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José Peixoto – “BENJAMIM, DE MANHÃ AO DEITAR” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 29.11.1995


BENJAMIM, DE MANHÃ AO DEITAR

Benjamim é uma criança de seis anos, igual a tantas outras da sua idade. Embora curta, já tem uma história para contar. José Peixoto, “El Fad”, como era conhecido antes de se tornar guitarrista nos Madredeus, teve a ideia de fazer um disco “adulto” para crianças, “Bom Dia, Benjamim”.




Com a ajuda de músicos como Maria João, José Mário Branco, José Salgueiro, Paulo Curado, Nuno Artur Silva e João Paulo Martins e artistas plásticos como Cristina Sampaio e Vasco Colombo, nasceu um disco, um livro e um desenho animado que contam um dia na vida de Benjamim. José Peixoto contou ao PÚBLICO a história deste projecto.
PÚBLICO – Como é que nasceu a ideia de “Bom Dia Benjamim”?
JOSÉ PEIXOTO – A ideia não é nova nem original. A diferença está em que não é um disco infantil para crianças, mas sim um disco adulto dirigido a um público infantil. Surgiu a partir do momento em que comecei a ter esse problema em casa. Tenho uma filha de nove anos, não sabia que música é que havia disponível para ela. Há música clássica, que pode suprir uma série de problemas, mas música específica para crianças…
P. – A ideia foi só sua?
R. – Nasceu de uma prenda de anos que eu dei à minha filha quando ela fez seis anos. Fiz-lhe uma canção, a “Canção de embalar”, que vem no fim do disco. Percebi que poderia estar ali a génese de algo mais. Juntei uma equipa com as pessoas que julguei serem as certas. Primeiro falei com o Paulo Curado e o Nuno Artur Silva. Arquitectámos a ideia que a partir daí se foi deenvolvendo.
P. – O que é que a sua filha costuma ouvir?
R. – Habituou-se a adormecer com a Antena 2. Ouve também Bach, essencialmente.
P. – Digamos que a maioria dos miúdos de hoje não ouve esse tipo de música…
R. – Pois não. Mas isso é outro problema. É muito fácil para o imaginário de uma criança que vê os filmes do Walt Disney, das fadas, princípes e princesas agarrar, por exemplo, num “Concerto Brandeburguês”, de Bach, dotado de personagens e transformado numa história.
P. – Então não ouvem “heavy metal” nem a música dos tops?
R. – É o que lhes põem à frente. É um bombardeamento diário. Há música a mais, se calhar, sem grandes critérios. As pessoas sujeitam-se a isso passivamente. Agora se nós quisermos intervir…
P. – Há portanto uma forte componente didáctica neste projecto?
R. – Sim, claro. Daí eu ter falado numa música adulta. Às vezes parte-se do princípio de que, se o público é infantil, então tudo é infantil. Música onfantil, ideias infantis…
P. – A cantora Maria João não parece, desde logo, uma escolha óbvia?
R. – É uma mãe jovem, o que lhe garante o complemento afectivo necessário para uma pessoa se envolver num projecto deste tipo.
P. – Joasé Mário Branco, autor dos arranjos e director musical, também não é propriamente sinónimo de acessibilidade imediata…
R. – É um pai mais velho e um avô recente. E uma pessoa capaz de dominar uma linguagem musical específica, neste caso que não fosse simplória. Tem a mestria de tornar as coisas simples com uma linguagem elaborada.
P. – Como é que se compõe música para crianças?
R. – Parti da relação com a minha filha. Ou seja, da minha experiência enquanto pai, e de outras pessoas que acho que têm uma óptima relação com os filhos. Não é necessário, nesta relação, ser também criança, ter aquela tendência para falar à bebé.
P. – Na criança existe pureza no acto de ouvir, enquanto o adulto o faz já com uma carga cultural em cima…
R. – Pois, mas também quando falamos com uma criança fazemo-lo com essa carga toda. Temos é que tomar o nosso discurso transparente e simples, o mais inteligível possível. Falar com ela “à bebé” não leva a lado nenhum. Nem a criança aprende nem é estimulada para outros universos mais evoluídos. Quando falo num disco adulto, é nessa base.
P. – Qual é a história de Benjamim?
R. – Não há um enredo. São doze situações na vida de uma criança à volta dos cinco, seis anos. O disco conta o seu dia, desde que se levanta até ir para a cama, passando pela escola, a família, os amigos, as brincadeiras, a relação com o tempo, até com a morte, no episódio de um animal de estimação que morre. Cada situação é introduzida por um pequeno diálogo falado. As canções propriamente ditas são sempre na perspectiva do Benjamim.
P. – Atendendo à tal massificação de que se falou há pouco, haverá disponibilidade do público infantil para ouvir uma história desse tipo?
R. – Espero que as nossas crianças, com a idade de cinco, seis anos, não estejam já tão condicionadas que não consigam ouvir uma coisa destas de uma maneira saudável. Vejo a audição de um disco destes, naquela perspectiva dos pais que o ouvem com os filhos, lhes explicam o livro. Pode ser o lado mais positivo e bonito disto.
P. – Como é o livro? Faço a pergunta à Crsitina Sampaio, autora das ilustrações.
CRISTINA SAMPAIO – É um livro grande, muito maior que o tamanho do CD. Tem grandes ilustrações, uma por canção, com as respectivas letras nas páginas pares.
P. – Sei que existe também um desenho animado. Uma concessão à tendência das crianças para consumir imagens?
C.S. – Não, tem apenas intenções promocionais.
J.P. – Mas há outros projectos que estão a ser pensados. Pode ser que se faça uma série de televisão à volta das canções.
C.S. – Os desenhos foram feitos no computador, que uso como se fosse um lápis. Há várias versões do Benjamim. Discutimos as suas características psicológicas, se casariam bem com a sua figura, enquanto boneco.
J.P. – É um dos gozos que se podem ter a ouvir o CD, procurar perceber quem é o Benjamim.

Roger Eno, Virginia Astley, Kate St. John – “Roger Eno, Em Entrevista Ao PÚBLICO E Esta Noite Em Lisboa, Às 22h – ‘O Silêncio Total Aterroriza-me'”

cultura >> sábado, 18.11.1995


Roger Eno, Em Entrevista Ao PÚBLICO E Esta Noite Em Lisboa, Às 22h
“O Silêncio Total Aterroriza-me”


Roger Eno actua esta noite no São Luiz, em Lisboa, ao lado de Virginia Astley e Kate St. John, duas vozes de anjo que ligam bem com a veia melancólica do pianista, irmão de Brian Eno. O seu álbum mais recente baseia-se em textos de hereges da Idade Média. Satie inspira-o. A fronteira com o silêncio, o terrível silêncio, faz com que seja necessário aproximar a atenção e o ouvido. Sons ideais para colorir uma noite de Outono.



“Lost in Translation” é o título do mais recente trabalho discográfico de Roger Eno. Ao contrário do mano mais velho, Brian, Roger preocupa-se mais com o passado do que com o futuro. O que confere à sua música subtilezas que não cabem no corredor congestionado dos “tops”. É preciso sintonizar numa onda mais grave, para captar as suas subtilezas e as suas sombras. E abeirar-se do silêncio, essa fonte assustadora de onde brotam todos os sons.
PÚBLICO – Como é que descobriu “The Heretical Christian Thinkers” (os pensadores cristãos heréticos), de Waltius Van Vlaanderen? Não se trata propriamente de um “best seller”…
ROGER ENO – “Heretical Christian Thinkers, An Anthology”, é um livro compilado pelo reverendo doutor William Groves, um inglês da época vitoriana. Contém tratados de Waltius, d’Albenlo, Cuthbert de Tetley e John “The Unwashed”, um irlandês do século XII. A maioria dos trabalhos de Waltius foram queimados em 1340, daí não ser conhecido nenhum livro da sua autoria. Existem, contudo, peças isoladas espalhadas por algumas bibliotecas da Europa, nomeadamente na Flandres Heritage, em Gent, Bélgica. Há muito que me interesso por trabalhos (literários, pictóricos ou musicais) que transpirem uma certa atmosfera. Nos escritos de Waltius descobri um lampejo de uma época simultaneamente de fé e de confusão, a chamada “idade das trevas”, de onde nasceria a Renascença.
P. – Seguiu algum método particular na composição musical?
R. – Ao escrever a música para os textos de Waltius, procurei reter, pelo menos em parte, a “fragrância” da sua época. Usei referências ao cantochão e à ronda (canção em forma de cânone). Por outro lado, as formas melódicas foram, nalguns casos, determinadas por métricas pré-existentes e, obviamente, pela atmosfera global da sua escrita.
P. – O que quis dizer com o título do disco, “Lost in Translation” (à letra: “perdido na tradução”)?
R. – “Lost in Translation” pode significar, de facto, “detalhes ou significados alterados através do processo de tradução”, mas há uma relação mais curiosa: em especial na época medieval, quando um homem santo morria, os seus objectos pessoais, os seus ossos, as suas roupas, etc. eram levados do local da sua morte para uma abadia ou para uma catedral. Este processo era conhecido por “translating” (transladação), o que confere ao título do disco um significado bastante diferente.
P. – Como acontece em todos os seus discos, “Lost in Translation” é triste e melancólico. Existe alguma razão para esta melancolia?
R. – Interesso-me por música que tenha um ambiente [“mood”] forte. Muita da música que ouço é, ou pode ser considerada, sombria. Não encontro uma razão para isto. Em parte, talvez se deva à importância que dou à introspecção.

A Avenida Satie

P. – A influência de Erik Satie também pode estar relacionada…
R. – Erik Satie ensinou-me que é possível compor música maravilhosa com um mínimo de componentes e ser capaz de a tocar sem a necessidade de ser um virtuoso. A sua música exige um tipo diferente de aproximação. Decidi avançar por essa avenida.
P. – Ao contrário da música que o seu irmão (Brian Eno) faz actualmente, abstracta na forma, a sua é descritiva e romântica, quase feminina, o acompanhamento ideal para as vozes de Virginia Astley e Kate St. John. Sente-se à vontade no papel de acompanhante?
R. – Numa canção, a voz é o ponto fulcral. Além disso, interesso-me pelo que se passa num segundo plano, pelas atmosferas, pelas relações entre a melodia e a harmonia. Ou seja, pelos elementos evidentes de uma “performance” musical, as suas subtilezas ou a sua cor.
P. – Por que motivo não toca mais vezes com o seu irmão? Será que os vossos universos musicais são assim tão inconciliáveis?
R. – Brian interessa-se pelo presente e pelo futuro e eu pelo passado. Ocasionalmente estes dois mundos sobrepõem-se…
P. – A julgar pelos seus discos, fica-se com a impressão de que é um músico tradicionalista e, acima de tudo, um pianista, no sentido erudito do termo. Nem sequer usa sintetizadores…
R. – Sou talvez demasiado cauteloso no que se refere à “novidade” e ao temporário. Tenho a tendência para me apoiar nos elementos tradicionais, como suportes para a minha própria criação e não para a investigação de novas áreas. Talvez seja um defeito. A verdade é que me preocupo com a música, considerada como uma arte em si e não como uma parte da Arte, tomada num sentido mais vasto. Acho sobretudo importantes a evocação dos aspectos emocionais e as possibilidades, harmónicas e pictóricas, inerentes às doze notas da escala.
P. – Abstractizando: o silêncio ouve-se?
R. – Sou capaz de ouvir o silêncio, no contexto mais lato do ruído. Pode ser um silêncio expectante, ameaçador ou entediante. Não costuma existir numa festa… Escrevo música que incorpora o silêncio quase total ou mesmo o silêncio verdadeiro, como ingredientes que podem ser coloridos por sonoridades que lhes estão adjacentes. Mas o silêncio total, absoluto, aterroriza-me. Talvez seja a razão por que faço música.

Nota: A discografia oficial de Roger Eno é constituída pelos álbuns “Voices”, “Between Tides”, “The Familiar” (com Kate St. John), “In a Room” (com o grupo de música de câmara italiano Harmonia Ensemble), “Classicall Music for Those with Memory” (min-álbum, também com os Harmonia Ensemble) e “Lost in Translation”.

Frei Fado D’El Rei – “Danças No Tempo” (crítica + entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 25.10.1995


TROVAS ANTIGAS

FREI FADO D’EL REI
Danças No Tempo
Columbia, distri. Sont Music



Oremos para que, um dia, os Madredeus sejam deixados em paz pelos jovens músicos portugueses. Para ver se nós próprios temos algum sossego. É que Portugal já não tem mar nem fado nem saudade que chegue para tanta gente. Os Frei Fado são discípulos confessos da Madredeus. Contudo, fazem questão de apresentar algumas diferenças. Temos, então, que o grupo cultiva o gosto pela música medieval – evidente em temas como “Rabelo” e “Dança dos jograis” – e renascentista, em “Trova sagrada” e “Deusa de azul”, e uma certa jovialidade que, nos últimos tempos, tem andado arredada da banda de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres de Magalhães. A voz de Carla Lopes, embora beba as inflexões vocais da vocalista dos Madredeus, desce com maior frequência aos baixos e aparece mais limpa de vibratos. Mas queiram fazer o favor de ouvir temas como “Amor popular”, “Amores do Douro”, “Memórias de um trovador” ou “A meu amado” e digam lá se não parece mesmo que são irmãs… E “Donzela” não poderia estar mais imbuído do espírito da paz… Ricardo Costa, na guitarra clássica, também não é Pedro Ayres mas deve existir algum parentesco escondido. Esgotam-se aqui as semelhanças com os Madredeus se descontarmos ainda a mesma insistência nas temáticas nacionalistas e místicas. “Perdi meu amor no mar” deve ensinamentos à música tradicional portuguesa e “Zaragoza” viaja até ao país vizinho. Caminho relativamente virgem, a pedir exploração e coragem, encontra-se em “Jóias da Índia”, um possível bilhete de identidade futuro para os Frei Fado d’El Rei. Por agora, fica a certeza de um “cocktail” de sabor agradável mas sobre o qual pairam dúvidas quanto a quem o desejará saborear. Dissidentes dos Madredeus? Os filhos dos “habitués” da Gulbenkian? O duque de Bragança? Com um disco bonito, os Frei Fado arranjaram-na bonita… (6)

MAR DA TRANQUILIDADE
Num mercado que começa a ficar saturado com um som cuja matriz pertence aos Madredeus, os Frei Fado d’el Rei arriscaram jogar nesse mesmo tabuleiro. Atirando para a mesa o trunfo da música antiga e uma voz, de Carla Lopes, que ameaça fazer sombra a Teresa Salgueiro.



Cristina Bacelar, guitarrista, e José Flávio Martins, baixista, assumem essa influência, que justificam com preocupações de ordem espiritual e o refúgio num imaginário, da Idade Média, com o qual o grupo se identifica.
PÚBLICO – Onde é que os Frei Fado d’el Rei pretendem chegar?
CRISTINA BACELAR – Entre outros, com uma abordagem muito leve da música medieval.
JOSÉ FLÁVIO MARTINS – É uma paixão que não conseguimos explicar. Tem todo um ambiente que encerra muita magia e todos nós partilhamos esse fascínio. Agora, não temos, obviamente, só essa influência. Fundimos, digamos, uma série de estilos.
C.B. – Aliás, o título do álbum significa exactamente essa viagem.
P. – Que música antiga costumam ouvir?
J:F.M. – Pedro Caldeira Cabral, Paul Van Nevel e os Huelgas Ensamble, Dead Can Dance…
P. – Questão delicada. Ao ouvir a vossa música é impossível não pensar nos Madredeus…
C.B. – Nunca negámos a influência que os Madredeus tiveram para podermos arrancar com este projecto. Mas acho que estamos cada vez mais a distanciar-nos dessa imagem, sobretudo ao nível rítmico.
P. – A vocalista Carla Lopes pode rivalizar com a Teresa Salgueiro?
C.B. – A Teresa Salgueiro é soprano e a Carla é contralto.
P. – E as semelhanças na maneira de cantar?
C.B. – Pronto, lá está. Aí há realmente uma influência, que é um certo intimismo. Exteriormente, se calhar, as pessoas podem sentir isso.
P. – Não se dará o caso de os Madredeus ocuparem um lugar onde já não cabe mais ninguém?
C.B. – Por essa ordem de ideias também não havia espaço para muitos grupos de rock…
J.F.M – Aliás, com os Madredeus há uma recepção muito grande de outros povos pela música que eles fazem. Quanto a nós, tentamos transmitir a música que se faz por cá, a música de raiz tradicional, também.
C.B. – A característica comum entre as duas bandas é esse intimismo. Mas nós temos o outro lado, que é, tanto em disco como ao vivo, em que há mais ritmo, mais movimento.
P. – O que é que vos aconteceu no espectáculo que deram nos Encontros Musicais da Tradição Europeia deste ano? Foi quase um desastre…
C.B. – O que aconteceu foi que se atrasou tudo, tornou-se stressante…
J.F.M. – Sem culpar ninguém, obviamente, mas nem sequer havia luz, o que é fundamental…
C.B. – À hora do espectáculo ainda estávamos a fazer o “sound check”. E ainda tínhamso que ir trocar de roupa. Foi um esforço terrível.
J.F.M. – Aliás, um dos cavalos de batalha era precisamente transmitir, neste disco, toda a vivacidade que temos ao vivo. Desde, é claro, que sejam criadas condições técnicas para o fazermos. Porque há muito movimento, apesar de estarmos sentados.
C.B. – É incrível, mas nos nossos espectáculos as pessoas acabam muitas vezes a dançar. Para nós é óptimo, cinco pessoas sentadas conseguirem pôr toda a gente a dançar.
P. – “Danças no Tempo” é o que se pode chamar um disco bonito. São tudo rosas na vossa sensibilidade musical? São mesmo tão calmos como aparentam?
J.F.M. – Tem mesmo que ver com a nossa maneira de ser.
C.B. – A música reflecte um bocado o lado espiritual, sem esquecer, claro, o corpo, o lado rítmico. Tentamos transmitir isso às pessoas, e poder emabalá-las. Não há violência.
P. – Que lado espiritual é esse?
C.B. – A calma que a própria música transmite, a sua magia. Uma tranquilidade espiritual.
P. – [Com ironia.] O espírito da paz?
C.B. – [Risos.] Sim, mas há um espírito da paz que pode ser clamo e outro que pode ser mais acelerado.
J.F.M – Embora, obviamente, não sejamos um grupo de rock.