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Perve – “Perve Em Estreia Com ‘Segmentos’ – PERVERTER PELA POSITIVA”

pop rock >> quarta-feira >> 24.05.1995


Perve Em Estreia Com “Segmentos”
PERVERTER PELA POSITIVA


“Segmentos”, álbum de estreia dos Perve, apresenta alguns enigmas, a começar pela personagem da máscara, cantor e letrista do grupo, enigmaticamente designado “O Homem”. “O Homem” não dá, por enquanto, entrevistas. O mundo jornalístico não está por enquanto preparado para a sua mensagem. Nuno Tavares, o guitarrista, substituiu-o no desvendar de alguns, poucos, desses mistérios. É também o regresso dos álbuns conceptuais e da defesa de conceitos como a “libertação sexual”, como forma de dizer alguma coisa que fuja aos esquemas rotineiros de produção.
PÚBLICO – Como é que nasceu a ideia do “Homem”?
NUNO TAVARES – Foi para chamar a atenção das pessoas, não no sentido comercial, mas para uma série de coisas que nós, Perve, e em particular “O Homem” temos para transmitir. Questões de valores.
P. – Mas são precisos a máscara, o anonimato, para transmitir esses valores?
R. – Quem transmite é o grupo, a forma musical. Os textos, poemas, é que são do “Homem”. Porquê a palavra “homem”? A ideia surgiu ao longo do nosso trabalho nos últimos dois anos, à medida que nos apercebíamos do que estávamos a fazer. Queríamos transmitir a nossa mensagem de uma forma lata e englobava valores que consideramos fundamentais…
P. – Que valores e que mensagem?
R. – Uma mensagem de valores humanos, de sensibilidade e liberdade. A todos os níveis. Tem a ver com os “segmentos”, como no tema “Mexe-te”, que fala de uma libertação do corpo. Aí queremos transmitir a mensagem da libertação sexual. Com os montes de problemas que hoje existem, as pessoas retraem-se, fecham-se cada vez mais. É o exemplo de uma mensagem transmitida ao homem pelo “Homem”.
P. – Nesse aspecto os textos do “Homem” nem sempre são muito claros. Estamos a recordar-nos, por exemplo, do tema “Calafrio”…
R. – Esse texto já não é tão directo. Está incluído no “Segmento do Ébano”. Tem mais a ver com uma calma nocturna. No fundo, é um sonho, um calafrio que a atravessa. “A flor do corpo”, por outro lado, tem uma componente um bocado surreal…
P. – A liberdade de que falava há pouco está, quanto a nós, mais nas formas musicais que vocês escolheram do que propriamente nas palavras, que se tornam em alguns casos quase redundantes.
R. – Não. É um facto que tentámos perverter algumas tipologias musicais que nos são familiares e que fizeram parte da nossa aprendizagem, a ouvir discos ou a ir a concertos. Temos uma percepção da música tanto no sentido mais normal do termo como no da música concreta ou do próprio ruído.
P. – Perve significa então essa perversão?
R. – Sim, é uma abreviatura de perversão, só que uma perversão que no nosso caso não tem qualquer carga negativa. Uma perversão positiva.
P. – Estávamos a falar das palavras…
R. – As palavras são fundamentais. As músicas nasceram quase sempre a partir de poemas. Um exemplo: o tema “A mulher-néon”, em que todo o ambiente, pesado, nasceu a partir da palavra “néon”.
P. – A audição de “Segmentos” indica que as pessoas do grupo ouviram muita música antes. Concretamente, o quê?
R. – No meu caso, sou um ouvinte de música mas não me preocupo muito em ir buscar… Não vou dizer nomes, acho que ia deixar sempre alguns de fora. A maneira como me relaciono com a música é procura-la quando ela não vem ter comigo.
P. – Os nomes da editora “Recommended” dizem-lhe alguma coisa?
R. – Conheço alguma coisa. O Chris Cutler, algumas das coisas que ele fez com vários grupos. Mas não tenho um conhecimento exaustivo da “Recommended”, até porque não é fácil encontrar os discos…
P. – “Segmentos”, como acontece com o disco de estreia dos U-Nu, descobre vias alternativas para a música portuguesa. Que opinião tem da música que se está a fazer hoje em Portugal?
R. – Estão a surgir várias coisas dentro de áreas distintas. Há grupos que continuam a procurar, não sei se uma originalidade, mas pelo menos uma coisa própria, que tenha a ver com o próprio país onde vivem. Depois há, por outro lado, uma tendênciapara surgirem muitas coisas que são demasiado coladas a sonoridades estrangeiras. Admitimos a influência da música anglo-saxónica, até porque a andámos a ouvir durante muitos anos, mas isso tem que ser filtrado e aplicado à realidade em que se vive. Outros há ainda que facilitam ainda mais e se deixam dominar por essas músicas.
P. – Sem pensar muito, diga o que pensa dos Madredeus?
R. – Sem pensar… É tão terrível… Madredeus… tem a ver com uma determinada tradição de música urbana.
P. – Pedro Abrunhosa?
R. – Um marco importante na viragem de determinada mentalidade e de determinados grupos instituídos. De repente aparece uma pessoa que de um momento para o outro põe em causa, com a sua música e a sua atitude, muitas das coisas que pareciam já ser instituições.
P. – A música dos Perve destina-se a minorias?
R. – Queremos, e estamos a trabalhar nisso, ter um espectáculo e ser um grupo que chegue ao maior número possível de pessoas. Não de uma forma massificada, de exposição total e absoluta, mas sim que a nossa mensagem seja compreendida. O que estamos a transmitir não é uma coisa directa, as pessoas podem não entender tudo à primeira, ou identificar-se somente com uma ou duas músicas, ou um determinado “segmento”.
P.- Acreditam na disponibilidade do público para receber essa mensagem que dizem não ser directa?
R. – Há pessoas que se podem identificar com o “Segmento da evasão”… No fundo é algo de que nós todos precisamos. Se calhar neste momento há um exagero, devido à conjuntura económica e social, e as pessoas precisam de extravasar para o álcool, para a droga, para o momento. Mas isso faz parte da vida. No fundo, há uma crise de valores e as pessoas refugiam-se. Nós não queremos condenar isso – até porque, como já disse, achamos a evasão legítima e natural -, mas sim mostrar que há outras coisas na vida.

Arturo Stalteri – “Racconti Brevi… E Il Pavone Parlò Alla Luna”

pop rock >> quarta-feira >> 19.04.1995
reedições


As Plumas Do Pavão

ARTURO STALTERI
Racconti Brevi… E Il Pavone Parlò Alla Luna (8)
Materiali Sonori, distri. Áudeo



Quem e lembra daquelas melodias, únicas no universo, que os Faust costumavam compor em guitarras acústicas, para grande assombramento de álbuns como “So Far” ou toda a sequência final de “The Faust Tapes”? “Racconti Brevi…” – o compacto reúne dois discos diferentes, “Racconti Brevi”, um mini-LP gravado entre 1977 e 1979 e remisturado em 1993, e “… E Il Pavone…”, de 1983 – começa na mesma veia bucólico-minimalista. O que se segue, como acontecia com aquele grupo germânico, é indescritível. Stalteri, um italiano que tocou numa banda chamada Pierrot Lunaire, faz parte daquela família de iluminados que, além dos Faust, inclui nomes como Daniel Schell, Lars Hollmer, J. Lachen, Marc Hollander (quem reedita em CD o fenomenal “Onze Danses pour Combattre la Migraine”?) e os Z.N.R., de Hector Zazou (há mais, muitos mais, que a turba ignora e não poucas vezes despreza).
Stalteri é um compositor nato com tendência para utilizar as regiões menos exploradas do cérebro. As ideias que lhe jorram da cabeça assumem invariavelmente formas pouco usuais. Não são jazz, nem progressivo, nem clássico, nem é pop, mas algo mais além e escondido. Nos domínios de Alice e dos delírios surrealistas. Um órgão Farfisa em transe meditativo, ragas psicadélicas, refracções electro-acústicas inspiradas em Terry Riley, da sala de espeçhos “Poppy nogood and the phantom band”, num passeio pela Idade Média (“Goa difronte all’oceano), um “Volo noturno” que lembra “Magician’s Hat”, de Bo Hansson, nas suas vibrações de catedral esculpida num iceberg. Referências que apenas servem enquanto sinais de orientação.
Em “Mulini” Arturo Stalteri tira o máximo partido da sua experiência como pianista clássico. A música indiana cruza-se com a guitarra de Robert Fripp em “… E il pavone parlò alla luna”. “La pescatrice di perle” prenuncia os “loops” ambientais de Ingram Marshall. Num “Morceau” de 46 segundos Arturo Stalteri transforma-se me Keith Jarrett, que se transforma em Hector Zazou, que se transforma em Keith Emerson. “Raga occidentale” oscila por 17 minutos, durante os quais o espectro da dupla Slapp Happy – Henry Cow, de “Desperate Straights”, se dilui na auto-hipnose de um piano autista. Um objecto nas margens mais longínquas da normalidade.

Carlos Zíngaro + José Mário Branco + Luís Cília + Nuno Rebelo + U-NU + Júlio Pereira + Vai de Roda + Realejo – “O Que Está Para Acontecer”

pop rock >> quarta-feira >> 04.01.1995


O QUE ESTÁ PARA ACONTECER

CARLOS ZÍNGARO



MÚSICO DE GRANDE PROJECÇÃO ALÉM-FRONTEIRAS, CARLOS Zíngaro nunca teve em Portugal o reconhecimento merecido. 1995 será mais um ano em que o violinista se desdobrará por várias actividades no âmbito da nova música europeia. A reedição, no início deste ano, do compacto “Solo”, gravado no Mosteiro dos Jerónimos com o selo In-Situ, cuja primeira edição se esgotou, será acompanhada, na mesma editora, pelo lançamento de um álbum de genérico “Periferia”, por um quarteto do qual fazem parte, além de Zíngaro, o saxofonista Daunik Lazro, o contrabaixista Jean Bolcato e o pianista Sakis Papadimitriou.
Ainda em matéria de novos discos, sairá este ano, na Avant, editora de John Zorn, a ópera interactiva “Golem”, do teclista Richard Teitelbaum, na qual participam o violinista português, a cantora Shelley Hirsch, o guitarrista David Moss e o trombonista George Lewis.
Em termos de espectáculos, Carlos Zíngaro tem programado um concerto em Colónia, realizada pela WVDR (Rádio Televisão da Vestefália), integrado num festival de nova música, ao lado de outros dois violinistas, Mark Feldman e Malcolm Goldstein – todos em actuações a solo. No Festival de Artes de Seul, na Coreia, Zíngaro apresentará nos finais de Setembro um projecto duplo, com actuações com músicos locais e, em paralelo, espectáculos de bailado com música ao vivo e a participação dos bailarinos João Natividade e Margarida Bettencourt.
O mesmo formato, apresentado pela primeira vez em Macau no passado mês de Dezembro, será seguido em Tóquio, onde o músico português tocará com executantes japoneses. “A editora de Hong-Kong, Sound Factory, mostrou-se por seu lado interessada em editar, caso as ‘masters’ estejam em condições, a banda sonora deste projecto, que foi apresentado me Macau”, acrescenta Carlos Zíngaro.
Em Portugal, está agendado um concerto ao ar livre, em Idanha-A-Nova, com o compositor e percussionista espanhol Llorenç Barber, a realizar em Agosto numa ponte romana que liga Portugal a Espanha. Neste projecto, Barber tocará os sinos de vários campanários de igrejas da região.

JOSÉ MÁRIO BRANCO




AINDA NÃO SE ESGOTARAM OS ECOS DO espectáculo “Maio Maduro Maio”, realizado recentemente no S. Luiz, em Lisboa, e José Mário Branco não tem mãos a medir. O novo ano tem uma agenda carregada à sua espera. 1995 será o ano de edição em compacto da obra integral deste autor, numa editora que deverá ser a Edisom. Serão sete CD, os três que já saíram – o duplo “Mudam-se os Tempos” e “Margem de Certa Maneira”, e “Correspondências” – aos quais se irão juntar “A Mãe”, “A Noite”, “Ser Solidário / FMI” e um sétimo disco, que “terá coisas dispersas, anteriores, como ‘O soldadinho’, ‘Cantigas de amigo’, temas do GAC e alguns inéditos”. Os discos serão vendidos separadamente mas, ao mesmo tempo, será editado um pacote com os sete, contendo um livro autobiográfico e com a análise da obra e iconografia de José Mário Branco. Também para este ano está prevista a saída do disco, na Sony Music, com a gravação ao vivo do espectáculo “Maio Maduro Maio”. Outro dos projectos de José Mário Branco é a produção, em Janeiro, de um disco de fados, ao vivo, de Camané: “Vai ser gravado em condições relativamente inéditas em termos de fado, ou seja, vamos recriar, durante quatro noites, o ambiente pré-preparado de uma casa de fados, com pessoas escolhidas, vinho tinto e chouriço assado, um bocado como na televisão, com possibilidade de repetir”. Logo a seguir, será a gravação de um projecto de José Peixoto, José Salgueiro, Paulo Curado e João Paulo, um disco de canções infantis cantadas por Maria João. José Mário Branco terá a seu cargo os arranjos e a direcção musical. O disco chamar-se-á “Bom Dia, Benjamim” e é “a história de um dia da vida de um miúdo de cinco anos de idade” – após o que será a entrada em estúdio dos Gaiteiros de Lisboa, para a gravação do seu álbum de estreia, com edição prevista para o meio do ano, coincidindo com um concerto misto de José Mário Branco com o grupo, inicialmente agendado para este mês mas que acabou por ser adiado e substituído pelo espectáculo “Maio Maduro Maio”.

JÚLIO PEREIRA
JÚLIO PEREIRA ESTÁ ZANGADO COM A EDITORA, A SONY MUSIC. O ALBUM “ACUSTICO”, EDITADO no final do ano passado, foi bem recebido pela crítica, o que, segundo o músico, justificaria da parte da editora uma aposta maior em termos de promoção: “Eu, projectos para este ano, tenho vários, mas não me apetece divulga-los agora. Os projectos passam muito pela resposta aos trabalhos que a gente faz. Neste momento, ainda estou à espera que a minha editora, que é a Sony, avise e informe as pessoas do meu país, e, inclusive, do estrangeiro, que o meu disco saiu. Não quero entrar numa má, mas neste momento não me apetece ficar calado.” Está dado o recado.

LUÍS CÍLIA




“A ÚNICA CERTEZA É QUE NO FINAL DE JANEIRO sairá um disco meu”, diz Luís Cília, em relação a projectos para 1995. O disco, instrumental, será editado sob a etiqueta Strauss e conterá extractos de bailados, para a Gulbenkian, que o artista foi compondo ao longo dos últimos anos, em vários locais, como a Holanda e a Suíça. O saxofonista Edgar Caramelo será o único convidado presente. Para além deste álbum, Luís Cília não arrisca outros prognósticos. “Em Portugal não se pode fazer grandes projectos”, diz. “Sobretudo depois do que se gastou com Lisboa 94, com a Lisboa ‘gutural’, como eu lhe chamo. Não sei se restou algum dinheiro para os artistas portugueses. Projectos, em Portugal, só se forem a curto prazo.” Luís Cília conta também escrever a música para a peça “A Morte de Um Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller, que será levada à cena pela companhia de teatro Malaposta.

NUNO REBELO




NÃO APARECE MUITO NA IMPRENSA, GOSTA DE participar em projectos multimédia, de experimentar campos musicais alternativos e gravou um disco lapidar: “Sagrações do mês de Maio”. Este ano Nuno Rebelo, ex- Street Kids, ex-Mler Ife Dada e ex-Plopoplot Pot, vai dar um concerto à hora de almoço no Acarte, no dia 2 de Fevereiro. “Com música ao vivo sobre um vídeo do Edgar Pêra, ‘Um Mundo sobre o Outro, Desbotado’ baseado numa novela de Maria Isabel Barreno.” O vídeo, gravado para o ISPA, tinha 20 minutos de duração e música composta por Rebelo. No espectáculo ao vivo será, porém, apresentada uma versão diferente, intitulada “As alucinações estão aí”. No palco vai estar, ao lado de Nuno Rebelo, o guitarrista Jean-Marc Montera, que já tinha tocado este ano no S. Luiz, em Lisboa, com Paul Lovens e Carlos Zíngaro. Além deste concerto, Nuno Rebelo refere que apenas tem na agenda compor música para “umas peças de teatro à espera de subsídio, aquelas coisas…”.

REALEJO
OS REALEJO SÃO UM GRUPO DE MÚSICA DE RAIZ TRADICIONAL DO QUAL MUITO SE ESPERA PARA este ano. Fernando Meireles, construtor e tocador de sanfona, anunciou que a banda vai estar em estúdio em Janeiro e Fevereiro para gravar o álbum de estreia que em princípio deverá sair no início da Primavera. “Quem vai produzir o disco é o Luís Pedro Fonseca, que trabalhou no álbum da Né Ladeiras. Penso que ele irá vender o disco à EMI”. “Tudo surgiu”, explica Fernando Meireles, “por causa da nossa participação no disco do Fausto”. O álbum dos Realejo esteve para ser feito no Nova Estúdio, o que não aconteceu porque entretanto “surgiram umas complicações”. “Eles não tinham dinheiro para investir, tivemos que ser nós a fazê-lo”, diz Fernando Meireles. Depois da apresentação do disco, este músico é de opinião que para os Realejo “as coisas irão tomar um novo rumo” em 1995, embora reconheça que o ano que passou foi aquele em que os Realejo fizeram mais espectáculo – “tem vindo a melhorar de ano para ano!”

U-NU




OS U-NU SÃO UMA NOVA BANDA DO PORTO CUJA estreia discográfica, “A Nova Portugalidade”, o POPROCK inclui na lista dos dez melhores discos portugueses do ano. Para já, segundo o letrista do grupo, José João Cochofel, ex-membro dos Clã, os U-Nu “vão aguardar pelo tipo de aceitação que o disco terá e ver até onde poderá chegar”. A intenção é fazer espectáculos, “muitos espectáculos”. Para já, a apresentação em Lisboa de “A Nova Portugalidade” está marcada para o próximo dia 9, ao fim da tarde, no Chapitô. À noite, a banda fará uma actuação ao vivo no novo bar deste recinto. Dia 12, no Johnny Guitar, haverá nova oportunidade para o público lisboeta escutar a música inovadora dos U-Nu.
Num ano que para este grupo se poderá considerar muito positivo, José João Cochofel faz o balanço e acha que “houve espaço para os novos projectos”, embora considere que 1994 foi um ano “um bocado confuso”. “Houve coisas”, diz, “que surgiram de repente e de que ninguém estava à espera, como é o caso do Abrunhosa. Ninguém pensaria que o fenómeno tomasse as proporções que tomou. Por outro lado, so grupos mais consagrados andaram um bocado mais apagados”. Quanto aos U-Nu, não têm grandes razões de queixa, embora reconheçam que a época escolhida para a apresentação à editora do projecto “A Nova Portugalidade”, há cerca de dois anos, não tenha sido muito propícia – “o trabalho talvez estivesse ainda um pouco verde ara editar”. Certo é que os U-Nu apresentaram então uma maqueta “praticamente igual ao que seria o disco” e pouco tempo depois a editora, a Numérica, aceitou fazer a edição de um trabalho que o próprio José João Cochofel considera ser “um bocado difícil”. Até agora “A Nova Portugalidade” tem já vendida cerca de meia edição, o que não é mau para um disco com as suas características e acabado de editar. Apesar de “alguma confusão em certas lojas, que não têm o disco”, como acentua José João Cochofel, para quem a explicação para isto talvez seja “o facto de ser Natal…”.

VAI DE RODA
“VAI DE RODA” E “TERREIRO DAS BRUXAS” SÃO dois álbuns, distantes um do outro no tempo, que vieram recolucionar o conceito de música de raiz tradicional feita em Portugal. É pois com enorme expectativa que se aguarda o terceiro capítulo da obra deste grupo liderado pelo tocador de sanfona, e outros instrumentos, Tentúgal. O final da gravação deverá acontecer, segundo Tentúgal, no final de Janeiro, estando a edição do álbum apontada para a Primavera. O disco será, em princípio, editado pelos próprios músicos do grupo, não estando posta de parte a hipótese de uma editora o comprar. “Tivemos cinco propostas de editoras, mas nenhuma delas nos agradou, portanto resolvemos tomar nós a peito todo o processo”. Sobre os actuais Vai de Roda, Tentúgal diz que a sua formação “está mais madura” e sobre o terceiro disco da banda apenas adianta que “vai ter a inclusão de novos instrumentos, como a gaita-de-foles a ganhar uma maior predominância”. Neste momento, além do próprio Tentúgal, o grupo tem como gaiteiro principal Jorge Lira. Quanto a espectáculos, na altura em que os Vai de Roda deixaram de ter a Mundo da Canção como empresária – “estamos autónomos” -, incluindo o de apresentação do novo disco, irão ter lugar sobretudo na Galiza, à semelhança do que aconteceu em 1993.
Este ano será ainda, para Tentúgal, um ano de “animação”. O músico é produtor da Filmógrafo, com actividade no cinema de animação, tendo composto a banda sonora de “Os Salteadores”, uma curta-metragem realizada por Abi Feijó, que ganhou um prémio em Aix-la-Provence, obteve a Espiga de Ouro em Valladolid e agora está proposta para os Óscares. Tentúgal encontra-se neste momento a fazer música para os próximos projectos de Feijó.