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Vários – “Idanha-A-Nova, Toques E Cantares Da Vila” (recolha de José Alberto Sardinha)

pop rock >> quarta-feira >> 28.06.1995
world


Um Toque De Devoção

VÁRIOS
Idanha-A-Nova, Toques E Cantares Da Vila (10)
Ed. EMI-Terra, distri. EMI-VC



A recém-criada EMI-Terra é a primeira editora dedicada especificamente à música tradicional existente em Portugal. Louve-se, portanto, a iniciativa. A EMI portuguesa alinhou, de resto, na mesma onda da sua irmã internacional, que recentemente criou a HEMIspheres, dedicada à chamada “world music”.
Infelizmente, porém, não se pode passar ao lado de alguns sinais perturbadores relativos à atitude que a indústria, por intermédio das multinacionais, reserva a um universo musical que ainda encara com alguma suspeição. Atente-se, no final do “press-release” de apresentação do novo selo: “Hoje, é difícil dizer se vai ser duradoura ou se é sequer sincera esta nova devoção de tantos citadinos, dos media, dos editores, dos consumidores. Mas a verdade é que vale a pena aproveitar este interesse que viabiliza em todo o mundo colecções como a Real World e que permite que, sob designações como Música Étnica ou World Music, a música da Terra ocupe cada vez mais espaço nas lojas de discos.” Não é bom sintoma duvidar “a priori” da sinceridade de uma devoção. Quanto a ser duradouro ou não o interesse pela folk, ele existiu sempre, e se, aparentemente, a procura parece ter altos e baixos, isso deve-se não a uma quebra do interesse do consumidor mas antes ao das editoras (que de resto são também postas em causa no texto). Depois há uma contradição. Diz-se que “a música da Terra ocupa cada vez mais espaço nas lojas de discos”, mas o mesmo texto acaba no tom protecionista do bom samaritano: “A etiqueta Terra é doravante o abrigo para a música que não costumamos vender.” Sintomático.
E vamos ao disco. “Idanha-a-Nova” é um notável documento recolhido por José Alberto Sardinha, alguém de que se fala pouco mas que tem feito muito pela música tradicional deste país. A este antigo elemento dos Almanaque deve-se a edição de alguns registos de primordial importância de recolha e preservação do nosso património tradicional, da antologia, em três volumes, “Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa” até um trabalho dedicado à viola campaniça, “Viola Campaniça – O Outro Alentejo”, que em breve será editado em compacto. No prelo está ainda um livro sobre as tradições musicais da Estremadura. “Idanha-a-Nova, Toques e Cantares da Vila”, com uma excelente captação de som que reproduz em toda a sua pureza os timbres e ambientes específicos das várias peças, permite-nos restabelecer o contacto com um passado que numa sede concelhia da Beira Baixa permanece ainda vivo e a orientar o ritmo de vida dos seus habitantes. Sons ligados ao amanho da Terra como a cantiga da monda ou a moda da ceifa, juntamente com músicas de divertimento e cânticos religiosos, respiram e vibram na voz e nos instrumentos de quem não perdeu a ligação umbilical com o sangue e a capacidade de escutar o que dizem os ventos que sopram do céu. Isso que os homens de negócios não sentem e têm dificuldade em comerciar.

Skolvan – “Swing & Tears”

pop rock >> quarta-feira >> 26.10.1994
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Swing E Lágrimas Do “Sonneur” Sanguinário

Skolvan
Swing & Tears
Keltia, distri. MC – Mundo da Canção


Graças à actividade incessante desenvolvida no circuito das “festoù-noz” (festivais de dança nocturnos) bretãs e à estabilidade da sua formação – Youenn le Bíhan, na bombarda, “piston” (bombarda de tonalidade mais grave desenvolvida pelo músico) e “biniou” (gaita-de-foles bretã), Fañch Landreau, no violino, Yann-Fañch Perroches, no acordeão diatónico, e Gilles le Bigot, na guitarra, músicos que passaram por grupos como os Gwerz, Barzaz, Kornog e Archetype -, os Skolvan alcançaram um nível de perfeição técnica e uma rodagem tais que lhes proporcionaram a possibilidade de partir para a gravação deste álbum com todos os trunfos na mão. Se o anterior, “Kerz Ban ‘n’ Dans”, era brilhante e uma abordagem rigorosa da tradição bretã, “Swings & Tears”, assinalando uma década de carreira do grupo, não lhe fica atrás, com a vantagem de que agora os Skolvan permitem-se divagar e movimentar com inteira liberdade de movimentos dentro dos parâmetros da música tradicional. “Swings & Tears” é um monumento à música e cultura da Bretanha. Um disco, como o seu antecessor, marcado por um rigor absoluto, mas um rigor que não interfere com aspectos não menos importantes da música: uma energia contagiante, a intersecção com outras culturas, o prazer que se desprende da execução (e, consequentemente, da audição) ou mesmo o humor, um humor apenas permitido a quem cultiva e trabalha no âmago da verdadeira tradição. Assim sendo, só nos resta rendermo-nos ao “swing”, no calor das danças, e respeitarmos as “Tears”, nos momentos de tristeza presentes nos “gwerz”, baladas épicas cantadas em bretão. Inútil procurar em “Swings & Tears” pontos fracos. Pura e simplesmente, não existem. A música tradicional da Bretanha é aqui reinventada num formato lato, por vezes raiando o barroco, no qual a instrumentação tradicional – a típica aliança bombarda/”biniou”, o violino e o acordeão – se expande no diálogo frutífero com um trompete, um contrabaixo, um shakuachi japonês, um saxofone, um saxofone, uma tuba, uma “gadulka”, ou um “bouzouki” e “bodhran” irlandeses. Desde os preparativos para a dança apresentados numa conversa a dois entre a bombarda e o trompete, sobre um rendilhado minimalista de guitarra e subtil tapeçaria desenhada pelo sintetizador, até às “Tears” finais (único tema vocalizado de “Swings & Tears” – onde os Skolvan explicam a origem da sua designação), a Bretanha ilumina-se e afirma com orgulho a sua condição de terra sagrada onde os mitos célticos permanecem vivos e actuantes. Já agora, para quem está interessado em saber: Skolvan era o nome de uma personagem sanguinária, autora de crimes inomináveis cujo fantasma voltou à terra para pedir perdão a sua mãe, Madame Bertrand, segundo reza uma lenda do séc. XII encontrada num manuscrito galês. Há momentos empolgantes, no fundo praticamente a totalidade do álbum: as combinações do violino com as percussões a tuba e a bombarda, em “Boules et guirlandes”, ou do “piston” e trompete, numa dança, ou baile “Plinn”, “Bal Plinn du vertige”, os “sonneurs” de bombarda e “biniou” à desfilada em “Kalon intanvez”, o “swing” alucinante de “… And swing”, uma “gavota” de dupla tonalidade (por favor, não confundir com “gaivota”…), e das “Ronds de Saint Vincent sur Oust”, o andamento de marcha imposto pelo trombone em “Son ar vot”, construído sobre um texto que fala das eleições numa localidade comunista de Bretanha, a longa e tristíssima balada “Les pêcheurs”, uma “Loudia”, ronda de Loudéac, onde o acordeão rivaliza com a bombarda e os Skolvan tocam, como eles dizem, “a nu”, ou seja, sem convidados…
Dois temas de sentido oposto assinalam os extremos que servem para balizar toda uma atitude: Por um lado, o respeito pelas fontes, traduzido numa gravação de 36 segundos da voz da já citada “Madame Bertrand”, efectuada por Claudine Mazéas em 1959, retirada de um “Gwerz”, o “Gwerz Skolvan”. Por outro, a lucidez crítica, atenta a certos perigos que espreitam sobre a folia das “festoù-noz”, expressa de forma bem humorada na primeira aparte de “La banane dans l’oreille”, um divertimento irlandês na forma de falso “reel” pelo violino e um “bodhran”, a explicar o aparecimento, nos bailes, de uma nova dança, o “cercle circassian”, ou os efeitos de uma “tradição pós-moderna”… “Swings & Tears” é uma entrada directa para a lista dos “melhores do ano”, pelo melhor grupo bretão da actualidade. (10)

NOTA: Já se encontra disponível no mercado português o novo pacote de luxo da Green Linnet para 1994. Nada mais nada menos que novos trabalhos dos Déanta (“Ready for the Storm”), House Band (“Another Setting”), Tannahill Weavers (“Capernaun”), Ingrid Karklins (“Anima Mundi”), Open House, grupo de Kevin Burke (“Second Edition”), e Andy M. Stewart (“Man in the Moon”. Para breve a recensão de todos eles num especial sobre a editora.

Ensemble Tre Fontane – “L’ Art Des Jongleurs, Vol. 2” + “Guillaume de Machaut & Le Codex Faenza”

pop rock >> quarta-feira >> 13.07.1994
WORLD


Ensemble Tre Fontane
L’ Art Des Jongleurs, Vol. 2 (10)
Guillaume de Machaut & Le Codex Faenza (8)
Alba Musica, distri. Megamúsica



Desculpem-me os leitores estes desvios, mas o facto é que nos últimos tempos as gravações mais interessantes têm aparecido na área das chamadas músicas antigas. É claro, na folk, as coisas não param, só que muitos discos, alguns deles brilhantes, não chegam ou ainda não chegaram aos nossos distribuidores. Mas regressemos às “velharias” e a dois discos de um grupo, os Ensemble Tre Fontane que, feitas as contas e assimilados os sons, não anda longe na atitude de algumas formações actuais da folk europeia.
Sobretudo no segundo volume de “L’ Art des Jongleurs” (o primeiro, que não conhecemos, incide na tradição vocal trovadoresca), o tratamento das fontes utilizadas sofre deslocações subtis que aproximam a música a formas musicais e de sensibilidade contemporâneas um pouco à maneira do que acontece nesse monumento definitivo de abolição de tabus e fronteiras estéticas no tempo que é “Carmina Burana” segundo os Clemencic Consort.
No caso dos Tre Fontane – um trio originário do Sul de França, região trovadoresca por excelência – e em particular no primeiro e mais antigo dos discos em análise, são as percussões soltas e evidenciando uma espontaneidade muito própria do universo folk a fazerem a diferença. Incidindo sobretudo no reportório instrumental da Idade Média, os Tre Fontane desenvolvem aqui, como na quase totalidade do disco posterior, a música anotada no Codex Faenza, descoberto em 1939, documento de primordial importância para o estudo e aprofundamento das técnicas interpretativas da música medieval. Às peças (baladas e “virelais”) de Gullaume Machaut, séc. XIV, músico e poeta considerado um dos melhores e mais representativos compositores no estilo da “ars nova”, juntam-se as “estampies” italianas, em voluntária acentuação de características comuns. Da audição de todas elas sobressai um sentimento de hedonismo exacerbado em que os sentimentos, da amargura mais profunda à exaltação amorosa, assumem proporções exageradas, pelo menos para a nossa triste e apagada maneira de sentir. A natureza, as voltas da roda do destino, a vida vivida em pleno, transformam-se em fonte de prazer constante. A música reflecte essa “joie de vivre” e exacerbação da arte ou do amor cortês levado a um refinamento e elegância de linguagem sem precedentes na chamada “ars antiqua”, anterior historicamente à “ars nova”. Faixas como “Tre fontane” ou as duas baladas de Machaut, exemplos de maior volúpia sensitiva numa obra que é toda ela um jardim de flores no esplendor máximo da fragrância e da cor – “Dame comment…” e “Dame ne regard pas…” são de molde a transformar por dentro quem as ouve. Centrada quase exclusivamente nas obras de Machaut, a última produção até ao presente dos Tre Fontane é mais contida, dando a entender uma preocupação maior de fidelidade às fontes consultadas e a uma contenção de estilo que se prolonga pela própria instrumentação, aqui limitada à sanfona, flautas de bisel, alaúde árabe e “sordun” (ou “sourdeline”, instrumento de palheta dupla de sonoridade aparentada ao fagote com um “vibrato” semelhante ao da gaita-de-foles), enquanto em “L’ Art des Jongleurs, vol. 2” se estende pela exuberância, além dos instrumentos citados, da “chalemie” (outro instrumento medieval de palheta dupla), bombarda e várias percussões (bendir, darbouka, tablas, tamborim, etc.). Entenda-se então a afirmação de Jacques Berque, aplicável por inteiro à música dos Tre Fontane: “A autenticidade não está na repetição exaustiva do antigo, mas sim no restabelecimento do antigo através da inovação”.