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After Dinner – “Paradise Of Replica”

BLITZ 20 FEVEREIRO 1990 >> Escaparate


AFTER DINNER
«PARADISE OF REPLICA»



Requinte. Delicadeza. Minúcia. Típicos requisitos da Alma japonesa presentes na música dos After Dinner mas que não chegam para completamente a caracterizar.
Depois de um primeiro álbum editado pela Recommended regressam muito depois do jantar com novo disco, desde já um clássico na minha imodesta opinião.
O som After Dinner é tecido em filigrana, em padrões milimétricos e nunca repetidos. Tudo fervilha e constantemente muda, segundo a segundo, num picotado de luz, traçando o desenho de uma catedral. Nunca, como aqui, a eletricidade, os instrumentos tradicionais nipónicos e os da música de câmara europeia se tinham casado e dançado num ato de puro amor.
No centro irradia a voz de boneca de cristal de Haco, menina pintada em máscara Madame Butterfly. Em volta, como pirilampos encantados, gritam cintilantes as harpas, os oboés, as flautas, os nomes impronunciáveis e os sintetizadores como se fossem tocados por fadas. E talvez sejam.
Na complexidade e imaginação dos arranjos lembram por vezes os Gentle Giant da fase inicial. Nos ambientes que sugerem aproxima-se dos jardins em que Virginia Astley se passeia, se chovesse, se fugazes relâmpagos fixassem pequenos medos na paisagem.
«Paradise of Replica» é uma sucessão infinita de imagens, ecos, espelhos, micro-sinfonias, sinos reverberados, caixas de música, vozes infantis, fantasmas, sonhos dentro de sonhos. Pingos de sangue tombando no silêncio de lagos circulares. Nuvens e vento. Paraíso de réplicas ou réplicas do Paraíso?
Saboreia-se este disco como se fosse um gelado doce para o espírito. Subtil obra-Prima. Beleza absoluta em mil segredos sussurrada.
Rec Rec, Framport. Contraverso, 1984.

Roberto Musci / Giovanni Venosta – “Water Messages On Desert Sand” + Lights In A Fat City – “Somewhere”

IBÉRICO INVERNO 1988 >> Discos


ROBERTO MUSCI/GIOVANNI VENOSTA
Water Messages On Desert Sand LP
RECOMMENDED RECORDS-87

LIGHTS IN A FAT CITY
Somewhere LP
THESE-88


Primeira constatação: a audição destes dois discos proporciona ao auditor um prazer intenso, não o prazer meramente intelectual que experimentamos ao escutar certas obras geralmente traduzido por reconhecimentos do tipo: “Está extremamente bem feito”, “a ideia é bastante interessante”, etc. Não, este é um prazer feito de emoções, a música que nos é dada a escutar toca-nos por dentro de uma forma imediata e intuitiva.
O ponto de partida de ambos é semelhante, os processos e objetivos distintos. No caso dos Italianos o ponto de partida é a música ou músicas étnicas, recolhidas em cassete, do folclore das mais diversas regiões do globo (Irão, Argélia, Afeganistão, Etiópia, etc). A partir destes sons iniciais (na sua forma primitiva ou passados para samplers) é efetuada toda uma série de tratamentos e manipulações sonoras cujo resultado é algo que poderemos definir, utilizando um termo já algo vulgarizado, mas aqui perfeitamente justificado, como uma música universal, aliando as sonoridades tradicionais à eletrónica mais sofisticada.
A sensação é a de que todas estas músicas nasceram para se juntarem numa única, abarcando em si todos os sons, todas as culturas, todas as tradições. Não se trata de uma colagem, antes uma síntese perfeita de todos estes elementos. O exemplo paradigmático é o tema “Empty Boulevard”, no caso efetuado com uma extraordinária economia de meios: uma harmonização de Roberto Musci, em guitarra acústica sobre a gravação de um canto de uma rapariga pigmeu – encontro perfeito de duas músicas, para além do espaço e do tempo.
Com este disco estamos já muito à frente das obras pioneiras de Holger Czukay (“Cannaxis 5”, “Movies”); não podemos já falar da justaposição de várias músicas mas de uma só MÚSICA, feita de muitas.
Quanto aos Lights In A Fat City, a proposta é outra: a recuperação das sonoridades étnicas Australianas e nomeadamente de um instrumento musical característico da cultura Aborígena desta região, o Didjeridoo. Também aqui as sonoridades eletrónicas são determinantes, embora os sons base sejam os do já referido instrumento e de percussões variadas, tocados realmente pelos músicos do grupo. É este som “real”, se assim o quisermos chamar, que é finalmente tratado por meios eletrónicos. A sonoridade final situa-se num campo muito próximo ao de Jon Hassell e à sua Fourth World Music.
A diferença entre estes dois discos está em que um, o dos Lights In A Fat City, pretende essencialmente devolver-nos a tradição sob novas formas, o de Roberto Musci e Giovani Vennosta, parte dessa mesma tradição para uma música inteiramente nova. Tradição, afinal, o grande elo entre Passado e Futuro. Ambas as propostas são irrecusáveis e fascinantes.

Benjamin Lew – “Made To Measure 17: Nebka”

IBÉRICO INVERNO 1988 >> Discos


BENJAMIN LEW
Made To Measure 17: Nebka LP
CRAMMED DISCS-88


Este é o volume 17 da série MADE TO MEASURE, da Crammed Discs Belga. Já tardava uma nova edição e este “Nebka” de Benjamin Lew, se em parte satisfaz, por outro lado ilude um pouco as expetativas e sabe a pouco. Porquê esta dupla sensação? O colecionador incondicional desta série (e é o meu caso), habituou-se a encontrar em cada um dos álbuns que a constitui, a par de uma qualidade musical intrínseca a cada disco, uma originalidade e diversidade de propostas que fazia de cada disco desta coleção, uma peça exemplar única. Ora, se neste volume 17, a qualidade continua a existir, já quanto à originalidade deixa algo a desejar. Fica-se com a sensação de que este é “apenas” mais um nº para acrescentar à série. Em parte esta sensação talvez resulte da própria escolha ter recaído em Ben Lew, que já participara, aliás, no volume 1 de apresentação deste selo, ou seja, a escolha parece ser demasiado óbvia e o músico demasiado “típico”. Ora, precisamente uma das características dos diversos discos editados, era esta recusa de uma música da qual se pudesse dizer: “Este é o género ou som da MADE TO MEASURE!”, como acontecia em relação ao som inicial da 4AD; sob a designação aparentemente unificadora de “musique de circonstance” (a circunstância é sempre única…) revelavam-se-nos propostas musicais radicalmente distintas e em que o fator surpresa era uma constante. Nunca se sabia que disco, que músico(s) ou que música constituiriam o próximo volume da coleção! Era (ou é) também nesta diferença que reside toda a coerência de todo este projeto editorial, no qual aliás o título MADE TO MEASURE é afinal bastante esclarecedor: um disco – uma peça musical única – uma música irrepetível.
Chegados a este ponto cabe esclarecer que os volumes imediatamente anteriores (nº15 e 16) são as reedições de dois discos de 1983 e 1985 do mesmo Benjamin Lew com Steven Brown, os álbuns “Douzième Journée: le verbe, la parure, l’amour” e “A propos D’un Paysage”, são sem dúvida superiores ao seu sucessor nesta série, “Nebka”, e com a vantagem de serem realmente peças musicais exemplares. Fica-se pois, após a audição de “Nebka”, com a dúvida de se teria sido necessária a edição deste disco, NESTA série, que nada acrescenta aos já citados LP’s. Talvez apenas a necessidade do lançamento de um disco mais recente por parte da editora.
Mas é então este um mau disco? – perguntarão os leitores – que não justifica uma audição ou mesmo a sua aquisição? É óbvio que não; considerado individualmente, este é um disco de qualidade muito acima da média: uma música que consegue ser ao mesmo tempo experimental e acessível, de uma beleza serena, às vezes possuidora de um lirismo próximo de um Wim Mertens. Melodias extremamente cativantes, alternando com sequências aparentemente mais dissonantes.
Acompanham Benjamin Lew, neste disco, nomes também eles familiares: Steven Brown, Marc Hollander e Blaine Reininger, seus companheiros de sempre.
Em suma, um disco extremamente belo, a merecer cuidada audição, tentando esquecer o facto de que é o mais recente volume da MADE TO MEASURE e sobretudo procurando fazer qualquer comparação com os restantes volumes desta série. O que eu fiz, afinal, nesta crítica…