Arquivo da Categoria: Céltica

Tri Yann – “Inventaire, 1970-93”

pop rock >> quarta-feira >> 29.11.1995
world


Descoberta Ou Ignorância

TRI YANN
Inventaire, 1970-93 (8)
Trisquel Muzik
Todos distri. MC-Mundo da Canção


Se a música da Bretanha se pode gabar de ser hoje uma das forças dominantes na cena “folk” europeia, isso deve-se à revolução, política e musical, desencadeada no final dos anos 60, princípio dos anos 70 por gente como Roger Glennmor, Gilles Servat, Dremmwel, Sonerien Du, Ar Skloferien, Gweltaz e, evidentemente, Alan Stivell, que recolheu a maior parte dos louros. A esta lista falta acrescentar o nome do Tri Yann, um dos mais antigos grupos bretões ainda em actividade, juntamente com Stivell, e dos primeiros a fazerem a síntese da tradição com o rock e a instrumentação eléctrica.
“Inventaire”, como o título indica, recapitula, por ordem cronológica, a história deste grupo originário da Nantes, no qual se mantiveram desde sempre os seus três fundadores: Jean Chocun, Jean-Paul Cornibeua e Jean-Louis Jossic, ou seja, os três “Jean de Nantes”, ou “Tri Yann na Naoned”, como, em bretão, eram designados no início. Desde a abertura, o clássico “Les prison de Nantes”, de 1972, incluído no primeiro álbum, “Tri Yann and Naoned” (na altura, Juliette Greco convidou o grupo para fazer a primeira parte de um concerto no Olympia), até ao “gwerz” final, gravado já nesta década, a música dos Tri Yann distingue-se pela jovialidade e um encanto extremos, marcados por um “celtismo” em que por vezes afloram, nas notas de um banjo, ventos de outras latitudes. A partir de 1974, a influência dos Malicorne faz-e sentir nos arranjos vocais, como no belíssimo “Pelot d’Hennebont”, do álbum “Suite Gallaise”, “Galvadeg en tri kant mil soudard”, com a sua reverberação de igreja, as vozes “medievais” e os desenvolvimentos eléctricos, é emblemático do melhor “folk rock” que se fez no Hexágono, na época de todas as maravilhas, dos Malicorne, Melusine, Maluzerne, Le Grand Rouge, La Chavannée e La Bamboche. No meio deste inventário de consulta obrigatória, um destaque especial para o manifesto contido em “La découverte ou l’ignorance”, do álbum do mesmo nome. Não resistimos a transcrever parte do texto: “Ignorei durante muito tempo que era bretão. Francês, sem problema, preciso contudo de viver também a Bretanha ou, melhor dizendo, tê-la na consciência, a Bretanha deixará de existir em mim. Se todos os bretões perderem esta consciência, ela deixará pura e simplesmente de existir. (…) A Bretanha existe apenas na medida em que cada nova geração se reconhece como bretã. Em cada hora que passa, nascem crianças na Bretanha. Serão elas bretãs? Ninguém sabe. Para cada uma, quando o momento chegar, será ou a descoberta ou a ignorância.”

Alan Stivell – “Brian Boru”

pop rock >> quarta-feira >> 22.11.1995
world


Alan Stivell
Brian Boru
DREYFUS, DISTRI. MEGAMÚSICA



Nada a fazer com o venerando bretão. Está mesmo gagá. E, provavelmente, rico. “Brian Boru” é mais uma pastilha conceptual sobre um ciclo heróico da tradição irlandesa. A “new age” e as programações rítmicas mais enjoativas dão as mãos a uma batida rock primária. Não faltam a voz feminina açucarada de Máire Breatnach, uma legião de convidados “célticos”, na maioria ilustres desconhecidos, à excepção de Gerry O’Beirne, pau para toda a obra, e um “rap bretão” na pior tradição “etnoseca”. Salvam-se uma ou outra harpada mais intimista e, sobretudo, o balanço imparável e as “uillean pipes” iluminadas de Ronan Browne, suficientes para tornarem “Cease fire” um dos melhores e mais vibrantes momentos, nos últimos anos, do velho bardo. (4)

Eric Montbel – “Chabretas, Les Cornemuses À Miroirs Du Limousin”

pop rock >> quarta-feira >> 25.10.1995


Eric Montbel
Chabretas, Les Cornemuses À Miroirs Du Limousin
AL SUR, DISTRI. MEGAMÚSICA



Um aviso aos mais precipitados: “Cha bretas” destina-se ao uso exclusivo dos fanáticos “hard” da gaita-de-foles. Sem as devidas precauções corre-se o risco de se ficar com os ouvidos em brasa. Eric Montbael faz parte dos fabulosos Lo Jai (antes integrou os lendários Le Grand Rouge, com disco na Hexagone), facto que pode levantar alguns equívocos. A “chabreta” (ou “chabrette”, em francês corrente) é uma variante de gaita utilizada na região do Limousin, no Sul de França, antigamente abrangida pelo país de Oc, ou Lanquedoque. Deve o seu nome ao facto de ser decorada com pequenos espelhos incrustados em estanho, na parte que une o fole à ponteira. A música é constituída na sua totalidade por “borrèias” (ou “bourrées”) de fraseado cerrado, embora a presença de convidados como Guy Bertrand, no sax e na flauta, e Jean-François Vrod, no violino, suavize um pouco o sopro ininterrupto das gaitas. Seja qual for o prisma por que for abordado, “Chabretas” é um trabalho sem concessões, com algum apelo para o ouvinte generalista e de consulta absolutamente obrigatória para o estudante ou estudioso da gaita-de-foles. (7)