Arquivo da Categoria: Entrevistas 1995

Jorge Quintela + Pedro Duarte + Armindo Neves + Luís Filipe – “Os Músicos Que Toda A Gente Ouve Mas Ninguém Vê” (dossier | músicos de sessão)

pop rock >> quarta-feira >> 31.05.1995


OS MÚSICOS QUE TODA A GENTE OUVE MAS NINGUÉM VÊ
(Fernando Magalhães e Marta Duarte)

JORGE QUINTELA
Director Musical da C.C.A. e pianista do programa “Zona +” (Canal 1)
“Antes os bastidores do que dar a cara”



Desempenha as funções de director musical dos programas da CCA, Carlos Cruz Audiovisual. Organiza os genéricos e dirige as bandas. A sua intervenção no Zona Mais, o “talk-show” de Carlos Cruz, limita-se a ser a de teclista do grupo. Para Jorge Quintela, esta acumulação de responsabilidades não o impede de, no actual programa, ter inteira liberdade para “escolher os temas que mais prazer lhe dão tocar”. Isto, nos chamados “temas de exibição”, porque no que respeita ao acompanhamento dos artistas convidados obviamente que o “arranjo deverá ter minimamente a ver com eles”.
Antes do Zona Mais, Jorge Quintela trabalhou dez anos como demonstrador da Valentim de Carvalho, período durante o quela “começou a entrar na produção discográfica” e a “fazer arranjos para discos”, de Carlos Paião a Lara Li. Entretanto, conheceu Carlos do Cruz, com quem colabora há já bastante tempo. O tempo, na actividade a que se dedica, é vital. “Ter três dias para preparar quatro temas” nãoé fácil, embora no caso de Zona Mais essa dificuldade recaia nos ombros de Pedro Moreira, responsável pelos arranjos da banda. “Na parte da composição, torna-se mais complicado, tem que se imaginar o programa, a imagem que ele vai ter, qual a música que deverá corresponder ao genérico, tudo muitas vezes feito em cima da hora. Com um certo “forcing”, comigo tem funcionado. Há menos tempo para termos dúvidas.” Jorge Quintela, “por uma questão de feitio”, prefere trabalhar nos bastidores a “estar à frente de uma situação e dar a cara”. Por esta razão nunca participou em “grandes formações musicais” porque sempre sentiu mais prazer em “trabalhar em estúdio”. O que não o impede de se sentir “realizado”: “Dou uma parte de mim, em termos da linguagem musical que estou a põr nos programas.”
Admite que aquilo que faz “é compensatório”, em termos materiais, essencialmente “porque dá uma certa estabilidade económica de saber que pelo menos durante ‘x’ semanas o trabalho está garantido”. Também nunca teve vontade de liderar o seu próprio grupo, embora um dos seus objectivos seja a gravação de um disco, “um projecto de música instrumental, de fusão, que ainda não foi editado porque infelizmente neste país é considerada música de elevador”. Mas como considera gratificante a sua função no Zona Mais, onde “o Carlos Cruz tem feito questão de promover bastante a música e os músicos da banda”, o adiamento do disco também não constitui grande problema. É ate´”perfeitamente admissível” que o grupo, na exibição a solo que lhe compete, “se sobreponha ao artista principal”. Quando se trata de acompanhamento, a história muda e as fronteiras apertam-se. Deu-lhe particular gozo tocar com o Rui Veloso mas também com um grupo de concertinas tradicionais. Uma das suas maiores ambições é compor música para filmes, o que em Portugal considera ser bastante difícil devido “aos orçamentos, tão baixos, que não dão para fazer nada de especial”. Se pudesse, Jorge Quintela adoraria trabalhar com Steven Spielberg.
(Fernando Magalhães)

PEDRO DUARTE
Director Musical e pianista do programa “Parabéns” (Canal 1)
“Se não houver adrenalina isto não serve de nada!”



Aos 29 anos e com o sexto ano do Conservatório, Pedro Duarte tem prazer no que faz. É director musical do concurso de Herman José, “Parabéns”, faz os arranjos e é pianista do grupo. Não se considera um “artista”, no sentido de “alguém que tem que criar uma determinada imagem, como acontece nos grupos de rock”, mas sim “uma pessoa de fundo, que trabalha segundo princípios”, em que acredita e sobre os quais teoriza: “Têm a ver com a democratização das artes. Acredito que todas as pessoas, na posse das suas faculdades normais, podem compor. Toda a gente é capaz de pintar, de fazer teatro, de dançar”. “A questão”, diz, “é que a nossa cultura e a nossa sociedade tem frustrado grandes talentos logo à partida. Acredito numa sociedade em que as pessoas têm o seu trabalho e em paralelo, como ‘hobby’, a criação de qualquer coisa”. Pedro Duarte afirma ter mesmo um projecto para fazer funcionar as coisas nesse sentido, e “pôr as pessoas a mexer”, baseado na aprendizagem através do computador.
Antes dos “Parabéns”, Pedro Duarte já tinha trabalhado em programas como “Regresso ao Passado”, de Júlio Isidro, “Joaquim Letria Apresenta” e “Os Olhos da Lua”, de Raul Solnado, num grupo de cuja formação fazia então parte um contrabaixista chamado Pedro Abrunhosa. Considera que o seu papel no actual grupo consiste em “fazer música altamente funcional”, contando para tal com eventuais sugestões do próprio Herman José. O músico distingue o trabalho de acompanhamento dos artistas convidados do programa, dos chamados separadores, “aquels pequenos temas de 10, 12 segundos”, e dos “tapetes”, como chama à música de fundo. “Gostaria um dia de juntar uma série deles e fazer um álbum. Postos em voz alta são capazes de mostrar muito mais do que parecem ter”. Pedro Duarte não considera frustrante o facto de a música estar em segundo plano e cita a propósito John Williams quando diz que “a melhor música para cinema será aquela em que as pessoas nem sequer notam que existe”. No fundo, tudo “depende da ideia que se tem da música”, explica, “é como que o sangue do programa”. Nem tudo tem que estar em primeiro plano para ser importante”. Vai mais longe quando afirma que “aquilo que normalmente não aparece é mais importante doq eu aquilo que aparece”. Pormenoriza: “Se eu tenho um tema que está a servir de ‘tapete’, que gera um determinado ritmo e ambiente, carregado de energia, isso, mesmo inconscientemente, ajuda o presentador e a envolver as pessoas emocionalmente”. Pedro Duarte compara estes “tapetes” de som com “os ambientes mágicos religiosos, carregados de música com um sentido muito profundo, como o som de um órgão de catedral, em que as pessoas por vezes nem percebem nada do que se está a passar, mas onde há uma profundidade espiritual muito grande”. Música de transporte? “Eu gosto de lhe chamar o sangue deste corpo inteiro que é o programa”. Uma linguagem litúrgica que, em termos mais prosaicos, no “Parabéns”, atinge um máximo de intensidade no “Boião da Cultura” e durante a entrevista. “Temos uim bocado a tendência de pensar a arte pela arte, como algo abstracto. Eu sou um bocado romano a pensar. Prefiro pensar nas funções. Nos filmes, por exemplo, temos os chamados efeitos sonoros, que são tão ou mais importantes que a própria música”. A pressão do tempo não assusta este admirador de Henry Mancini, Jerry Goldsmith e John Williams,a ntes pelo contrário. “Assim é que tem piada”, diz, “se não houver adrenalina isto não serve para nada. Podem entregar-me as coisas três meses antes que eu não pego nelas. Quando chegar ao limite, aí assim agarro-me e começo a escrever. Sou mais espontâneo desta maneira”.
(Fernando Magalhães)

ARMINDO NEVES
Guitarrista e maestro do programa “Não Se Esqueça da Escova de Dentes” (SIC)
“Por que é que não vão ganhar o dinheironho para outro lado?”



“Um dos pontos que estão errados no profissionalismo musical em Portugal é a ideia de que tocar na televisão é apenas mais uma forma de ganhar dinheiro.” Armindo Neves, guitarrista e responsável pela banda de Não Se Esqueça Da Escova De Dentes, considera que por trás da atitude interesseira se esconde uma certa cobardia. “Há os que dizem que se recusam a tocar na televisão e essa recusa serve para esconder certas deficiências técnicas… A mediocridadezinha impera no meio musical.” Armindo Neves vê no trabalho musical para televisão a dignidade que todas as profissões devem ter. “Em programas como o Parabéns e o Zona Mais, encontram-se excelentes músicos, bons leitores (de pautas, entenda-se), bem disciplinados, com bom som. Eles tocam a sério.” Para Armindo Neves, que entre outras coisas tocou e produziu discos como “Coisas do Arco da Velha”, da Banda Do Casaco, perante a música não pode ter-se a atitude de “vir aqui ganhar uns dinheiros”. É mais honesto assumir que não se gosta de televisão, ou de um determinado programa, e recusar-se a ir lá tocar. Afinal, ele próprio admite que trabalhou em muitos programas que lhe deram pouco prazer. Sem mais desculpas esfarrapadas. Não gosta é de quem se arma em “chico-esperto”, desprezando por completo o trabalho da música em televisão, apesar de, em situações de aperto, ser a ele que recorrem. “Por que é que não vão fazer o dinheirinho para outro lado?” Provavelmente, porque tocar na televisão é, muitas vezes, a única saída profissional, e de sobrevivência, para músicos vindos das mais diferentes áreas e formações sonoras. “Na vida não é tudo uma questão de ganhar mais. Há que contar com o gozo”, corta Armindo Neves. E é o gozo que retirou de trabalhar em programas como o polémico Fisga, o Festival da Canção e o último de Joaquim Letria que o faz estar em Não Se Esqueça da Escova de Dentes. Esse gozo é visível no entusiasmo com que descreve as suas funções no programa da SIC: “Neste momento estou com duas noites sem dormir para conseguir transcrever dois arranjos do Frank Sinatra com a Orquestra do Count Basie para serem tocados hoje aqui, a acompanhar o Carlos do Carmo. E já cá tive o Janita Salomé, a Lena d’Água, o Luís Represas. São desafios musicais. Nós somos forçados a ser extremamente flexíveis para ter uma atitude perante a música de compreensão do reportório do artista. Tem que haver responsabilidade da parte dos músicos, para aproximar a sua sonoridade, para conhecer o artista.” Se fosse tudo uma questão de preferências, é óbvio que lhe seria mais gratificante tocar, compor e fazer arranjos para um programa estritamente musical. “A guerra das televisões e o controlo sobre a escolha que se pode fazer da programação levaram as direcções dos vários canais a concluir que os programas musicais não intyeressam muito. A televisão vive das telenovelas, do futebol e dos concursos.” Portanto, é só nos concursos que pode haver espaço para a música. Há é que saber aproveitar a oportunidade. Das audiências, sobretudo, que estão sempre à espera de coisas cada vez mais fantásticas. “E isto é do caneco. Acima de tudo temos que aproveitar o meio audiovisual para fazer passar a música. Este programa, e eu já fiz muitos, é de longe o que me dá mais gozo.”
Armindo Neves não teme que a voracidade da televisão, que precisa de músicos, bons e maus, conforme os orçamentos, acabe por aniquilar talentos e carreiras. Não acredita na exclusividade. “Qualquer um de nós é livre para ter o seu projecto lá fora. Os músicos que aqui estão, à excepção dos metais, que mudam consoante as emissões, trabalham todos comigo no grupo do Luís Represas. E não é por causa disso que o grupo e o Luís ficam para segundo plano.”
(Marta Duarte)

LUÍS FILIPE
Director musical do programa “Eu Tenho Dois Amores” (Canal 1)
“Um problema de dor de corno”



Luís Filipa já fez vários programas para a RTP, mas a maior parte do seu historial na música expande-se pela produção discográfica da chamada música ligeira. Ao contratá-lo, frisa Luís Filipe, a RTP deixou ao seu critério a escolha de elementos para a banda e de artistas convidados, de que resultam três momentos musicais distintos: as canções de Marco Paulo, para as quais faz os arranjos; as dos convidados, igualmente com produção do director artístico, e a prestação de Maria Rueff, “um momento especial, meio cómico”, em que lhe “dá um prazer especial avacalhar um bocado, com letras muito mordazes e bem feitas da Rosa Lobato Faria”.
Ao contrário do que se passa nos outros programas visitados, em Eu Tenho Dois Amores, a música é preproduzida. Ou, trocando por miúdos, os membros da banda e os convidados actuam com “palyback”. “O som que se consegue fazer em estúdio [de som] é impossível de reproduzir num estúdio de televisão, a não ser que se grave o programa a partir de um estúdio de som”, justifica Luís Filipe, argumentando que o que interessa é dar qualidade sonora ao telespectador. Assim, nem todos os membros da banda que vemos no ecrã a tocar o estão a fazer. Alguns são os que em estúdio gravaram os temas, mas os outros limitam-se a ser figurantes. No entanto, segundo Luís Filipe, “mais vale estar a gravar um ou dois programas de televisão por semana do que a tocar uma noite inteira num bar, onde se ganha miseravelmente: os donos dos bares exploram os músicos”. Se em termos financeiros é compensador, em termos de experiência, tocar na televisão é também um passo importante. Através dos programas para que gravam, os músicos vão sabendo adaptar-se a diversos estilos e sonoridades, ficando aptos para tocar em qualquer ocasião. “A televisão é o meio de comunicação do século XX e XXI, é natural que os músicos também a ele acedam. Acho que dizer que é desprestigiante actuar na televisão é um problema do crónico atraso de Portugal”, diz Luís Filipe quando interrogado sobre a dignidade de um trabalho feito para o televisor. “Sei que os músicos na maioria, nem sequer ficam conhecidos – o nome passa no genérico, mas ninguém o lê. As pessoas apenas os conhecem visualmente, e isso fá-los serem identificados com outros projectos exteriores ao programa.”
Mas esse anonimato que a televisão impõe também concorre para a recusa de muitos profissionais de actuarem nos seus programas, ou não será? Luís Filipe considera que não, e é categórico na resposta: “Estou-me marimbando para os músicos que acham mal tocar na televisão. Penso que é um problema de como dessas pessoas, que se calhar nem sabem tocar como deve ser. Provavelmente são músicos específicos de uma determinada área, têm três meses de aulas no Hot Clube e julgam que já são músicos de jazz e não são nada.
(Marta Duarte).

Deep Forest – “Deep Forest Lançam ‘Boheme’ Com A Voz De Márta Sebestyen – ‘É Estúpido Pensar Que Se Pode Preservar Uma Cultura Bloqueando-a'” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 31.05.1995


Deep Forest Lançam “Boheme” Com A Voz De Márta Sebestyen
“É Estúpido Pensar Que Se Pode Preservar Uma Cultura Bloqueando-a”



Com “Boheme”, o duo francês Deep Forest volta a apostar numa fórmula que está a render dividendos: vozes étnicas “vestidas” e arranjadas por computador. Michel Sanchez e Eric Mouquet traziam a Índia na mochila quando descobriram a voz da cantora húngara Márta Sebestyen. Eric Mouquet, em entrevista ao PÚBLICO, explicou, entre outas coisas, que a estreia ao vivo do grupo terá cantores reais ao lado de cantores virtuais.
PÚBLICO – Como é que descobriram a música dos Balcãs e, em particular, de Márta Sebestyen?
ERIC MOUQUET – A ideia inicial para este segundo disco era usarmos vozes da Índia. Aconteceu que entretanto descobrimos a voz de Márta Sebestyen numa colectânea de música da Transilvânia. Uma das músicas que ela canta neste disco [“Istenem, istenem”] tornar-se-ia “Marta’s song”. A sensação foi incrível, semelhante à que tivemos quando ouvimos pelaprimeira vez “Sweet Lullaby”, algo que nos deu arrepios. Decidimos então partir para escutar um pouco melhor as músicas do Leste. Estive há alguns anos na Checoslováquia e Michel já tinha trabalhado num barco que fazia a travessia do Mediterrâneo, com passagem pela Jugoslávia. Mas foi Márta que nos fez optar por fazer um disco onde a maior parte das vozes vem do Leste.
P. – No caso de Márta, no tema “Bulgarian melody”, foi a primeira vez que trabalharam com uma voz em tempo real?
R. – No início dos Deep Forest, em 1991, não tínhamos possibilidade de fazer nós próprios as gravações. Não tínhamos viajado o suficiente para recolher música para um álbum completo. Fomos buscar o material de que necessitávamos às gravações dos musicólogos, capazes de andar em viagem uns trinta anos, em exploração, reunindo documentos sonoros excepcionais. Se fizéssemos o mesmo, isso significaria que teríamos igualmente de andar pelo menos cinco ou seis anos em viagem através do mundo. Com o segundo álbum começámos a viajar. Fomos ao Candá gravar vozes “innui” e à Austrália recolher sons dos aborígenes. Também temos alguns sons da América do Sul ainda por utilizar.
P. – Hoje toda a gente fala de world music, é quase uma moda…
R. – Não estou certo de que se trate apenas de uma moda, embora seja muito utilizada pela música “avant gard” ou pela música para publicidade. Mas além disso creio que há uma necessidade real do público e dos músicos de tentar escutar e tocar coisas diferentes. O que é extraordinário é que não são só os europeus que estão a recuperar os cânticos tradicionais e a fazer música com eles, mas também os músicos tradicionais que sentem o desejo de fazer música com instrumentos e culturas diferentes. Não há um sentido único.
P. – No caso dos Deep Forest não será um pouco a exploração de uma fórmula, mais do que uma estética?
R. – Neste disco procurámos uma evolução. O primeiro disco era muito rítmico, com cânticos africanos utilizados como sequenciadores de ritmo. O segundo álbum é mais uma construção de melodias, de canções. Os ambientes e os instrumentos são bastante diferentes. Usámos acordeão, piano “cymbalon”…
P. – Mas um dos objectivos do grupo continua a ser fazer música de dança?
R. – Não forçosamente. Se quiséssemos fazer música de dança, faríamos de outra maneira. O problema que os DJ das discotecas têm com a nossa música é ser demasiado lenta. Para poderem passar os Deep Forest têm de fazer remisturas em tempos mais acelerados. Mas no disco não pretendemos fazer música de dança, house ou ambiental… Há quem mencione influências da jungle music oriunda de Inglaterra, feita em 140 b. p. m. [batidas por minuto], por termos uma canção no disco com a mesma batida. As vozes decerto perderiam a sua emoção se fossem forçadas ou encaixadas a martelo num estilo determinado.
P. – Não existe o perigo de essas mesmas vozes se vulgarizarem?
R. – É uma música que não passa muito na rádio mas vende bastantes discos, porque o público gosta. Os programadores dizem que não tem um formato para a rádio. O perigo da normalização vem de outro lado, do rock, por exemplo.
P. – Há algum tipo de mensagem política na vossa música, uma vez que ela junta e altera sons de culturas e sistemas sociais diversos?
R. – É verdade que a mensagem política, mesmo sem querer fazer política, está implícita, quando se vive numa sociedade como a nossa. O que aconteceu recentemente em França, nas últimas eleições, com a subida da Frente Nacional, dos sentimenso nacionalistas e fascistas – de resto, à semelhança do que se passa um pouco por toda a Europa -, é exactamente o contrário do que tentamos fazer. Ouvimos Le Pen dizer: “A França para os franceses” e “A África para os africanos” ou “Portugal para os portugueses”, mas a realidade actual não é essa. A realidade é que tudo se mistura. A História de França é uma sucessão de invasões, guerras, tudo o que lhe conferiu a sua identidade e a sua riqueza. É estúpido pensar que se pode preservar uma cultura bloqueando-a, fechando-a ao exterior. Através da nossa música, procuramos demonstrar que não existem fronteiras, utilizando ingredientes do mundo inteiro.
P. – Apesar dessas misturas, não acha um pouco bizarro “Marta’s song” ter sido incluída na banda sonora de um filme como “Prêt à Porter”?
R. – Quando soubemos que Robert Altman procurava uma música dos Deep Forest para o seu filme – o que nos lisonjeou bastante, porque é um excelente realizador -, marcámos um encontro em Nova Iorque para lhe mostrar uma maqueta com o som do novo álbum. Mal ouviu “Marta’s song” exclamou que era aquela mesmo que queria. Dissemos-lhe que era um pouco delicado, até porque iria ser o novo single, mas ele insistiu tanto que não pudemos recusar.
P. – Pode adiantar pormenores sobre a estreia ao vivo do grupo?
R. – Optámos por trabalhar com dois criadores de Montreal que adoptaram um sistema que permite usar imagens virtuais em palco, criar personagens virtuais, com hologramas. Esses hologramas serão activados pela música nos teclados, o que significa poder improvisar ao mesmo tempo com os sons e com as imagens. Numa primeira fase, como a tecnologia é muitíssimo cara, faremos um espectáculo de apenas 20 minutos, onde iremos misturar cantores reais, Márta Sebestyen, por exemplo, com cantores virtuais. O “show” será filmado em cassete vídeo e passado para a Internet, o que permitirá a qualquer pessoa ligada à rede assistir em casa. Estamos à espera de algum patrocinador interessado em financiar um espectáculo maior, de duas horas.

Perve – “Perve Em Estreia Com ‘Segmentos’ – PERVERTER PELA POSITIVA”

pop rock >> quarta-feira >> 24.05.1995


Perve Em Estreia Com “Segmentos”
PERVERTER PELA POSITIVA


“Segmentos”, álbum de estreia dos Perve, apresenta alguns enigmas, a começar pela personagem da máscara, cantor e letrista do grupo, enigmaticamente designado “O Homem”. “O Homem” não dá, por enquanto, entrevistas. O mundo jornalístico não está por enquanto preparado para a sua mensagem. Nuno Tavares, o guitarrista, substituiu-o no desvendar de alguns, poucos, desses mistérios. É também o regresso dos álbuns conceptuais e da defesa de conceitos como a “libertação sexual”, como forma de dizer alguma coisa que fuja aos esquemas rotineiros de produção.
PÚBLICO – Como é que nasceu a ideia do “Homem”?
NUNO TAVARES – Foi para chamar a atenção das pessoas, não no sentido comercial, mas para uma série de coisas que nós, Perve, e em particular “O Homem” temos para transmitir. Questões de valores.
P. – Mas são precisos a máscara, o anonimato, para transmitir esses valores?
R. – Quem transmite é o grupo, a forma musical. Os textos, poemas, é que são do “Homem”. Porquê a palavra “homem”? A ideia surgiu ao longo do nosso trabalho nos últimos dois anos, à medida que nos apercebíamos do que estávamos a fazer. Queríamos transmitir a nossa mensagem de uma forma lata e englobava valores que consideramos fundamentais…
P. – Que valores e que mensagem?
R. – Uma mensagem de valores humanos, de sensibilidade e liberdade. A todos os níveis. Tem a ver com os “segmentos”, como no tema “Mexe-te”, que fala de uma libertação do corpo. Aí queremos transmitir a mensagem da libertação sexual. Com os montes de problemas que hoje existem, as pessoas retraem-se, fecham-se cada vez mais. É o exemplo de uma mensagem transmitida ao homem pelo “Homem”.
P. – Nesse aspecto os textos do “Homem” nem sempre são muito claros. Estamos a recordar-nos, por exemplo, do tema “Calafrio”…
R. – Esse texto já não é tão directo. Está incluído no “Segmento do Ébano”. Tem mais a ver com uma calma nocturna. No fundo, é um sonho, um calafrio que a atravessa. “A flor do corpo”, por outro lado, tem uma componente um bocado surreal…
P. – A liberdade de que falava há pouco está, quanto a nós, mais nas formas musicais que vocês escolheram do que propriamente nas palavras, que se tornam em alguns casos quase redundantes.
R. – Não. É um facto que tentámos perverter algumas tipologias musicais que nos são familiares e que fizeram parte da nossa aprendizagem, a ouvir discos ou a ir a concertos. Temos uma percepção da música tanto no sentido mais normal do termo como no da música concreta ou do próprio ruído.
P. – Perve significa então essa perversão?
R. – Sim, é uma abreviatura de perversão, só que uma perversão que no nosso caso não tem qualquer carga negativa. Uma perversão positiva.
P. – Estávamos a falar das palavras…
R. – As palavras são fundamentais. As músicas nasceram quase sempre a partir de poemas. Um exemplo: o tema “A mulher-néon”, em que todo o ambiente, pesado, nasceu a partir da palavra “néon”.
P. – A audição de “Segmentos” indica que as pessoas do grupo ouviram muita música antes. Concretamente, o quê?
R. – No meu caso, sou um ouvinte de música mas não me preocupo muito em ir buscar… Não vou dizer nomes, acho que ia deixar sempre alguns de fora. A maneira como me relaciono com a música é procura-la quando ela não vem ter comigo.
P. – Os nomes da editora “Recommended” dizem-lhe alguma coisa?
R. – Conheço alguma coisa. O Chris Cutler, algumas das coisas que ele fez com vários grupos. Mas não tenho um conhecimento exaustivo da “Recommended”, até porque não é fácil encontrar os discos…
P. – “Segmentos”, como acontece com o disco de estreia dos U-Nu, descobre vias alternativas para a música portuguesa. Que opinião tem da música que se está a fazer hoje em Portugal?
R. – Estão a surgir várias coisas dentro de áreas distintas. Há grupos que continuam a procurar, não sei se uma originalidade, mas pelo menos uma coisa própria, que tenha a ver com o próprio país onde vivem. Depois há, por outro lado, uma tendênciapara surgirem muitas coisas que são demasiado coladas a sonoridades estrangeiras. Admitimos a influência da música anglo-saxónica, até porque a andámos a ouvir durante muitos anos, mas isso tem que ser filtrado e aplicado à realidade em que se vive. Outros há ainda que facilitam ainda mais e se deixam dominar por essas músicas.
P. – Sem pensar muito, diga o que pensa dos Madredeus?
R. – Sem pensar… É tão terrível… Madredeus… tem a ver com uma determinada tradição de música urbana.
P. – Pedro Abrunhosa?
R. – Um marco importante na viragem de determinada mentalidade e de determinados grupos instituídos. De repente aparece uma pessoa que de um momento para o outro põe em causa, com a sua música e a sua atitude, muitas das coisas que pareciam já ser instituições.
P. – A música dos Perve destina-se a minorias?
R. – Queremos, e estamos a trabalhar nisso, ter um espectáculo e ser um grupo que chegue ao maior número possível de pessoas. Não de uma forma massificada, de exposição total e absoluta, mas sim que a nossa mensagem seja compreendida. O que estamos a transmitir não é uma coisa directa, as pessoas podem não entender tudo à primeira, ou identificar-se somente com uma ou duas músicas, ou um determinado “segmento”.
P.- Acreditam na disponibilidade do público para receber essa mensagem que dizem não ser directa?
R. – Há pessoas que se podem identificar com o “Segmento da evasão”… No fundo é algo de que nós todos precisamos. Se calhar neste momento há um exagero, devido à conjuntura económica e social, e as pessoas precisam de extravasar para o álcool, para a droga, para o momento. Mas isso faz parte da vida. No fundo, há uma crise de valores e as pessoas refugiam-se. Nós não queremos condenar isso – até porque, como já disse, achamos a evasão legítima e natural -, mas sim mostrar que há outras coisas na vida.