Arquivo da Categoria: Céltica

Maddy Prior And The Carnival Band – “Hang Up Sorrow & Care”

pop rock >> quarta-feira >> 14.02.1996
world


Para Curar De Vez A Melancolia

MADDY PRIOR AND THE CARNIVAL BAND
Hang Up Sorrow & Care (10)
Park, distri. Megamúsica



é Carnaval. Tempo de folia. Dois dias de festa, vinho e serpentinas. A Carnival Band declara aberta a quadra, escancara o bar, lança as serpentinas e disponibiliza as máscaras – um carnaval tradicional, onde a sumptuosidade das vestes se alia ao mistério do jogo das aparências. Num tom bastante menos ortodoxo que o da religiosidade natalícia de “A Tapestry of Carols” ou “Carols & Capers”, o grupo “privativo” de Maddy Prior mascara, neste seu novo trabalho, a música do Renascimento com uma jovialidade e um artificionalismo, nunca contranatura, que aumentam ainda mais o fascínio de um imaginário onde o requinte do gesto se confundia com o teatro dos sentimentos. Como nos Incredible String Band (um tema como “The Jovial begger (yes spelt er)”, pisca o olho à antiga banda de Robin Williamson e Mike Heron, ou mais recentemente, nos Cock & Bull, esse imaginário é transvestido num hibrido “folk” que, se recupera algumas das sonoridades características da época (gaita de foles, guitarra barroca, “curtals”, bombarda) prefere destilar a sua essência lúdica a imitar-lhe, letra a letra, as formas. Em “Playford tunes”, a Renascença não renega o diálogo “in high spirits” da gaita de foles com uma guitarra eléctrica saturada do doce néctar das uvas. Nem o canto delicado de Maddy choca com a sonolência de um órgão Hammond num bar a horas mortas.
“Hang Up Sorrow & Care” – subintitulado “A Cure for all Melancholy”, baseado na história de “old Simon the king”, discípulo de Baco – segue então aquela filosofia etílica sem outra transcendência a não ser a da euforia, do cérebro e dos sentidos. Depois, a cantora dos Steeleye Span está a cantar melhor do que nunca. Ouçam-na, mas ouçam-na mesmo, na polifonia que mantém consigo mesma sobre o tal órgão Hammond em “The leathem bottel”, antes da entrada triunfal da fanfarra dos foles e das bombardas. E que tal espantarem-se com um tango do séc. XVII dançado na corte com Paolo Conte, em “Oh! That I had but a fine man”? Não nos era concedida jóia deste quilate desde a gravação de duas das mais brilhantes pérolas dos Steeleye Span, “Below the Salt” e “Parcel of Rogues”, ou do ciclo a solo, sobre as estações, de Maddy Prior, “Year”.
“Now o now I needs must part”, com uma vocalização tão clara como uma manhã de Primavera, possui um ligeiro travo americano. Outra polifonia, neste caso mista, “A northern catch/Little barley come”, permite em definitivo situar “Hang up Sorrow & Care” na linha directa de descendência dos Steeleye Span dos anos 70. Mas num registo pessoalíssimo, onde a música da Renascença e a “folk” inglesa são irmãs e simultaneamente a graça mais antiga e moderna deste (outro) mundo. John Dowdand, Henry Purcell, o “Orpheus Caledonius”, a “Beggar’s Opera” de John Gay, o compêndio “The Dancing Master” (dá licença, senhor Ashley Hutchings?…) ou a lista de licores de “Wit and Mirth, na Antidote against Melancholy” são as raízes, o pretexto e a parra de um banquete bem regado na companhia dos deuses. O primeiro grande disco de 1996.

Libredón – “Los Pasos Perdidos”

pop rock >> quarta-feira >> 14.02.1996
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Libredón
Los Pasos Perdidos
SAGA, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO



Uma canção tradicional holandesa de piratas, uma melodia escocesa acoplada a uma dança renascentista centro-europeia sobre um poema de Kavafis, o Códice Calixtino do séc. XIII, o gigante Gargantua, de Rabelais, e um “horo” da Macedónia são algumas das fontes utilizadas pelos galegos Libredón, livres-pensadores e adeptos da convergência das várias culturas europeias, nestes seus “passos perdidos”. A música árabe e a das vizinhas Astúrias são igualmente convocadas para este “cocktail” onde cada tema deve ser saboreado em separado. Original e das facetas mais curiosas dos Libredón é a forma como o grupo recria ambientes medievais (“Esperando a los bárbaros”, “Los pasos perdidos”) juntando as ponteiras e “gaitas” à tecnologia MIDI e (escândalo!) a desavergonhadas caixas-de-ritmos, com ocasionais derivações para apêndices improvisados. José Escudero é um gaiteiro de recursos, a vocalização do romance asturiano “de la mal casada y bien escapa” é evocativa quanto baste, mas a impressão final é a de que a música dos Libredón vive mais da acumulação de pormenores e soluções de muita invenção e algum risco do que de uma proposta global amadurecida. Um pouco os tais “passos perdidos”, por mais interessantes que sejam os lugares visitados. (7)

Joanie Madden – “Song Of The Irish Whistle”

pop rock >> quarta-feira >> 14.02.1996


Joanie Madden
Song Of The Irish Whistle
HEARTS OF SPACE, DISTRI. STRAUSS



Tem-se assistido, nos últimos tempos, à atracção, não raras vezes fatal, entre a new age e a folk dita “céltica”. É um ver se te avias de colectâneas “’celtic’ qualquer coisa”, onde cabem desde o velhote rabequista às orquestrações sintéticas pintalgadas do famoso verde esmeralda. Esta ventania, por vezes de mau gosto, tem assolado com particular intensidade a Irlanda. Chegou agora a vez de Joanie Madden, emigrada nos “states” mas de boa cepa irlandesa, se render aos apelos da “fusão”, indo cair nas mãos de uma das mais activas editoras de new age da actualidade, a Hearts of Space. Depois do ortodoxo “A Whistle on the Wind”, na vetusta Green Linnett, já aqui recenseado, este novo disco da “virtuose” do “tin whistle” poderá não entusiasmar alguns ouvidos mais intransigentes, mas a verdade é que Joanie não se sai mal da experiência. Até porque, de entre as várias modalidades instrumentais irlandesas, os “airs” são os que melhor se adaptam a um revestimento harmónico exterior, nomeadamente orquestrações, convencionais ou não, funcionando como campos de gravidade a suportar a fluidez melódica do “tin whistle” ou da flauta. Seja rodeada de “new agers”, como John Boswell, Paul Avgerignos e Glen Velez, ou de companheiros da cena folk, como Eileen Ivers (violino), John Whelan (acordeão) e Jerry O’Sullivan (“uillean pipes”), Joanie Madden flutua acima das vaidades do mundo, o seu “tin whistle” concentrado numa conversa aérea com as nuvens. (7)