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John Hiatt – “Walk On”

pop rock >> quarta-feira >> 31.01.1996


John Hiatt
Walk On
CAPITOL, DISTRI. EMI-VC



Ao fim de 13 álbuns e de temas de sucesso na voz de Rosanne Cash (“The way we make a Broken heart”, do álbum “King’s Record Shop”, 1987, de Rosanne) e de Bonnie Raitt (“Thing called love” do álbum “Nick of Time”, de 1989, de Bonnie), John Hiatt continua à procura de um disco que lhe permita passar de excelente compositor elogiado pela crítica a cantor conhecido do grande público. Infelizmente, mais uma vez, a voz bluesy de Hiatt, a sua preferência pelo som acústico e as letras enfatizando a urgência de partir parecem demasiado subtis para atingir as rádios. É um facto que se trata de um álbum com momentos de folk-rock e country-rock belíssimos, como em “Dust down a country road”, na dylanesca “You must go” ou em “The river knows your name”, que nos faz regressar aos tempos dos Creedence Clearwater Revival. O álbum, parcialmente gravado em Nashville e em LA, não dispensa o piano eléctrico do próprio Hiatt e do ex-Heartbreaker Benmont Tench em temas mais sofisticados como “I can’t wait” ou mais roqueiros como “Shredding the document”. Se fosse radialista, não perdia de vista 2Cry love”, o tema mais comercial. (7)

José Medeiros – “José Medeiros Compõe E Filma Sobre Lenda Dos Açores – FEITIÇO NAS ONDAS HERTZIANAS”

pop rock >> quarta-feira >> 31.01.1996


José Medeiros Compõe E Filma Sobre Lenda Dos Açores
FEITIÇO NAS ONDAS HERTZIANAS


Em “O Feiticeiro do Vento”, produção televisiva da RTP – Açores, José Medeiros acumula as funções de realizador, actor, compositor da banda sonora e cantor. O filme passou timidamente no continente, por alturas do Ano Novo.



É uma obra a descobrir, a mais recente visão de José Medeiros (“Zeca” para os amigos) sobre os Açores. “O Feiticeiro do Vento”, baseado numa lenda da ilha do Corvo, conta a história de uma mulher, Ariel, que por ser diferente “é marginalizada pela população da ilha”, sendo no fim vingada pelo filho. Ali, após “uma vida de errância” entre piratas.
“O Feiticeiro do Vento”, o álbum, saiu na altura em que o trabalho de televisão foi apresentado nos Açores, em Agosto do ano passado. “Como forma de comemorar os 20 anos da RTP-Açores”, explica o mago das barbas, a quem muitos terão prestado atenção através da interpretação avassaladora que empresta a “A fofa”, tradicional açoriano incluído no mais recente álbum da Brigada Victor Jara, “Danças e Folias”.
A música surgiu antes das imagens e foi gravada num “pequeno estúdio improvisado”, no dizer do compositor, numa alusão ao facto de não existirem locais de gravação profissionais no arquipélago.
José Medeiros tem-se mantido fiel ao registo de discrição. A música, por melhor que seja, e tem-no sido, não se arrisca a fugir às malhas da banda sonora. “Nos últimos tempos, de facto, tem sido assim, se bem que eu, há bastantes anos, tenha feito algumas experiências, não muito bem sucedidas, perfeitamente independentes do trabalho de imagem.”
No percurso musical de José Medeiros encontra-se o grupo de música de raiz tradicional Rosa dos Ventos, extinto sem glória nem proveito. Mais presente na memória do público estará a a participação, ao vivo e no disco, em “Danças e Folias”, da Brigada Victor Jara, com a qual José Medeiros mantém de há muito “uma relação de amizade”, consequência das visitas frequentes deste grupo de Coimbra aos Açores. Manuel Rocha, violinista da Brigada é, de resto, o convidado de honra de “O Feiticeiro do Vento”.
Neste disco, José Medeiros assina uma interpretação vocal avassaladora de “A fofa”, onde o telurismo se confunde com a teatralização e o “exagero” emocional da voz avança até ao risco que separa a embriaguez interior do paroxismo. “O meu olhar pelos Açores passa muito por esse lado mais telúrico, o que também pode ser uma maneira de fugir a uma certa rotina urbana que aqui em Ponta Delgada também existe.”
A verdade é que as raízes de José Medeiros não são tão lineares como à primeira vista podem parecer. Os seus primeiros passos são inseparáveis de outra espécie de coreografias que não as da alma. “Estive ligado ao teatro amador, do liceu. Desde muito cedo aconteceu uma relação entre a música e a uma certa teatralidade. Uma coisa que pode remeter até para a minha família, de músicos e actores amadores.” E frisa: “Não há uma fronteira muito nítida entre a imagem ou a teatralidade e a música, embora, no caso de “A fofa” não se possa falar em encenação, mas numa opção espontânea, quase inconsciente, de dar alguma teatralidade dos cantadores populares aqui dos Açores.”
“O Feiticeiro do Vento”, com as suas ambiências oníricas marcadas fortemente pela presença dos elementos, poderá ainda, caso chegue mais perto da cidade onde se jogam os gostos e determinam os consumos, ser uma chamada de atenção para os sons tradicionais das ilhas do Espírito Santo. José Medeiros reconhece o estado actual de “travessia no deserto”, ao mesmo tempo que recorda a vida curta de agrupamentos açorianos como Rimanço, fundado por Carlos Guerreiro, actualmente nos Gaiteiros de Lisboa, ou Gente da Ilha.
Hoje, encontram-se em actividade os Bela Aurora, com um trabalho “supervisionado por José Mário Branco no tempo da UPAV” e o Cantinho da Terceira. Pouco para romper a tal distância que isola e uma solidão que mata. “Isto continua muito longe”, reconhece José Medeiros: “Estes grupos acabam por morrer um pouco por não haver estruturas de apoio. Em termos de edição discográfica é mais difícil. “A mensagem chega devagar. Através das ondas hertzianas. Ou de um feiticeiro que vem no vento.

Paolo Conte – “Una Faccia In Prestito”

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996


PAOLO CONTE
Una Faccia In Prestito (9)
East West, distri. Warner Music

Não Atirem A Nostalgia Para A Sanita



Paolo Conte é um músico e uma personalidade únicos no planeta. A sua figura, misto de macho latino, tuaregue engravatado e António Silva, tanto quanto a sua voz de “crooner” engripado e o seu piano, com a subtileza do mais requintado licor, não engana. Tudo nele é diferente e afastado do que estamos habituados a ouvir e a ser massacrados. Eu habituei-me. Mias, fiquei viciado, dependente, sem cura possível. Desde o dia, já lá vão alguns anos, em que com ele travei conhecimento, através da colectânea “Il Primi Tempi”, fabulosa e, como viria a descobrir mais tarde, a ponta do “iceberg” de uma obra absolutamente ímpar na música popular deste século. A partir daí, fui descobrindo aos poucos a sua discografia, desde os anos 70, com “Paris Milonga”, até à actualidade, por álbuns disponíveis para quem consegue ter calma para parar e ouvir, como “Aguaplano”, “Parole d’Amore Scritte a Macchina”, “900” ou os dois registos ao vivo “Paolo Conte Live” e “Tournée”, para já os que existem com distribuição no mercado nacional.
A música de Paolo Conte tem, primeiro que tudo, poesia, mais aquela faculdade, rara, de evocar estados emocionais e secretos perfumes que guardamos no inconsciente. As suas letras desdobram-se entre o popularucho e o épico, nalguns casos, na mesma canção, fazendo-nos passar por situações cinematográficas ou literárias, mas nem por isso menos reais. É um universo de milongas, rumbas, tangos, foxtrotes, hananeras, “swing” e “dixieland”, o seu. Um universo invadido pelas sombras de uma Hollywood sublimada, a abarrotar de ternura por um cinema ou um teatro vazios onde passam filmes a preto e branco. De um “Western spaghetti”, do neo-realismo poetizado, do “Cinema Paraíso”, de Giuseppe Tarnatore, do tempo em que nos ríamos das piadas pueris de Franco Francchi e Ciccio Ingrassia. Um copo de tinto, a celebrar recordações, mas também uma taça de “champagne” entornada para esquecer na madrugada de uma festa. Uma música trôpega, mas iluminada por fulgores melódicos que ofuscam a razão. Num instante atravessa-se na estrada um acordeão surgido das esquinas da meia-noite. No seguinte preguiça-se a tarde ao som de palavras de espuma sem sentido, numa estância de veraneio. Agora embala-nos uma languidez rouca, sentada ao colo de um piano que ainda hesita em acordar. Logo sobressaltam-nos os metais da “big band” do cine-teatro lá da terra.
Percebe-se que Paolo Conte é um bêbedo – enquanto opção estética, como Tom Waits – e um “gentleman”. Um homem de paixões, em que a altercação de tasca toma as dimensões da tragédia grega. Galã ou facínora? Um poeta, com a visão filtrada por um copo cheio de vida até acima. Esqueça-se Brian Ferry, seu hipotético filho espiritual. Conte é o verdadeiro rei dos “crooner”, das causas perdidas e dos amores sem remédio. Beba-se devagar, de olhos semicerrados e expressão canalha, o primeiro gole. Pode ser “Il miglior sorriso dela mia faccia”. A seguir, bater com a cabeça na sanita e, sobretudo, evitar puxar o autoclismo, em “Don’t throw it in the W. C.”. A tragicomédia à escala de uma retrete. “Não te recordas daquele pedaço de papel azul? / só com algumas notas / apenas em rascunho? / era uma melodia / escrita para ti / não a atires para o W. C. / não deixa de ser uma bonita melodia, hã? / não a atires agora para a água que redemoinha / a minha canção está a navegar, socorro! / não a atires! Não a atires!”
Vá-se até ao fim. A bela adormecida repousa, à espera, na letargia de um sonho de ópio em “L’incaritatrice”. É como olhar para o céu com o olhar toldado. “Una faccia in Prestito”, “um rosto de empréstimo”, não é um disco nostálgico. É a própria nostalgia.