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Loudon Wainwright III – “Grown Man”

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995


Loudon Wainwright III
Grown Man
VIRGIN, DISTRI. EMI-VC



Quem o conhece em Portugal? Poucos, muito poucos, decerto. Pois Loudon Wainwright “the third” é um “singer songwriter” cuja carreira discográfica remonta aos anos 60 e à cena musical de São Francisco. Nessa época houve quem lhe chamasse o “novo Bob Dylan”. Por cá apareceu há alguns anos um álbum de 1985, “More Love Songs”, com produção de Richard Thompson.
“Grown Man” é uma obra madura, contida e carregada com a pólvora de palavras que mantêm viva a tradição dos cantores e cantoras de intervenção norte-americanos dos “sixties”, como Joan Baez, Buffy St. Marie, Arlo Guthrie, Country Joe McDonald, Jim Croce, Tom Paxton ou o próprio Bob Dylan, sob a égide de Woody Guthrie (citado no disco, em “Just a John”), Pete Seeger e Ewan MacColl, sem esquecer a fraternidade britânica personificada por um homem como Christy Moore. Todos eles uniram num elo de ferro a música tradicional com a mensagem ideológica, mais ou menos comprometida em termos partidários. Chão forte de suporte para o que é preciso dizer.
Loudon Wainwright conta – ou será melhor dizer, dispara? – histórias que mergulham as raízes no blues e na country, nas work songs e nas baladas folk, sem dispensar uma nota de humor, por vezes feroz, como no tema introdutório, “The birthday presente”, ou em “IWIWAL” (“I Wish I Was A Lesbian”), passando por “Dreaming” (acompanhado por uma ilustração sensacional e o mais simples possível no folheto do disco) e “1994”, onde aborda a temática da manipulação genética e a criação do super-homem “smart, straight, thin & sane”. Música sem idade, armada contra a tecnologia, as ilusões e as promessas de um futuro que nos querem fazer passar por dourado. Um prego de realidade, crua e dura, cravado no cérebro virtual. (8)

Jane Siberry – “Maria”

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995


Jane Siberry
Maria
REPRISE, DISTRI. WARNER MUSIC



Uma faixa na banda Sonora de “Until the End of the World”, outra em “The Crow”, de Alex Proyan, outra ainda em “Far away, so close”, também de Wenders, participações em “Chansons ders Mers Froides”, de Hector Zazou, e “Arcane”, obra colectiva dirigida por Simon Jeffes, dos Penguin Café Orchestra, com o selo Real World de Peter Gabriel – que convidou Jane Siberry para os espectáculos da “Real World Recording Week” realizados no ano passado em Bath, Inglaterra. Nada mau para uma cantora com a tendência para ser discreta e gravar álbuns fora de moda como “No Borders here”, “The Speckless Sky”, “The Walking”, “Bound by Beauty” e “When Was a Boy”.
“Maria” (porque será que nos lembramos logo de Julie Andrews a cantar pelas montanhas, perseguida pela putalhada, em “Música no Coração”?…), diz Jane, aborda tópicos como “crianças”, “pessoas perdidas e encontradas”, “carneiros” (em “mary had a little lamb”, claro, famosa canção de embalar as criancinhas que percebem inglês), “sacrifícios” e, em especial, “sexo”. Descontando o item “carneiros” e sem querer valorizar em demasia o último, é uma base interessante de trabalho. Um trabalho que Siberry dividiu em duas partes.
A primeira é constituída por nove canções pausadamente jazzy, nada que alguém como Mathilde Santing não tenha já ensaiado antes. Segue-se uma faixa de intervalo com dois minutos de silêncio e depois, na segunda parte, tempos de seca e uma enorme surpresa: vinte minutos de aborrecimento (leia-se experimentalismo formal) sobre “sitars” psicadélicas e trompetes encerados, com o título “Oh my my”, onde ela se entretém a contar a sua vida e a chamar de cinco em cinco minutos pela mãe. Há formas curiosas de se falar com o umbigo. (5)

Between – “Dharana” + Peter Michael Hamel – “Nada”

pop rock >> quarta-feira >> 26.07.1995
reedições


Nada Na “Trip”

Between
Dharana (8)
Peter Michael Hamel
Nada (7)
Ginkgo/Wergo, distri. Mundo da Canção



“Dharana” tem a data de gravação de 1972, pelos Between, um colectivo do qual fazia parte, além de Peter Hamel (não confundir com Hammill…), o argentino Roberto Détrée, autor a solo de uma maravilhosa “Architectura Celestis”. Recordam-se do texto, escrito há 15 dias, sobre Robert Rich? É que Peter Hamel já se interessava nos anos 70 pelo mesmo tipo de temáticas – sincronização das vibrações musicais com as do cérebro. Só que, na sua época, havia os “hippies” e o LSD, o que impedia uma postura analítica idêntica à do sintetista norte-americano. Peter Michael Hamel seguia a estética da “trip”, ainda que orientada por princípios teóricos e uma bagagem filosófica que o distanciavam do universo pop e rock da altura. “Dharana” é uma odisseia constante entre o Ocidente e o Oriente, num cruzamento orientado pelo oboé de Robert Eliscu, da guitarra de Détrée, da “tampura” do convidado Aparna Chakravarti e dos teclados de Hamel. Lugar mítico de confluência que na mesma altura os Third Ear Band e os Popol Vuh apenas lograram vislumbrar. Os 17m50 do tema final são um bónus extraído de um dos discos seminais e mais fortemente marcados pela música coral religiosa do teclista alemão, “The Voice of Silence”. “Nada”, composto dentro do mesmo espírito, é um bom exemplo da veia electrónica do músico, personificada no título tema, de essência Schulziana mas permeável à influência do minimalismo, corrente que Hamel viria a tocar por várias vezes sem, contudo, nunca lhe ceder completamente. “Silence” é concretista, metálico e abstracto e “Slow motion” uma “promenade” pianística pelas paragens habitualmente visitadas por Florian Fricke. A electrónica compõe o quadro definitivo nos 23m37 de “Beyond the Wall of sleep”, antecipação em versão romântica dos “concertos para a soneca” de Robert Rich, numa progressão de ondas de sonhos magnéticas que se propagam na busca de um interlocutor sintetizado na mesma frequência.