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Frei Fado D’El Rei – “Danças No Tempo” (crítica + entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 25.10.1995


TROVAS ANTIGAS

FREI FADO D’EL REI
Danças No Tempo
Columbia, distri. Sont Music



Oremos para que, um dia, os Madredeus sejam deixados em paz pelos jovens músicos portugueses. Para ver se nós próprios temos algum sossego. É que Portugal já não tem mar nem fado nem saudade que chegue para tanta gente. Os Frei Fado são discípulos confessos da Madredeus. Contudo, fazem questão de apresentar algumas diferenças. Temos, então, que o grupo cultiva o gosto pela música medieval – evidente em temas como “Rabelo” e “Dança dos jograis” – e renascentista, em “Trova sagrada” e “Deusa de azul”, e uma certa jovialidade que, nos últimos tempos, tem andado arredada da banda de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres de Magalhães. A voz de Carla Lopes, embora beba as inflexões vocais da vocalista dos Madredeus, desce com maior frequência aos baixos e aparece mais limpa de vibratos. Mas queiram fazer o favor de ouvir temas como “Amor popular”, “Amores do Douro”, “Memórias de um trovador” ou “A meu amado” e digam lá se não parece mesmo que são irmãs… E “Donzela” não poderia estar mais imbuído do espírito da paz… Ricardo Costa, na guitarra clássica, também não é Pedro Ayres mas deve existir algum parentesco escondido. Esgotam-se aqui as semelhanças com os Madredeus se descontarmos ainda a mesma insistência nas temáticas nacionalistas e místicas. “Perdi meu amor no mar” deve ensinamentos à música tradicional portuguesa e “Zaragoza” viaja até ao país vizinho. Caminho relativamente virgem, a pedir exploração e coragem, encontra-se em “Jóias da Índia”, um possível bilhete de identidade futuro para os Frei Fado d’El Rei. Por agora, fica a certeza de um “cocktail” de sabor agradável mas sobre o qual pairam dúvidas quanto a quem o desejará saborear. Dissidentes dos Madredeus? Os filhos dos “habitués” da Gulbenkian? O duque de Bragança? Com um disco bonito, os Frei Fado arranjaram-na bonita… (6)

MAR DA TRANQUILIDADE
Num mercado que começa a ficar saturado com um som cuja matriz pertence aos Madredeus, os Frei Fado d’el Rei arriscaram jogar nesse mesmo tabuleiro. Atirando para a mesa o trunfo da música antiga e uma voz, de Carla Lopes, que ameaça fazer sombra a Teresa Salgueiro.



Cristina Bacelar, guitarrista, e José Flávio Martins, baixista, assumem essa influência, que justificam com preocupações de ordem espiritual e o refúgio num imaginário, da Idade Média, com o qual o grupo se identifica.
PÚBLICO – Onde é que os Frei Fado d’el Rei pretendem chegar?
CRISTINA BACELAR – Entre outros, com uma abordagem muito leve da música medieval.
JOSÉ FLÁVIO MARTINS – É uma paixão que não conseguimos explicar. Tem todo um ambiente que encerra muita magia e todos nós partilhamos esse fascínio. Agora, não temos, obviamente, só essa influência. Fundimos, digamos, uma série de estilos.
C.B. – Aliás, o título do álbum significa exactamente essa viagem.
P. – Que música antiga costumam ouvir?
J:F.M. – Pedro Caldeira Cabral, Paul Van Nevel e os Huelgas Ensamble, Dead Can Dance…
P. – Questão delicada. Ao ouvir a vossa música é impossível não pensar nos Madredeus…
C.B. – Nunca negámos a influência que os Madredeus tiveram para podermos arrancar com este projecto. Mas acho que estamos cada vez mais a distanciar-nos dessa imagem, sobretudo ao nível rítmico.
P. – A vocalista Carla Lopes pode rivalizar com a Teresa Salgueiro?
C.B. – A Teresa Salgueiro é soprano e a Carla é contralto.
P. – E as semelhanças na maneira de cantar?
C.B. – Pronto, lá está. Aí há realmente uma influência, que é um certo intimismo. Exteriormente, se calhar, as pessoas podem sentir isso.
P. – Não se dará o caso de os Madredeus ocuparem um lugar onde já não cabe mais ninguém?
C.B. – Por essa ordem de ideias também não havia espaço para muitos grupos de rock…
J.F.M – Aliás, com os Madredeus há uma recepção muito grande de outros povos pela música que eles fazem. Quanto a nós, tentamos transmitir a música que se faz por cá, a música de raiz tradicional, também.
C.B. – A característica comum entre as duas bandas é esse intimismo. Mas nós temos o outro lado, que é, tanto em disco como ao vivo, em que há mais ritmo, mais movimento.
P. – O que é que vos aconteceu no espectáculo que deram nos Encontros Musicais da Tradição Europeia deste ano? Foi quase um desastre…
C.B. – O que aconteceu foi que se atrasou tudo, tornou-se stressante…
J.F.M. – Sem culpar ninguém, obviamente, mas nem sequer havia luz, o que é fundamental…
C.B. – À hora do espectáculo ainda estávamos a fazer o “sound check”. E ainda tínhamso que ir trocar de roupa. Foi um esforço terrível.
J.F.M. – Aliás, um dos cavalos de batalha era precisamente transmitir, neste disco, toda a vivacidade que temos ao vivo. Desde, é claro, que sejam criadas condições técnicas para o fazermos. Porque há muito movimento, apesar de estarmos sentados.
C.B. – É incrível, mas nos nossos espectáculos as pessoas acabam muitas vezes a dançar. Para nós é óptimo, cinco pessoas sentadas conseguirem pôr toda a gente a dançar.
P. – “Danças no Tempo” é o que se pode chamar um disco bonito. São tudo rosas na vossa sensibilidade musical? São mesmo tão calmos como aparentam?
J.F.M. – Tem mesmo que ver com a nossa maneira de ser.
C.B. – A música reflecte um bocado o lado espiritual, sem esquecer, claro, o corpo, o lado rítmico. Tentamos transmitir isso às pessoas, e poder emabalá-las. Não há violência.
P. – Que lado espiritual é esse?
C.B. – A calma que a própria música transmite, a sua magia. Uma tranquilidade espiritual.
P. – [Com ironia.] O espírito da paz?
C.B. – [Risos.] Sim, mas há um espírito da paz que pode ser clamo e outro que pode ser mais acelerado.
J.F.M – Embora, obviamente, não sejamos um grupo de rock.

Vários (Sharon Shannon, Elementales, E Zezi, Frei Fado D’El Rei, Klezmatics) – “‘Escandalosos E Queridos'”

pop rock >> quarta-feira >> 28.06.1995


“ESCANDALOSOS E QUERIDOS”



Sharon Shannon e a sua banda dominam o programa dos VI Encontros Musicais da Tradição Europeia, que depois de amanhã têm início em Guimarães (única cidade que poderá ver oprograma completo) e se prolongará por esta cidade, Tondela (integrados no Tondefesta), Algés e Évora até ao dia 10 do próximo mês. Sharon, irlandesa, 26 anos, natural do condado de Clare, é uma das grandes intérpretes de acordeão da actualidade e as suas actuações ao vivo garantem, regra geral, um ambiente de grande entusiasmo. Sharon gravou até à data os álbuns “Sharon Shannon” – onde, entre a fidelidade à música tradicional irlandesa se podem encontrar um corridinho algarvio (bem, vamos ser chauvinistas, porque o corridinho tem de facto origem na Europa Central…) e a influência da música “cajun” – e o recente “Out the Gap”, ao contrário do anterior, ainda sem distribuição nacional. Sharon participou ainda como convidada no álbum “The Fisherman’s Blues” dos Waterboys, cujo baixista Trevor Hutchinson faz também parte do grupo da acordeonista.
Excelentes são igualmente os Klezmatics, uma banda de música “klezmer” (música judia da Europa do Leste) com sediada no “East-side” de Nova Iorque. Allen Ginsberg, o poeta da “beat generation”, com o qual, aliás, já colaboraram em espectáculos ao vivo, chamou-lhes “escandalosos e queridos”. Queridos não sabemos se são ou não, mas escandalosos são de certeza, na maneira como insuflam a música “klezmer” com a energia do rock e os espírito de improvisação do “jazz”. Ouçam o álbum “Rhythm + Jews” (há outro mais recente, “Jews with Horns”, quanto a nós menos conseguido), editado na Piranha, e depois digam coisas.
Os Elementales chegam de Espanha e decerto não irão trazer com eles maus ventos. Misturam o folclore espanhol – fala-se numa “síntese madrilena com vocação flamenca e latino-americana” – com a música árabe, bretã, irlandesa, grega e cubana, o que, considerando as misturadas que se fazem hoje em dia, até não parece mal.
O E Zezi, italianos, falam outra língua. Começaram por ser uma banda operária, ao estilo GAC, com um som etno-industrial à maneira dos Test Dept. (em “Terra Firma”), como se pode verificar palo álbum “Auciello Ro Mio”, já com distribuição da Etnia, mas a sua combinação poderosa de ritmos rituais com a palavra interventiva tornou-os uma entidade quase mítica em Itália, de feiticeiros anarquistas, ou ferreiros de um templo telúrico onde a comunicação de massas é a palavra de ordem.
Menos ambiciosos, os portugueses Frei Fado d’EL Rei não escondem o seu amor pela música trovadoresca e pelas sonoridades da música antiga, embora encaminhadas para um formato pop. Para já, podem ser ouvidos no tema “Que amor não me engana”, de José Afonso, incluído no álbum “Filhos da Madrugada”.
Os Encontros, uma vez mais organizados pela Cooperativa Cultural Etnia com o apoio das quatro câmaras envolvidas, contam ainda com a presença dos grupos Makvirag, da Hungria, Broadlahn, da Áustria, e Tomás San Miguel com Txalaparta (nome do grupo e de um instrumento típico basco, feito com troncos de árvore), na companhia de um convidado muito especial, Kepa Junkera, do País Basco. Actuam todos mais tarde, por isso a sua apresentação fica para a próxima semana.

ELEMENTALES
Praça de São Tiago, Guimarães, 30 de Junho, Auditório do Itimar (Instituto Português de Investigação Marítima), Algés, 3 de Julho
E ZEZI
Guimarães, 30 de Junho, Algés, 1 de Julho, Novo Ciclo ACERT, Tondela, 4 de Julho
FREI FADO D’EL REI
Algés, 1 de Julho, Praça do Giraldo, Évora, 9 de Julho, Guimarães, 10 de Julho
KLEZMATICS
Tondela, 2 de Julho, Algés, 3 de Julho, Guimarães, 4 de Julho, Évora, 5 de Julho
SHARON SHANNON
Tondela, 3 de Julho, Guimarães, 4 de Julho, Évora, 5 de Julho, Algés, 6 de Julho

Maria João e Mário Laginha – “Cor ” + Carlos Barreto – “Suite Da Terra” + Frei Fado D’el Rei – “Encanto Da Lua”

Sons

22 de Maio 1998
PORTUGUESES


Saber a lição de cor

ff

Maria João é uma voz que afirma e que procura. Mário Laginha é um dos maiores pianistas portugueses da actualidade. Dos mais lestos de imaginação e dos mais atentos aos fluxos que brotam um pouco por todo o lado da sua música. Nos últimos tempos tem estado sobretudo atento aos sons que nascem da voz de Maria João, que no seu piano tem encontrado trapézio seguro e à sua altura. Maria João e Mário Laginha chegaram a uma encruzilhada que explicitamente se revela em “Cor” e, em parte, fabrica as suas próprias contradições.
“Cor” é um álbum de fusão que só não é idêntico a milhares de outros álbuns de fusão que todos os dias se fazem e desfazem sem glória, um pouco por toda a parte, porque os seus artífices sabem desde há muito os terrenos que pisam. Pessoais e intransmissíveis. A “Cor” foram impostas, à partida, senão condições, pelo menos fronteiras, resultantes de uma encomenda que pedia música oceânica, pronta a navegar nas águas da Expo. Maria João e Mário Laginha ancoraram no Índico, buscando alimento nas suas margens. O canto de Maria João oscila entre a espontaneidade, quando “scata” com o coração em África e no Brasil, e a disciplina das composições que o piano de Laginha lhe impõe. Ou dispõe. No primeiro caso encontramos o mesmo rio de sempre, rico de caudal, mas onde nadam os peixes habituais. Continuam a impressionar os movimentos de barbatanas, a respiração, a variedade de cores e tamanhos, do minúsculo arenque à carpa que não pára de crescer, do tubarão escuro ao arco-íris do peixe-papagaio, da piranha voraz ao doce peixe de aquário. E impressionam porque na sua renovada autodescoberta, Maria João se entrega de alma e coração à alma e ao coração que tem.
Mas há riscos, nesse abandono, de uma voz que a si própria se contempla, mesmo quando a quantidade de espelhos é enorme. É então que Mário Laginha corre a salvá-la. “Cor” avança pistas e oferece descobertas, não quando o discurso de João flui fácil pelas veredas tropicais, mas quando a escrita de Laginha se organiza e organiza a voz em quadraturas que, além de acatarem o correr das emoções, obrigam ao trabalho da razão. Aspectos que em “Cor” se iluminam em temas como “Horn please”, “Nazuk”, “Charles on a sunday with sunday clothes” e “A forbidden love affair”. Baladas, pois. Mas fundas. Cheias, umas vezes de calma, outras de inquietação. Cheias das águas do Ganges, dos lagos da Europa, das seivas do corpo. A abarrotar de sentimento. Disciplinadas pelo rigor. O resto é familiar, étnico q. b. (nota mais alta em “Nhlonge yamina”), com a contribuição preciosa de Trilok Gurtu, nas percussões, e inapelavelmente agradável. Há mar e mar, há ir e voltar. Não foi Vasco da Gama quem o disse, mas Alexandre O’Neill, quando fazia de publicitário. (Verve, distri. Polygram, 7)

Carlos Barreto é um estimável contrabaixista de jazz. Ou foi. Também ele decidiu que a árvore das patacas estava noutro lugar que não o interior de si próprio. Inventou em conjunto com o guitarrista Mário Delgado e o baterista e percussionista José Salgueiro, uma “Suite da Terra”, quer dizer, um caldo em que cabem os tambores de Rui Júnior e o Ó Que Som Tem, a voz de Janita Salomé (em “Mediterraneando”, de longe o melhor tema do álbum) e muitos ritmos portugueses a obrigarem o compasso à simplicidade. Assoma, como é da praxe em ano da Expo, o Oriente, em “Let’s Goa”, sem esquecer uma ponta de ecologia. Mário Delgado faz exercícios ditados por Bill Frisell, curiosamente, fazendo lembrar também o anti-swing introspectivo de Phil Lee (Gilgamesh) ou de Phil Miller (Caravan), dois estetas da guitarra do mundo perdido de Canterbury. Salgueiro, que é pau para toda a obra, dá o seu pequeno “show”. Barreto aguenta o barco. “Suite da Terra” é bom para fazer oó. (Ed. e distri. Farol, 5)

No seu mais recente álbum, “Encanto da Lua”, os Frei Fado d’el Rei buscaram abrigo e alento numa época de inquestionável sedução: A Idade Média. Inspirados pela Lua e inspirando os ares dos Dead Dan Dance, no tema de abertura, “Mediantal”. E, se os Amazing Blondel fizeram há quase 30 anos o mesmo que os Frei Fado d’el Rei fazem em “Ramo verde” (com participação vocal de Vitorino), já em “Bailia de Vigo” as gaitas-de-foles (de Amadeu Magalhães, dos Realejo) e o ritmo popular reinventam em moldes atraentes a tradição celta do Norte da península. Os antigos Madredeus emergem em “Encanto da Lua”, com o acordeão de Helena Soares. Janita Salomé empresa a sua voz e o seu bendir a “Perdido em miragem” no habitual registo árabe, enquanto Uxia canta em “O anel do meu amigo” com um arranjo e uma produção do tipo das que Júlio Pereira não dispensava quando se encarniçava a polir cada nota do seu cavaquinho. E serão propositados os desníveis de volume do tema final, “Onde pára o mar?” O movimento das ondas, talvez? É, em todo o caso, um dos momentos mais originais de um disco… bonitinho. (Columbia, distri. Sony Music, 6)