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Gabriel Yacoub – “Gabriel Yacoub Inaugurou Ciclo Vocal No S. Luiz – Coisas Demasiado Simples” (concertos | crítica | reportagem)

cultura >> quinta-feira, 09.02.1995


Gabriel Yacoub Inaugurou Ciclo Vocal No S. Luiz
Coisas Demasiado Simples



FEZ ALGUMA pena ver Gabriel Yacoub, constipado e perdido no ambiente gélido de uma sala com pouquíssima gente, sair sem glória da sua estreia nos palcos portugueses. Aconteceu no espectáculo inaugural do ciclo “Sons (da) Voz”, realizado anteontem no Teatro S. Luiz em Lisboa, primeiro de uma série que ontem prosseguiu com o grupo vocal português “a capella”, Tetvocal, e hoje se concluirá com o catalão Pi de la Serra. Gabriel Yacoub é um histórico da “folk” francesa. Fundador, nos anos 70, dos Malicorne, enveredou na década seguinte por uma carreira a solo que culminou no mais recente trabalho “Quatre”, ainda sem distribuição nacional. Mas quem não conhecesse o seu passado, e o julgasse apenas pelo que mostrou deve ter pensado estar em presença de uma espécie de Donovan gaulês, “hippie” ressacado com mensagens pueris à tiracolo que trouxe a doce Nikki Matheson, sua actual mulher, para cantar consigo em quatro temas, e uma conversa um pouco parva que não caiu muito bem na assistência.
Se calhar a culpa nem foi dele. A música de “Quatre”, que constituiu o grosso do reportório da noite, é servida, em disco, por arranjos sofisticados e a presença de alguns dos melhores instrumentistas da folk francesa actual e, ao vivo, por uma banda de vários elementos. Em Portugal, como já se vem tornando hábito, veio apenas o artista principal, armado de uma guitarra acústica, boa-vontade e entregue aos desígnios da sorte. Pela simples razão de que assim sai mais barato. Se a fórmula pode resultar, como ficou provado com artistas como John Cale ou Peter Hammill, com o francês a aventura saldou-se pela triste figura de um Yacoub que é muito mais do que aquilo que mostrou em Lisboa.
Gabriel Yacoub é um excelente cantor, possuidor de um estilo único, e isso ficou patente nas interpretações de temas de “Bel”, como “Ma délire” (um tradicional do Quebeque, cantado “a capella” com Nikki Matheson), “je serais ta lune” ou o belíssimo “Les choses les plus simples”, e, maioritariamente, de “Quatre”, de onde cantou “Ces dieux-là”, “Tant pis que l’exil”, “Letter from America”, “Je suis à court”, “Les bannières qui claquent”, “Torune tourne”, no qual incitou os presentes a acompanharem-no e, a fechar a segunda e curta parte do espectáculo, “Le sel et le sucre”.
Teria resultado num clube pequeno, em conversa e canções informais com um público amigo e conhecedor. Assim, à deriva e sem rede, chegou a irritar ouvir, nos monólogos entre as canções, Yacoub dizer enormidades como “Em França um homem e uma mulher começam por trocar olhares entre si e só depois chegam a fala. Em Portugal não sei como é!”. Gabriel Yacoub cantou “Les choses les plus simples”, as coisas simples da vida: o amor, a amizade, o riso das crianças, a natureza.

Tetvocal + Gabriel Yacoub + Pi De La Serra – “VOZES A TRÊS” (ciclo de concertos | antevisão)

pop rock >> quarta-feira >> 01.02.1995


VOZES A TRÊS



O CICLO TRIPARTIDO “SONS (DA) VOZ” PROpõe-se mostrar algumas das facetas do canto e da voz humana num contexto que passa pelos coros “a capella” dos portugueses Tetvocal, a balada de intervenção do catalão Pi de la Serra e o intimismo, entre o “folk” e o hermetismo confessional, do francês Gabriel Yacoub. Se é verdade que o grupo português surge como exemplo de um fenómeno recente, cuja extensão e longevidade estão ainda por definir, e tem provas dadas até agora apenas no seu álbum de estreia acabado de editar, uma compilação de interpretações “a capella” do que poderemos chamar “standards” da música ligeira nacional, a sua inclusão servirá de certa forma para aligeirar o discurso dos restantes nomes em cartaz, qualquer deles com uma música bem sedimentada no tempo e uma “mensagem” a transmitir.
Pi de la Serra, nome de resistente, trouxe para a canção catalã a carga política e o tom intervencionista que nos anos 60 fez frente ao regime franquista. É uma voz rude, de luta, referência obrigatória de uma escola que entre nós teve os seus representantes nos chamados baladeiros que o lendário programa televisivo Zip-Zip ajudou a popularizar. A mensagem de Gabriel Yacoub, pelo contrário, é de outro teor e insere-se em parâmetros de ordem exclusivamente musical. Saído da formação inicial do bardo bretão Alan Stivell, Yacoub viria a revelar-se como um músico de importância, se não maior, pelo menos igual à do mestre.
Se a Stivell não podemos negar o papel decisivo que desempenhou na emancipação da tradição musical bretã, bem como na defesa da língua e da cultura desta região e na recuperação da harpa céltica em França, a verdade é que Yacoub, menos regionalista, criou, com os Malicorne, as bases de, mais do que um movimento, uma estética (de estilização) que se estenderia a todo o território e viria a ser seguida e desenvolvida por dezenas de discípulos (não só em França!) importantes como os La Bamboche, Maluzerne, Le Grand Rouge ou os actuais Yole, entre muitos outros. Gabriel Yacoub e os Malicorne conferiram à música folk francesa o estatuto de nobreza e universalidade que hoje detém. Em Portugal vamos escutá-lo sozinho. A sua voz basta.

SONS (DA) VOZ
TEATRO MUNICIPAL DE SÃO LUÍZ LISBOA
– GABRIEL YACOUB –
Terça-feira * 7 de Fevereiro * 22h
– TETVOCAL –
Quarta-feira * 8 de Fevereiro * 22h
– PI DE LA SERRA –
Quinta-feira * 9 de Fevereiro * 22h

U-Nu – “Portugal Está Nu E Recomenda-se”

pop rock >> quarta-feira >> 19.10.1994


Portugal Está Nu E Recomenda-se

U-Nu. Nudez. Pode querer dizer isto ou outra coisa qualquer. U-Nu é um novo grupo português, originário do Porto, cuja estreia na editora Numérica, “A Nova Portugalidade”, é uma autêntica pedrada no charco. Originalidade, inteligência, cuidado máximo na produção e na apresentação, num disco onde pela primeira vez músicos portugueses ousaram filiar-se na chamada “estética Recommended”.



A primeira conclusão que se extrai da audição de “A Nova Portugalidade” é a de que estamos perante um grupo que recusa toda e qualquer norma ditada pelas leis de mercado. Fernando Noronha (baixo), José João Cochofel (percussão), Manuel Costa (piano), Ricardo Pereira (sintetizador), Viriato Moraes (sopros) e Vitorino Almeida Ventura (voz e textos) fazem a música de que gostam e nesse caminho deixam semeadas múltiplas pistas para posterior desenvolvimento. As ideias explodem em múltiplas direcções. Muitas músicas estão contidas na música dos U-Nu.
Do título aos textos e à utilização de “instrumentos paródicos”, como cornetas e peixinhos de plástico, passando pela própria construção dos temas, sente-se que a ironia e a sátira ocupam um lugar importante na estética do grupo. No meio de ferroadas várias, que inclusive atingem a crítica musical (num tema com o elucidativo título “Narciso ou o crítico musical leva-nos ao paraíso”), a chave talvez possa ser encontrada numa das várias leituras possíveis da designação “U-Nu” aplicada à “nova portugalidade”. Como sugere José João Cochofel, pode ser que – os U-Nu preferem deixar vagos os lugares destinados à imaginação dos ouvintes…- “o rei vai nu” ou “o país vai nu”.
Percebe-se, além disso, que todos ouviram e assimilaram muita música. Boa música. Música afastada dos parâmetros comerciais. As bandas da Recommended são uma referência – dos No Secrets in the Family aos Il Gran Teatro Amaro e Fred Frith, só para nomear alguns dos citados pelos próprios U-Nu -, mas não esgotam a proposta destes portuenses, cuja música é praticamente impossível de catalogar. Visível é a existência de uma teatralização presente nos arranjos e na manipulação, semântica e fonética das palavras, acompanhada de um tratamento quase milimétrico dos sons. “A nossa música passa para além da música. Vejo-a mais como uma peça”, diz José João Cochofel, que acrescenta tratar-se de “um trabalho feito em grande parte a pensar nos espectáculos”.
Se é música portuguesa ou não, eis um assunto sujeito a discussão. O mesmo tipo de discussão que tenta descobrir qual o sexo dos anjos – ainda que o vocalista e declamador dos U-Nu fale em “andar numa procissão”, em símbolos como “o sino ou um corno celta”, ou até em “algumas alusões aos Zés-Pereiras”. No fundo, como diz Vitorino Almeida Ventura, talvez não seja mais que “um acto de amor entre duas culturas, uma portuguesa e tradicional e outra clássica”.
Uma coisa é certa: o projecto musical do U-Nu, traduzido para já em “A Nova Portugalidade”, vai agitar os hábitos auditivos de muito boa gente e abrir um precedente para outras bandas isoladas em “guetos”, por causa de uma alegada falta de potencialidades comerciais da sua música, romperem o bloqueio. Para já, os U-Nu partem com uma certeza – a “existência de um público maior do que se poderia pensar”. Quanto ao número de vendas do compacto, não estão minimamente preocupados: “Se ganharmos o disco de presunto, já é porreiro, acompanhamos com umas cervejas!”