Arquivo de etiquetas: Aula Magna

Carmel – “Servir Quente” (concertos)

pop rock >> quarta-feira >> 24.05.1995


SERVIR QUENTE

CARMEL
Aula Magna (Lisboa) – Sexta – 26 – Maio
Teatro Circo (Braga) – Sábado – 27 – Maio



Os Carmel, com a voz tipo massagem de Carmel McCourt, regressam aos palcos portugueses, dosi anos depois de se terem apresentado em Braga, Lisboa e Aveiro. As duas primeiras cidades voltam a receber o trio, ainda e sempre composto pela cantora, o baixista Jim Parris e o baterista Gerry Darby, pouco tempo depois de ter sido editado em Portugal o seu último álbum, “Worlds Gone Crazy”.
Caso raro de unidade e persistência, os Carmel levam já doze anos de existência e fidelidade a um estilo que junta o swing, o reggae, os rhythm ‘n’ blues, o jazz, os blues e a música latina. É uma mistura tórrida, mas os Carmel não carregam demasiadamente nas cores. Em Inglaterra, depois de em 1983 terem chegado aos primeiros vinte dio top, com os singles “Bad day” e “More, more, more”, passaram um pouco de moda, mas em França, por exemplo, a sua música tem sido recebida com entusiasmo. Em casa de ferreiro espeto de pau, não é? Seja como for, é boa música para se ouvir tanto entre os fumos e copos de um bar como numa praia ao pôr-do-sol de frente para o mar. Pode funcionar bem a aquecer corações ou mesmo alevar a enlaces de maior profundidade. Pelo menos é o que se diz.
Ao vivo, dizem os próprios, a coisa funciona melhor do que em disco. Há mais “feeling” e tudo pode acontecer a meio de uma improvisação, algo que os Carmel não dispensam e de onde extraem, inclusive, novas ideias para os discos. “Quando se começa a improvisar”, explica a cantora, “sente-se uma magia no ar, é incrivelmente excitante!” Onde é que já ouvimos isto? Então já sabem: quem quiser também sentir um pouco dessa magia no ar, é favor dirigir-se a Braga ou Lisboa, o que estiver mais perto, e abrir bem o coração e os ouvidos. Os Carmel andam nisto há uma dúzia de anos, e se a sua música não mudou muito é porque eles acreditam mesmo nela. Acreditamos que sim.

Madredeus – “Madredeus Surpreendem Em Início De Nova Digressão – Lisboa À Média Luz”

cultura >> domingo, 05.03.1995


Madredeus Surpreendem Em Início De Nova Digressão
Lisboa À Média Luz


Sombra, calor, silêncio. Três tons que deixaram rasto na música dos Madredeus, no seu concerto de regresso a casa. Lugar de sonho de uma Lisboa uterina “ainda” por revelar. Ficou a certeza de que cada chegada é sempre ponto de partida.



Recém-chegados de uma digressão por Espanha, onde esgotaram lotações – “sobrou apenas um bilhete, que guardámos simbolicamente”, diria Pedro Ayres de Magalhães na conferência de imprensa realizada poucas horas antes do concerto – e alcançaram um “disco de ouro” pelas vendas de “O Espírito da Paz”, os Madredeus já estão de novo em viagem. “Uma vida de astronauta em que é impossível conceber um mecanismo mental para tocar todos os dias”, ainda segundo Pedro Ayres. A nova digressão, por território nacional, teve início sexta-feira na Aula Magna e prosseguirá ao longo de todo o mês de Março, culminando num concerto duplo no Porto, a 31 de Março e 1 de Abril.
Na sala da Universidade de Lisboa, a mesma onde o grupo há anos se estreou em espectáculos de maior dimensão na capital, os Madredeus conseguiram algo de que à partida não se estaria à espera: surpreender. Com um novo álbum prestes a sair, “Ainda”, banda-sonora para o filme de Wim Wenders, “Lisbon Story”, sobre Lisboa, o actual sexteto composto por Teresa Salgueiro, Pedro Ayres, Francisco Ribeiro, Gabriel Gomes, José Peixoto e Carlos Maria Trindade se é verdade que não se afastou do ambiente de serenidade – talvez mais aparente do que real – que caracteriza “O Espírito da Paz”, fê-lo com uma descontracção que contraria a solenidade, e até alguma frieza, sensíveis no disco.
A fase actual dos Madredeus é, comparativamente com o passado, de maior interioridade. Estão todos a tocar não só melhor como mais baixo e com maior melancolia. Uma melancolia assumida, acentuada na Aula Magna pela iluminação, quase sempre difusa, por vezes próxima da escuridão, que obrigou à total concentração na música. Ganharam proeminência o violoncelo abissal de Francisco Ribeiro e os teclados de Carlos Maria Trindade, cujo som, mais rigoroso e diversificado na escolha de timbres que o do antigo teclista, Rodrigo Leão, se afirmou como o grande inventor de paisagens ambientais.
“Moinhos”, um dos vários instrumentais tocados ao longo da noite, abriu o concerto, seguido de “Milagre”, primeiro de “Ainda” a ser apresentado, e “Senhores da Guerra”. Arrepiante foi o diálogo vocal de Francisco Ribeiro e Teresa Salgueiro na evocação arabizante de “Pregão”. Teresa Salgueiro cuja voz preferimos quando canta mais próxima do silêncio. Com as palavras a nascerem como gotas de espírito. Pequenas chamas frias. Inversamente, sempre que ergueu mais alto a voz, as notas saíram mais empasteladas, não deixando perceber metade das palavras. Ou seria por termos sido atirados para as profundezas da segunda plateia, a quilómetros de distância do palco? “O mar”, “Céu da Mouraria” – interpretado com a alma e a garra do fado, “As cores do sol”, “Maio maduro Maio” (de José Afonso), valorizado pelo delicado diálogo final das guitarras, e o clássico “O pastor” concluíram a primeira parte.
Aproveitámos o intervalo para nos fazer convidados e dar o salto para as filas da frente. Excelente o “Concertino”, nas suas várias alíneas, desde o folclórico “minuete” até à noite de “Silêncio”, sublime oração de Teresa Salgueiro. “Ajuda”, “Ao longe o mar”, “As ilhas dos Açores”, cruzamento interessante de Albinoni com Richard Clayderman, e “Vem”, outra vocalização de espanto, antecederam a longa despedida, com “Ainda”. Um “mantra” bem português onde a voz de Teresa Salgueiro envolveu em nevoeiro as duas sílabas, despojando-as da semântica para, por fim, nada mais restar senão o som. Corolário perfeito de uma “fantasia musical e poética de raiz portuguesa”, como Pedro Ayres Magalhães define a estética do grupo.
“Amargura”, “Guitarra” e uma “Alfama” em ritmo de fado-tango, os três “encores”, fizeram despertar do sonho. A música dos Madredeus leva-nos como crianças até ao outro lado.

Hector Zazou – “Hector Zazou Apresenta Música Frágil Na Aula Magna – Berço De Sonhos”

cultura >> domingo >> 02.10.1994


Hector Zazou Apresenta Música Frágil Na Aula Magna
Berço De Sonhos


Depois das orquestrações “difíceis” do maestro Moura, foi a vez de Hector Zazou alertar para a “fragilidade” da sua música e a pedir cuidado, para não a partirem. Está certo que temos todos a sensibilidade musical de orangotango mas, caramba, podiam ter um bocadinho mais de confiança. Ele e Harold Budd embalaram e desejaram bons sonhos. Com classe.

Havia quem dormisse a bom dormir, sexta-feira à noite, na Aula Magna, em Lisboa, enquanto Hector Zazou, Harold Budd e Renault Pion aproximavam perigosamente a sua música do silêncio. O francês, autor de “Sahara Blue”, começou logo por avisar que ia ser uma coisa frágil, a exigir a atenção e disponibilidade de todos. E avisou: ou estavam com ela – a música – ou contra ela. No final se contariam as armas. Também aconselhou s pessoas a juntarem-se no centro da sala, onde a estereofonia era melhor. Ora bem, como a imprensa foi atirada para os lugares eufemisticamente designados “doutorais”, ou seja o mais de lado possível, a imprensa teve que se desenrascar para conseguir escutar o tal “som frágil” nas melhores condições.
Na primeira parte uma rapariga também de aspecto frágil, Barbara Gogan, no passado vocalista da banda pop The Passions cantou e tocou guitarra acústica temas intimistas, com a tristeza de uns Durutti Column e a pose baladeira dos anos 60. Zazou, na consola, alterava os timbres e introduzia reverberações cujo efeito prático foi enviar parte do público em viagem precoce para o mundo dos sonhos. Esses foram os que sem esforço permaneceram até ao fim, gozando daquela felicidade só ao alcance dos que atingem a total paz de espírito. Em contrapartida, os que se mantiveram acordados tiveram a oportunidade de apreciar as tonalidades melancólicas da voz da senhora, embora nos dois últimos temas, retirados de “Sahara Blue” – “Lines” e o título-tema – andasse um bocado à deriva, em busca do lugar certo entre os teclados de Budd e Zazou e o clarinete baixo de Pion.
A seguir ao intervalo, a Sahara Blue Band mostrou que a fragilidade anunciada era-o tão só para quem permanecesse na superfície de um som oceânico, com a transparência e os reflexos matizados de um cristal. Uma música que envolve lentamente os sentidos mas que, por outro lado, corre o risco de parecer e, pior que isso, ter de facto efeitos soporíficos sobre os ouvidos menos atentos ou dispostos a sonharem acordados. Harold Budd afagou o piano, perdido nas reminiscências maçónicas de Satie, por muito que afirme não apreciar este compositor. E disse poemas, em surdina. Pion, flutuando entre as ondas produzidas pelos dois teclistas, soprou brisas e ergueu-se em levitação num pequeno oboé até ao Oriente. Zazou, impressionista, maníaco do pormenor, confirmou ser um mestre dos sintetizadores, acabando prejudicado por desagradável ruído parasitário que a partir de determinado momento poluiu o som de uma coluna. Mas enquanto houve claridade a Aula Magna balouçou num berço de sonhos, embalada em micro-climas em constante mutação pelas mesmas águas que banham as margens da música contida em álbuns como “Le Verbe, L’Amour, La Parure…” e “A Propos d’un Paysage” e Benjamin Lew e Steven Brown.
Com o aparecimento do ruído instalou-se na sala uma sensação de desconforto. Por um lado, o quase silêncio da música fazia aumentar cada vez mais o número dos que abandonavam a sala e dos que não resistiram ao sono. Por outro, os músicos, também eles incomodados, pareceram demitir-se do universo até então miraculosamente elaborado. Nessa ocasião Budd abandonou o piano, levantou-se, segredou qualquer coisa a Zazou e o tema acabou de forma abrupta. De repente, e sem que nada o fizesse prever, Zazou levantou-se, por sua vez para anunciar “C’est fini”, tendo o cuidado de premiar a assistência com um “estiveram muito bem, bravo”, de aprovação. Como quem diz passaram no exame. Budd ainda se deixou ficar sozinho atacar um derradeiro tema no piano. Uma solidão diferente que deve ter sentido parte da assistência, para a qual um concerto exige um tipo de comunicação mais directa e imediata. Algo se partiu, de facto.