Arquivo da Categoria: Céltica

Ann Heymann – “Queen Of Harps”

pop rock >> quarta-feira >> 27.12.1995


Ann Heymann
Queen Of Harps
TEMPLE, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO



Após várias colaborações com outras harpistas, Alison Kinnaird, Ann arrisca por fim mostrar-se a sós, com a sua harpa gaélica de cordas metálicas – a “clarsach”. A produção enfatiza os acordes e as reverberações amplas, tanto nos temas de “little music”, os “reels” e “jigs” tradicionais, como na “great music” dos séculos XVII e XVIII, tocada nas cortes irlandesa e escocesa para príncipes e auditores eruditos, conhecedores das técnicas ancestrais e das origens bárdicas do instrumento. “Queen of Harps” provoca uma impressão de profundidade, porque é nas profundezas que vai buscar os ensinamentos e o alento, algo que apenas conseguimos encontrar nos velhos harpistas, bretões (esqueçam Stivell), ou irlandeses, como Derek Bell, e nunca em apenas bons tecnicistas, como William Jackson, experimentalistas, como Savourna Stevenson, “hippies” reciclados, como Robin Williamson, ou galegos eternamente constipados, como Emilio Cao. Ann Heymann devolve-nos a harpa enquanto varinha de condão. (8)

Tri Yann – “Inventaire, 1970-93”

pop rock >> quarta-feira >> 29.11.1995
world


Descoberta Ou Ignorância

TRI YANN
Inventaire, 1970-93 (8)
Trisquel Muzik
Todos distri. MC-Mundo da Canção


Se a música da Bretanha se pode gabar de ser hoje uma das forças dominantes na cena “folk” europeia, isso deve-se à revolução, política e musical, desencadeada no final dos anos 60, princípio dos anos 70 por gente como Roger Glennmor, Gilles Servat, Dremmwel, Sonerien Du, Ar Skloferien, Gweltaz e, evidentemente, Alan Stivell, que recolheu a maior parte dos louros. A esta lista falta acrescentar o nome do Tri Yann, um dos mais antigos grupos bretões ainda em actividade, juntamente com Stivell, e dos primeiros a fazerem a síntese da tradição com o rock e a instrumentação eléctrica.
“Inventaire”, como o título indica, recapitula, por ordem cronológica, a história deste grupo originário da Nantes, no qual se mantiveram desde sempre os seus três fundadores: Jean Chocun, Jean-Paul Cornibeua e Jean-Louis Jossic, ou seja, os três “Jean de Nantes”, ou “Tri Yann na Naoned”, como, em bretão, eram designados no início. Desde a abertura, o clássico “Les prison de Nantes”, de 1972, incluído no primeiro álbum, “Tri Yann and Naoned” (na altura, Juliette Greco convidou o grupo para fazer a primeira parte de um concerto no Olympia), até ao “gwerz” final, gravado já nesta década, a música dos Tri Yann distingue-se pela jovialidade e um encanto extremos, marcados por um “celtismo” em que por vezes afloram, nas notas de um banjo, ventos de outras latitudes. A partir de 1974, a influência dos Malicorne faz-e sentir nos arranjos vocais, como no belíssimo “Pelot d’Hennebont”, do álbum “Suite Gallaise”, “Galvadeg en tri kant mil soudard”, com a sua reverberação de igreja, as vozes “medievais” e os desenvolvimentos eléctricos, é emblemático do melhor “folk rock” que se fez no Hexágono, na época de todas as maravilhas, dos Malicorne, Melusine, Maluzerne, Le Grand Rouge, La Chavannée e La Bamboche. No meio deste inventário de consulta obrigatória, um destaque especial para o manifesto contido em “La découverte ou l’ignorance”, do álbum do mesmo nome. Não resistimos a transcrever parte do texto: “Ignorei durante muito tempo que era bretão. Francês, sem problema, preciso contudo de viver também a Bretanha ou, melhor dizendo, tê-la na consciência, a Bretanha deixará de existir em mim. Se todos os bretões perderem esta consciência, ela deixará pura e simplesmente de existir. (…) A Bretanha existe apenas na medida em que cada nova geração se reconhece como bretã. Em cada hora que passa, nascem crianças na Bretanha. Serão elas bretãs? Ninguém sabe. Para cada uma, quando o momento chegar, será ou a descoberta ou a ignorância.”

Alan Stivell – “Brian Boru”

pop rock >> quarta-feira >> 22.11.1995
world


Alan Stivell
Brian Boru
DREYFUS, DISTRI. MEGAMÚSICA



Nada a fazer com o venerando bretão. Está mesmo gagá. E, provavelmente, rico. “Brian Boru” é mais uma pastilha conceptual sobre um ciclo heróico da tradição irlandesa. A “new age” e as programações rítmicas mais enjoativas dão as mãos a uma batida rock primária. Não faltam a voz feminina açucarada de Máire Breatnach, uma legião de convidados “célticos”, na maioria ilustres desconhecidos, à excepção de Gerry O’Beirne, pau para toda a obra, e um “rap bretão” na pior tradição “etnoseca”. Salvam-se uma ou outra harpada mais intimista e, sobretudo, o balanço imparável e as “uillean pipes” iluminadas de Ronan Browne, suficientes para tornarem “Cease fire” um dos melhores e mais vibrantes momentos, nos últimos anos, do velho bardo. (4)