5 Uu’s – “Hunger’s Teeth”

pop rock >> quarta-feira >> 01.11.1995


5 Uu’s
Hunger’s Teeth
RÉR, DISTRI. ÁUDEO



Se alguém se preocupasse com estudos comparados de arqueologia musical, e não tomasse a comparação como uma piada de mau gosto, o mais lógico seria que o lugar deixado vago pelos Yes nos anos 70 fosse entregue duas décadas mais tarde aos 5Uu’s. Em “Hunger’s Teeth” reencontramos, como em “Tales from Topographic Oceans” ou “Relayer”, a mesma violência despudorada da guitarra, idêntica esquematização rítmica e complexidade dos arranjos, até um timbre vocal, de Robert Drake, semelhante ao de Jon Anderson. Apóstolos do “progressivo”? Que importa, se a música dos 5 uu’s possui, além de uma organicidade própria e uma vitalidade explosiva, a modernidade e a estranheza saídas da mente alucinada do convidado Thomas DiMuzio, mestre das programações. (8)

Michael Nyman – “Michael Nyman Actua Este Fim-De-Semana No Porto E Em Lisboa – O Homem Que Confundiu O Minimalismo Com Um Piano”

cultura >> sexta-feira, 27.10.1995


Michael Nyman Actua Este Fim-De-Semana No Porto E Em Lisboa
O Homem Que Confundiu O Minimalismo Com Um Piano



MICHAEL NYMAN actua hoje no Coliseu do Porto, às 21h30, e amanhã em Lisboa, no Coliseu dos Recreios, à mesma hora, acompanhado por uma banda de nove elementos. No programa figuram, na primeira parte, temas de “The Draughtman’s Contract”, “A Zed & Two Noughts” e 2Water Dances”, enquanto a segunda será preenchida por música de “O Piano2 e três secções da obra “The Fall of Icarus”.
Nos anos 60 a música era dominada pelos Beatles, enquanto no lado “erudito” mandavam os serialistas, como Boulez a Stockhausen. Micheal Nyman não se sentia à vontade nem num lugar nem no outro. Num intervalo da sua actividade jornalística, a que então se dedicara, decidiu inventar uma música nova e chamou-lhe minimalismo, a propósito de um artigo que escreveu sobre a obra “The Great Learning” de Cornelius Cardew. Pouco tempo depois, em 1974, assina a bíblia sobre o assunto: “Experimental Music – Cage and Beyond”. A música ocidental nunca mais voltou a ser a mesma e a Europa entrou em estado de hipnose.
Claro, foi nos Estados Unidos que o movimento ganhou corpo e alento. LaMonte Young, Steve Reich, Terry Riley e Philip Glass puseram em prática as suas teorias sobre uma música infinita e em eterna mutação que procurava reproduzir os padrões (“patterns”) do tempo e do Cosmos.
Nyman não dava muita importância ao Cosmos. Preferia desafinar e dar gargalhadas em conjunto com os parodiantes da sisudez académica que davam pelos nomes de Scratch Orchestra e Portsmouth Sinfonia. Grupos de música “séria” compostos por executantes de técnica vulgar ou mesmo medíocre. Os Portsmouth deram, aliás, guarida a outro génio, então desconhecido, Brian Eno. Este, por sua vez, quando a oportunidade surgiu, fundou a sua própria editora, a Obscure records, onde viria a ser editado o disco que deu a conhecer em maior escala o nome de Michael Nyman, “Decay Music”.
A partir daí o compositor inglês afastou-se progressivamente da estética minimalista, enveredando por um classicismo assente na sobreposição e saturação de módulos do Barroco, nomeadamente de Mozart (em quem Nyman se inspirou de forma directa, numa composição sua, “In re Don Giovanni”), e onde muitos vêm uma “pastiche” de Henry Purcell.
O encontro com o cineasta Peter Greenaway representou outro ponto de viragem na sua carreira. As bandas-sonoras “The Draughtman’s Contract”, “A Zed and Two Noughts”, “Drowning by Numbers” e “The Cook, the Thief, his Wife & her Lover” e “Prospero’s Books” instituíram o chamado “som Nyman”. Mas foi com a música de “O Piano”, de Jane Champion, que a música deste compositor se democratizou em definitivo e ganhou lugar nas prateleiras dos hipermercados. Nyman é, na sua fase actual, a mais produtiva de sempre, puro “mainstream” e as suas partituras raramente escapam ao estereotipo. O melhor, ou o pior, que se pode dizer hoje da sua música, é que é agradável. Só neste ano já assinou quatro álbuns, o último dos quais, mais uma banda-sonora, “Carrington”. Nyman tornou-se sinónimo de sucesso. O mesmo Nyman que há oito anos compôs uma ópera sobre a história clínica de um homem que confundia a sua mulher com um chapéu. Um “piano” descobriu-lhe, por assim dizer, a careca.

Frei Fado D’El Rei – “Danças No Tempo” (crítica + entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 25.10.1995


TROVAS ANTIGAS

FREI FADO D’EL REI
Danças No Tempo
Columbia, distri. Sont Music



Oremos para que, um dia, os Madredeus sejam deixados em paz pelos jovens músicos portugueses. Para ver se nós próprios temos algum sossego. É que Portugal já não tem mar nem fado nem saudade que chegue para tanta gente. Os Frei Fado são discípulos confessos da Madredeus. Contudo, fazem questão de apresentar algumas diferenças. Temos, então, que o grupo cultiva o gosto pela música medieval – evidente em temas como “Rabelo” e “Dança dos jograis” – e renascentista, em “Trova sagrada” e “Deusa de azul”, e uma certa jovialidade que, nos últimos tempos, tem andado arredada da banda de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres de Magalhães. A voz de Carla Lopes, embora beba as inflexões vocais da vocalista dos Madredeus, desce com maior frequência aos baixos e aparece mais limpa de vibratos. Mas queiram fazer o favor de ouvir temas como “Amor popular”, “Amores do Douro”, “Memórias de um trovador” ou “A meu amado” e digam lá se não parece mesmo que são irmãs… E “Donzela” não poderia estar mais imbuído do espírito da paz… Ricardo Costa, na guitarra clássica, também não é Pedro Ayres mas deve existir algum parentesco escondido. Esgotam-se aqui as semelhanças com os Madredeus se descontarmos ainda a mesma insistência nas temáticas nacionalistas e místicas. “Perdi meu amor no mar” deve ensinamentos à música tradicional portuguesa e “Zaragoza” viaja até ao país vizinho. Caminho relativamente virgem, a pedir exploração e coragem, encontra-se em “Jóias da Índia”, um possível bilhete de identidade futuro para os Frei Fado d’El Rei. Por agora, fica a certeza de um “cocktail” de sabor agradável mas sobre o qual pairam dúvidas quanto a quem o desejará saborear. Dissidentes dos Madredeus? Os filhos dos “habitués” da Gulbenkian? O duque de Bragança? Com um disco bonito, os Frei Fado arranjaram-na bonita… (6)

MAR DA TRANQUILIDADE
Num mercado que começa a ficar saturado com um som cuja matriz pertence aos Madredeus, os Frei Fado d’el Rei arriscaram jogar nesse mesmo tabuleiro. Atirando para a mesa o trunfo da música antiga e uma voz, de Carla Lopes, que ameaça fazer sombra a Teresa Salgueiro.



Cristina Bacelar, guitarrista, e José Flávio Martins, baixista, assumem essa influência, que justificam com preocupações de ordem espiritual e o refúgio num imaginário, da Idade Média, com o qual o grupo se identifica.
PÚBLICO – Onde é que os Frei Fado d’el Rei pretendem chegar?
CRISTINA BACELAR – Entre outros, com uma abordagem muito leve da música medieval.
JOSÉ FLÁVIO MARTINS – É uma paixão que não conseguimos explicar. Tem todo um ambiente que encerra muita magia e todos nós partilhamos esse fascínio. Agora, não temos, obviamente, só essa influência. Fundimos, digamos, uma série de estilos.
C.B. – Aliás, o título do álbum significa exactamente essa viagem.
P. – Que música antiga costumam ouvir?
J:F.M. – Pedro Caldeira Cabral, Paul Van Nevel e os Huelgas Ensamble, Dead Can Dance…
P. – Questão delicada. Ao ouvir a vossa música é impossível não pensar nos Madredeus…
C.B. – Nunca negámos a influência que os Madredeus tiveram para podermos arrancar com este projecto. Mas acho que estamos cada vez mais a distanciar-nos dessa imagem, sobretudo ao nível rítmico.
P. – A vocalista Carla Lopes pode rivalizar com a Teresa Salgueiro?
C.B. – A Teresa Salgueiro é soprano e a Carla é contralto.
P. – E as semelhanças na maneira de cantar?
C.B. – Pronto, lá está. Aí há realmente uma influência, que é um certo intimismo. Exteriormente, se calhar, as pessoas podem sentir isso.
P. – Não se dará o caso de os Madredeus ocuparem um lugar onde já não cabe mais ninguém?
C.B. – Por essa ordem de ideias também não havia espaço para muitos grupos de rock…
J.F.M – Aliás, com os Madredeus há uma recepção muito grande de outros povos pela música que eles fazem. Quanto a nós, tentamos transmitir a música que se faz por cá, a música de raiz tradicional, também.
C.B. – A característica comum entre as duas bandas é esse intimismo. Mas nós temos o outro lado, que é, tanto em disco como ao vivo, em que há mais ritmo, mais movimento.
P. – O que é que vos aconteceu no espectáculo que deram nos Encontros Musicais da Tradição Europeia deste ano? Foi quase um desastre…
C.B. – O que aconteceu foi que se atrasou tudo, tornou-se stressante…
J.F.M. – Sem culpar ninguém, obviamente, mas nem sequer havia luz, o que é fundamental…
C.B. – À hora do espectáculo ainda estávamos a fazer o “sound check”. E ainda tínhamso que ir trocar de roupa. Foi um esforço terrível.
J.F.M. – Aliás, um dos cavalos de batalha era precisamente transmitir, neste disco, toda a vivacidade que temos ao vivo. Desde, é claro, que sejam criadas condições técnicas para o fazermos. Porque há muito movimento, apesar de estarmos sentados.
C.B. – É incrível, mas nos nossos espectáculos as pessoas acabam muitas vezes a dançar. Para nós é óptimo, cinco pessoas sentadas conseguirem pôr toda a gente a dançar.
P. – “Danças no Tempo” é o que se pode chamar um disco bonito. São tudo rosas na vossa sensibilidade musical? São mesmo tão calmos como aparentam?
J.F.M. – Tem mesmo que ver com a nossa maneira de ser.
C.B. – A música reflecte um bocado o lado espiritual, sem esquecer, claro, o corpo, o lado rítmico. Tentamos transmitir isso às pessoas, e poder emabalá-las. Não há violência.
P. – Que lado espiritual é esse?
C.B. – A calma que a própria música transmite, a sua magia. Uma tranquilidade espiritual.
P. – [Com ironia.] O espírito da paz?
C.B. – [Risos.] Sim, mas há um espírito da paz que pode ser clamo e outro que pode ser mais acelerado.
J.F.M – Embora, obviamente, não sejamos um grupo de rock.