pop rock >> quarta-feira >> 22.02.1995
Mafalda Arnauth
O DOM DE UMA VOZ FELIZ

No recital “Em Nome do Fado”, de João Braga, realizado recentemente no Teatro S. Luiz, entre as vozes dos jovens convidados, uma houve que se destacou. A sua possuidora chama-se Mafalda Arnauth e as interpretações de “Foi Deus” e “Que Deus me Perdoe”, com que, na sua noite de estreia, iluminou o S. Luiz, deixara, o público estarrecido. Como em Amália Rodrigues, no canto de Mafalda Arnauth há a dimensão da transcendência, fruto de uma entrega total a Deus e ao fado.
Mafalda Arnauth tem 20 anos e estuda na Faculdade de Veterinária. Foi lá que cantou fado pela primeira vez, “por brincadeira”. “Peguei numa cassete da Amália e foi daí que aprendi um fado pelo qual me apaixonei logo à primeira, ‘Que Deus me Perdoe’”. De “Foi Deus” diz que é um fado “com uma magia tão grande” que empre pensou que “nunca o conseguiria cantar”. No S. Luiz foi o que se viu.
É uma católica confessa. Canta no coro de uma igreja em S. Domingos de Rana, faz parte de um grupo, “shalom” (“paz”, em hebraico), inserido na Igreja Católica, e dá aulas de catequese. Assume a sua voz como “um dom” divino – “um dom que tenho que assumir com humildade; se me vem de uma transcendência qualquer não tenho poder sobre ele” – e “uma forma de comunicação com as pessoas”. João Braga descobriu-a por intermédio do guitarrista José Luís Nobre Costa, que a acompanhou numa actuação num congresso de medicina veterinária em França. Seguiu-se um ensaio, já na presença de João Braga, onde cantou “O Namorico da Rita” – “durante muito tempo um fado que cantei para quebrar aquele primeiro impacto com as pessoas” – e “Foi Deus”. “O Fadista Louco”, como vem escrito na tal cassete com fados de Amália, é outro fado com o qual Mafalda Arnauth se identificou de imediato e que cantou no espectáculo “Em Nome do Fado”. “Amália foi a primeira voz que adorei, uma voz que consegue despertar uma magia qualquer”.
Quando subiu ao palco do Teatro S. Luiz não se lhe notaram quaisquer traços de nervosismo. “Uma pessoa tem de ter uma certa segurança”. Uma segurança que Mafalda Arnauth diz ser necessária para poder ajudar os mais novos, como faz nas reuniões de grupos de jovens onde participa. “As pessoas hoje em dia já pensam e falam nas coisas de uma maneira tão perdida que se não aceitarmos os desafios com segurança não é possível fazer nada”. No S. Luiz sentiu-se feliz por estar a fazer uma coisa de que gosta. “Basta-me ouvir uma guitarra que seja uma maravilha, como nas mãos daqueles mestres, para me sentir feliz”. Quando Mafalda Arnauth canta, essa felicidade passa também a ser nossa.













