Arquivo da Categoria: Ambient

Kevin Braheny & Tim Clark – “Rain”

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996


Kevin Braheny & Tim Clark
Rain
Hearts of Space, distri. Strauss



Quem quiser a melhor “new age”, que é como quem diz, com alguma substância, independentemente das suas virtudes mais ou menos sedativas, terá de procurar na Hearts of Space, editora com sede em São Francisco, na Califórnia, especializada neste tipo de música, em particular nas secções “música espacial contemporânea”, “cruzamentos culturais”, “Ambiental” e “contemplativa”. No meio da poeira de estrelas mais ou menos inócua, destacam-se nomes como Mychael Danna (autor da banda sonora do recente “Exótica”), Michael Stearns, Paul Avgerinos, Sahan Arzruni, Tim Story e, verdadeiramente dignos de audição atenta, Robert Rich, Kenneth Braheny, Lightwave e Suspended Memories. Kevin Braheny deve parte da sua fama como compositor de “música espacial” aos seus primeiros trabalhos – por sinal, os melhores – “The Way Home” e “Galaxies”, mas, sobretudo, à participação nos dois clássicos da “new age” “Western Spaces” e “Desert Solitaire”, ao lado de Steve Roach. A partir daí, a sua obra tem sido inconsequente. Neste seu novo álbum, de parceria com Tim Clark – que, nesta mesma editora, já gravara “Tales of the Sun People” -, visa recuperar a dignidade perdida, o que, em parte, consegue. “Rain” inclui-se na categoria dos “contemplativos”, com a dispensa quase total do ritmo em nome de uma dimensão cósmica e naturalista onde predominam as sonoridades de cristal e o sinfonismo sintético dos mestres nesta matéria, Robert Rich e Erik Wollo. Um álbum adequado à estação. (7)

Jeff Greinke – “Timbral Planes” + “In Another Place” + “Big Weather”

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996


Útero De Pedra

JEFF GREINKE
Timbral Planes (8)
In Another Place (8)
Big Weather (7)
Linden, distri. Ananana



“On Land”, de Brian Eno, estabeleceu, ainda nos anos 70, os paradigmas de uma nova música electrónica, nos antípodas da “planante”. É verdade que, antes dele, já o francês Pierre Henry ligara os circuitos do cérebro à terra, numa obra avassaladora, “Cortical Art”, registo sonoro, em bruto e em directo, das ondas encefálicas. Mas foi Eno que adubou a terra em transe e a transformou numa estética com contornos e num conceito uniforme. É neste campo, onde os sintetizadores, em vez de se elevar, se roçam na água e nas pedras, agitando as entranhas do planeta, que fazem sentido as movimentações electroacústicas de Jeff Greinke. “Timbral Planes”, de 1987, é uma avalanche de sons em estado de choque. Disco pesado, em colisão com o silêncio, amplifica no inconsciente imagens de trovoada, fendas tectónicas, abismos aquáticos, nuvens que incham e glaciares que despertam. Uma música em permanente desequilíbrio telúrico que, em nenhuma circunstância, deverá ser escutado num local como a Califórnia, não por acaso, pátria das novas correntes “new age” electrocósmicas. “In Another Place”, de 1992, tem uma leitura menos linear. Uma faixa como “The stalker” define com rigor ambiências que alternam a viscosidade e a luz, bem ao modo do filme de Tarkovsky com aquele nome (2The Stalker”), na cena em que o labirinto desemboca numa sala meio submersa em água, o chão pejado de objectos domésticos que forças obscuras transformaram num tesouro de ameaças. “In Another Place” é, ele próprio, um labirinto de geometrias sobrepostas, onde as notas de um piano manchado de humidade se desagregam no meio de névoas e vapores. No seu trabalho mais recente, de 1994, Jeff Greinke volta a respirar ares menos tóxicos, aderindo a esquemas próximos da “world music” e do quarto mundo de Jon Hassell, o que significa bater com intensidade redobrada nos tambores e na tecla do exotismo, inflexão a que não será estranha a presença, a seu lado, de Rob Angus (os dois têm uma colaboração mais estreita, no registo ao vivo, “Crossing Ngoli”), autor de uma recente “Ethnoloopography”. No total, três discos que vêm complementar o compacto do mesmo autor, já editado e criticado em devido tempo neste suplemento, “Changing Skies”.

Steve Shehan – “Indigo Dreams”

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996


Steve Shehan
Indigo Dreams
KVOX, IMPORT. CONTRAVERSO



Num concerto realizado, no ano passado, na “selva” da Estufa Fria, onde Michel Redolfi desbaratou parte da sua reputação, chamou a atenção um percussionista que deverá ter posto as mãos para aí numas centenas de instrumentos. Era Steve Shehan, a quem se deve um dos melhores discos da Made to Measure, “Arrows”, e um dos melhores discos de “fusão” dos últimos tempos – “Assoul” – com o alaudista árabe Baly Othmani. “Indigo Dreams” vem na linha de “Arrows”. Como neste disco, Steve Shehan toca uma quantidade monstruosa de instrumentos, pedindo ainda ajuda extra a músicos das mais diversas proveniências geográficas, na tentativa de satisfazer as suas ânsias de universalismo absoluto. Há aqui de tudo um pouco e a boa notícia é que, em vez de uma salada de bijuteria exótica, encontramos uma síntese viva, com cabeça, tronco e membros, verdadeiramente digna de que se lhe chame “nova música do mundo” ou “música do novo mundo” ou outro nome qualquer sinónimo de prazer sem preconceitos nem fronteiras. Cânticos religiosos, percussões sampladas, re-sampladas ou simplesmente tocadas em tempo real (o que significa pouco ou quase nada, já que “tempo” e “realidade” se tornam, neste caso, conceitos mais subjectivos do que nunca…) esquematizam uma Ásia, uma África ou uma Europa que nunca existiram senão na imaginação. Esqueçam-se os mais recentes esforços de Hector Zazou, Steve Shehan vai já alguns sons à frente. A verdadeira “new age” começa aqui e sonha-se em Indigo. (8)