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Júlio Pereira – “Júlio Pereira Estreou Novo Espectáculo Em Lisboa – A Matemática Do ‘Swing'”

cultura >> segunda-feira >> 07.06.1993


Júlio Pereira Estreou Novo Espectáculo Em Lisboa
A Matemática Do “Swing”


Para Júlio Pereira, o concerto de sábado, no Teatro S. Kuiz, em Lisboa, representava a sua estreia a solo na capital. Ultrapassada uma fase inicial de algum nervosismo, o bandolim disparou para uma actuação brilhante, num recital de intuição e virtuosismo. Só a voz de Minela pecou por falta de discrição.



A responsabilidade era muita. A assistência não tanto, mas mesmo assim suficientemente numerosa para compor a sala e testemunhar o novo projecto ao vivo de um dos grandes instrumentistas de música popular portuguesa da actualidade. Acompanhado por Moz Carrapa, antigo elemento dos Salada de Frutas, na guitarra acústica, e por Minela, voz e sintetizador, o autor de “O Meu Bandolim” percorreu fases diversas do seu reportório, dos tempos de divulgação do cavaquinho até ao período recente de vassalagem ao bandolim, único instrumento que tocou ao longo da moite.
Excelente na técnica de “rasgar” e no dedilhar das cordas, Júlio Pereira soube precaver-se contra o perigo do mero exibicionismo técnico. Deixou-se levar pelos caminhos da intuição sem com isso perder a bússola. O “swing” nas equações da matemática. Moz Carrapa assumiu-se como suporte e contraponto ideal das malhas urdidas no bandolim. Seguro, sempre, dialogante quando lhe foram pedidas explicações e comentários. Acima de tudo foi protagonista atento e equilibrado, resistindo de igual modo à subserviência e ao autoritarismo.

O Grito De Minela

Teriam sido só harpas e rosas se a magia não quebrasse por onde à partida não seria suposto tal acontecer, pela prestação de Minela, uma voz que sabe e costuma ser de assombro mas que no S. Luiz não soube encontrar o registo adequado. A ela coube interpretar uma série de canções de José Afonso – “Teresa Torga”, repetida no segundo “encore”, “Maio maduro”, “Fura fura”, “Milho verde”, “Entrudo”… – que defendeu com garra mas onde se perdeu quando lhe era exigida maior contenção. Demasiada estridência (defeito que a mesa de som poderia ter corrigido mas não corrigiu), hesitações no tempo e, sobretudo, alguma ostentação, situaram a cantora na margem oposta à de Moz Carrapa. O equilíbrio das cordas da guitarra por oposição ao excesso das cordas vocais.
O despropósito atingiu o auge numa improvisação (?) sobre “Milho Verde” com pretensões a experimental, segundo aquela concepção de que o experimentalismo, quando da utilização da voz, é sinónimo de gritaria. Até poderá ser “de gritos” mas não da forma como Minela o fez, descontrolada, pulmão à rédea solta, qual Castafiore serialista. Visivelmente, a cantora açoriana não é uma Diamanda Galas nem uma Irene Papas. Depois também não se percebeu muito bem aquela passeata pelo palco, em dança, sem graça nem leveza, acompanhada de palmas fora do compasso, durante uma conversa arrebatada mantida entre Júlio Pereira e Moz Carrapa, na introdução de “Fura Fura”. Desviou as atenções e não acrescentou fosse o que fosse à música. Pelo contrário, o sintetizador esteve mais apagado do que seria desejável, marcando presença a um nível quase subliminar.
Fora tais despautérios foi uma delícia escutar as cordas em festa do bandolim, no duelo com a guitarra, em “Palaciana”, numa “Nortada” em que o bandolim serviu de instrumento de percussão, na pura vertigem de um “Miradouro” revisitada, nas encruzilhadas da música búlgara que antecederam a explosão do “Entrudo”.
Júlio Pereira, sem computadores a estorvá-lo, é um músico que não cessa de evoluir. O caminho está livre à sua frente. A música tradicional, não há espanto nisto, chama do futuro. Saber dar-lhe voz sem lhe cortar as raízes, eis a vereda, eis o segredo. Júlio Pereira tem as cordas do tempo na mão.

Paco Ibanez – “A Poesia É Uma Arma” (concerto)

cultura >> sábado >> 05.06.1993
CRÍTICA DE MÚSICA


A Poesia É Uma Arma



Paco Ibanez, mais do que simples cantor, é hoje um símbolo de luta e de integridade. Mesmo se a voz já lhe vai faltando, continua comm a mesma acutilância e a vontade de cantar “la poesia espanola de hoy y de sempre”. No Teatro S. Luiz, para ouvir Paco Ibanez, sala cheia como um ovo, quinta à noite. Cheia de recordações, cheia de olhares perdidos na contemplação de sonhos que o tempo aos poucos foi corroendo. Paco Ibanez, cantor espanhol de “intervenção”, no sentido mais lato que a palavra pode ter, simbolizou ao longo dos anos 60 e 70 a defesa de valores humanistas e a luta contra a opressão, na Espanha de Léon Filipe, Miguel Hernandez e Rafael Alberti.
Tudo certo e valoroso mas… e a múisica? Paco Ibanez, e a afirmação mexerá talvez com as convicções de muita gente, não é um grande músico. E não o é porque a sua arte jamais extravasa os limites do canto, sem dúvida empenhado, mas sem a verticalidade (no sentido de movimento para a transcendência) que, esta sim, está no cerne da verdadeira revolução. Afirmar, como alguns o fazem, que o canto deste artista espanhol retoma a tradição dos trovadores da Idade Média (e descontando o facto de ficarmos para sempre sem saber como canvam realmente os cantores da Idade Média…) é confundir o acto de ascese com a escalada do alpinista. É confundir o anjo com D. Quixote.
Ficou a imagem de um homem íntegro, tendo como únicas armas, no S. Luiz, uma guitarra acústica, um copo e palavras certeiras, na defesa de princípios por que sempre pugnou. Das dedicatórias a Luís Cília e a José Saramago, aos textos de S. João da Cruz, Pablo Neruda e Rafael Alberti, “la poesia es una arma”. Sucederam-se as canções, entoadas numa rouquidão surda, num gemer sentido que substitui os clamores de outrora: “El pastorcico”, “Como tu”, “Romance del conde nino”, “Dolor”, “Palabras para Julia”, “Juventud, divino tesoro”, “A galopar” (cantada em coro pela assistência) ou, em “encore” insistentemente pedido pelo público (houve quem gritasse por “Soldadito boliviano”) e fora do alinhamento previsto, “Don dinero”.
Dependendo do ponto de vista, da disposição e da imaginação de cada um, o espectáculo de Paco Ibanez tanto pode ser visto como o testemunho do artista íntegro que nunca desiste e há-de cantar até que a voz lhe falte (e, de quando em quando, já vai faltando…), como uma oportunidade de encontro de antigos companheiros de luta, incluindo os reciclados, ou ainda uma sessão transviada do concurso “Zip Zip”. Pela reacção de entusiasmo geral demonstrada pelo público, vamos mais por estas três hipóteses.

Júlio Pereira – “Amanhã, Às 22h00, No S. Luiz – Júlio Pereira Em ‘Tempo Real'”

cultura >> sexta-feira >> 04.06.1993


Amanhã, Às 22h00, No S. Luiz
Júlio Pereira Em “Tempo Real”


Parece mentira mas é verdade. Para Júlio Pereira, o homem do cavaquinho, da braguesa e, mais recentemente, do bandolim, o concerto agendado para amanhã no teatro S. Luiz será a sua primeira apresentação a solo, na capital. Marcando o que parece ser uma viragem na sua música, fruto de “uma vontade enorme de tocar em tempo real, com músicos de carne e osso”.



Os ensaios a que o PÚBLICO assistiu, no Teatro S. Luiz, dão-lhe razão. Fazendo-se acompanhar por Moz Carrapa, na guitarra acústica, e Minela, uma das grandes vozes femininas da música popular portuguesa, também no sintetizador, Júlio Pereira liberta-se aos poucos da tirania do computador – “há seis meses que ando a libertar-me dele” – omnipresente em gravações recentes como “Janelas Verdes” e “O Meu Bandolim”.
O que vem uma vez mais mostrar a diferença que existe entre o Júlio Pereira fechado entre as quatro paredes do – “fartei-me de ficar em casa a fazer discos sozinho” – e o mesmo Júlio Pereira que em palco vive a música com entusiasmo e a alegria de “absolute beginner”, mostrando o prazer que lhe dá o acto de tocar. Neste caso apenas o bandolim, ligado a um módulo de efeitos que lhe permite, por exemplo, entrar em diálogo consigo próprio graças à técnica do “delay”. E, por consequência, o “regresso” a um som mais acústico, acompanhando uma tendência geral do que se passa lá fora mas que por cá só agora se faz sentir, em virtude da não existência de qualquer escola musical”.
Para o S. Luiz estão prometidas novidades e algumas composições novas mas Júlio Pereira optou por não as revelar, guardando surpresa sobre o que irá acontecer. Ao certo, a estrutura do concerto poderá ser encarada como uma revisão actualizada da sua carreira, desde os tempos de “Cavaquinho” até aos sons recentes do “seu bandolim” – um “Júlio Pereira 93”, diz o próprio a sorrir. Mas a audição, durante os ensaios, de temas de José Afonso, alados na voz sem mácula de Minela ou um improviso sobre um tema de Bach, permite concluir que o espectáculo de amanhã, segundo um formato mais “próximo da música de câmara”, será algo mais que uma simples cronologia de canções. Júlio Pereira vai mais longe. A intuição diz-lhe que se trata de “um pontapé de saída para qualquer coisa de diferente” no seu já longo percurso de intérprete e compositor. Por agora deixa-se levar pelo gosto de tocar ao vivo com outros músicos. Na calha estão já próximas actuações no Canadá, em Toronto, na Galiza, em Santiago de Compostela e nos Açores, durante os meses de Verão.
Além do “homem das sete cordas”, uma figura feminina vestida de negro, postada diante de um sintetizador, chamava as atenções, do lado esquerdo do palco. A Minela, cantora que desde há alguns anos vem acompanhando Júlio Pereira, cabe uma quota parte importante na peça sonora que se vai desenrolar amanhã. É ela quem tece no sintetizador o ambiente de cada canção. É dela sobretudo uma voz que se ergue e nos espanta. Uma voz que cada vez mais sentimos necessidade de escutar noutros contextos, um pássaro que gostaríamos de ver voar por outros céus. O falado, quase segredado, projecto de Minela com Teresa Salgueiro, Filipa Pais e a galega Uxia não consegue passar das intenções. Tem havido troca de impressões, todas se mostram interessadas mas nenhuma se atreve a dar o primeiro passo. A cantora galega é das quatro quem se tem empenhado mais em levar a ideia por diante. E as portuguesas, têm medo? Minela refugia-se dizendo que “tem que ser uma coisa muito bem pensada, que tenha qualidade”. Júlio Pereira, passa por ela, ri-se e dispara: “o que prova que os galegos têm mais garra do que nós!”