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Nico – “Um Xarope Que Enlouquece” (artigo de opinião)

cultura >> quinta-feira, 23.11.1995


Um Xarope Que Enlouquece

A TRAGÉDIA e Nico foram sempre íntimas desde o início. A ex-modelo, ex-actriz e ex-cantora dos Velvet Underground tinha essa sina perturbante de atrair a fatalidade, a capacidade de enegrecer até o próprio sol. Chamavam-lhe “deusa da lua”. Nico era a “femme fatale”, num sentido perverso do termo, mulher de negro que ousou descer tão ou mais baixo que Lou Reed nessa decadência dourada que os Velvet Underground exploraram na contra-corrente do psicadelismo. Hoje como ontem torna-se difícil encontrar uma imagem convincente que bata certo com aqueles olhos enormes e espantados, borrados de “rimel” e por muitas noites de vigília. Mesmo a sua morte está rodeada de mistério e de incongruências. Ninguém morre durante um passeio de bicicleta. A sua vida, e a sua morte (neste caso as duas confundiam-se numa entidade singular), poderiam ser um conto de Edgar Allan Poe.
Não se pode dizer que Nico fosse uma grande actriz. Mas os filmes onde participa, nomeadamente os do seu amigo Philippe Garrel, não sobreviveriam sem o gelo da sua presença e do seu silêncio. Também não era uma grande cantora. Porém, os seus discos insinuam-se como um crepúsculo.
“Do or die”, uma colectânea com data de edição de 1993 que reúne actuações ao vivo da cantora efectuadas em várias cidades da Europa, foi agora reeditada e distribuída no nosso país pela Fábrica de Sons. Correspondente a uma fase da sua carreira em que foi objecto de recuperação por parte das gerações de músicos mais novos, que nela encontraram uma espécie de diva. “Do or die” inclui no alinhamento canções espectaris dos álbuns “The Marble Index” (1969), “Desertshore” (1971), “The End” (1974) e “Drama of Exile” (1981), bem como do mítico álbum da banana, dos Velvet Underground, deixando de fora o primeiro, “Chelsea Girl” (1968) e o último, “Camera Obscura”, com os The Faction (1985). A voz de além-túmulo e o seu inseparável órgão de pedais ganham neste disco a companhia instrumental dos Blue Orchids, uma das novas bandas que não se envergonhou de apoiar a cantora maldita.
Não é muito aconselhável a entrega emocional, por um período de tempo superior ao que o bom-senso e a cautela aconselham, a esta música que aos poucos corrompe a alma e mina a lucidez. Nico, as suas litanias góticas, têm o mesmo efeito que um veneno. Na contracapa de “Do or die” o produtor Giorgio Gomelsky narra um episódio, “on the road”, em que Nico conseguiu, com a simples distribuição de um “xarope para a tosse” a um grupo de músicos, transtornar e desbaratar por completo toda a comitiva, deixando-a num estado de estupor. Esses músicos tinham fama de duros, admiradores de Nietzsche e de Wagner. Assim se gorou a hipótese de uma digressão conjunta de Nico com os Magma…

Audio Active and Laraaji – “The Way Out Is The Way In”

pop rock >> quarta-feira, 15.11.1995
álbuns
poprock


Audio Active and Laraaji
The Way Out Is The Way In
ALL SAINTS, DISTRI. MVM



A filosofia “hippy” está de volta. Só que, ao contrário do que acontecia há um quarto de século, já não são os grandes “meetings” de meditação sobre o verde mas as pistas de dança o lugar de expressão deste pôr as contas em dia com a matriz cósmica. Logo de entrada uma voz convida à abertura das portas da consciência, à boa maneira dos Moody Blues, para em seguida o cenário se dispor num território mais actual, servindo de bandeja uma protecção de “ambiente dub” com tantas cores como as da capa de um disco dos Ozric Tentacles, “Music & Cosmic”, “Think cosmically”, “Space visitors for tea” são alguns dos títulos deste advento da “nova idade” apregoado em conjunto pelo grupo japonês e um dos patriarcas da “nova consciência”, tornado papa do “hypnobeat” – Laraaji. É evidente que ressalta deste caminho de ida e volta nos meandros da “cosmic mind” uma dose de humor salutar e um gozo hedonista que fazem de “The Way Out Is The Way In” um mapa celeste desenhado para consulta nas pistas de dança às horas de sonambulismo do “chill out”. Esqueçam-se os preliminares e escute-se com máximo abandono “Booper’s dance floor” para se descobrir como dançam os ébrios do espaço do século XXI”. (6)

Pascal Comelade – “Pascal Comelade Hipnotiza O S. Luiz Com Música ‘Infantil’ – O Que É Que Eles Fizeram À Minha Canção, Mãe’”

cultura >> segunda-feira, 06.11.1995


Pascal Comelade Hipnotiza O S. Luiz Com Música “Infantil”
O Que É Que Eles Fizeram À Minha Canção, Mãe’


Para Pascal Comelade a música não está nas notas mas guardada na nossa memória, pronta a ser desenterrada na nossa memória, pronta a ser desenterrada, como um tesouro escondido. Na sua primeira passagem por Lisboa, o francês mandou o compasso para o lixo e a afinação às urtigas. Num passe de magia, no matraquear baixinho das teclas de um piano de brinquedo, velhas canções desceram suavemente, nuas, como neve, sobre uma plateia de crianças crescidas.



Por quatro vezes o público exigiu, no final, a presença no palco do S. Luiz, de Pascal Comelade e da sua Bel Canto Orchestra. O que justifica tamanho entusiasmo e receptividade a uma música onde as notas se atropelam, a desafinação é uma constante e nem sequer existe uma componente espectacular? A resposta só pode estar, não no que os ouvidos escutam, mas no que o coração abraça e a imaginação fabrica. A música de Comelade, o modo como desarticula os “standards” de várias épocas e estilos, vive do seu poder de sugestão, da sua faculdade de evocar recordações difusas, ressuscitando pedaços esquecidos da música popular mas também da nossa própria existência. Comelade trata a música da mesma maneira que uma criança desmonta metodicamente os seus brinquedos com um martelo. Destrói para ver como cada canção é por dentro, sem se importar depois em voltar a montá-la da maneira certa. Em seu lugar coloca na prateleira maquinismos frágeis, caixas de música partidas, de onde pingam estilhaços de som do que sobrou da forma antiga.
O aspecto lúdico sobrepõe-se a qualquer veleidade de ordem intelectual ou de rigor de execução. Pascal Comelade é um executante limitado, bem como os seus três companheiros da Bel Canto Orchestra. Se quiséssemos analisar o concerto por uma perspectiva técnica teríamos que o definir como medíocre. E, no entanto, isso não impediu que o fascínio funcionasse. Quando, a abrir e a fechar o espectáculo, um coelhinho branco de brinquedo – dos que duram uma vida inteira a tocar com pilhas Duracel – marcou no seu minúsculo tambor o ritmo de “Egypcian reggae” (um tema de Jonathan Richman), as pessoas sorriram, embevecidas, entrando de imediato no jogo de toca e foge.
Os tais pianos de brinquedo, (o piano a sério era apenas outro brinquedo, grande), os apitos, o reco-reco, a pandeireta a fazer de bateria, os sopros “de verdade” com sonoridades de plástico ou em trôpegas surdinas, não foram mais do que as tais ferramentas de desmontagem metódica com que as crianças esquartejaram os objectos da sua curiosidade. Do lado de cá ofereceu-se ainda o jogo de adivinhas com o nome das canções: “The sad skinhead”, dos Faust, “Sunny afternoon”, dos Kinks, “Like a rolling stone”, de Dylan, iríamos jurar que “Alifie”, de Robert Wyatt, até um alinhavado de “Grândola”, de José Afonso, lado a lado com um “Bolero callajero”, “4 roses pour Marie” ou um “Tango del rossello”. Em todas elas sempre o mesmo perfume a violetas mortas, a mansões abandonadas, a retratos de rostos que atormentam, a charutos mal queimados. Momentos fugazes de felicidade que, de tão intensos, fazem dor. A caixa-de-música de Pascal Comelade tem esse efeito poderoso de nos fazer recordar mesmo de coisas que nunca chegámos a viver de facto mas que, apesar de tudo, somos capazes de sentir. Num “bistrot” de Paris, numa tasca de Acapulco, num hotel de Veneza, numa fantasmagoria de ópio pintada numa lanterna de Xangai. “What have they done to my song, ma?” (“o que é que eles fizeram –á minha canção, mãe?”), cantava Melanie Safka já lá vão vinte e seis anos. O que é que este pianista com cheiro a mofo fez às nossas canções? Fê-las chorar.