pop rock >> quarta-feira >> 25.10.1995
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HORA DO RANCHO

a Movieplay está a postos para reeditar muito em breve uma série de gravações de ranchos folclóricos. Para tal, inventou um novo selo subsidiário, denominado Folclore Português. Trata-se de gravações dos anos 60, 70 e 80 originalmente lançados pela Alvorada, Tecla, Orfeu e Riso e Ritmo. Os ranchos, agora arrancados do seu justo descanso, dão pelos nomes de Grupo Folclórico de S. Miguel, Grupo Folclórico da Região do Vouga, Grupo Folclórico de Cidacos, Rancho Folclórico da Casa do Povo de Maiorca, Rancho Folclórico de Castelo de Vide ou Rancho Folclórico de Torredeita. As regiões do país contempaldas são, como se depreende, todas.
Numa altura em que se julgavam enterrados para sempre os fantasmas do passado e irradiado o espectro da “folclorite”, dos maus velhos tempos do Estado Novo e do grande “educador” Pedro Homem de Mello, eis que a Movieplay lança a sua estocada mortífera e a sua viagem para trás no tempo. Percebe-se a jogada. O panorama editorial português, nesta área, mexe como nunca mexeu antes. Lá fora, a “folk”, a “world music”, as alamedas étnicas de tudo o que é música estão de feição. Logo, é preciso lançar a rede ao mar enquanto houver peixe. Não se vislumbra, neste lance editorial, uma afeição real pela nossa tradição nem uma aposta na sua renovação mas tão só uma atitude mercantil.
O conceito-base é simples: “Se a ‘folk’ é o que está a dar, vamos lá buscar as “origens” ao fundo do bau!”. O problema está em que a estratégia parte de pressupostos errados. A música dos ranchos folclóricos não é nem se pode considerar, de forma alguma, esse repositório antigo de tradições que se pretende que seja, mas antes a sua adulteração. É, sem dúvida, uma emanação da cultura popular e, como tal, merecedora de atenção. Como cultural e popular é a atitude do emigrante que regressa para poluir a paisagem com a construção da sua “maison” toda em azulejos e cores berrantes. Os ranchso, na maioria constituídos para turista ver, representam o lado pindérico da nossa música tradicional. O “Portugal dos Pequeninos”, inculto e maneirinho, que Salazar tratava como seu jardim particular.
A reedição que a Movieplay se propõe levar a cabo é, para todos os efeitos, um acto reacionário. Um apsso atrás na reavaliação, renovação e evolução da nossa música tradicional e de raiz tradicional. Já para não falar do interesse, muito relativo, que tem escutar um rancho folclórico em versão digital… Tanto mais lamentável quando se sabe que no fundo de catálogo da editora repousam algumas preciosidades – álbuns antigos da Ronda dos Quatro Caminhos, Vai de Roda ou Terra a Terra – à espera que alguém lhes deite a mão. O que, tanto quanto sabemos, a Movieplay tem inteções de fazer. Honra lhe seja feita…
Fernando Magalhães
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