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Gong – “Camembert Electrique” + Daevid Allen – “Now Is The Happiest Time Of Our Life” + Xjacks – “Solid Pressure” + Kevin Braheny & Tim Clark – “Rain” + Kalahari Surfers – “Volume One; The Eighties” + Irmin Schmidt – “Soundtracks” + John Tchicai & The Archetypes – “Love Is Touching” + Die Vögel Europas – “Short Stories” + Bill Laswell, Atom Heart, Tetsu Inoue – “Second Nature” + Gregory Allan Firzpatrick – “Snorungarnas Symfoni” + Albert Marcoeur – “Sports & Percussions” + Von Zamla – “Zamlaranamma” + Vários – “CMCD”

pop rock >> quarta-feira >> 01.11.1995


Desnaturados



Por falta de espaço e oportunidade, ficam de lado, todas as semanas, dezenas de discos que, fugindo às imposições da “mainstream” e das leis do mercado, valem pela originalidade e arrojo das suas propostas estéticas. Quem tiver espírito de aventura, pode ir desde já procurando os títulos que a seguir enunciamos (assinalados com um asterisco, no caso de reedições), todos disponíveis no nosso país, já com passagem no nosso leitor de compactos e altamente recomendáveis: Gong, “Camembert Electrique”* (MC-Mundo da Canção), prefácio à famosa trilogia “Radio Gnome Invisible”; Daevid Allen, “Now Is The Happiest Time Of Our Life” (MC-Mundo da Canção), uma das mais conseguidas excentricidades do australiano que conduziu durante anos os delírios dos “Pot head pixies”, ou seja, os Gong; Xjacks, “Solid Pressure” (Symbiose), minimalismo obsessivo, pelo grupo de Victor Sol, na linha dos Cluster “industriais”, um curto-circuito no Faz de Pete Namlook; Kevin Braheny & Tim Clark, “Rain” (Strauss), para ouvir à chuva, num descampado onírico da Hearts of Space; Kalahari Surfers, “Volume One; The Eighties”* (Áudeo), colectânea do grupo sul-africano arauto da revolução (contém a totalidade do seu melhor álbum, gravado para a Recommended, “Living In The Heart Of The Beast”); Irmin Schmidt, “Soundtracks”* (Áudeo), triplo CD com a totalidade das bandas sonoras assinadas pelo teclista dos Can; John Tchicai & The Archetypes, “Love Is Touching” (B&W), “free” e música do quarto mundo, por um dos mestres do sax soprano sontemporâneo; Die Vögel Europas, “Short Stories” (Ananana), segundo trabalho deste grupo alemão que junta as linguagens do “free jazz” à música programática; Bill Laswell, Atom Heart, Tetsu Inoue, “Second Nature” (Symbiose), na Fax, o que significa uma hora, no mínimo, de “ambiente” onde a descoberta de deliciosas microscopias compensa a dose de paciência necessária; Gregory Allan Firzpatrick, “Snorungarnas Symfoni”* e “Bildcircus”* (Planeta Rock), dois trabalhos indispensáveis numa discografia alternativa dos anos 70 – “Symfoni” é interpretado pelos Sammla Mammas Manna, de Lars Hollmer; Albert Marcoeur, “Sports & Percussions” (Planeta Rock), os Henry Cow nas mãos de um “hacker” infantil; Jean-Philippe Goude, “Drones”* (Planeta Rock), electrónica analógica, danças clássicas, maquinações cibernéticas à Heldon, pelo teclista dos Weidorje, súbditos do universo “zeuhl” dos Magma; East of Eden, “Mercator Projected”* (Planeta Rock), obra seminal de 1969 (os King Crimson e os Van der Graaf Generator sorviam então a mesma cicuta alucinatória, mal refeitos da “trip” do psicadelismo); Von Zamla, “Zamlaranamma” (MC-Mundo da Canção), os Sammla Mammas Manna, com outra designação, num trabalho indispensável, como quase todos da sua lavra; Vários, “CMCD” (Áudeo), colectânea da nova música concreta, com, entre outros, Jroslav Krcek, John Oswald e, muita atenção, Steve Moore, cuja “sinfonia” de sons ambientais ocupa, na sua versão original em vinilo, a totalidade do primeiro lado da obra-prima deste compositor, “A Quiet Gathering”. Mas há mais, muitos mais…

Gong – “Gnomo – A Desbunda Cósmica” (valores selados | blitz | dossier | artigo de opinião)

BLITZ 24 OUTUBRO 1989 >> Valores Selados


GNOMO
A DESBUNDA CÓSMICA



GONG é o planeta da folia. Os seus habitantes, os Pot Head Pixies, viajam através do Universo dentro de bules de chá. É de um destes bules, algures nas imensidões cósmicas, que a RÁDIO GNOMO INVISÍVEL emite telepaticamente mensagens subliminares para todo o Cosmos. Às cinco da tarde, conseguem apanhar-se em FM.
A referida estação, presumivelmente pirata e talvez por isso mesmo em constante deriva pelo espaço, fugida às autoridades galáticas, vem por mero acaso encalhar no planeta Terra. A partir daqui é o caos, a loucura desenfreada, Dada, chá, cabeças a voar. Gong é o resultado das lucubrações mentais de Daevid Allen, um australiano que um dia se viu impossibilitado de permanecer em Londres por ter caducado o seu visto de cidadão estrangeiro. Nessa altura, já lá vão 21 aninhos, em plena época hippie, fazia parte de um grupo que então despontava na cena alternativa inglesa de Canterbury: os Soft Machine, ao lado de rapazes como Robert Wyatt, Mike Ratledge e Hugh Hopper. Despeitado, saiu, atravessou o canal e assentou praça na vizinha Espanha. Foi substituído nos Softs por outro louco, Kevin Ayers, que também abandonou o grupo e veio para Espanha. Espanha, um país de loucos onde vêm parar os filhos preteridos de Sua Majestade.
Daevid enlouquece de vez e forma os Gong. Juntaram-se-lhe os também lunáticos Didier Malherbe (sax, flauta), Christian Tritch (baixo), Laurie Allan e Pip Pyle que mais tarde viria a fazer parte dos Caravan e Hatfield and the North, ambos na bateria e a vocalista Gilli Smyth. Charles Hayward (muito mais tarde nos This Heat) fazia uma perninha de vez em quando, ainda na bateria.
Neste período inicial gravaram três álbuns: «Magick Brother, Mystic Sister» de 69, que, segundo Daevid Allen, nunca existiu. Talvez. Contudo eu ouvi-o e gostei. Alucinação? Já mais reais são os dois seguintes: «Continental Circus» de 71, para um documentário sobre corridas de motas e «Camembert Electrique», do mesmo ano, capaz de fazer fundir os fusíveis aos mais atinados.
Entretanto assinam previsivelmente contrato com a Virgin, para a qual gravam de enfiada as três obras-primas que formam a trilogia «Radio Gnome Invisible», «The Flying Teapot» e «Angel’s Egg» ambos de 73 e «You» de 74. Por esta altura faziam parte do grupo dois músicos essenciais na definição do melhor som dos Gong: Steve Hillage (guitarra) e Tim Blake (eletrónica e teclas).
Estes três álbuns são o desatino total. Os músicos adquiriram personalidades demenciais: Allen era Zero the Hero ou Dingo Virgin, Didier Malherebe, Bloomdido Bad de Grasse, Gilli Smyth, a deusa da Lua, intitulava-se Shakti Yoni e por aí fora. A música era uma mescla inspirada de jazz experimental com a canção ultra-melodiosa, à boa maneira do som Canterbury, mais eletrónica planante (nesta época não podia faltar) e nonsense nonstop. O planeta Gong rebentava de riso e de boa música. Os seus habitantes perdidos em desbundas de freaks funcionando em galáxias alternativas.
Aos poucos a confusão vai atingindo níveis incontroláveis. Saem e entram constantemente novos músicos. É a grande salganhada. Sem saberem bem como, Gilli Smyth, Steve Hillage, Tim Blake e o próprio Allen dão por si fora do grupo. Quem se vai aproveitando desta confusão é Pierre Moerlen, o virtuoso percussionista erudito vindo das Percussões de Strasbourg, trazendo consigo do mesmo grupo Mireille Bauer e assenhoreando-se progressivamente da orientação musical dos Gong que aos poucos se vão tornando num mero grupo de jazz-rock. «Shamal», de 75, é a despedida do humor, do ecletismo e, sobretudo, da inspiração e originalidade anteriores. O álbum seguinte, «Gazeuze», de 76, reduz-se às exibições pirotécnicas dos percussionistas que, na altura, eram já quatro; para além de Moerlen e Bauer, tinham entrado o irmão do primeiro, Benoit e mais um virtuoso, Mino Cinélu, atualmente nos Weather Report. De qualquer modo é um regalo escutar os rendilhados cristalinos traçados pelo vibrafone e pelas marimbas de Pierre Moerlen e companhia. Por vezes ainda contavam com a participação de mais um baterista, Bill Bruford, nas atuações ao vivo. Devia ser bonito.
Em 77 os Gong, já indignos do seu passado, gravam dois duplos: «Gong Live» e o irónica e adequadamente intitulado «Gong est mort». É um facto. Os Gong, sem o seu principal mentor espiritual, há muito que estavam mortos. Assinava-se pois a certidão de óbito. Ainda chega a ser editado, em 78, «Expresso II» de uma vulgaridade atroz. A partir daí passava a existir o Pierre Moerlen’s Gong, designação mais correta para um projeto que já nada tinha a ver com o original.
Allen, Hillage, sobretudo estes dois, Malherbe, Blake e Smyth tinham entretanto já gravado dezenas de álbuns a solo, alguns deles bastante bons, como «L» de Steve Hillage, «Crystal Machine» de Tim Blake e quase todos os de Daevid Allen.
Os Gong, talvez por serem tão personalizados, tanto musical como conceptualmente, não deixaram descendência. Permanecerão para sempre um mundo à parte. A Rádio Gnomo Invisível continua a rir e a emitir.



«o bule voador»
Alerta B.V.N.I.s (Bules Voadores Não Identificados) invadem a Terra durante o chá das cinco. A bruxa Yoni e as misteriosas frequências emitidas pela máquina de cristal dão cabo da cabeça dos humanos. Só Zero (não o recruta) os poderá salvar



«o ovo do anjo»
O próprio Zero fica sem cabeça que voa até à Lua ou ainda mais acima, até ao paraíso dos orgasmos perpétuos. Zero é um anjo ou um demónio? Mais acima, ainda mais para cima. O anjo és tu. Agarra o ovo do Céu

«Tu»
O templo interior é de cristal. Aqui vive o grande construtor. Aqui vives tu. No palácio da eterna sabedoria são-te revelados os derradeiros mistérios. Estás salvo. Salvo pelo GONG

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #38 – “Audiciones Recientes (mn)”

#38 – “Audiciones Recientes (mn)”

Fernando Magalhães
14.11.2001 180634

quote:
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Publicado originalmente por mn

Na minha ultima incursão queria tb ter trazido o disco de Kubik (não havia nem sabiam o que era…) e algo dos Gong (fiquei na duvida sobre o que trazer – alguma sugestão?)

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A trilogia “Radio Gnome Invisible, Pt.1: The Flying Teapot”, “Radio Gnome Invisible, Pt.2: Angel’s Egg” e “You”. Fundamental. Na Carbono têm o “Angel’s Egg” a 2000$00.

Os anteriores “Banana Moon” (mais um delírio pessoal de Daevid Allen) e “Camembert Electrique” (fase embrionária da consequente trilogia) também se recomendam.

Posteriores à trilogia, numa linha mais jazz rock, recomendo o “Shamal”.

Para um fanático dos Gong aconselha-se igualmente a discografia dos anos 90, sobretudo “Shapeshifter” e “Zero to Infinity”.

Depois, existe ainda uma infinidade de projectos paralelos de vários menbros dos Gong, em colectivos ou a solo. Mas aí é preciso estar já compeltamente “apanhado” pela música e filosofia dos “pot head pixies”…

FM

FM