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Vários (La Bottine Souriante, Chicago Blues Explosion) – “19ª Festa Do ‘Avante!’ Anunciada Ontem – A Bota Vai Sorrir Na Atalaia”

cultura >> quarta-feira, 05.07.1995


19ª Festa Do “Avante!” Anunciada Ontem
A Bota Vai Sorrir Na Atalaia


MÚSICA do Quebeque, pelos La Bottine Souriante, e os “blues” de Chicago, com os Chicago Blues Explosion, são as duas propostas mais fortes da programação da 19ª Festa do “Avante!”, que ontem foi anunciada em conferência de imprensa na Quinta da Atalaia, Amora, local onde nos dias 1, 2 e 3 de Setembro se realizará pelo sexto ano consecutivo este certame.
Os La Bottine Souriante praticam a música tradicional de raiz francesa que os colonos deste país transportaram desde o século XVIII para as regiões do Quebeque e da hoje denominada Nova Escócia, onde floresceu a chamada cultura “acadiana”. Da discografia do grupo t~em distribuição nacional os excelentes “Chic & Swell” e “La Traversée de l’Atlantique”, ambos editados com o selo Green Linnet. Os “blues” de Chicago vão por sua vez “explodir” num projecto especialmente concebido para a festa dos comunistas portugueses, baseado na banda Chicago Rhythm & Blues Kings, que trará consigo convidados de renome dos “blues” daquela região: A. C. Reed, Cash McCall, Sidney James Wingfield e Katherine Davis.
O programa internacional apresenta ainda os French Alligators, banda de música “cajun” (mistura de folk irlandesa e francesa com os blues e espirituais negros do Sul dos Estados Unidos) do Sudoeste da Luisiana, The White Horse Ceilidh Band, grupo de danças irlandesas “ceili” ou “ceilidh”, e o guitarrista de origem “manouche” (comunidade cigana com maior expressão em França) Fapy Lafertin, com os Le Jazz, que apresentará na Atalaia uma homenagem ao mítico guitarrista de jazz Django Reinhardt, igualmente de ascendência cigana, e ao Hot Clube de França.

“Danças E Folias”

A delegação portuguesa na Festa do “Avante!” inclui a Brigada Victor Jara, na altura em que esta banda apresentará o seu novo trabalho discográfico “Danças e Folias”, o “rapper” General D, os angolanos Kussundulola, dos quais sairá também em breve o seu primeiro compacto, a fadista Mísia, o quarteto de jazz de João Paulo, Jorge Palma, com um grupo alargado de amigos e convidados, a “rocker” Xana, ex-Rádio Macau, os Quinta do Bill, com a sua “Pub pop” e o rock duro dos Ramp.
Da área da música tradicional actuam os Quadrilha, com a estreia em disco “Até o Diabo se Ria” debaixo do braço e O Navegante, de José Barros, um dissidente da Ronda dos Quatro Caminhos e Romanças. As “novas músicas” estão entregues ao quinteto de Carlos Barreto e ao duo Telectu, de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua, que de novo vão ter a companhia do guitarrista norte-americano Elliott Sharp. Vítor Rua fará ainda a apresentação do seu novo projecto Vidya Ensemble. Presenças inesperadas e de forte impacto na Festa do “Avante!” são as de Fausto, que regressa aos festejos vermelhos após longos anos de ausência, e de Pedro Abrunhosa com os Bandemónio, o fenómeno musical mais “in” do momento.

Peter Belgvad, John Greaves – “Unearthed” + Sahan Arzruni – “Visionary Landscapes” + David Darling – “Eight String Religion” + Pascal Gaigne – “El Sol del Membrillo y Ozkak” + Secret Garden – “Songs From A Secret Garden” + Ensemble Harmonia – “Harmonia Meets Zappa” + Social Interiors – “The World Behind You” + Roberto Neulichedl – “3-Estação”

pop rock >> quarta-feira >> 05.07.1995
curtas


PETER BLEGVAD, JOHN GREAVES
Unearthed
Sub Rosa, distri. ????



Textos de Peter Blegvad, excêntricos à boa maneira britanica, declamados pelo próprio, com a ajuda do seu antigo companheiro nos Slapp Happy e Henry Cow, John Greaves. Quem estiver a pensar na anterior colaboração da dupla, o magnéfico 2Kew. Rhone”, pode tirar os cavalinhos da chuva. É tudo falado, sobre um fundo sonoro que acompanha a estranhez das apalvras. Pelo meio, uma canção, “The only song”, pois claro, a meio caminho entre os Beatles e os Faust. (6)

SAHAN ARZRUNI
Visionary Landscapes
Hearts of Space, distri. Strauss



Sahan Arzuni, pianista armeno, interpreta em solo absoluto a música de Alan Hovhaness, um compositor norte-americano de 84 anos, de inspiração mística, que parte das culturas não ocidentais para a descoberta da ligação entre o mundo físico e o “cosmos metafísico”. Música introspectiva, de carácter iniciático, que convida à meditação e À viagem, numa linha programática idêntica à transposição dos hinos de Gurdjieff, por Keith Jarrett. (7)

DAVID DARLING
Eight String Religion
Hearts of Space, distri. Strauss



Grava com regularidade para a ECM mas, para o violoncelista David Darling, isso não chega. Longe do jaz e da complexidade estilística das suas obras nesta editora, em “Eight String Religion” o momento é de contemplação e de calma, em solilóquios de extrema simplicidade do violoncelo sobre gravações de ruídos ambientais naturalistas como pássaros, água, insectos, vento, etc. Repousante. (6)

PASCAL GAIGNE
El Sol del Membrillo y Ozkak
NO-CD, import. Ananana



A primeira parte reúne temas compostos para um filme de Victor Erice, premiado em Cannes. A segunda é música de uma peça de bailado pela Companhia Ekarie. Sons de piano impressionista, um “bandoneon” vagabundo, sopros violeta e um violoncelo a chorar no sonho de um pintor. Melodias romântico-minimais que vão caindo como folhas de Outono. Um disco melancólico, fora de estação. (6)

SECRET GARDEN
Songs From A Secret Garden
Mercury, distri. Polygram



Depois da vitória inesperada no recente Festival da Eurovisão, os seminoruegueses semi-irlandes Secret Garden tentam aqui dar a imagem de grupo sério, escolhendo para tal um figurino “new age” vagamente céltica, vagamente nórdica, que se procura arrumar na mesma estante de Enya e quejandos. Mas é piroso na mesma. Quanto a Davy Spillane, convidado especial no “tin whistle” e nas “uillean pipes”, perdeu o último pingo de vergonha, baixando irremediavelmente à categoria de “pato bravo”. (2)

ENSEMBLE HARMONIA
Harmonia Meets Zappa
Materiali Sonori, distri. Megamúsica



O génio da transgressão nas mãos civilizadas de um grupo italiano de moderna música de câmara que, nos últimos tempos, tem colaborado com Roger Eno. Não se pode dizer que o essencial de Zappa esteja na pauta, mas é, apesar de tudo, um projecto interessante, que alterna composições de Zappa com originais do grupo. Um trabalho de jardinagem competente, que corta pela raiz o lado mais daninho do compositor. (6)

SOCIAL INTERIORS
The World Behind You
Extreme, import. Ananana



“Uma paisagem sombria para navegação aural”, lê-se na capa do disco. É mais escuro do que isso, no confronto terrífico com sons do quotidiano e da Natureza que, de súbito, se animam como monstros saídos do inconsciente. Os Social Interiors são uma câmara de reverberação idêntica à dos Biota, que obriga a perceber o mundo e a música com novos órgãos dos sentidos. Cuidado, o cântico dos insectos e da chuva numa noite de trovoada esconde o ruído de passos de alguém que caminha atrás de nós. (7)

ROBERTO NEULICHEDL
3-Estação
XXX, import. Áudeo



Música composta para o espectáculo do mesmo nome levado à cena pelo Teatro de Marionetas do Porto e pelo Ballet Teatro Companhia. Silêncios, um piano desolado, as vozes dos actores sequenciadas por meios electrónicos. Faltou coragem para transformar esta viagem pela memória de uma mulher que recorda os seus amores num objecto musical autónomo e inovador. (5)

Vários – “Idanha-A-Nova, Toques E Cantares Da Vila” (recolha de José Alberto Sardinha)

pop rock >> quarta-feira >> 28.06.1995
world


Um Toque De Devoção

VÁRIOS
Idanha-A-Nova, Toques E Cantares Da Vila (10)
Ed. EMI-Terra, distri. EMI-VC



A recém-criada EMI-Terra é a primeira editora dedicada especificamente à música tradicional existente em Portugal. Louve-se, portanto, a iniciativa. A EMI portuguesa alinhou, de resto, na mesma onda da sua irmã internacional, que recentemente criou a HEMIspheres, dedicada à chamada “world music”.
Infelizmente, porém, não se pode passar ao lado de alguns sinais perturbadores relativos à atitude que a indústria, por intermédio das multinacionais, reserva a um universo musical que ainda encara com alguma suspeição. Atente-se, no final do “press-release” de apresentação do novo selo: “Hoje, é difícil dizer se vai ser duradoura ou se é sequer sincera esta nova devoção de tantos citadinos, dos media, dos editores, dos consumidores. Mas a verdade é que vale a pena aproveitar este interesse que viabiliza em todo o mundo colecções como a Real World e que permite que, sob designações como Música Étnica ou World Music, a música da Terra ocupe cada vez mais espaço nas lojas de discos.” Não é bom sintoma duvidar “a priori” da sinceridade de uma devoção. Quanto a ser duradouro ou não o interesse pela folk, ele existiu sempre, e se, aparentemente, a procura parece ter altos e baixos, isso deve-se não a uma quebra do interesse do consumidor mas antes ao das editoras (que de resto são também postas em causa no texto). Depois há uma contradição. Diz-se que “a música da Terra ocupa cada vez mais espaço nas lojas de discos”, mas o mesmo texto acaba no tom protecionista do bom samaritano: “A etiqueta Terra é doravante o abrigo para a música que não costumamos vender.” Sintomático.
E vamos ao disco. “Idanha-a-Nova” é um notável documento recolhido por José Alberto Sardinha, alguém de que se fala pouco mas que tem feito muito pela música tradicional deste país. A este antigo elemento dos Almanaque deve-se a edição de alguns registos de primordial importância de recolha e preservação do nosso património tradicional, da antologia, em três volumes, “Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa” até um trabalho dedicado à viola campaniça, “Viola Campaniça – O Outro Alentejo”, que em breve será editado em compacto. No prelo está ainda um livro sobre as tradições musicais da Estremadura. “Idanha-a-Nova, Toques e Cantares da Vila”, com uma excelente captação de som que reproduz em toda a sua pureza os timbres e ambientes específicos das várias peças, permite-nos restabelecer o contacto com um passado que numa sede concelhia da Beira Baixa permanece ainda vivo e a orientar o ritmo de vida dos seus habitantes. Sons ligados ao amanho da Terra como a cantiga da monda ou a moda da ceifa, juntamente com músicas de divertimento e cânticos religiosos, respiram e vibram na voz e nos instrumentos de quem não perdeu a ligação umbilical com o sangue e a capacidade de escutar o que dizem os ventos que sopram do céu. Isso que os homens de negócios não sentem e têm dificuldade em comerciar.