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Art Zoyd – “Aliança Murnau / Art Zoyd Provoca Agitação Na Culturgest – Depósitos De Loucura”

cultura >> segunda-feira, 09.10.1995


Aliança Murnau / Art Zoyd Provoca Agitação Na Culturgest
Depósitos De Loucura


A loucura do vampiro. A loucura de Fausto que vende a alma ao diabo. A loucura de Murnau, ao expor a essência demoníaca do cinema. A loucura musical dos Art Zoyd, ao surripiarem a alma de Murnau. A loucura de João César Monteiro, na tentativa de boicote ao espectáculo. Noite desvairada no Auditório da Caixa Geral de Depósitos.
Sob o ciclo do Apocalipse – Templo da revelação.



A loucura assentou praça no Grande Auditório do Edifício Sede da Caixa Feral de Depósitos, sábado à noite, durante a projecção do “Nosferatu” de Friedrich Murnau, com acompanhamento musical ao vivo do quarteto francês Art Zoyd. Um espectáculo fabuloso, sob vários aspectos, e que não poderia ser mais adequado à temática em questão: o Apocalipse.
Tempo de todas as sínteses, sobreposições e separações. E paradoxos. Tempo da anulação do tempo e, como tal, da História. A música “monstruosa” dos Art Zoyd foi a melhor ilustração e complemento para a grande ilusão (monstruosidade de outra espécie, menos aparente) tecida pelo cinema do mestre do Expressionismo alemão, em “Nosferatu” e “Faust”.
Não foi da mesma opinião o realizador português João César Monteiro. Volvidos escassos minutos após o início da projecção de 2Nosferatu”, o autor de 2ª Comédia de Deus” – cujas semelhanças fisionómicas com o vampiro de Murnau são notórias – invadiu o palco, encetando o seu “show” particular. Com o prémio obtido recentemente em Cannes debaixo do braço, lançou ali mesmo, aos músicos e a uma plateia divertida, um manifesto contra o que considerou um “crime lesa cinema” e que resumiu em três máximas fundamentais: “Já fui enganado!”, “Parem lá com essa merda!” e “Quero a minha maçaroca!”. Enquanto o diabo esfrega um olho, os Art Zoyd tinham conseguido destruir cem séculos de cinema e deitado por terra a respeitabilidade de Murnau… O circo encerrou quando um segurança tirou dali o senhor que ainda esboçou uns socos e pontapés, acabando por deixar abandonado no chão – quiçá num gesto simbólico – o seu prémio tão arduamente conquistado. No intervalo, o vampiro, perdão, o realizador Monteiro voltou a insistir na tese de “lesa cinema”, ao mesmo tempo que definia a música dos Art Zoyd como “chinfrineira”. No ar, deixou um terrível repto: “O cinema há-de voltar!” A César oq eu é de César.

Um “Intermezzo”

Acabou por ser um “intermezzo” saboroso que teve o condão de amenizar um ritual de três horas de emoções fortes. Uma sessão que terá abalado algumas convicções e posto em jogo o papel das imagens e da música, e da sua intersecção, enquanto formas de manipulação, física, mental e emocional. A música dos Art Zoyd, já o havíamos escrito e avisado, pode ser esmagadora. Para alguns até, como se viu, insuportável. Cadinho onde fervem as memórias de Wagner e dos Magma, ou a música industrial dos Laibach e Test Dept., nas sequências de metal percutido, autênticas marchas do Armagedão, capazes de põr os cabelos em pé a muita gente. Havia o perigo de este protagonismo excessivo dos sons prejudicar a concentração nas imagens e impedir a sua respiração ou parasitar o seu ritmo interno. Tal não aconteceu. O cinema de Murnau é suficientemente forte e, da mesma forma que a estética dos Zoyd, aferido por escalas que transcendem as normas vulgares. Combate titânico mas também uma aliança. Inferno contra inferno, mas também poesia potenciada por poesia. Acumulação de excessos até ao paroxismo.
O “Nosferatu” musical dos Art Zoyd é uma entidade autónoma, gravada em disco, peça fundamental da música contemporânea actual. O “Nosferatu” de Murnau, ao contrário do que muitos insistem que seja, não é mera peça de museu mas um raio de luz (e do seu inverso, as trevas) onde vem montado Lucifer, a reinar até ao presente. Juntos, são mais medo, um combate maior, aliança superior, linguagem fértil que se desdobra num outro tipo de brilho, tão ou mais intenso que o original.

O “Pecado” Das Manipulações

A questão em saber se os dois fimes, na origem mudos, ganham ou perdem com a “intrusão” da música é supérflua. Os Art Zoyd, entre outras operações de maior profundidade, assumem afinal a tal manipulação que toda a forma de arte em si encerra a neste final de século se revela como condição intrínseca ao próprio acto criativo. Vide, em música, a importância crescente das técnicas de samplagem, ou, em cinema, o exemplo dado pelo próprio César Monteiro… De resto, o grupo francês teve o cuidado, logo no genérico, de elucidar que se tratava do seu “Nosferatu”, interpretação que inevitavelmente iria provocar transformações – de significado e de percepção – no seu companheiro cinematográfico.
As duas longas composições, mais composta a de “Nosferatu” que a de “Fausto”, remetida a um papel de pontuação, vivem da acumulação e sobreposição de climaxes e distensões. O lado marcial e sinfónico das percussões electrónicas acumula tensões, saturando o lado narrativo das imagens. Por contraste, estas parecem ressuscitar para sentidos inéditos e ainda mais perturbantes, quando a música recua para o sussurro ou para a chuva miúda de uma caixa-de-música, ou ainda quando reinventa cânticos religiosos, uma gaita-de-foles ou sopros virtuais, iluminando lados de sombra, expressões singulares ou alguns momentos de humor que atravessam, sobretudo, o “Fausto” do cineasta alemão. Os Art Zoyd levaram o atrevimento ao ponto de ousar “canções” nos instantes preparatórios em que o sortilégio do preto e branco não lançara ainda a investida. Se é que se pode chamar “canções” aos cânticos guerreiros de Thierry Zaboitzeff, teletransportados do planeta “Kobaia”, de Christian Vander.
Noite de loucura, repetimos, e de revelação. Da grande música dos Art Zoyd. E de algumas carantonhas.

Art Zoyd – “‘Nosferatu’ E Art Zoyd Encontram-se No Apocalipse – Um Vampiro Na Galáxia Zoyd”

cultura >> sábado, 07.10.1995


“Nosferatu” E Art Zoyd Encontram-se No Apocalipse
Um Vampiro Na Galáxia Zoyd


Com os Art Zoyd as separações musicais deixam de fazer sentido. Música rock para eruditos ou música erudita para “rockers”, ninguém consegue aprisioná-la nem a ela ficar indiferente. Adeptos e praticantes de uma arte total, discípulos de Wagner e dos Magma, os Art Zoyd vão ter neste fim-de-semana as imagens de Murnau por companhia.



O espectáculo que hoje e amanhã, pelas 21h30, terá lugar no Grande Auditório da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, inserido na programação da Culturgest, sob o “Ciclo Apocalipse”, é absolutamente a não perder. Anuncia-se o cruzamento das obras expressionistas de Friedrich W. Murnau, “Faust” e “Nosferatu”, com a música ao vivo do quarteto francês Art Zoyd. Síntese a preto e branco do terror e da loucura humana com a visão totalitária e “wagneriana” que preside à estética do grupo e, em particular, da composição “Nosferatu” (o vampiro que traz a peste), assinada por Thierry Zaboitzeff e Gérard Hourbette. Cardíacos, dogmáticos e mentes simples, abstenham-se.
Existirão hoje em dia na Europa poucos grupos conotados com o universo da música rock com a dimensão dos Art Zoyd. Numa época em que o efémero predomina e o sucesso a todo o custo se sobrepõe ao trabalho em profundidade, os Art Zoyd movimentam-se na direcção contrária. Desde 1969, ano da sua formação, que o grupo vem construindo uma obra cujos alicerces mergulham simultaneamente na música europeia – das correntes eruditas deste século às tradições folk mais remotas – e em linguagens contemporâneas que vão do rock ao minimalismo, da electrónica à revisitação, em moldes revolucionários, da música de câmara.
Coincide com a eclosão do movimento “punk” a deflagração das actividades discográficas do grupo, acompanhadas, ao longo da década seguinte, pela participação intensa em festivais de música contemporânea em todo o mundo. Em 1977, em plena confusão desencadeada pelos Sex Pistols, era difícil classificar uma banda cuja música tinha a sua força em motivações estéticas e filosóficas e que ainda por cima não se envergonhava de utilizar em cena violinos e violoncelos. Foi talvez esse o motivo que, na ausência de outros parâmetros, levou, na altura, um crítico alemão a classificar o som dos Art Zoyd como “música de câmara para punks”.
A editora e cooperativa cultural Recommended, de Chris Cutler (Henry Cow, Art Bears, Cassiber, Pere Ubu…) foi a primeira a alertar para a qualidade da obra do grupo e da urgência em conhecê-la. Os Art Zoyd surgem então como impulsionadores de uma corrente musical que, para alguns, prolonga, segundo critérios já totalmente libertos do lastro do psicadelismo e de um “sinfonismo” mal assimilado, a música progressiva da primeira metade dos anos 70. Ao seu lado estão outros grupos, como Univers Zero, Présent, Conventum, Aksak Maboul ou Débile Menthol, determinados em dar um rosto novo e menos empoeirado à nova música nascida no velho continente.
Da obra discográfica dos Art Zoyd, ao todo nove álbuns, todos disponíveis em importação nacional, destacam-se as obras-primas “Symphonie pour le Jour où Brûleront les Cités” (1976, para uma coreografia de Roland Petit), “Génération sans Futur” (1980), “Les Espaces Inquiets” (1983), “Le Marriage du Ciel et de l’Enfer” (1985), “Nosferatu” (1989), o último “Marathonnerre” (1992), em dois volumes que resumem 12 horas de uma ópera multimédia de Serge Noyelle, e, sobretudo “Berlin”, de 1987, alucinação premonitória e apocalíptica sobre o futuro da cidade-mito, cujo muro viria a cair dois anos mais tarde.
Na música dos Art Zoyd acotovelam-se referências musicais e poéticas díspares que vão de Bela Bartok a Frank Zappa, dos Van Der Graaf Generator aos minimalistas americanos, da folk da Europa central a Wagner, de Hoelderlin a William Blake, de Shakespeare a Friedrich Nietzsche. E, no lugar cimeiro do alter, Christian Vander e os Magma, dos quais os Art Zoyd são os legítimos herdeiros.
Os Art Zoyd são Thierry Zaboitzeff (violoncelo, baixo eléctrico, teclados, voz, percussão, electroacústica, misturas), Patricia Dallio (teclados) e Daniel Denis (percussão, teclados). Uma galáxia à parte, nos confins da arte deste século.

Vários – “XIX Festa Do ‘Avante!’ Ao Ritmo Do Mississipi – Crocodilos Do ‘Cajun’”

cultura >> segunda-feira, 04.09.1995


XIX Festa Do “Avante!” Ao Ritmo Do Mississipi
Crocodilos Do “Cajun”


O bicho do “cajun” dos French Alligators mordeu forte na Atalaia. Ficou meio mundo a dançar, com o seu “cocktail” de danças francófonas afogadas nos pântanos do Louisiana. Ainda com mais força bateram os “blues” dos Chicago Blues Explosion!, numa memorável noite de sábado em que a música ascendeu, sanguínea, pela veia do Misssissipi, desde Bâton Rouge até à pátria dos “blues” electrificados.



Estiveram menos pessoas este ano na Festa do “Avante!”. Em parte porque, para muitos, as férias se prolongaram pelo fim-de-semana, em parte devido ao programa ser menos apelativo. Mesmo assim foram muitos os milhares de uma população nómada maioritariamente jovem a percorrerem como formigas o tapete verde da Atalaia (sim, sim, acabou o pó, o vermelho cobriu-se de verde, agora só falta plantarem flores), para ouvir música onde calhasse ou simplesmente derivar ao sabor da curtição.
Com os espectáculos musicais divididos pelo palco principal 25 de Abril e o habitual “auditório” do 1º de Maio, procurar seguir o programa nos dois lados era tarefa impossível. Horários foi coisa que cedo se tornou num conceito subjectivo. Um exemplo, entre muitos: a actuação dos White Horse Ceilidh Band, marcada para as19h30 no “1º de Maio2, teve início já passava das 22h. Enfim, o que se ouviu valeu, na generalidade, o esforço de tentar contrariar o caos.
Sexta-feira, noite calma, deu-se por inteiro à Brigada Victor Jara, na apresentação do seu novo álbum “Danças e Folias”. Concerto competente, de rodagem do novo material, a mostrar algumas hesitações e a promessa, lá mais para a frente, de um futuro glorioso para este novo lote de canções tradicionais recriadas pela banda coimbrã.
Houve “caretos” transmontanos a darem cor e movimento ao início e fim do concerto, convidados dos quais sobressaíram Tomás Pimentel, no trompete, e José Medeiros, cuja vocalização, em “A fofa”, empurrou uma plateia estarrecida para os abismos da alma açoriana, e citações das tradições vizinhas, bretã, galega e irlandesa. Faltou à Brigada a folia prometida, folia que, já a meio da tarde do dia seguinte, sobrou na actuação dos Quinta do Bill, um grupo, como os Sitiados, vocacionado para este tipo de ambientes.
Aguardada com alguma expectativa, a actuação dos canadianos La Bottine Souriante passou ao lado dos grandes momentos da Festa. A hora era de debandada para o jantar, o que significa que a combinação das tradições celtas do Quebeque com as sacudidelas “funky” de um naipe de metais em forma apurada não chegou para manter as pessoas agarradas ao que a “Bota Sorridente” tinha para contar.
No fundo, apenas mais uma oportunidade desperdiçada, pela ausência de um contexto apropriado, de fruir em pleno uma das grandes bandas folk da actualidade, a juntar ao que já acontecera em edições anteriores com os Chieftains e os Boys of the Lough.
Nos bastidores, a ingestão apressada de uma sandes e uma cerveja teve a companhia de algumas notícias chegadas em primeira mão: de Júlio Pereira, que se encontra a gravar um disco de parceria com o acordeonista basco Kepa Junkera; ou de José Medeiros, que em breve lançará a banda sonora, da sua autoria, de O Feiticeiro do Vento, uma série – na linha do que já fizera em Xailes Negros – produzida pela RTP-Açores e a exibir futuramente no continente.
De volta ao “1º de Maio”, a hora era de dança com os White Horse Ceilidh Band, banda irlandesa animadora de bailes que cumpriu aquilo a que já está habituada a fazer, ou seja, pôr os corpos a rodopiar. Uma senhora do grupo fez mesmo algumas demonstrações de passos de dança mais complexos, com a colaboração de jovens voluntários da assistência.
Acabou tudo aos pulos, num baile mandado algo caótico que serviu para mostrar, uma vez mais, que há uma costela irlandesa em cada português. Impávido e sereno, estendido entre a confusão de pernas e pés em movimento, outro jovem, imerso no seu paraíso pessoal, sonhava, alheio a tudo. Alguém, piedoso, rodeou-lhe a cabeça com uma grinalda de latas de Superbock vazias.
Logo a seguir, os French Alligators – com a acordeonista e vocalista Katherine Bersoux, cuja pose foi evoluindo dos esgares “zombie” até à da fada que, de repente, se descobre no prazer da música e levanta voo – conquistaram a pulso um público de início desconfiado e perplexo com o inusitado das valsas e “two steps” sincopadas da música “cajun”, mas que no final se rendeu sem reservas à dolência excitada destes sons que se deixaram adormecer nos “bayous” do Louisiana e foram picados pelo mosquito dos “blues”. Não foi fácil o triunfo dos French Alligators, se se levar em conta que, durante largos minutos da sua actuação, as colunas debitaram ao mesmo tempo a música dos Red Hot Chilli Peppers, que alguém se esquecera de desligar, enquanto lá fora o baixo tonitruante que animava a montanha russa “Dragão”, instalada a 50 metros do auditório, aproveitava cada pausa para se fazer escutar.
Cerca da meia-noite, “round midnight”, hora perfeita para uma entrega ao feitiço dos “blues”, a superbanda Chicago Blues Explosion! Deu início à sua lição de como arrancar ao coração todo o ritmo e emoções que ele pode dar. Foi a festa máxima dentro da Festa! Na euforia dos músicos, perdidos na alegria de se tocarem por dentro a si próprios e à multidão. Na comunicação perfeita de gestos e sentimentos. Sidney James Wingfield, o organista que não se conteve e saltou para fora das notas do seu órgão Hammond, A.C. Reed, 69 anos de energia inesgotável a brotar de um saxofone tenor e, sobretudo, a tempestade eléctrica da guitarra de Cash McCoil, figuras da lenda, fizeram história na Atalaia.
Já perto dos acordes derradeiros ficou a imagem mágica deste último, em transe, tocando por entre as primeiras filas da multidão, lançando na noite as afirmações de orgulho, os queixumes e as gargalhadas da sua guitarra. Uma noite tingida com os reflexos rubros de um Mississipi em chamas e em sangue.