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Gabriel Yacoub – “Yacoub Em Lisboa No Início De Fevereiro Com Pi De La Serra – Gabriel, O Trovador”

cultura >> sábado >> 24.12.1994


Yacoub Em Lisboa No Início De Fevereiro Com Pi De La Serra
Gabriel, O Trovador


GABRIEL YACOUB, um dos músicos mais prestigiados da música folk francesa, actua em Portugal no início de Fevereiro do próximo ano, no Teatro Maria Matos, em Lisboa. O concerto insere-se numa iniciativa de genérico “Sons (da) Voz” a decorrer em três dias seguidos, e do programa fazem também parte o cantor catalão Pi de la Serra e um coro português. A produção, da Vachier Associados, dada a unidade temática da iniciativa, está a estudar a possibilidade de um ingresso único para os três espectáculos.
Possuidor de uma das vozes mais originais da música folk europeia actual, Gabriel Yacoub integrou a primeira formação do harpista bretão Alan Stivell, formando mais tarde, em meados da década de 70, os Malicorne, mítica banda folk francesa. Os Malicorne gravarm oito álbuns de originais, três de genérico “Malicorne”, “Almanach” (inspirado em doze rituais agrícolas correspondentes aos doze meses do ano), todos distribuídos em Portugal pela MC – Mundo da Canção, “L’Extraordinaire Tour de France d’Adélard Rousseau” (viagem iniciática de um pedreiro livre pelo país de França), “Le Bestiaire”, “Balançoir en Feu” e “Les Cathédrales de L’ Industrie”, este último uma experiência falhada nos domínios da Pop electrónica. Disponíveis no mercado nacional encontram-se igualmente as colectâneas “Quintessence” (Mundo da Canção) e “Deuxième Époque”, com distribuição MVM. O cantor lançou ainda um álbum em duoo com a sua mulher e vocalista nos Malicoren, Marie Yacoub, “Pierre de Grenoble”.
Nos últimos anos Gabriel Yacoub, autêntico trovador do século XX, tem vindo a seguir uma carreira a solo, gravando até à data os álbuns “Trad. Arr.”, com distribuição nacional, como o título indica, numa vertente idêntica à dos Malicorne na sua fasse inicial, embora num registo de maior simplicidade, “Elementary Level of Faith”, nova insistência na Pop electrónica, de novo com resultados catastróficos, e “Bel”, também com distribuição no nosso país, álbum de excepção, recenseado na devida altura com a nota máxima no suplemento Pop Rock deste jornal. O mais recente, intitulado “Quatre”, quarto da sua discografia, é inspirado nos quatro elementos e nas quatro estações do ano, pondo mais uma vez em relevo as temáticas esotéricas desde sempre manifestadas pelo cantor.

Kronos Quartet – “Kronos Quartet Em Lisboa – O Violino De Elvis”

cultura >> sábado >> 17.12.2022


Kronos Quartet Em Lisboa
O Violino De Elvis


OS QUARTETOS de corda já não são o que eram. Andam doidos. Embora nem tanto como seria de desejar. Os Kronos Quartet, ilustres intépretes de peças contemporâneas que toda a gente com nome faz questão de lhes oferecer, apresentaram-se em boa forma quinta à noite no Grande Auditório do edifício sede da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa.
Uma assistência chique, constituída em grande número pelos titulares das cadernetas para a temporada inteira, encheu de elegância o Grande Auditório. Alguns aproveitaram mesmo essa titularidade para retemperarem forças de um estafante dia de trabalho, ressonando alto e bom som durante o espectáculo, numa tónica de experimentalismo e manifestação óbvia de apreço pela boa música dos Kronos Quartet. Menos felizes, alguns apreciadores de facto da música do grupo ficaram à porta a chuchar no dedo. Lotação esgotada.
“Mugam sayagi”, de Franghiz Ali-Zadeh deu início ao concerto. Peça clássica na sua estrutura – em comparação com algumas das loucuras que se seguiram – teve a grande virtude de nos deliciar, na exposição inicial, com uma extraordinária prestação a solo da violoncelista Joan Jeanrenaud. Intimista, nos limites do silêncio, a intérprete loura de calças prateadas fez brotar do violoncelo um jardim de harmónicos de cores e tempos de grande nitidez. “Dinner music for a pack of hungry cannibals”, de Raymond Scott, introduziu uma nota de humor burlesco, nas suas cadências sincopadas e piscadelas de olho ao jazz. “Mach”, de John Oswald, construiu-se no embate das cordas contra uma orgia de elctrónica agressiva em fira pré-gravada, pondo em evidência as técnicas de justaposição e colagem típicas do criador do “Mystery laboratory”. Os músicos correram atrás dos “bits” e, pelo meio, houve uma pausa em que apeas mimaram os gestos de execução, sem extraírem qualquer som dos instrumentos. Teatro puro da imaginação. Cage, claro, ou Maurice Kagel, sorriram da primeira fila.
Seguiu-se um tema naturalista, “Mtukwekok naxkomao” (“os bosques que cantam”), de Brent Michael Davis, com os dois violinistas, John Sherba e David Harrington, o violista Hank Dutt e a já citada Joan Jeanrenaud a substituírem os arcos por barras de metal e a agitarem no ar, em movimentos circulares, cordéis cuja vibração imitava sons de pássaros. Utilizaram ainda um toro de madeira, por sinal bem afinado. O bosque cantou. A primeira parte fechou com o “Quarteto nº 4” de Sofia Gubaidolina, dez minutos de “pizzicatos” insistentes e alguns exercícios de ginástica que puxaram ao bocejo.
A segunda parte foi ocupada na íntegra por mais de meia hora de “The book of alleged dances”, dividida em dez partes, de John Adams. Música de câmara minimalista, com esporádicos suportes de “loops” rítmicos samplados. A correcção formal não fez esquecer a ausência de emoção.
O melhor, porque mais vibrante, ficou guardado para o fim. No primeiro “encore”, “A roda de água”, retirado do álbum do grupo “Pieces of Africa”, o pano de fundo do palco abriu, de maneira a poder ver-se por detrás dos músicos um dos repuxos de água do jardim do auditório. As inflexões arabizantes da música afinaram com as águas no mesmo ritmo de hipnose. Depois, a loucura final, no segundo e último “encore”, em “Elvis everywhere”, uma paródia sobre samplagens de canções de Elvis Presley e excertos de vozes gravadas das múltiplas convenções que nos Estados Unidos procuram manter vivo o mito de “The King”. O “rock ‘n’ roll” derrotou uma vez mais o academismo. Ou teria sido o contrário?

Pedro Abrunhosa – “Lisboa-94 – Que Fazer Com Abrunhosa?”

ZAP >> sábado >> 17.12.1994


Lisboa-94
Que Fazer Com Abrunhosa?



Em terra de cegos, quem tem um olho, barbicha e óculos escuros é rei. O cidadão chama-se Pedro Abrunhosa e o seu reio é a juventude portuguesa. Quase toda… Sempre que o rei abre a boca para lançar uma das suas tiradas bombásticas, os (e sobretudo as) fãs abrem também a boca, mas de histerismo. O que Pedro Abrunhosa fez no álbum “Viagens” e faz em cima de um palco, como irá acontecer hoje no Terreiro do Paço, em Lisboa, às 22h, com os Bandemónio e Tito Paris juntos, é coisa simples, quase banha da cobra: juntar à música de dança uma mensagem, o mais directa possível, de conteúdo político e sociológico relativo à sociedade portuguesa. Há quem acuse Abrunhosa de fazer demagogia, quando se ergue apelando ao não pagamento da portagem ou invectiva Cavaco, mas os jovens bebem cada palavra sua como se fosse uma revelação. O que é que podemos fazer?…