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Between – “Dharana” + Peter Michael Hamel – “Nada”

pop rock >> quarta-feira >> 26.07.1995
reedições


Nada Na “Trip”

Between
Dharana (8)
Peter Michael Hamel
Nada (7)
Ginkgo/Wergo, distri. Mundo da Canção



“Dharana” tem a data de gravação de 1972, pelos Between, um colectivo do qual fazia parte, além de Peter Hamel (não confundir com Hammill…), o argentino Roberto Détrée, autor a solo de uma maravilhosa “Architectura Celestis”. Recordam-se do texto, escrito há 15 dias, sobre Robert Rich? É que Peter Hamel já se interessava nos anos 70 pelo mesmo tipo de temáticas – sincronização das vibrações musicais com as do cérebro. Só que, na sua época, havia os “hippies” e o LSD, o que impedia uma postura analítica idêntica à do sintetista norte-americano. Peter Michael Hamel seguia a estética da “trip”, ainda que orientada por princípios teóricos e uma bagagem filosófica que o distanciavam do universo pop e rock da altura. “Dharana” é uma odisseia constante entre o Ocidente e o Oriente, num cruzamento orientado pelo oboé de Robert Eliscu, da guitarra de Détrée, da “tampura” do convidado Aparna Chakravarti e dos teclados de Hamel. Lugar mítico de confluência que na mesma altura os Third Ear Band e os Popol Vuh apenas lograram vislumbrar. Os 17m50 do tema final são um bónus extraído de um dos discos seminais e mais fortemente marcados pela música coral religiosa do teclista alemão, “The Voice of Silence”. “Nada”, composto dentro do mesmo espírito, é um bom exemplo da veia electrónica do músico, personificada no título tema, de essência Schulziana mas permeável à influência do minimalismo, corrente que Hamel viria a tocar por várias vezes sem, contudo, nunca lhe ceder completamente. “Silence” é concretista, metálico e abstracto e “Slow motion” uma “promenade” pianística pelas paragens habitualmente visitadas por Florian Fricke. A electrónica compõe o quadro definitivo nos 23m37 de “Beyond the Wall of sleep”, antecipação em versão romântica dos “concertos para a soneca” de Robert Rich, numa progressão de ondas de sonhos magnéticas que se propagam na busca de um interlocutor sintetizado na mesma frequência.

Kraftwerk – “Kraftwerk” + ” Kraftwerk 2″

pop rock >> quarta-feira >> 12.10.1994
REEDIÇÕES


Energia Em Estado Bruto
Kraftwerk
Kraftwerk (8)
Kraftwerk 2 (8)
Germanofon, import. Carbono



Havia quem já desesperasse de encontrar estes discos. Os dois primeiros da banda germânica liderada por Ralf Hütter e Florian Schneider, dupla da qual existe ainda uma obra anterior, sob a designação colectiva “Organization”. À partida estes dois discos têm todo o aspecto de serem piratas, sendo de admitir que as “masters” (editadas em 1971 num duplo álbum com o selo Vertigo Internacional) se tenham perdido, já que há muito se justificava a reedição em CD dests obras seminais.
O som é bom, embora a gravação apresente alguns ruídos típicos de uma cópia feita a partir de um disco em vinilo. Mas nada disto deve constituir impedimento para os apreciadores dos Kraftwerk ou, em geral, da chamada “escola de Berlim” do início dos anos 70 correrem desesperadamente a comprar esta prenda caída de pára-quedas no nosso país.
Mesmo assim falta editar em compacto o álbum seguinte, “Ralf and Florian”, cujo vinilo ostenta também o selo Vertigo. A partir daqui, com “Autobahn”, nasceria o som techno “avant la lettre” que influenciou meio mundo activo nas pistas de dança da Europa e dos Estados Unidos, desde os anos 80 até hoje. Mas neste par de álbuns datados, respectivamente, de 1980 e 1981 não havia nada que fizesse prever o som inconfundível e robótico que tornaria a banda célebre a partir de “Autobahn”. No seu lugar havia uma violência de metal, clamores concretistas, influências do acid rock californiano, experiências de físico-química minimalistas, curtos-circuitos e emissões clandestinas de energia em estado bruto. Os Kraftwerk moviam-se então nas regiões escarpadas da electro-acústica, fazendo parte da mesma família dos Neu ou dos Cluster (na fase inicial, percursora da vaga industrial), antecipando num ano a própria estreia arrasadora dos Faust.
Apesar do abismo que separa eta música da dos discos seguintes, é possível detectar nela os germes da estética futura dos Kraftwerk. “Ruckzuck” liga o motor de ignição no mesmo andamento que “Elektrisches roulette”, uma faixa de “Ralf and Florian”, enquanto os 17 minutos de “Kling Klang” (título que seria aproveitado para a designação do estúdio da banda) são a versão embrionária e sacudida de “Ananas Symphonie”, também de “Ralf and Florian”, ou dos pequenos excertos abstractos incluídos no segundo lado de Autobahn”. Depois, os Kraftwerk entraram na auto-estrada, fecharam-se num “chip” (do casulo nasceu a espécie dos homens-máquina que, surpreendentemente, mostraram ter também alma) e entretiveram-se, como que na brincadeira, a inventar as leis pelas quais se regeria a música de dança do futuro.

Maria Teresa de Noronha, António Variações – “08.12.1993 – Capa”

pop rock >> quarta-feira, 08.12.1993

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DISCOS DE HOMENAGEM E REEDIÇÕES
Maria Teresa de Noronha
António Variações