Arquivo da Categoria: Industrial

René Bertholo – “‘Desconserto De Mosika’, Na Assírio & Alvim, Em Lisboa – Músico-Reparadora Mecânica De Bertholo, Lda.”

cultura >> quarta-feira >> 14.02.1996


“Desconserto De Mosika”, Na Assírio & Alvim, Em Lisboa
Músico-Reparadora Mecânica De Bertholo, Lda.

UMA MÁQUINA de fazer música? Obrigado, já temos! Órgão electrónico, piano eléctrico, “Theremin”, “mellotron”, sintetizador, sequenciador, “sampler”… Sim, mas que tal uma máquina de fazer “mosika”? A diferença poderá ser conferida hoje, pelas 22h, na sala de exposições da Livraria Assírio & Alvim, na Rua Passos Manuel, 67-B, em Lisboa, onde o inventor da engenhoca, René Bertholo, dará um “desconserto de mosika”. A ortografia, com “s” em vez de “c”, faz supor um desconstrutivismo qualquer. Bertholo lá nos vai avisando: “Orelhas sensíveis, abstenham-se!”, para logo a seguir se apressar num “talvez não!”.
O som vai “viajar à volta da sala reproduzido por seis altifalantes”. O programa, é “visualizado por 600 luzes vermelhas e verdes”. Vai durar cerca de uma hora.
René Bertholo, pintor neofigurativo com um percurso iniciado nos anos 60 em Paris, onde fundou o grupo “KWY” (“Ká Wamos Yndo”, no gozo), concebeu, desenhou e fabricou a enigmática máquina – “espécie de sintetizador-sequenciador digita programável” – quando, em 1973, um amigo lhe deu a conhecer um artefacto bizarro designado “caixa-de-música”, dessas pequeninas, em forma de cilindro, com picos, um pente metálico e de dar a manivela, que tocam “Au claire de la lune”. Iluminação! Qual capitão Marvel, logo ali os céus desferiram um raio sobre a sua cabeça. Foi nesse momento que Bertholo resolveu construir uma coisa parecida, mas em grande e electrónica.
“A princípio”, diz, “era mais uma máquina que produzia ruídos”. Ainda hoje o pintor duvida de que o que ela produz “seja música”. Por isso optou pelo termo “mosika”. A máquina toca sozinha, funciona com programações de memória electrónicas possui duas unidades melódicas bifónicas (dos sons tocados em simultâneo) e trifónicas (três sons), três unidades de ruído (pássaros, rãs, etc) e dois mini “samplers” (de 16 segundos de memória cada). Há ainda unidades de percussão, filtros de modulação e um controlador de “envelope” (ataque, duração, “decay”) sonoro, como num sintetizador.
A curiosidade desta “máquina de mosika” está precisamente na junção de elementos arcaicos da chamada “música mecânica” (caixas-de-música, realejos, carrilhões, relógios musicais) com a síntese digital do “sampler”. Para o seu inventor possui a vantagem adicional de “tocar coisas diferentes das cassetes e discos” que tem lá em casa.

Jeff Greinke – “Timbral Planes” + “In Another Place” + “Big Weather”

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996


Útero De Pedra

JEFF GREINKE
Timbral Planes (8)
In Another Place (8)
Big Weather (7)
Linden, distri. Ananana



“On Land”, de Brian Eno, estabeleceu, ainda nos anos 70, os paradigmas de uma nova música electrónica, nos antípodas da “planante”. É verdade que, antes dele, já o francês Pierre Henry ligara os circuitos do cérebro à terra, numa obra avassaladora, “Cortical Art”, registo sonoro, em bruto e em directo, das ondas encefálicas. Mas foi Eno que adubou a terra em transe e a transformou numa estética com contornos e num conceito uniforme. É neste campo, onde os sintetizadores, em vez de se elevar, se roçam na água e nas pedras, agitando as entranhas do planeta, que fazem sentido as movimentações electroacústicas de Jeff Greinke. “Timbral Planes”, de 1987, é uma avalanche de sons em estado de choque. Disco pesado, em colisão com o silêncio, amplifica no inconsciente imagens de trovoada, fendas tectónicas, abismos aquáticos, nuvens que incham e glaciares que despertam. Uma música em permanente desequilíbrio telúrico que, em nenhuma circunstância, deverá ser escutado num local como a Califórnia, não por acaso, pátria das novas correntes “new age” electrocósmicas. “In Another Place”, de 1992, tem uma leitura menos linear. Uma faixa como “The stalker” define com rigor ambiências que alternam a viscosidade e a luz, bem ao modo do filme de Tarkovsky com aquele nome (2The Stalker”), na cena em que o labirinto desemboca numa sala meio submersa em água, o chão pejado de objectos domésticos que forças obscuras transformaram num tesouro de ameaças. “In Another Place” é, ele próprio, um labirinto de geometrias sobrepostas, onde as notas de um piano manchado de humidade se desagregam no meio de névoas e vapores. No seu trabalho mais recente, de 1994, Jeff Greinke volta a respirar ares menos tóxicos, aderindo a esquemas próximos da “world music” e do quarto mundo de Jon Hassell, o que significa bater com intensidade redobrada nos tambores e na tecla do exotismo, inflexão a que não será estranha a presença, a seu lado, de Rob Angus (os dois têm uma colaboração mais estreita, no registo ao vivo, “Crossing Ngoli”), autor de uma recente “Ethnoloopography”. No total, três discos que vêm complementar o compacto do mesmo autor, já editado e criticado em devido tempo neste suplemento, “Changing Skies”.

J. A. Deane – “Nomad”

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996


J. A. Deane
Nomad
VICTO, DISTRI. ÁUDEO



Toca trombone, apaixonou-se em tempos pelo calor analógico de um A.R.P. 2600, passou pelo Rova Saxophone Quartet, aprendeu a teatralidade da música com Sam Shepard, acompanhou Ike e Tina Turner, fez parte do grupo “new wave” Indoor Life. Deixou o trombone durante alguns anos, para tocar percussões acústicas e electrónicas com Jon Hassell. John Zorn, Shelley Hirsch, Jim Stanley, Butch Morris e Bill Horvitz fazem parte do lote das suas comparticipações musicais. Apareceu, entre nós, em disco, numa colectânea tripartida da Earational Records, ao lado dos Art Zoyd e Jeff Greinke, em que deixava antever o melhor. “Nomad”, composto para coreografias de Colleen Mulvihill, sintetiza as diversas vertentes e influências assimiladas ao longo dos tempos por este trombonista e manipulador de electrónica que, até certo ponto, se pode equiparar ao trompetista Bem Neill, na medida em que ambos, antes de serem executantes, no sentido clássico do termo, se assumem como conceptualistas e reestruturadores das sonoridades originais dos respectivos instrumentos. “Nomad” ordena e esculpe sequências de sons acústicos samplados (o “ney” de Richard Horowitz, por exemplo), que tanto podem tomar a forma de amplas explanações ambientais (“Wolfrun/Priests”, “Algebao”, “Dark heart”), como submeter-se às programações rítmicas (“Standing wave”) ou ainda divagar pelas regiões menos exploradas de uma “world music” digital (“Liquid time”) ou do minimalismo programático (“Last Supper”). A influência de Steve Reich e do Maciunas Ensemble faz-se sentir nos dez minutos finais de “Thread of life”, composto para a City Contemporary Dance Company de Hong Kong. Um álbum multi-sensorial em que Deane concretiza as suas aspirações em fazer uma música que, mais do que uma experiência linear, constitua um detonador de estados emocionais. “As peças em si não mudam”, diz, “mas as perspectivas sobre elas podem mudar.” (8)