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Hector Zazou – “Hector Zazou Apresenta Música Frágil Na Aula Magna – Berço De Sonhos”

cultura >> domingo >> 02.10.1994


Hector Zazou Apresenta Música Frágil Na Aula Magna
Berço De Sonhos


Depois das orquestrações “difíceis” do maestro Moura, foi a vez de Hector Zazou alertar para a “fragilidade” da sua música e a pedir cuidado, para não a partirem. Está certo que temos todos a sensibilidade musical de orangotango mas, caramba, podiam ter um bocadinho mais de confiança. Ele e Harold Budd embalaram e desejaram bons sonhos. Com classe.

Havia quem dormisse a bom dormir, sexta-feira à noite, na Aula Magna, em Lisboa, enquanto Hector Zazou, Harold Budd e Renault Pion aproximavam perigosamente a sua música do silêncio. O francês, autor de “Sahara Blue”, começou logo por avisar que ia ser uma coisa frágil, a exigir a atenção e disponibilidade de todos. E avisou: ou estavam com ela – a música – ou contra ela. No final se contariam as armas. Também aconselhou s pessoas a juntarem-se no centro da sala, onde a estereofonia era melhor. Ora bem, como a imprensa foi atirada para os lugares eufemisticamente designados “doutorais”, ou seja o mais de lado possível, a imprensa teve que se desenrascar para conseguir escutar o tal “som frágil” nas melhores condições.
Na primeira parte uma rapariga também de aspecto frágil, Barbara Gogan, no passado vocalista da banda pop The Passions cantou e tocou guitarra acústica temas intimistas, com a tristeza de uns Durutti Column e a pose baladeira dos anos 60. Zazou, na consola, alterava os timbres e introduzia reverberações cujo efeito prático foi enviar parte do público em viagem precoce para o mundo dos sonhos. Esses foram os que sem esforço permaneceram até ao fim, gozando daquela felicidade só ao alcance dos que atingem a total paz de espírito. Em contrapartida, os que se mantiveram acordados tiveram a oportunidade de apreciar as tonalidades melancólicas da voz da senhora, embora nos dois últimos temas, retirados de “Sahara Blue” – “Lines” e o título-tema – andasse um bocado à deriva, em busca do lugar certo entre os teclados de Budd e Zazou e o clarinete baixo de Pion.
A seguir ao intervalo, a Sahara Blue Band mostrou que a fragilidade anunciada era-o tão só para quem permanecesse na superfície de um som oceânico, com a transparência e os reflexos matizados de um cristal. Uma música que envolve lentamente os sentidos mas que, por outro lado, corre o risco de parecer e, pior que isso, ter de facto efeitos soporíficos sobre os ouvidos menos atentos ou dispostos a sonharem acordados. Harold Budd afagou o piano, perdido nas reminiscências maçónicas de Satie, por muito que afirme não apreciar este compositor. E disse poemas, em surdina. Pion, flutuando entre as ondas produzidas pelos dois teclistas, soprou brisas e ergueu-se em levitação num pequeno oboé até ao Oriente. Zazou, impressionista, maníaco do pormenor, confirmou ser um mestre dos sintetizadores, acabando prejudicado por desagradável ruído parasitário que a partir de determinado momento poluiu o som de uma coluna. Mas enquanto houve claridade a Aula Magna balouçou num berço de sonhos, embalada em micro-climas em constante mutação pelas mesmas águas que banham as margens da música contida em álbuns como “Le Verbe, L’Amour, La Parure…” e “A Propos d’un Paysage” e Benjamin Lew e Steven Brown.
Com o aparecimento do ruído instalou-se na sala uma sensação de desconforto. Por um lado, o quase silêncio da música fazia aumentar cada vez mais o número dos que abandonavam a sala e dos que não resistiram ao sono. Por outro, os músicos, também eles incomodados, pareceram demitir-se do universo até então miraculosamente elaborado. Nessa ocasião Budd abandonou o piano, levantou-se, segredou qualquer coisa a Zazou e o tema acabou de forma abrupta. De repente, e sem que nada o fizesse prever, Zazou levantou-se, por sua vez para anunciar “C’est fini”, tendo o cuidado de premiar a assistência com um “estiveram muito bem, bravo”, de aprovação. Como quem diz passaram no exame. Budd ainda se deixou ficar sozinho atacar um derradeiro tema no piano. Uma solidão diferente que deve ter sentido parte da assistência, para a qual um concerto exige um tipo de comunicação mais directa e imediata. Algo se partiu, de facto.

Diamanda Galas & John Paul Jones – “The Sporting Life”

pop rock >> quarta-feira >> 14.09.1994


Casamento Entre Iguais

Diamanda Galas & John Paul Jones
The Sporting Life
Mute, distri. BMG


A bruxa juntou-se ao aprendiz de feiticeiro. Era de prever e só admira que o encontro tenha acontecido tão tarde. Diamanda é a diva do inferno, a dama da sida, a praga. John Paul Jones era o baixista dos Led Zeppelin e adepto confesso da magia negra. O que se calhar lhe valeu, ao longo de uma carreira atribulada, alguns dissabores, como a morte de familiares, desastres vários e um “karma” que cuidado com ele. Parece que não lhe serviu de lição. “The Sporting Life” não se parece com nada que Diamanda Galas tenha feito antes, incluindo a trilogia sobre a sida, sob uma perspectiva bíblica invertida, na qual o gospel (“evangelho”, precisamente) e os blues são radicalmente recontextualizado. Por vezes, é como se os Led Zeppelin tivessem trocado de vocalista, tal são as semelhanças das linhas de baixo e bateria com as desta banda que um dia chegou a contar com a presença de Sandy Denny num dos discos, o dos quatro símbolos. São os mesmos riffs, embora mais depurados e próximos, algumas vezes, dos rhythm ‘n’ blues, enquanto noutras o som se aproxima das bandas de heavy metal da primeira geração, como os Black Sabbath.
Num dos temas, Diamanda Galas surge numa interpretação soul que evoca a dilaceração e dramatismo interpretativos de Otis Redding. Um órgão barato serve de suporte para a cantora interpretar “I want your mind!”, para em seguida se entregar a uma gritaria infernal e às imprecações do costume com que consegue pôr os cabelos em pé ao mais incauto. O que aqui soa estranho e perturbante não é tanto a música em si – vulgar, nada que um bom grupo de “metal” não conseguisse fazer melhor -, mas a sensação que provoca de “democratização” e vulgarização de um demonismo que desde há muito vem caracterizando o trabalho anterior dos dois músicos. Como se a arte herética de Galas se tivesse voluntariamente chegado mais perto da populaça, abandonando o tom elitista de toda a sua anterior discografia para se disfarçar, como na fábula, de lobo mau. Nesta perspectiva, torna-se irrelevante tentar perceber se foi Galas quem se serviu do estatuto de “músico popular” do ex-Led Zeppelin para melhor fazer passar a sua mensagem ou se, pelo contrário, foi este que encontrou na cantora maldita o seu “alter ego”, qual deusa da desgraça, arma de vingança ou exorcizadora de demónios. O tom de loucura e religiosidade destituída de transcendência prevalecem e, se quiséssemos encontrar um paralelo deste álbum (que se calhar não faz mais de que retomar as verdadeiras raízes da música rock), teríamos por força que mencionar a obra de Nick Cave, como Galas, um viajante das trevas, nos últimos tempos vestido com as roupas de “entertainer”. E agora Galas? Descer ainda um degrau e seduzir os Pet Shop Boys para melhor penetrar nas esferas inferiores da pop? Ou, porque não, Madonna, a sua verdadeira irmã espiritual? (6)

Vários (Miguel Azguime, Zíngaro / Montéra / Lovens, Denis Colin, Didier Petit e Pablo Cueco, Giancarlo Schiaffini, Idéfix Generator – “Ciclo De Música Improvisada Em Lisboa – Silêncio, Folia E Um Elefante”

cultura >> quinta-feira >> 23.06.1994


Ciclo De Música Improvisada Em Lisboa
Silêncio, Folia E Um Elefante


Muito boa música aconteceu no Ciclo “Improvisação na Música do séc. XX”. Mas a maior, aquela que está para além das notas, teve lugar com o trio formado por Denis Colin, Didier Petit e Pablo Cueco. Solistas de outra galáxia.



Guardamos até à data na memória, como paradigma do acto de improvisação e entrega plena à música, uma memorável actuação do grupo de Michel Portal, há muitos anos, num pequeno cine-teatro em Sintra. O trio de franceses liderado pelo clarinetista baixo Denis Colin andou lá perto. Recapitulemos porém os actos prévios destas “improvisações” que decorreram segunda e terça-feira no Teatro de S. Luiz em Lisboa, uma organização das Miso Produções de Miguel Azguime integrada no programa de Lisboa-94.
Na segunda-feira, com cerca de uma centena de pessoas na sala, Miguel Azguime apresentou a peça “Ícones”, para percussão solo. Percutiu uma escada, uma vasilha (inclusive por dentro), fez cantar um vibrafone, extraiu sílabas da luz e das palavras. Intuitivo, “performer”, atento como sempre à vibração e cor dos materiais, Azguime brilhou sobretudo no já habitual desempenho em três caixas de madeira com diversas afinações/ressonâncias, dele se podendo dizer que cada vez mais se assemelha, na estética e na postura, a Stephan Micus.
Irene Schweizer é uma notável contadora de histórias. Nas citações constantes a estilos e épocas que lhe fez passear pelo teclado (e, num dos trechos, em exploração cavernosa nas entranhas do instrumento), a pianista suiça mostrou uma técnica que enfatiza a articulação e o detalhe em detrimento da energia.
Caótica foi, em certos momentos, a prestação do trio Zíngaro / Montéra / Lovens. Mais contido do que noutras ocasiões, o violinista português acabou por ser o mais atento dos três e o único que procurou pôr alguma ordem na casa. Lovens, jogando com a aleatoriedade dos gestos e dos sons, e Montéra, tecelão de mil ruídos na guitarra (deitada sobre uma mesa, submetida a mil torturas, à maneira de Fred Frith em dia de desbunda), mataram à nascença qualquer ideia ou discurso articulado que surgisse, numa espécie de “coitus interruptus” musical onde Zíngaro procurou construir pontes e acrescentar poesia.

Música Animal

No dia seguinte, a assistência era ainda menos numerosa do que na véspera. Mas as pouco mais de 70 pessoas presentes assistiram ao milagre. Partindo de peças compostas, Denis Colin, Didier Petit e Pablo Cueco deram uma lição, a vários níveis. Tocando embora para um público diminuto, entregaram-se totalmente à música, numa procura incessante de além, na ultrapassagem constante de si próprios. Fizeram teatro, no sentido mais nobre do termo, como o entendia Artaud.: não como uma imitação da vida mas sim a própria vida enquanto teatralização, encenação nua, sem filtros nem barreiras.
Didier Petit é um monge. O modo como cria no violoncelo faz dele um asceta. Orquestrador de sentimentos e dos diferentes planos do real, cantou literalmente e subiu, subiu até regiões insuspeitadas da música. Inesquecível a maneira como se “introduziu” num solo de Cueca no “zarb” (tambor de toque algures entre a “darbouka” e as tablas), fazendo-o apenas com movimentos (no sentido mais lato, música é movimento, os sons nascem depois) do instrumento e do arco, em arquitectura gestual que provou de uma vez por todas que o silêncio (fonte e término da música) pode ser moldado e audível.
Denis Colin é um prodígio. De técnica (percorre com a agilidade de um “flaneur” todas as alturas, da estridência ao telurismo abissal) e de “feeling”. O(s) seu(s) discurso(s) é percorrido pelo fogo. O corpo agita-se-lhe em folia criativa. Lirismo, humor, força, recolhimento, segundo os ditames do momento. Metamorfose. Ao ponto de numa fase em que a música inflectiu em pulsação tribal, primitiva, quase de batuque, se transformar num elefante em fúria, soltando bramidos pavorosos, abanando o clarinete baixo como uma tromba. Naquele momento, Denis Colin era um elefante, da mesma forma que um xamã confunde a sua alma humana com a dos animais.
Cueco é um percussionista ao estilo homem-aranha de Glen Velez, criando imperceptivelmente teias de soluços, síncopes, explosões, filamentos de ar, dúvidas tornadas certezas, pedras, batimentos cardíacos. Os três juntos, só visto. Ainda por cima tinham “swing”!. Saíram do palco como entraram, discretamente, por uma porta aberta no enorme painel em metal que na ocasião substituiu o pano de cena, encimado pela frase “evitai o pânico”.
Perdoem-me então finalmente Giancarlo Schiaffini e as suas impressionantes manipulações tímbricas e harmónicas realizadas no trombone com a ajuda de “live electronics”. Algures nas imediações de Stuart Dempster (na criação de tempos de reverberação artificiais), J. A. Deane (no massacre sonoro) e Terry Riley (em certas circularidades evocativas do tema “Poppy nogood and the Phantom band” de “A Rainbow in Curved Air”). Fecharam os portugueses Idéfix Generator numa onda de jazz rock bem tocado mas sem rasgos, com o saxofonista Paulo Curado em muito bom nível, por vezes em curiosa interiorização do universo de John Lurie. Lisboa 94 nem deve ter reparado, mas alguma da melhor música ao vivo deste ano esteve nestas “improvisações”.