Arquivo da Categoria: Pós-Rock

Kevin Braheny – “The Way Home” + “Galaxies” + “Secret Rooms” ; Tim Clark – “Tales of the Sun People”; Mychael Danna – “Sirens” + “Skys”; Constance Demby – “Sacred Space Music” + “Set Free”; David Lange – “Return of the Comet”; Kenneth Newby – “Ecology of Souls”; Raphael – “Music To Disappear In”; Michael Stearns – “Sacred Site”; Michael Stearns & Ron Sunsinger – “Singing Stones”; Tim Story – “Beguiled” + “The Perfect Flaw”

pop rock >> quarta-feira >> 31.05.1995
reedições


Major Tom Para A Torre De controlo

KEVIN BRAHENY: The Way Home (7); Galaxies (6); Secret Rooms (5); TIM CLARK: Tales of the Sun People (6); MYCHAEKL DANNA: Sirens (5), Skys (7); CONSTANCE DEMBY: Sacred Space Music (7), Set Free (5); DAVID LANGE: Return of the Comet (7); KENNETH NEWBY: Ecology of Souls (8); RAPHAEL: Music To Disappear In (6); MICHAEL STEARNS: Sacred Site )8); MICHAEL STEARNS & RON SUNSINGER: Singing Stones (8); TIM STORY: Beguiled (7), The Perfect Flaw (7).
Hearts of Space, distri. Strauss



No meio das inúmeras editoras de “new age” que proliferam no Mercado, a Hearts of Space é um caso à parte. Pela simples razão de que para este catálogo o termo não dispensa um nível de qualidade e exigência que não se compadece com os estereótipos que deram má fama a esta escola musical. Na Hearts of Space, como a própria designação indica, existe uma predilecção especial pelo espaço e pelos enredos de ficção científica. Os actuais grãos-mestres desta temática, sobre os quais já escrevemos oportunamente, são os Lightwave e os Suspended Memories. Mas a música cósmica dos anos 90 não se esgota neles. A contagem decrescente já começou…

Um dos representantes mais fiéis da escola espacial, Kevin Braheny é conhecido de alguns pela sua participação no belíssimo díptico “Western Spaces” / “Desert Solitaire”, ao lado de Steve Roach. “The Way Home”, com os seus dois longos temas, um dos quais “Perelandra”, baseado na novela de ficção científica do mesmo nome, de C. S. Lewis, insere-se numa estética Schulziana, embora o seu carácter onírico seja destituído do peso wagneriano que caracteriza a obra do sintetista berlinense. Desenvolvimentos lentos de flauta desembopcam em grandiosos naipes de electrónica, elaborados, entre outros, pelo “Serge modular synthsizer” que o próprio Braheny ajudou a desenvolver. O espaço cósmico é o lugar de partida de “Galaxies” para uma viagem peloCosmos, pelos seus planetas e constelações, numa banda sonora para o documentário com o mesmo nome realizado por Timothy Ferris, escritor de livros científicos, nomeadamente de física e astronomia. Embora por vezes cometa o pecado da redundância, à maneira de um Vangelis, “Galaxies” é o fundo sonoro ideal para se observar as estrelas numa noite de Verão. O mais recente, “Secret Rooms”, volta-se para dentro, numa série de quadros sónicos que correspondem a diversas regiões do psiquismo humano. A ideia é mais interessante do que a sua concretização, já que aqui o seu autor nãose livra de alguns lugares-comuns da “new age”, com um saxofone de marmelada a fazer das suas. Se o disco de Tim Clark serve sobretudo para travar conhecimento com alguns sons inusitados da artilharia digital, em confronto com percussões étnicas, numa história de “F. C.” sobre uma tribo nómada da Universo, já os dois de Mychael Danna justificam uma atenção mais concentrada. “Sirens”, sobre as “qualidades femininas e as suas infinits atracções”, é, em consonância, um pouco efeminado. Toques de extrema delicadeza, perfumes e cantos de sereia não provocam uma verdadeira excitação, de tão doces que são. “Skys”, assim mesmo, sem “e”, consegue por seu lado provocar alguns sobressaltos platónicos, numa pintura electro-classizante (com flauta, oboé, violoncelo, trompete e clarinete) dos vários matizes luminosos dos céus do Canadá. “Minimalismo romântico”, escreve o músico na capa. Faz sentido.
Constance Demby figura nos meiso “new age” como um nome conceituado, muito por culpa de um trabalho chamado “Novus Magnificat”, considerado por muita gente uma obra-prima do género. Já ouvimos e não achámos nada. Ao invés, “Sacred Space Music” é bastante satisfatório, com os seus dois “mantras” de saltério percutido, piano, sintetizador, sinos e coros, na criação de um espaço de catedral mais cristalino e aberto que o de Laraaji, em “Day of Radiance”, a mesma “radiance” que, por coincidência, dá título a um dos temas de Constance. O posterior “Set Free” é mais electrónico mas também mais vulgar. Salva-se uma das sequências finais onde a senhora volta a mergulhar nas espirais do “espaço sagrado”, passando pelo labirinto do cérebro até chegar à luz. Já passou a altura própria mas em 1985 vinha muito a propósito esta composição de Lange, destinada a ilustrar mais uma passagem pela Terra do “velho” cometa Halley. A posterior versão de 1989 inclui um tema extra, “Safe Journey”. Música espacial por excelência, “Return of the Comet” é indicado para “trips” de vária ordem, no planetário ou noutro lugar qualquer de evasão. A inovação não anda por aqui mas as máquinas disfarçam-se bem de astros e, uma vez no interior da cápsula, podemos sobrevoar ou aterrar nos planetas mais inóspitos…
O disco de Kenneth Newby foge um pouco à estética da editora. Não tem rigorosamente nada a ver com “new age”, com as suas estruturas baseadas na relação entre simbologias religiosas de índole obscura e elementos matemáticos igualmente complexos. Experimental, inovador, por vezes terrificante, “Ecology of Souls” move-se numa terra de ninguém que a luz do sol não alcança. No pólo oposto, está “Music to Disappear in” (de que existe também um volume dois) de Raphael. A música não é tão pirosa como o nome do artista deixa entender. Há um lado vivaldiano (credo!) e outro “étnico”, mas no cõmputo geral este natural de Oklahoma sai-se a contento naquilo a que poderemos chamar “música para embalar os anjos”.
“Sacred Site” e “Singing Stones”, de Michael Stearns, são outra loisa. O primeiro é uma antologia de bandas sonoras e outras composições resultantes do encontro com diversas culturas e música planetárias. O destaque vai para os vários temas englobados na música para um documentário, outro, realizado no sistema IMAX (êxtase totalpara os sentidos), sobre a passagem do cometa Halley, observada de um lugar sagrado dos arborígenes australianos, a célebre 2Ayers rock”. Este cruzamento da tecnologia mais sofisticada com as linguagens primitivas tem um desenvolvimento curiosíssimo no novo “Singing Stones”, no qual são utilizados pedras e instrumentos rituais dos índios mexicanos, ou as vibrações da terra nas proximidades e um vulcão. Um dos melhores trabalhos da Hearts of Space, mais próximo de Jorge Reyes e Steve Roach do que de Stephen Micus. Por fim, Tim Story, outro manipulador de “bits” mas que prefere pôr o computador ao serviço dos sons acústicos e orquestrais. “Beguiled” e “The Perfect Flaw” são tapeçarias em roxo e nostalgia que trazem na memória Erik Satie e Béla Bartok. Alimento para os sentidos, com o sabor a sal de uma lágrima e o desenho difuso de uma paisagem que se perde no horizonte.

Perve – “Perve Em Estreia Com ‘Segmentos’ – PERVERTER PELA POSITIVA”

pop rock >> quarta-feira >> 24.05.1995


Perve Em Estreia Com “Segmentos”
PERVERTER PELA POSITIVA


“Segmentos”, álbum de estreia dos Perve, apresenta alguns enigmas, a começar pela personagem da máscara, cantor e letrista do grupo, enigmaticamente designado “O Homem”. “O Homem” não dá, por enquanto, entrevistas. O mundo jornalístico não está por enquanto preparado para a sua mensagem. Nuno Tavares, o guitarrista, substituiu-o no desvendar de alguns, poucos, desses mistérios. É também o regresso dos álbuns conceptuais e da defesa de conceitos como a “libertação sexual”, como forma de dizer alguma coisa que fuja aos esquemas rotineiros de produção.
PÚBLICO – Como é que nasceu a ideia do “Homem”?
NUNO TAVARES – Foi para chamar a atenção das pessoas, não no sentido comercial, mas para uma série de coisas que nós, Perve, e em particular “O Homem” temos para transmitir. Questões de valores.
P. – Mas são precisos a máscara, o anonimato, para transmitir esses valores?
R. – Quem transmite é o grupo, a forma musical. Os textos, poemas, é que são do “Homem”. Porquê a palavra “homem”? A ideia surgiu ao longo do nosso trabalho nos últimos dois anos, à medida que nos apercebíamos do que estávamos a fazer. Queríamos transmitir a nossa mensagem de uma forma lata e englobava valores que consideramos fundamentais…
P. – Que valores e que mensagem?
R. – Uma mensagem de valores humanos, de sensibilidade e liberdade. A todos os níveis. Tem a ver com os “segmentos”, como no tema “Mexe-te”, que fala de uma libertação do corpo. Aí queremos transmitir a mensagem da libertação sexual. Com os montes de problemas que hoje existem, as pessoas retraem-se, fecham-se cada vez mais. É o exemplo de uma mensagem transmitida ao homem pelo “Homem”.
P. – Nesse aspecto os textos do “Homem” nem sempre são muito claros. Estamos a recordar-nos, por exemplo, do tema “Calafrio”…
R. – Esse texto já não é tão directo. Está incluído no “Segmento do Ébano”. Tem mais a ver com uma calma nocturna. No fundo, é um sonho, um calafrio que a atravessa. “A flor do corpo”, por outro lado, tem uma componente um bocado surreal…
P. – A liberdade de que falava há pouco está, quanto a nós, mais nas formas musicais que vocês escolheram do que propriamente nas palavras, que se tornam em alguns casos quase redundantes.
R. – Não. É um facto que tentámos perverter algumas tipologias musicais que nos são familiares e que fizeram parte da nossa aprendizagem, a ouvir discos ou a ir a concertos. Temos uma percepção da música tanto no sentido mais normal do termo como no da música concreta ou do próprio ruído.
P. – Perve significa então essa perversão?
R. – Sim, é uma abreviatura de perversão, só que uma perversão que no nosso caso não tem qualquer carga negativa. Uma perversão positiva.
P. – Estávamos a falar das palavras…
R. – As palavras são fundamentais. As músicas nasceram quase sempre a partir de poemas. Um exemplo: o tema “A mulher-néon”, em que todo o ambiente, pesado, nasceu a partir da palavra “néon”.
P. – A audição de “Segmentos” indica que as pessoas do grupo ouviram muita música antes. Concretamente, o quê?
R. – No meu caso, sou um ouvinte de música mas não me preocupo muito em ir buscar… Não vou dizer nomes, acho que ia deixar sempre alguns de fora. A maneira como me relaciono com a música é procura-la quando ela não vem ter comigo.
P. – Os nomes da editora “Recommended” dizem-lhe alguma coisa?
R. – Conheço alguma coisa. O Chris Cutler, algumas das coisas que ele fez com vários grupos. Mas não tenho um conhecimento exaustivo da “Recommended”, até porque não é fácil encontrar os discos…
P. – “Segmentos”, como acontece com o disco de estreia dos U-Nu, descobre vias alternativas para a música portuguesa. Que opinião tem da música que se está a fazer hoje em Portugal?
R. – Estão a surgir várias coisas dentro de áreas distintas. Há grupos que continuam a procurar, não sei se uma originalidade, mas pelo menos uma coisa própria, que tenha a ver com o próprio país onde vivem. Depois há, por outro lado, uma tendênciapara surgirem muitas coisas que são demasiado coladas a sonoridades estrangeiras. Admitimos a influência da música anglo-saxónica, até porque a andámos a ouvir durante muitos anos, mas isso tem que ser filtrado e aplicado à realidade em que se vive. Outros há ainda que facilitam ainda mais e se deixam dominar por essas músicas.
P. – Sem pensar muito, diga o que pensa dos Madredeus?
R. – Sem pensar… É tão terrível… Madredeus… tem a ver com uma determinada tradição de música urbana.
P. – Pedro Abrunhosa?
R. – Um marco importante na viragem de determinada mentalidade e de determinados grupos instituídos. De repente aparece uma pessoa que de um momento para o outro põe em causa, com a sua música e a sua atitude, muitas das coisas que pareciam já ser instituições.
P. – A música dos Perve destina-se a minorias?
R. – Queremos, e estamos a trabalhar nisso, ter um espectáculo e ser um grupo que chegue ao maior número possível de pessoas. Não de uma forma massificada, de exposição total e absoluta, mas sim que a nossa mensagem seja compreendida. O que estamos a transmitir não é uma coisa directa, as pessoas podem não entender tudo à primeira, ou identificar-se somente com uma ou duas músicas, ou um determinado “segmento”.
P.- Acreditam na disponibilidade do público para receber essa mensagem que dizem não ser directa?
R. – Há pessoas que se podem identificar com o “Segmento da evasão”… No fundo é algo de que nós todos precisamos. Se calhar neste momento há um exagero, devido à conjuntura económica e social, e as pessoas precisam de extravasar para o álcool, para a droga, para o momento. Mas isso faz parte da vida. No fundo, há uma crise de valores e as pessoas refugiam-se. Nós não queremos condenar isso – até porque, como já disse, achamos a evasão legítima e natural -, mas sim mostrar que há outras coisas na vida.

Vários – “Eleitos Do Ano 1993 – Nova Fórmula” (internacionais)

pop rock >> quarta-feira, 29.12.1993


ELEITOS DO ANO 1993 – NOVA FÓRMULA

De facto, a eleição dos melhores álbuns do ano 1993 segundo o Piop Rock é a mais científica de sempre. Escolhemos oito áreas: pop-rock português, pop-rock anglo-saxónico, reedições pop-rock, bandas sonoras, vídeos, world music, reggae e blues. Depois, fomos a todos os suplementos que editámos este ano e destacámos os discos com melhores classificações, distribuindo-os por tops segundo as referidas áreas. Uns tops são maiores do que outros, porque as áreas também não têm todas o mesmo valor.
Há conclusões interessantes a tirar, como, por exemplo, de que, enquanto se chegou facilmente a um “top” da “world” só com discos com o máximo de pontuação e não foi preciso descer a menos do que aos nove pontos na área pop-rock internacional, já na música portuguesa se teve de repescar discos com sete pontos, para se reunir uma dezena. Claro que, a seguir, fizemos uma certa batota, porque, se dez discos portugueses com oito pontos não havia, em contrapartida os que tiveram sete pontos seram mais de dez. Excluímos primeiro as compilações, depois os idoscos ao vivo, por fim, usámos critérios menos transparentes. Completas as listagens, concentrámo-nos na votação do disco do ano em cada uma das oito áreas. Após acesas discussões, algumas birras e muitas cedências mútuas – do tipo, eu voto no teu discoportuguês se tu votares no meu de “world” -, elegemos os melhores de 1993. E, por fim, já cansados, recomeçámos a escrever.
Mas era rigor laboratorial a mais, veleidades epistemológicas excessivas, estávamos À beira do colapso. Foi quando surgiram duas ideias para fugir ao trauma da cientificidade e restituir a este suplemento a sua verdadeira alma rock ‘n’ rol. Uma dessas ideias foi votar os artistas do ano, partindo do princípio que nesta área musical não são as boas acções, nem tão pouco os factos, que conferem prestígio, antes a escandaleira e os boatos. O que lerem aqui é assim uma mistura de realidade e fantasia, de genuína admiração e muita má língua. A outra odeia foi recapitular os melhores momentos dos concertos que houve em Portugal em 1993 e, a partir daí, elaborar um questionário, partindo também do princípio de que um espectácuklo rock ‘n’ rol fica na história não tanto pelo virtuosismo dos desempenhos, mas sobretudo pelos acidentes extra musicais.
Bom Ano Novo!
LUÍS MAIO, FERNANDO MAGALHÃES E JORGE DIAS

Troféus Imaginários, Mas Merecidos, Para Artistas De Sonho

AS FIGURAS INTERNACIONAIS DO ANO

Pinóquio 1993



Refutando perentoriamente toda a espécie de vis acusações que recaem sobre o autor de “Dangerous”, a Associação dos Amigos do Pinóquio (anónima, mas aparentemente subsidiada por uma multinacional, de um refrigerante concorrente da Pepsi) decidiu este ano atribuir por unanimidade o seu galardão maior a Michael Jackson. Trata-se, como é óbvio, de um acto simbólico, com que se pretende acentuar que a parte do corpo do artista que cresce quando está na companhia de menores não é a que ele costuma mais afagar durante os concertos (isto é verdade, alega ele). Tendo verificado que o mesmo sucedia com o focinho do Homem Elefante (daí ter licitado os despojos mortais da infeliz criatura) e o do seu chimpanzé (corre o boato, não confirmado, de se passar outro tanto com a sua amiga Liz Taylor), o mais famoso do clã Jackson teria então submetido o seu próprio órgão do olfacto a uma difícil operação de cirurgia estética e, a partir daí, ele passou a crescer ou a diminuir não por dizer verdades ou mentiras (ele pouco mais diz que “obrigado”), mas consoante as tenras companhias.

Batráquio 1993



Uma Liga de Amigos dos Animais, preocupada com a violência protagonizada por humanos praticantes de música eléctrica contra outros seres vivos – praga que cresce desde que o rock sinfónico caiu em desgraça -, acaba de criar o troféu Batráquio da Música. O prémio original destina-se a estimular a pacificação da cena musical pela metamorfoseação em sapos, encenada ou real, de estrelas de rock e amigos, numa inversão alegórica da fábula popular. Este ano, o galardão foi naturalmente arrecadado por Prince, que começou por rubricar uma digressão de Verão perguntando às suas plateias como é que se chamava (isto é verdade). O rumor que corre é de que o famoso génio minorca, depois de passar semanas a fio a imitar James Brown, George Clinton e Jimi Hendrix, acordou um dia sem saber quem era. Quando a sua corte de cinderelas lhe jurou que ele era Prince, não acreditou e pensou que o confundiam com um tal Victor, que também era imitador. Como as plateias não o convenceram do contrário, ele decidiu-se por esta ideia brilhante de publicar anúncios nos principais jornais do mundo à procura da mulher mais bonita do planeta. O raciocínio é o seguinte: quando ela o beijar pela primeira vez, e se ele for mesmo Prince, então ele transforma-se em batráquio.

Rainha GATT 1993




No contexto de uma nova estratégia dos serviços secretos dos Estados Unidos, delineada no tocante às negociações do GATT, superestrelas norte-americanas foram convidadas para executar certos trabalhinhos no estrangeiro. Os artistas mais insuspeitos foram recrutados, tendo Madonna, bem conhecida pela sua paixão pelo mundo latino – desde o hino hispânico “La Isla Bonita” à sedução do actor António Banderas -, sido indigitada para atacar na América do Sul. Muito descarada, mas não menos patriota, Louise Ciccone não se fez rogada e desferiu um rude golpe nas pretensões sul-americanas quando, em Outubro passado, actuou em San Juan, Porto Rico, e usou uma pequena bandeira desse país para, em palco, limpar o suor não apenas nos sovacos, mas também no peito e entre as pernas (isto é verdade). A proeza valeu-lhe instantaneamente o prémio de Rainha GATTT, nos Estados Unidos, mas toda a publicidade que daí resultou comprometeu novas missões similares. No Canadá, ainda conseguiu dizer “Fuck Toronto”, numa estação de rádio local (isto é verdade), mas já na Alemanha teve de anular um concerto, onde era seu propósito vexar os alemães protagonizando um número de lésbica vestida à Marlène Dietrich. Correm agora boatos insistentes de que os serviços secretos norte-americanos pretendem enviar Michael Jackson vestido de panda para rebaixar os chineses; e Garth Brooks disfarçado de Saddam para desmoralizar as tropas iraquianas.

Justine 1993




O prémio Justine distingue fêmeas proeminentes nso “tops” internacionais que tenham dado o passo decisivo e público de se auto-reavaliar numa óptica libidinal, eventualmente operando a transfiguração de sacos de batatas para “pin-ups” radicais. O troféu que em edições precedentes foi conquistado por artistas como Sheena Easton e Kylei Minogue, vai este ano, não sem alguma surpresa, para a última sensação “indie” que responde pelo nome de Polly Harvey. Apesar dos seus dois discos deste ano não evidenciarem melhoras de vulto no plano da moléstic amusical, Polly tomou gosto pela experiência de aparecer ainda pudicamente com as costas nuas, na capa de um New Musical Express do ano passado, e desembaraçou-se do visual da cara deslavada e cabelo oleoso, roupas de mendigo e botas cardadas, para ressurgir toda pintada e de óculos escuros, com nada mais do que um “top” e um calçãozito a tapar-lhe o recheio, qual mulher fatal com alcova por cenário (isto é verdade). Enquanto se espera pelo dueto escaldante desta “Belle de Jour” da distorção com Prince, já se anuncia a transformação de virtuosas em bombas sexuais – de Enya, Elisabeth Frazer e Kate Bush.

Benfeitor 1993




Embora não fosse a escolha mais óbvia, o prémio pela acção benemérita de origem rock ‘n’ rol acabou por ir parar, com toda a justiça, às mãos de Axl Rose. Isto porque o sempre vulnerável e sensível cantor dos Guns N’ Roses processou a sua ex-noiva, a modelo Stephanie Seymour, argumentando que a “fera” o violentou, tanto no foro mental quanto num plano emocional. Trocada por miúdos, na sequência de várias cenas de peixeirada, a reputada donzela pôs a circular uma foto sua com um olho negro, afirmando que a dita mazela resultava de um murro que Axl lhe aplicara no dia de Natal do ano passado, quando, segundo diz o cantor, foi ela que lhe atirou com uma peça de mobília. Pior do que isso, Stephanie recusou-se a devolver-lhe o anel de noivado e toda uma série de pechisbeque que lhe oferecera, conjunto estimado em qualquer coisa como cem mil libras. Tudo isto é, no entanto, irrelevante e o que ressalta deste infeliz melodrama é que Axl quer recuperar a quinquilharia para a vender e doar para fundos que revertem para centros de assistência a crianças violentadas (isto é verdade). Como ele, se calhar, por matulonas demau génio.

Anti-Sexista 1993




Enquanto a crítica britânica de literatura prosseguia um animado debate sobre o significado exacto do refrão “por ti fazia tudo, mas isso é que não”, recorrente no novo álbum “Bat out of Hell II”, o seu autor, Meatloaf, abria um centro de recuperação para marginais. Na foto (isto é verdade, ou seja, não é uma montagem), o benemérito artista exemplifica o suave método de reabilitação para tirar da vida duas jovens caídas em tentação, permitindo que elas mantenham o seu antigo visual e uniformes de trabalho numa casa de passe gótica, mas substituindo as actividades viciosas pelo inofensivo passatempo de montar em duas rodas (há uma certa inversão de posições que também é terapêutica). As chamas ao fundo são, naturalmente, mais uma metáfora requintada para a saída dos infernos em versão motorizada e a sua exegese teológica foi já encetada por um núcleo de estudiosos destas coisas.

Saias 1993




Apesar de estarem fartos de ser “grunge” e de todos os rótulos anexos, tais como “Novos Campeões da Barbárie”, “Sexistas sem Pausa” e “Misógenos de Seattle”, os Nirvana voltaram em 1993, para reciclar as mesmas fórmulas de combinação de punk e heavy metal em “In Utero”. Não conseguiram mudar o som, mas, em compensação, operaram uma subtil reforma do visual, trocando as camisas de flanela aos quadrados e as calças de ganga, rotas nos joelhos, por lindos e vaporosos vestidos folridos. A luminosa iniciativa dos Nirvana produziu instantaneamente uma nova tendência da moda, contagiando bandas tais que Afghan Whigs, Stone Temple Pilots e Smashing Pumpkins, nos Estados Unidos, e James, Maniac Street Preachers e Take That, em Inglaterra (isterdade). Também se diz que a revista feminina “Vogue” vai passar a ser para homem e vice-versa; e a “Elle” só não passa a “Lui”, porque esse é já o nome de uma revista “soft porno”. Entretanto, os fãs, inicialmente apanhados desprevenidos, não demoraram a assaltar os guarda-roupas de mães e irmãs, mas estão agora perante um grande dilema: se os seus heróis vestiram saias compridas no Outono, será que devem já rapar as pernas para usar mini-saia na Primavera?