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Jon Hassell – “City: Works Of Fiction”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 15 AGOSTO 1990 >> Videodiscos >> Pop


O INTRÉPIDO EXPLORADOR

JON HASSELL
City: Works of Fiction
LP e CD, Land



Cada dia que passa, o planeta Terra torna-se mais pequeno. A aldeia global de que falava McLuhan deixou de ser uma utopia (ou antiutopia, consoante a perspetiva…), para se tornar uma realidade insofismável. Apesar disso, permanecem invioláveis (até quando?) culturas e costumes desalinhados da grande metrópole totalitária em que se vai tornando o monstro ocidental. Ao Terceiro Mundo e às regiões exóticas do globo vai uma certa classe de músicos buscar inspiração e orientação para a feitura de complexas síntese formais e conceptuais. Às músicas das diferentes culturas regionais, únicas nas suas particularidades intrínsecas, justapõe-se uma música do mundo, que, justamente, daquelas se serve para a criação de unidades multifacetadas e surreais, o todo transcendendo as partes que o integram. Música universal, juntando na mesma viagem a eletrónica e o artesanato étnico, a emoção primitiva e o racionalismo contemporâneo.
A partir da massa primordial e informe das pesquisas iniciais, surgiu uma elite de compositores, capaz de filtrar a imensidade de influências e fontes sonoras disponíveis e, de uma forma coerente, produzir uma música para a qual a designação de “nova” não soa despropositada. Roberto Musci & Giovanni Venosta, O Yuki Conjugate, Lights in a Fat City e Jon Hassell encontram-se em fase avançada no processo de análise/síntese seguido na concretização dessa “World Music” englobante e planetária.
“City: Works of Fiction” é exemplar quanto às intenções e aos métodos de trabalho. A cidade, lugar de concentração e pluralidade cultural, simboliza neste caso o ponto de convergência, cruzamento, feito de sínteses, deslocamentos e desfocagens, transcendente e imanente na medida em que formaliza um impossível folclore universal, retirando (graças às proezas técnicas do sampler) sons e pormenores de um espaço tempo concretos para os reinserir em novos e diferentes contextos. Trabalho de ficção, como o título alude.
Com este álbum, Jon Hassell aventura-se bem mais longe do que em anteriores trabalhos, por direções e atalhos virgens. Cada tema é acompanhado por um texto, também ele ficcional, inventando história e mitos para uma civilização existente somente nos mapas da imaginação, e desenvolvido musicalmente segundo lógicas que aliam o rigor matemático ao tribalismo tecnológico. O computador surge transfigurado em ícone primitivo, simulando sonoridades étnicas e ambiências naturais traficadas. Mais do que nunca, as sinuosidades em surdina do trompete são uma espécie de vento que passa sobre a selva, visão aérea das cidades dos prodígios. Tal qual a torre de Babel, “Works” combina uma profusão de linguagens díspares, como o funky, a música ambiental, o jazz, a eletrónica, o concretismo e folclores vários, num discurso complexo mas sempre articulado, sem que diversidade das fontes e dos meios resulte qualquer perda de unidade ou coerência. Ao contrário das “Possible Musics” dos primórdios em que o som do quarto mundo se quedava ainda como simples possibilidade, Jon Hassell encontra, com “City: Works of Fiction”, a chave e a passagem que permitem a entrada no novo universo a explorar.

Vários – “Música Da Terra” (folk | dossier)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 8 AGOSTO 1990 >> Videodiscos >> Folk

A DISCOTECA


MÚSICA DA TERRA

Rock, pop, o estardalhaço, a rádio sempre aos guinchos, as banalidades semanais, acabam por cansar. Saturam-se os ouvidos, esgota-se a paciência e procura-se avidamente o refrigério. Vasculham-se os arquivos e de repente, coberto de poeira, encontramos o rótulo já esquecido: “Folk”.



Sorrimos e recordamos, nostálgicos, os anos passados. Era na passagem de uma década para a seguinte. Há vinte anos, mais ou menos. Vivia-se a época da música progressiva. Considerava-se progressiva toda a música que incluísse flautas, cítaras, Mellotron e o obrigatório “Moog synthesizer”. O rock atravessava um momento de descrédito. Na Inglaterra, um grupo de jovens a quem os ritmos urbanos não diziam grande coisa, resolveu olhar para o passado e reviver a tradição da sua terra. De fora, chamaram ao movimento “folk revival”. Fairport Convention, Steeleye Span, Trees, Tudor Lodge hesitavam entre o folclore e o rock, logo, praticavam “folk rock”. Foram aceites como mais um bando de malucos, que outro nome se podia dar a quem se preocupava com os costumes dos “velhotes”, coisas antigas, névoas e lendas ancestrais? O movimento foi moda e, como todas as modas, passou. Esgotado o tempo a que tinha direito, a corrente fluiu, subterrânea. Na nova década em que entrámos, de novo a cíclica explosão. Por cá chegam constantemente novos discos e aumenta a legião dos “maluquinhos da folk”. A Nébula foi pioneira, no capítulo das importações. Seguiram-se-lhe a VGM, a Mundo da Canção, do Porto, a cooperativa Etnia, de Caminha, e agora também a Contraverso entra na corrida, dispondo já em stock de preciosidades do catálogo “Topic”, dos mais antigos e prestigiados das Ilhas Britânicas.

Sons rurais

Martin Carthy, conhecem-no os mais sabedores destas antiguidades musicais, dos Steeleye Span, onde cantava e tocava guitarra. Mas talvez se desconheça que gravou inúmeros álbuns a solo ou acompanhado pelo violinista, ex-líbris dos Fairport Convention, Dave Swarbrick. “Second Album”, “But Two Came by” e “Prince Heathen”, estes com a participação do homem do arco que consegue tocar em quinta velocidade com o cigarro aceso ao canto da boca, sem se atrapalhar, e “Byker Hill”, “Crown of Horn”, “Out of the Cut” e “Right of Passage”, de Carthy a solo, os dois últimos anteriormente já importados pela Nébula. A voz de entoações ligeiramente nasaladas como convém neste tipo de música e a mestria guitarrística do ex-Steeleye Span encontram na versatilidade e virtuosismo de Swarbrick o contraponto ideal na interpretação de um reportório constituído principalmente por baladas do cancioneiro rural inglês ou (em menor escala) da tradição medieval palaciana. Recente e abordando a matéria de forma original, o quinteto Brass Monkey, de que faz parte e que integra também John Kirkpatrick, utiliza instrumentos de sopro no desenvolvimento das jigas e “reels” tradicionais. Se soubessem, os colegas do jazz corariam, pela heresia do gesto, pela profanação do saxofone sagrado, nascido com o destino traçado – espelhar e cantar a alma negra através de uma música que, por direito e origem, lhe pertence.
Kirkpatrick, especialista da anglo-concertina e do acordeão de botões, fez parte dos Albion Band e colabora desde longa data com a cantora Sue Harris, que também toca oboé e saltério. Imprescindíveis são os álbuns “Facing the Music” (só de instrumentais), “Shreds & Patches” e “Stolen Ground”, outras tantas corridas por montes e vales no tempo que medeia entre a magia do meio-dia e o piar do mocho no campanário da igreja, prenunciando a meia-noite.

Nos lagos

Robin Dransfield, outrora metade do duo formado com o seu irmão Barry, é outro vocalista de inegáveis talentos, acrescidos aos de arranjador e intérprete. Provam-no as canções de “Tidewave”, antigas, sentidas, vibrantes nas cordas da guitarra esquecida do presente, no poder evocativo de uma sanfona trazida do reino da França. Peça indispensável na coleção de um apreciador que se preze.
Mais ocidental, a Irlanda assombra pelo mistério de castelos perdidos no meio de escuras florestas, das rochas com histórias para contar, do mar infinito de cujo fundo emergem lendas de sereias e pescadores unidos por inconfessáveis laços. E de muitos lagos, sem “Nessies”, mas encantados por elfos, duendes e fadas, seres que a imaginação tece e por isso são reais. Os Boys of the Lough, ao lado dos Chieftains, afirmam-se como um dos mais antigos e conceituados mestres do “irish folk” e o violinista Aly Bain, um dos seus nomes lendários. “In the Tradition” e “Open Road” são a um tempo conservadores e inovadores no modo como interpretam o folclore irlandês, recorrendo exclusivamente à instrumentação tradicional e à clássica combinação violino/”tin whistle”/flauta, para criar sequências respeitadoras dos cânones, na alternância entre as danças e as baladas vocalizadas. Mais tarde entraria em cena a gaita-de-foles de Christy O’Leary, enriquecendo ainda mais o som dos Boys.

Tradição presente

Os House Band não serão tão ortodoxos, mas talvez até por isso a sua música revela-se ainda mais excitante. Os álbuns “Pacific” e “Word of Mouth” divergem na apreciação das temáticas originais, no primeiro caso vogando na serenidade dos “airs” interpretados pelo tin whistle e pela flauta, no segundo soltando-se em extroversões instrumentais e vocais em que a gaita-de-foles e a bombarda fazem a festa. Refira-se por último “Fire in the Glen”, do trio composto por Andy Stewart, Phil Cunningham (dos Silly Wizard) e Manus Lunny, semelhante aos Planxty nas vocalizações do primeiro, despreconceituado na utilização do sintetizador e dos teclados eletrónicos apostados em construir uma música que, embora mais sofisticada, não perde de vista as origens que lhe estão na base.
A audição de qualquer destes discos constitui uma oportunidade única para todos aqueles interessados em conhecer as diferentes vias e ramificações de um género que constantemente se renova e enriquece, apostado, pelo espírito, o sal e a pedra, na edificação do templo dos celtas, de paredes sólidas, totalmente transparentes. Como um prisma de cristal refractando a luz branca nas sete cores do arco-íris.

Trovante – “Trovante: Cantigas De Amor Para Voluntários De Espinho” (concerto)

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 30 JULHO 1990 >> Local


Trovante: Cantigas de amor para Voluntários de Espinho


SEM DESLUMBRAR, os Trovante contribuíram, anteontem à noite, para uma boa causa: as obras de ampliação do quartel dos Bombeiros Voluntários de Espinho (BVE). Durante pouco mais de uma hora, num palco montado no topo Sul do Estádio do comendador Manuel de Oliveira Violas, Luís Represas e os seus músicos interpretaram alguns dos temas mais conhecidos do grupo, entusiasmando com facilidade uma assistência de cerca de duas mil pessoas.
“Já começa a tornar-se um vício vir a Espinho – e continua a valer a pena”, confessou Represas, simpático, a meio do concerto, depois de ter recebido fartos aplausos (gritos, urros, alguns delírios fingidos) pelo tema “Saudade”.
A responsabilidade era grande. Na memória de quase todos os espectadores permanecia ainda o inesquecível concerto do Verão anterior, também organizado pelos BVE. Desta vez, porém, a música não “entrou” tão bem. Alguns problemas com o som impediram o aproveitamento total das virtualidades do grupo. Mas os Trovante fizeram o suficiente para merecerem dois “encores”: de resto, faltava ouvir o indispensável “Ser Poeta”, cantado em uníssono pelo público: “E é amar-te assim perdidamente, e é seres alma e sangue e vida em mim, e dizê-lo, cantando, a toda a gente…”.
No final do concerto, num gesto bonito, Luís Represas homenageou os Bombeiros Voluntários de Espinho, fazendo subir ao palco o presidente, o vice-presidente e o segundo comandante da corporação, enquanto os elementos do grupo envergavam capacetes de ataque a incêndios. “Eles são pessoas que gostam dos bombeiros”, confirmava Ricardo Sá, presidente dos BVE.
Os Voluntários de Espinho anunciaram, entretanto, dois novos espetáculos para este verão: Xutos e Pontapés, a 17 de agosto, e Marco Paulo, a 16 de setembro.