Arquivo da Categoria: Folk

Pedra d’ Hera – “Ventos”

pop rock >> quarta-feira >> 06.03.1996
portugueses


Pedra d’ Hera
Ventos
EDIÇÃO DE AUTOR



Os ventos estão de feição para tudo o que de uma maneira ou outra se aparenta com a “folk”. Passada a vaga dos projectos maiores, chegou a altura dos Pedra d’ Hera tentarem a sua sorte, embora sem o apoio de qualquer editora. “Ventos” é um álbum simpático e sem pretensões, numa linha idêntica aos dois trabalhos anteriores da banda, “Pedra d’ Hera”, de 1982, e “Suor da Terra”, de 1984, ambos reeditados em compacto simples no ano passado. Um aroma de teclados “new age”, um toque discreto na música tradicional, outro em José Afonso, outro ainda no fado de Coimbra em temas originais que dão a conhecer bons compositores e sofríveis cantores. Duas canções, em particular, mostram que o grupo, com outro tipo de produção, mais sofisticada, pode ter aspirações a entrar na primeira divisão: “Beira Interior” e “Os malmequeres” (com o refrão entoado por um coro de crianças), duas melodias que contrastam com a redundância orientalizante de “Nagasaki… Hiroshima”, recuperada do álbum de estreia. (6)

Vários (Arcady, Strobinell, Vartinna) – “Bailes Nocturnos Animam Intercéltico – Terço De Sortilégios”

cultura >> terça-feira >> 27.02.1996


Bailes Nocturnos Animam Intercéltico
Terço De Sortilégios



OS IRLANDESES Arcady, os bretões Strobinell e as finlandesas Varttina são três dos nomes fortes que vão actuar no VII Festival Intercéltico do Porto, a realizar no cinema do Terço nos dias 29, 30 e 31 de Março. A representação nacional é da responsabilidade dos Gaiteiros de Lisboa e da Brigada Victor Jara, completando-se o programa com a banda do gaiteiro galego Carlos Nunez. Depois, como sempre, cultiva-se o bom hábito de fazer do festival um campo alargado de cultura e diversão, através das chamadas actividades paralelas. Este ano haverá até um baile anunciado fora de portas, com os Strobinell preparados para transformar a “gruta” do Castelo (o hotel onde, altas horas da madrugada, se desenrola como que um Intercéltico paralelo…) no palco de uma “festoù-noz” (baile nocturno) improvisada. Aberta a quem quiser participar.
Sexta-feira, Às 21h30, o Festival saúda oficialmente os Gaiteiros de Lisboa, uma força da natureza, com as suas “Invasões Bárbaras” a prometerem fazer a vida difícil, na segunda parte, À nova banda do “virtuose” da gaita galega, Carlos Nunez, o homem que faz soar as estopinhas a Paddy Moloney, dos Chieftains (“Carlos Nunez é um génio absoluto que, Às vezes, nos chega a roubar o nosso espectáculo. É preciso vigiá-lo bem!”). O que acontece sempre que ousa desafiar com a sua gaita plebeia, as reais “Uillean pipes”.
O dia seguinte é de sonho. Os Strobinell (“sortilégio”), da Bretanha, trazem as bombardas e o biniou-kohz para o Terço. Uma visão personalizada das “dans-plinn”, “dans-fisel” e “laridés” tradicionais que faz dos Strobinell, juntamente com os Skolvan e os Storvan, uma das maiores bandas bretãs da actualidade. Em Portugal está disponível o álbum “Na Aotrou Liskildri” mas a novidade será o lançamento mundial, no segundo dia do Festival, do seu novo trabalho, “Breizh Hud” (“Bretanha Mágica”). A seguir, as quatro Varttina, acompanhadas por uma secção instrumental de seis elementos, irão desvendar de uma vez por todas o segredo que lhes permite juntar nos seus cânticos jubilosos a tradição da Karelia celta com a música pop, a exemplo do que fizeram no seu álbum mais recente, “Aitara”.
Domingo receberá primeiro a Brigada Victor Jara, o grupo decano da música portuguesa de raiz tradicional, que apresentará as suas “Danças e Folias”. Com algumas surpresas na manga. Aos irlandeses Arcady compete fazer descer o pano sobre o Intercéltico. Integram o grupo, dos mais importantes da cena folk actual, dois “monstros sagrados”, o professor do “bodhran” Johnny “Ringo” McDonagh, debutante em anos já distantes nos De Danann, e o acordeonista Conor Keane, aos quais se veio juntar a nova aquisição, Niamh Parsons, uma voz feminina recém-chegada do selo escocês Greentrax.
Entre as actividades paralelas destaca-se, no dia 30, às 16h30, no Institut Français do Porto, a conferência subordinada ao tema “A Iconografia da Gaita-de-Foles no Noroeste Peninsular”, por Xosé Lois Foxo, director da Real Banda das gaitas de Ourense. No mesmo dia, no restaurante Pax, pelas 14h, terá lugar o lançamento do livro “Eurofonias – Uma Viagem Musical através da Europa dos Povos”, da autoria de Mário Correia. Um primeiro volume que viaja dos Cárpatos aos Balcãs, da Escandinávia à Europa Central, descendo até ao Mediterrâneo. Ainda no mesmo dia e no capítulo editorial, Philippe Page apresentará o catálogo “Artic/Paradise”, de música tradicional e popular da Finlândia. Ao longo do fim-de-semana estará patente, em local ainda por designar, uma exposição de cartazes da Bretanha. As habituais feira do disco e exibição de “vídeos” recebem os interessados no “hall” do Terço.
O Intercéltico volta a ser obra de um “tandem” que, através da música tradicional, tem levado cada vez mais longe o nome da cidade invicta. A iniciativa é do Pelouro de Animação da cidade-Câmara Municipal do Porto. A organização produção e divulgação cabe à MC-Mundo da Canção.

Danças Ocultas – “Danças Ocultas Estreiam AS CONCERTINAS TAMBÉM CHORAM”

pop rock >> quarta-feira >> 21.02.1996
pop rock >> portugueses


Danças Ocultas Estreiam
AS CONCERTINAS TAMBÉM CHORAM


Um disco instrumental, ainda por cima só de concertinas, é uma operação arriscada, por mais calculado que seja o risco. Foi isso que fizeram os Danças Ocultas, um grupo de Águeda que, no seu álbum de estreia, decidiu elevar aquele instrumento de fole à categoria de música de câmara.



“danças Ocultas” rejuvenesce um instrumento considerado durante muito tempo parente pobre, remetido para a animação de romarias ou para o peditório do cego. Se Júlio Pereira tirou o cavaquinho e a braguesa do gueto, e Tentúgal e Fernando Meireles fizeram o mesmo com a sanfona, o quarteto de Águeda devolveu a concertina à sua condição de nobre que é capaz de chorar a melancolia de Satie. Artur Fernandes, mentor do projecto, num intervalo das filmagens do vídeo promocional, explicou ao PÚBLICO os segredos do instrumento.
PÚBLICO – Como decorreu a gravação?
ARTUR FERNANDES – No início trazíamos uma forma de execução, um tipo de reportório e uma determinada afinação das concertinas, a tradicional, com as palhetas mais vibrantes. A pedido do Tó Pinheiro da Silva [engenheiro de som e responsável pela sonoplastia], estudámos a possibilidade de ter o som mais afinado, com as palhetas mais próximas. Foi o que fizemos. Não podemos igualmente negar a influência, no modo de trabalhar, do produtor Gabriel Gomes, determinante na feitura dos arranjos. Nos três dias que antecederam a gravação, alterámos alguns aspectos dos temas.
P. – Gravaram ao vivo no estúdio?
R. – Como temos vindo a tocar sempre os quatro desde há seis anos, criou-se entre nós um balanço próprio. O Tó Pinheiro entendeu que isso devia ser aproveitado, essa envolvência, gravando não por pistas mas todos juntos. Claro que deu mais trabalho, sempre que alguém se enganava tínhamos de gravar outro “take”.
P. – A relação com a tecnologia deu-se sem atritos?
R. – Tenho essa relação, mas a outro nível. Estou neste momento a fazer estágio no curso superior de Composição, mantendo uma relação com a música electro-acústica, com sistemas digitais e analógicos. Este trabalho com as concertinas funciona, no entanto, a outro nível.
P. – O tema inicial, “Folia”, constitui uma experiência radical na utilização da concertina…
R. – No acordeão e na concertina existe um botão do ar que liberta o fole sem ser necessário tocar nos botões. No acordeão, este botão serve essencialmente para, no fima da música, fechar o fole. Na concertina ele tem outra função, que é, durante a música, compensar a necessidade de maior ou menor tempo a abrir e a fechar o fole. Havendo esta funcionalidade do movimento do fole, optámos por explorá-lo isoladamente, de maneira a produzir uma sensação de respiração humana.
P. – As pessoas costumam ver na concertina um instrumento folião, extrovertido, mas “Danças Ocultas” é um disco bastante melancólico, poderíamos mesmo dizer de música de câmara…
R. – Exacto. Comecei na música tradicional, a tocar concertina nos grupos folclóricos. Depois fui para o Conservatório e iniciei experiências com a concertina, precisamente na área da música erudita. Verifiquei que o instrumento afinal não era tão limitado assim. O que era necessário era explorar as suas potencialidades. Fui descobrindo então o tipo de trabalho que se faz na música de câmara, com distribuição das vozes pelos instrumentos, o tipo de envolvência, ou a necessidade de tocar com o máximo de conforto. Anatomicamente, há a necessidade de tocarmos sentados, para obtermos um máximo de rendimento em termos de expressão.
P. – O “No8c) turno das 7” traz-nos ecos de uma “gnossienne” de Erik Satie…
R. – Não posso negar. Sobretudo no acompanhamento harmónico e no tipo de ritmo. Mas há no disco todas as influências da música que ouço e estudo, Piazzola (em “Quartetra”), de quem sou grande fã, músicas tradicionais da Europa, menos Stravinsky, Messiaen e Webern, este último pelo culto da forma. Um pouco o que eu tento disciplinar neste projecto e que aprendi com a análise de Webern. Na “moda assim ao lado”, não poso negar a inspiração de um Riccardo Tesi ou de um Kepa Junkera. Mas o nosso som resulta pessoal, em parte devido à afinação diferente que procurámos. Em Portugal, a concertina tem um som estridente. Em Itália ou nos países celtas, trabalha-se um som que os afinadores chamam mais “ligado”. Nós ainda fomos a um extremo maior. Tentámos, nos vários arranjos, explorar a diferença de timbres, nas mãos esquerda e direita, além dos tais movimentos do fole.
P. – Já pensou na possibilidade de desenvolver o instrumento, liga-lo à electrónica, como faz, por exemplo, Valentin Clastrier com a sanfona?
R. – Para já não penso nisso, gosto imenso do som acústico. Sinto mais vibração no corpo assim do que com os sons electrónicos ou electrificados.
P. – Está consciente do risco que é editar em Portugal um disco instrumental, para mais centrado num único instrumento?
R. – O projecto, quando começou, partiu precisamente da tal influência da música de câmara. Sei que, por vezes, as pessoas precisam de seguir, ouvir uma letra, mas, talvez por estudar música, consigo dispensar a voz. Neste aspecto tenho como modelo o “Quinteto do novo Tango”, do Piazzola, onde os instrumentos têm como função imitar as vozes humanas. É um pouco pedagógico tentar ensinar as pessoas a ouvir música e a aperceber-se de que não interessa se uma música é comercial ou não.
P. – Para eventuais interessados, quanto custa uma concertina?
R. – Há concertinas a três e duas vozes. Quer dizer, cada botão dispara três ou quatro palhetas. Com três palhetas, o som é mais potente. A de três vozes é mais cara, custará agora à volta de 200 contos. As italianas, que são as melhores, custam ainda mais.
NOTA: Os Danças Ocultas apresentam o seu disco de estreia num espectáculo a realizar a 16 de Março, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. Por agora, estão a gravar um vídeo de promoção com realização de Tó Forte, um jovem de 27 anos cujo currículo inclui já trabalhos com os Kussondulola, Diva, Sacred Sin, Sérgio Godinho, Mário Laginha e Janita Salomé, além da assinatura em programas para a televisão como o extinto Pop-Off ou, actualmente, o de moda, “86-80-86”.