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Carpe Diem – “En Regardant Passer le Temps” + “Cueille Le Jour” + Clearlight – “Clearlight Symphony II” + “Forever Blowing Bubbles”

pop rock >> quarta-feira >> 01.11.1995
reedições


Carpe Diem
En Regardant Passer le Temps (7)
Cueille Le Jour (8
)



Do progressive assumido de “En Regardant…”, datado de 1975, os Carpe Diem evoluíram em “Cueille le Jour”, do ano seguinte, para um som fluido, atento às lições emanadas da escola de Canterbury. Na carteira ao lado sentavam-se os Caravan. “En Regardant…” é um disco construído sobre imagens poéticas fortes e metamorfoses sonoras subtis. Quatro temas onde a guitarra de Gilbert Abbenanti ainda ditava algumas leis, sem esconder a influência de Andy Latimer, dos Camel. Disperso entre citações aos Camel e Soft Machine, em “Tramontane”, e um “Divertimento” pianístico, é porém nos 21m38s de “Couleurs” que os Carpe Diem deixam em “Cueille le Jour” o testemunho que os fará lembrados no futuro, uma “suite” canterburiana onde os lugares-comuns do progressivo são cuidadosamente evitados e uma iluminação feérica deixa perceber todo o idealismo de uma década que acreditava de facto que a música podia ser uma fantasia interminável.

Clearlight
Clearlight Symphony II (6)
Forever Blowing Bubbles (7)



Cyrille Verdeaux é um “guru”, com barbas e tudo, versão sinfónico-progressivo de Terry Riley. Em 1975, a Virgin editou aquele que permanece até hoje o seu trabalho mais conseguido, “Clearlight Symphony”, como o nome indica, uma “sinfonia” composta com toda a probabilidade sob os efeitos do ácido “clearlight” (a capa não engana…). Algo parecido com o que poderia sair da mente de um Mike Oldfield afogado em LSD. “Clearlight Symphony II” é um trabalho de repescagem mal feito. Verdeaux desenvolveu as várias (e memoráveis) unidades melódicas do disco original e “desenvolveu-as” até chegar a um mono de uma hora e tal de duração que descontextualiza por completo a unidade e compacticidade da obra na sua primeira e definitiva versão. Ou seja, Verdeaux incorreu no mesmo erro que Mike Oldfield, quando este decidiu refazer “Tubular Bells”. Salva-se a inclusão, intocável, de todo o primeiro lado do álbum original, vinte minutos de “trip” electro-romântica de Verdeaux, Tim Blake e Steve Hillage, transformada em “5 movimento” nesta requentada sinfonia número dois. “Forever Blowing Bubbles” é a ressaca, a desagregação da alucinação, pulverizada em bolhas que a luz da manhã seguinte dissipa. Álbum de canções e quadros romanescos que se formam e desfazem diante dos olhos ainda estremunhados, sinalizado pelo borbulhar electrónico dos sintetizadores, o piano sonhador de Verdeaux, a guitarra planante de Christian Boule e o violino “crimsoniano” de David Cross.

Art Zoyd – “‘Nosferatu’ E Art Zoyd Encontram-se No Apocalipse – Um Vampiro Na Galáxia Zoyd”

cultura >> sábado, 07.10.1995


“Nosferatu” E Art Zoyd Encontram-se No Apocalipse
Um Vampiro Na Galáxia Zoyd


Com os Art Zoyd as separações musicais deixam de fazer sentido. Música rock para eruditos ou música erudita para “rockers”, ninguém consegue aprisioná-la nem a ela ficar indiferente. Adeptos e praticantes de uma arte total, discípulos de Wagner e dos Magma, os Art Zoyd vão ter neste fim-de-semana as imagens de Murnau por companhia.



O espectáculo que hoje e amanhã, pelas 21h30, terá lugar no Grande Auditório da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, inserido na programação da Culturgest, sob o “Ciclo Apocalipse”, é absolutamente a não perder. Anuncia-se o cruzamento das obras expressionistas de Friedrich W. Murnau, “Faust” e “Nosferatu”, com a música ao vivo do quarteto francês Art Zoyd. Síntese a preto e branco do terror e da loucura humana com a visão totalitária e “wagneriana” que preside à estética do grupo e, em particular, da composição “Nosferatu” (o vampiro que traz a peste), assinada por Thierry Zaboitzeff e Gérard Hourbette. Cardíacos, dogmáticos e mentes simples, abstenham-se.
Existirão hoje em dia na Europa poucos grupos conotados com o universo da música rock com a dimensão dos Art Zoyd. Numa época em que o efémero predomina e o sucesso a todo o custo se sobrepõe ao trabalho em profundidade, os Art Zoyd movimentam-se na direcção contrária. Desde 1969, ano da sua formação, que o grupo vem construindo uma obra cujos alicerces mergulham simultaneamente na música europeia – das correntes eruditas deste século às tradições folk mais remotas – e em linguagens contemporâneas que vão do rock ao minimalismo, da electrónica à revisitação, em moldes revolucionários, da música de câmara.
Coincide com a eclosão do movimento “punk” a deflagração das actividades discográficas do grupo, acompanhadas, ao longo da década seguinte, pela participação intensa em festivais de música contemporânea em todo o mundo. Em 1977, em plena confusão desencadeada pelos Sex Pistols, era difícil classificar uma banda cuja música tinha a sua força em motivações estéticas e filosóficas e que ainda por cima não se envergonhava de utilizar em cena violinos e violoncelos. Foi talvez esse o motivo que, na ausência de outros parâmetros, levou, na altura, um crítico alemão a classificar o som dos Art Zoyd como “música de câmara para punks”.
A editora e cooperativa cultural Recommended, de Chris Cutler (Henry Cow, Art Bears, Cassiber, Pere Ubu…) foi a primeira a alertar para a qualidade da obra do grupo e da urgência em conhecê-la. Os Art Zoyd surgem então como impulsionadores de uma corrente musical que, para alguns, prolonga, segundo critérios já totalmente libertos do lastro do psicadelismo e de um “sinfonismo” mal assimilado, a música progressiva da primeira metade dos anos 70. Ao seu lado estão outros grupos, como Univers Zero, Présent, Conventum, Aksak Maboul ou Débile Menthol, determinados em dar um rosto novo e menos empoeirado à nova música nascida no velho continente.
Da obra discográfica dos Art Zoyd, ao todo nove álbuns, todos disponíveis em importação nacional, destacam-se as obras-primas “Symphonie pour le Jour où Brûleront les Cités” (1976, para uma coreografia de Roland Petit), “Génération sans Futur” (1980), “Les Espaces Inquiets” (1983), “Le Marriage du Ciel et de l’Enfer” (1985), “Nosferatu” (1989), o último “Marathonnerre” (1992), em dois volumes que resumem 12 horas de uma ópera multimédia de Serge Noyelle, e, sobretudo “Berlin”, de 1987, alucinação premonitória e apocalíptica sobre o futuro da cidade-mito, cujo muro viria a cair dois anos mais tarde.
Na música dos Art Zoyd acotovelam-se referências musicais e poéticas díspares que vão de Bela Bartok a Frank Zappa, dos Van Der Graaf Generator aos minimalistas americanos, da folk da Europa central a Wagner, de Hoelderlin a William Blake, de Shakespeare a Friedrich Nietzsche. E, no lugar cimeiro do alter, Christian Vander e os Magma, dos quais os Art Zoyd são os legítimos herdeiros.
Os Art Zoyd são Thierry Zaboitzeff (violoncelo, baixo eléctrico, teclados, voz, percussão, electroacústica, misturas), Patricia Dallio (teclados) e Daniel Denis (percussão, teclados). Uma galáxia à parte, nos confins da arte deste século.

Art Zoyd – “Marathonnerre I & II”

pop rock >> quarta-feira >> 12.01.1994


Art Zoyd
Marathonnerre I & II
Atonal, import. Contraverso


Poucos grupos além dos Art Zoyd se poderão orgulhar de possuir uma discografia em que não se vislumbra qualquer ponto fraco. Com efeito, esta banda francesa ocupa hoje uma posição privilegiada na música deste século, naquele lugar onde se cruzam todas as épocas e as etiquetas “popular” e “erudita” deixam de fazer sentido. “Marathonnerre” é a nova obra de fôlego dos Art Zoyd, actualmente um trio formado por Thierry Zaboitzeff, Gérard Hourbette e Patricia Dallio, editada em dois compactos separados, composta para um espectáculo “multimédia” do mesmo nome, com 12 horas de duração, apresentado ininterruptamente entre o meio-dia e a meia-noite, segundo coreografia e realização de Serge Noyelle. À semelhança dos anteriores “Berlin” (uma das obras-chave, senão a maior, da música alternativa dos anos 80) e “Nosferatu”, sobre a obra do expressionista alemão Murnau, “Marathonnerre” é uma obra desmesurada com a dimensão mítica de Wagner, a alma presa à memória dos Magma e a disciplina férrea própria dos Laibach. A electrónica e a manipulação dos “samplers” ganham aqui importância crescente, com algumas sequências a recordarem as sínteses electro-étnicas da dupla Musci-Venosta. A música evolui por ciclos amplos, em alternância de tensões e clímaxes instrumentais. Música de câmara do século XXI por uma dupla francesa, Thierry Zaboitzeff e Gérard Hourbette, que é a digna sucessora da parelha, igualmente gaulesa, formada nos anos 70 por Christian Vander e Jannick Top, o núcleo de fogo dos Magma. Fundamental. (9)