Arquivo da Categoria: Folk

Den – “Just Around The Window” + Andrea Ar Goullh – “Barzaz Breiz” + Vários – “Real World Presents”

pop rock >> quarta-feira >> 14.06.1995
curtas


DEN
Just Around The Window
Escalibur, distri. Mundo da Canção



A nata dos músicos bretões pouco preocupados com a reprodução fiel dos originais, num divertimento saudável que passa pelo jazz, o rock e paragens menos identificáveis. Por caminhos ínvios, os Den chegam a um lugar feérico onde a alegria é uma constante e se joga aos dados com a tradição. Uma janela aberta para uma Bretanha imaginária. (7)

ANDREA AR GOULLH
Barzaz Breiz
Escalibur, distri. Mundo da Canção



Obra composta por altura dos 150 anos de “Barzaz-Breiz”, uma importante e aclamada recolha de cânticos da Baixa Bretanha, da autoria de Théodore Hersart, publicada pela primeira vez em 1839, é aqui retomada pela voz luminosa desta senhora da Cornualha. Com o acompanhamento ocasional do duo de harpistas Na Triskell, a contenção domina os tr~es géneros representados: cantos mitológicos e históricos, cantos de amor e de festa e lendas e cantos religiosos. (7)

VÁRIOS
Real World Presents
Real World, distri. EMI-VC



Outra das compilações da Real World, desta feita sob o pretexto de divulgar os mais recentes lançamentos – nomeadamente pelos africanos Papa Wemba e Justin Vall, a que acrescenta selecções de registos mais antigos. Entre aquelas novidades… (incompleto – scaning do jornal cortado  nem tenho a certeza se é do FM pois essa indicação só aparece, neste caso da coluna “curtas”, no final de cada crítica.)

La Cantarana – “Le Joli Moulin – Canti e Danze Tradizionali Del Pinerolese” + La Rionda – “Capitan De Gran Valore – Musica Tradizionali Della Liguria” + Ritmia – “Forse Il Mare”

pop rock >> quarta-feira >> 31.05.1995
world


Argonautas Do “Bello Vino”

LA CANTARANA
Le Joli Moulin – Canti e Danze Tradizionali Del Pinerolese (8)
Associazone Culturale La Cantarana

LA RIONDA
Capitan De Gran Valore – Musica Tradizionali Della Liguria (7)
Robi Droli

RITMIA
Forse Il Mare (8)
New Tone
Todos distri. MC – Mundo da Canção



Constituindo até há bem pouco um mercado pouco explorado, a música tradicional proveniente de Itália ganhou nos últimos anos um espaço e um impulso maiores nas atenções e nos gostos do consumidor nacional, muito por força dos discos e dos concertos realizados no nosso país pelos La Ciapa Rusa e Barabàn, dois grupos representantes da vertente céltica do Norte de Itália, aos quais poderemos ainda juntar o acordeonista toscano Riccardo Tesi. Aberto esse espaço, o interesse suscitado justifica uma investigação mais ampla e profunda de outros nomes oriundos de Itália. Os La Cantarana não andam longe nem dos Ciapa Rusa nem dos Barabàn, já que a sua região de origem é a mesma, o Piemonte, com incidência nas músicas da planície do Pinerolese e dos vales de Chisone e Germanasca.
Arredados do espírito de transgressão e inovação que denotam aqueles dois grupos, a contrapartida manifesta-se numa maior proximidade das raízes por parte dos La Cantarana que deste modo evidenciam um contacto mais estreito com o espírito das comunidades rurais e dos seus rituais colectivos, em especial os do “bello vino”, como em “Chanson du buveur” e “Buvons buvons”. Uma das particularidades curiosas reside na utilização do francês, língua que em certas zonas do Piemonte se mestiçou e misturou ao piemontês e ao chamado “patouá”. Polifonias corais como “Le joli moulin”, “Dessur la fleur da Lys”, “El Pui e la puglia” e “Buvons buvons” (a propósito de vinho, alguém sabe da existência em compacto do fabuloso disco “Le Galant Noyé”, dos Le Bourdon, gravado na Le Chant du Monde. Que maravilha, e que sabor, um tema como “La jolie vigne”…) têm a complexidade e o polimento de uns Malicorne, enquanto “La fènno louerdo” se inscreve num universo que intercepta o dos Ciapa Rusa. Com a sanfona (“ghironda”) a ditar as leis, a saliência vai para um tema que “enche” todo o disco, “La femme d’un tambour”, com uma tocante vocalização de Ornella Galetto, uma senhora que por vezes recorda a saudosa Donatta Pinti, dos Ciapa Rusa, o mesmo acontecendo em “Dans la ville de Gênes”, outro tema a pedir repetidas audições. Um “must” para os italianófilos.
Os La Rionda, de Génova, trazem sons mais picantes e salgados. “Brani” e velhas canções e ritmos de baile (polcas, jogas, valsas) são recuperados e adaptados, determinando uma componente de dança bastante mais marcada do que nos La Cantarana. Outra grande voz feminina: Laura Parodi. A sua gloriosa interpretação em “Maria Giovana” (que por sinal tem pelo meio uma “Aria di vino”…) ultrapassa qualquer tipo de adjectivações. Uma voz de contralto que chegou a causar um certo “escândalo” numa ocasião em que ousou substituir o típico “falsetto” masculino num grupo de “trallallero”, tradição vocal fortemente implantada na região de Génova, em risco de se perder.
Finalmente, se os La Cantarana penetram mais fundo na terra, através das escavações da sanfona e do “organetto” (acordeão), os La Rionda filiam-se sobretudo nas escolas violinística e do clarinete – disseminadas em várias zonas de Itália – mais extrovertidas e de cunho imediatista.
Do passado revisitado com alguma reverência pelos La Cantarana e La Rionda, o salto é enorme para os Ritmia, num álbum que em 1986 agitou a cena da música tradicional italiana. Escrito pelos quatro elementos do grupo, Alberto Balia, Enrico Frongia, Daniele Craighead e … Riccardo Tesi, na sua fase anterior às colaborações com Patrick Vaillant (a dupla tem um disco novo “Colline”), “Forse il Mare” é composto por quatro temas, três dos quais bastante longos, onde as influências tradicionais são filtradas por uma linguagem que ora se aproxima do jazz ora dispara em estruturas minimalistas/hipnóticas de conotação arabizante. Uma espécie de “free folk” que apenas se rege pelas regras pessoais dos seus executantes. Instrumentos como a gaita-de-foles, o “organetto”, a guitarra, o saxofone, o clarinete, a flauta de bisel, o pífaro de cana, o sintetizador e percussões várias juntam-se a vozes que poucoligam ao convencionalismo numa aventura onde a liberdade de processos se conjuga com uma criatividade constante. É como andar na montanha russa.

Deep Forest – “Deep Forest Lançam ‘Boheme’ Com A Voz De Márta Sebestyen – ‘É Estúpido Pensar Que Se Pode Preservar Uma Cultura Bloqueando-a'” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 31.05.1995


Deep Forest Lançam “Boheme” Com A Voz De Márta Sebestyen
“É Estúpido Pensar Que Se Pode Preservar Uma Cultura Bloqueando-a”



Com “Boheme”, o duo francês Deep Forest volta a apostar numa fórmula que está a render dividendos: vozes étnicas “vestidas” e arranjadas por computador. Michel Sanchez e Eric Mouquet traziam a Índia na mochila quando descobriram a voz da cantora húngara Márta Sebestyen. Eric Mouquet, em entrevista ao PÚBLICO, explicou, entre outas coisas, que a estreia ao vivo do grupo terá cantores reais ao lado de cantores virtuais.
PÚBLICO – Como é que descobriram a música dos Balcãs e, em particular, de Márta Sebestyen?
ERIC MOUQUET – A ideia inicial para este segundo disco era usarmos vozes da Índia. Aconteceu que entretanto descobrimos a voz de Márta Sebestyen numa colectânea de música da Transilvânia. Uma das músicas que ela canta neste disco [“Istenem, istenem”] tornar-se-ia “Marta’s song”. A sensação foi incrível, semelhante à que tivemos quando ouvimos pelaprimeira vez “Sweet Lullaby”, algo que nos deu arrepios. Decidimos então partir para escutar um pouco melhor as músicas do Leste. Estive há alguns anos na Checoslováquia e Michel já tinha trabalhado num barco que fazia a travessia do Mediterrâneo, com passagem pela Jugoslávia. Mas foi Márta que nos fez optar por fazer um disco onde a maior parte das vozes vem do Leste.
P. – No caso de Márta, no tema “Bulgarian melody”, foi a primeira vez que trabalharam com uma voz em tempo real?
R. – No início dos Deep Forest, em 1991, não tínhamos possibilidade de fazer nós próprios as gravações. Não tínhamos viajado o suficiente para recolher música para um álbum completo. Fomos buscar o material de que necessitávamos às gravações dos musicólogos, capazes de andar em viagem uns trinta anos, em exploração, reunindo documentos sonoros excepcionais. Se fizéssemos o mesmo, isso significaria que teríamos igualmente de andar pelo menos cinco ou seis anos em viagem através do mundo. Com o segundo álbum começámos a viajar. Fomos ao Candá gravar vozes “innui” e à Austrália recolher sons dos aborígenes. Também temos alguns sons da América do Sul ainda por utilizar.
P. – Hoje toda a gente fala de world music, é quase uma moda…
R. – Não estou certo de que se trate apenas de uma moda, embora seja muito utilizada pela música “avant gard” ou pela música para publicidade. Mas além disso creio que há uma necessidade real do público e dos músicos de tentar escutar e tocar coisas diferentes. O que é extraordinário é que não são só os europeus que estão a recuperar os cânticos tradicionais e a fazer música com eles, mas também os músicos tradicionais que sentem o desejo de fazer música com instrumentos e culturas diferentes. Não há um sentido único.
P. – No caso dos Deep Forest não será um pouco a exploração de uma fórmula, mais do que uma estética?
R. – Neste disco procurámos uma evolução. O primeiro disco era muito rítmico, com cânticos africanos utilizados como sequenciadores de ritmo. O segundo álbum é mais uma construção de melodias, de canções. Os ambientes e os instrumentos são bastante diferentes. Usámos acordeão, piano “cymbalon”…
P. – Mas um dos objectivos do grupo continua a ser fazer música de dança?
R. – Não forçosamente. Se quiséssemos fazer música de dança, faríamos de outra maneira. O problema que os DJ das discotecas têm com a nossa música é ser demasiado lenta. Para poderem passar os Deep Forest têm de fazer remisturas em tempos mais acelerados. Mas no disco não pretendemos fazer música de dança, house ou ambiental… Há quem mencione influências da jungle music oriunda de Inglaterra, feita em 140 b. p. m. [batidas por minuto], por termos uma canção no disco com a mesma batida. As vozes decerto perderiam a sua emoção se fossem forçadas ou encaixadas a martelo num estilo determinado.
P. – Não existe o perigo de essas mesmas vozes se vulgarizarem?
R. – É uma música que não passa muito na rádio mas vende bastantes discos, porque o público gosta. Os programadores dizem que não tem um formato para a rádio. O perigo da normalização vem de outro lado, do rock, por exemplo.
P. – Há algum tipo de mensagem política na vossa música, uma vez que ela junta e altera sons de culturas e sistemas sociais diversos?
R. – É verdade que a mensagem política, mesmo sem querer fazer política, está implícita, quando se vive numa sociedade como a nossa. O que aconteceu recentemente em França, nas últimas eleições, com a subida da Frente Nacional, dos sentimenso nacionalistas e fascistas – de resto, à semelhança do que se passa um pouco por toda a Europa -, é exactamente o contrário do que tentamos fazer. Ouvimos Le Pen dizer: “A França para os franceses” e “A África para os africanos” ou “Portugal para os portugueses”, mas a realidade actual não é essa. A realidade é que tudo se mistura. A História de França é uma sucessão de invasões, guerras, tudo o que lhe conferiu a sua identidade e a sua riqueza. É estúpido pensar que se pode preservar uma cultura bloqueando-a, fechando-a ao exterior. Através da nossa música, procuramos demonstrar que não existem fronteiras, utilizando ingredientes do mundo inteiro.
P. – Apesar dessas misturas, não acha um pouco bizarro “Marta’s song” ter sido incluída na banda sonora de um filme como “Prêt à Porter”?
R. – Quando soubemos que Robert Altman procurava uma música dos Deep Forest para o seu filme – o que nos lisonjeou bastante, porque é um excelente realizador -, marcámos um encontro em Nova Iorque para lhe mostrar uma maqueta com o som do novo álbum. Mal ouviu “Marta’s song” exclamou que era aquela mesmo que queria. Dissemos-lhe que era um pouco delicado, até porque iria ser o novo single, mas ele insistiu tanto que não pudemos recusar.
P. – Pode adiantar pormenores sobre a estreia ao vivo do grupo?
R. – Optámos por trabalhar com dois criadores de Montreal que adoptaram um sistema que permite usar imagens virtuais em palco, criar personagens virtuais, com hologramas. Esses hologramas serão activados pela música nos teclados, o que significa poder improvisar ao mesmo tempo com os sons e com as imagens. Numa primeira fase, como a tecnologia é muitíssimo cara, faremos um espectáculo de apenas 20 minutos, onde iremos misturar cantores reais, Márta Sebestyen, por exemplo, com cantores virtuais. O “show” será filmado em cassete vídeo e passado para a Internet, o que permitirá a qualquer pessoa ligada à rede assistir em casa. Estamos à espera de algum patrocinador interessado em financiar um espectáculo maior, de duas horas.