para a qual compôs uma partitura. “Tirei partido desse cinismo”, disse o antigo elemento dos Velvet Underground em conferência de imprensa dada ontem logo após a sua chegada ao aeroporto de Lisboa.



A ideia para John Cale compor e tocar ao vivo durante a projecção de “The Unknown” surgiu a partir de uma encomenda que lhe foi feita pela organização das “Jornadas do Cinema Mudo” realizadas em Pordenone. Uma ilustração sonora, em simultâneo com as imagens, para os amores cruéis entre Nanon e Malabar, com um circo por cenário, um espectáculo para ser visto e ouvido hoje às 22h no Cinema Tivoli, nos “Mistérios de Lisboa”, iniciativa da Associação Cultural Saldanha com o patrocínio da Expo-98.
“The Unknown”, a “banda-sonora”, alterna a linguagem electrónica dos sintetizadores, “indicada para pôr em relevo o lado sobrenatural da música”, com o piano e gravações de arquivo de vozes como as de Ezra Pound, T. S. Elliott e Winston Churchill, ou um excerto, a que chama “The hypnotist”, um discurso, “numa voz muito calmante”, com “conselhos às pessoas que sofrem de asma”.
Cale enfrentou o desafio que é dar uma nova coloração sonora a um clássico do cinema, reconhecendo que, neste caso, pela sua antiguidade, “foi preciso ter muito cuidado”. “Não é a mesma coisa”, disse, que “fazer uma digressão rock ‘n’ rol”. “Uma vez começada, não se pode parar a música”, disse ainda John Cale, referindo-se ao modo como trabalhou na partitura para a obra de Tod Browning que, de resto, constituirá a próxima edição discográfica do autor que no ano passado assinou “Last Day on Earth”, de parceria com Bob Neuwirth.
“É a história de um circo, uma alegoria sobre a Europa entre as duas guerras, e das deslocações das suas populações. Na minha juventude, no País de Gales, sempre achei os filmes passados em circos muito deprimentes. Tive sempre a ideia que as pessoas do circo não tinham uma verdadeira casa, que andavam sempre à deriva. Num circo cada um desempenha um papel determinado, de padre ou de polícia. No filme é como se não houvesse nenhuma lei. O cinismo da história está na maneira como a credulidade é levada ao extremo. É difícil acreditar que alguém possa pensar como a personagem desempenhada por Lon Chaney [Malabar, o homem dos músculos que se faz voluntariamente amputar os dois braços por amor de Nanon – Gloria Swanson, por esta não suportar que algum homem a tocasse]. Há uma sensação de claustrofobia no desenrolar da acção à qual a música não consegue fugir”.
Sobre a sua antiga companheira nos Velvet Underground, Nico, a cantora alemã presente no seminal “The Velvet Underground & Nico” e com a qual colaborou em vários dos seus discos a solo (“The Marble Index”, “Desertshore”, “The End…”) Cale referiu a sua personalidade metódica, enquanto actriz”, a aprendizagem no Actor’s Studio e os ensinamentos que lhe foram ministrados por Elia Kazan. “Vivia de acordo com o seu próprio relógio, o que fez sempre até ao fim da sua vida. O seu sentido de ‘timing’ era imaculado. E perturbante!”.
Nico era a actriz emblemática dos filmes de Philippe Garrel, o qual costumava dizer que fazia filmes “para não se suicidar”: “A Cicatriz Interior”, “Athanor” e “O Berço de Cristal”. Os três serão exibidos no cinema Monumental, integrados na programação dos “Mistérios de Lisboa”. John Cale, por seu lado, fez a música de “La Naissance de l’Amour”, deste mesmo cineasta, e mais recentemente “Paris s’Éveille”, do Oliver Assayas, e “N’ Oublie pas que tu vas Mourir”, de Xavier Beuavois, vencedor do prémio do Júri no Festival de Cannes deste ano.
No Tivoli teremos um John Cale “desconhecido”. A sua música do cinismo e da crueldade.