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Vários (Bob Dylan, Jim Morrison, Doors, John Lennon, Pete Sinfield, King Crimson, Ian Curtis, Joy Division, Prince, Elvis Costello, Robert Wyatt, Edwin Starr, Bruce Springsteen, The The, Matt Johnson) – “Guerra À Guerra” (artigo de opinião)

Pop-Rock 23.01.1991


GUERRA À GUERRA


O rock pode ter-se internacionalizado, mas mantém-se, tal como na sua origem, uma forma de expressão musical e artística de predomínio anglo-saxónico e norte-americano, em particular. Pela sua própria natureza, é agressivo e violento, assumindo inclusive tonalidades marciais e vandalistas. A conjugação destes dois traços torna-o assim favorável à instrumentalização como tónico para as cruzadas bélicas “yankees” e, desse modo, foi usado no passado no Vietname, como mesmo agora para o ataque ao Iraque, para cuja frente de batalha foram enviados milhares de cassetes. Música anglo-saxónica, o rock erigiu-se, todavia, contra o seu sistema, e foi desde sempre na contestação dos seus (e os outros) “senhores da guerra” que tomou posição. Tornou-se, assim, estandarte do pacifismo por negação da negação ou por declarar imperativo fazer guerra à guerra. E, a esse respeito, 20 anos depois de marcar pontos na frente de batalha contra as batalhas, em quase nada mudou.
Mas este novo episódio da dissidência musical que, desde a agudização da crise no Golfo, se começou a escrever traz um desenvolvimento inédito. O “mentor” da primeira represália rock à linguagem das armas foi Lenny Kravitz, o neo-“hippie” por excelência, e os seus parceiros directos são a esposa e um dos filhos do patriarca do pacifismo John Lennon. O projecto que os fez reunir, por sua vez, foi uma nova versão de “Give Peace A Chance”. Ou seja, uma estratégia de intervenção aparentada à usada no Live Aid, em 1985, tomando por pano de fundo uma canção de 69. O mesmo é dizer que, em 1991, a causa pacifista assumida pelo rock não pode mais encarada como um caso de moda, não é pontual ou aleatória, mas inspira-se e alicerça-se na sua própria história, sendo hoje a sua autoridade e credibilidade a de um contrapoder instituído. É impossível nestas páginas reconstituir essa história ou fazer o balanço completo do que nela correu bem ou mal. Mas é aliciante recapitular as fundamentais correntes antibelicistas que têm assomado à ribalta rock, apresentando-as através de algumas das suas letras mais eloquentes. É claro assim que, apesar de haver consenso, não há nesta selecção uniformidade, mas diferentes perspectivas, algumas delas contraditórias entre si.
Luís Maio

SENHORES DA GUERRA
BOB DYLAN

Vós, senhores da guerra
Que construís todas as armas
Que construís aviões da morte
Que construís grandes bombas
Que vos escondeis atrás de muros
Que vos escondeis atrás de secretárias
Quero que saibam
Que vejo através das vossas máscaras
Vós, que jamais fizestes outra coisa
Para além de construir para destruir
Brincais com o meu mundo
Como se fosse o vosso brinquedo privado
Dais-me uma arma para a mão
E escondei-vos do meu olhar
E virais costas e fugis para longe
Quando as rápidas balas traçam o ar

Como o velho Judas
Mentis e enganais
Quereis que acredite Que uma guerra mundial pode ter vencedor
Mas vejo através dos vossos olhos
E vejo através da vossa mente
Como vejo através da água
Que escorre pelo ralo

Preparais os gatilhos
Para que outros disparem
Depois recostai-vos e assistis
Ao crescer do número de mortos
Escondei-vos nas vossas mansões
Enquanto o sangue escorre
Dos corpos dos jovens
E se mistura com a lama

Suscitatstes o pior medo
Alguma vez provocado
Medo de trazer crianças
Ao mundo
Por ameaçardes o meu filho
Ainda sem corpo e sem nome
Não sois dignos do sangue
Que vos corre nas veias

O que é que eu sei
Para falar sem licença
Podeis dizer que sou novo
Podeis dizer que sou ignorante
Mas, duma coisa estou certo
Embora eu seja mais novo que vós
Nem Jesus perdoaria
Aquilo que fazeis

Deixai que vos faça uma pergunta
O vosso dinheiro é assim tão bom
Que vos compre o perdão
Acreditais isso possível
Quando chegar a vossa vez
Creio que descobrireis
Que nem todo o dinheiro que arrecadastes
Vos restituirá a alma

Espero que morrias
E que chegue depressa a vossa morte
Seguirei a vossa urna
Na tarde pálida
E estarei vigilante quando vos baixarem
Para o leito da morte
E ficarei sobre a vossa campa
Até estar seguro da vossa morte

“Masters of War” foi primeiro editada em “The Freewheelin’ Bob Dylan”, segundo álbum do cantor-compositor, datado de 1963. A canção é geralmente apontada pelos exegetas como exemplo, por excelência, do que é uma má canção de intervenção. Argumento: Dylan produz uma dicotomia crua entre os “senhores” de um lado e ele do outro, e as suas palavras são de todo destituídas de conteúdo político objectivo, sendo o seu ataque baseado em nada, para além do puro insulto.

O SOLDADO DESCONHECIDO
JIM MORRISON, DOORS

Espera até que a guerra acabe e sejamos ambos um pouco mais velhos
O soldado desconhecido treina-se onde as notícias são lidas
Na televisão, crianças por nascer, já mortas, vivas, vivas, mortas
As balas atingem a cabeça, por debaixo do capacete
E, para o soldado desconhecido, tudo acabou
Tudo acabou para o soldado desconhecido

COMAPNHIA: ALTO!
APRESENTAR ARMAS.

Preparem uma sepultura para o soldado desconhecido
Aninhado sobre o vosso ombro desguarnecido
O soldado desconhecido treina-se enquanto se lêem as notícias
Na televisão, crianças mortas, as balas atingem a cabeça, sob o capacete
Tudo acabou. A Guerra terminou.

“The Unknown Soldier” aparece pela primeira vez em 1968, no formato de single, antes de fazer parte do terceiro álbum da banda, “waiting For The Sun”. Vítima por excelência, longe de todos os heroísmos, o “Soldado Desconhecido” representa um dos símbolos mais tipificados do discurso pacifista. Na época do Vietname, cristalização e tudo o que a geração do “Flower Power” odiava. A televisão difundia então imagens de crianças mortas. Hoje, no pequeno ecrã, a guerra parece-se mais com um “videogame”.

DÊEM UMA OPORTUNIDADE À PAZ (1)
JOHN LENNON

Toda a gente fala de
Devastismo, desgrenhismo, pressionismo, louquismo,
Desordismo, rotulismo
Ismo para isto, ismo para aquilo, ismo, ismo, ismo
Tudo o que estamos a dizer é
Dêem uma oportunidade à paz.

Toda a gente fala de
Ministros, sinistros, balaustradas
Latas, bispos, peixarias,
Rabinos e olhos pop, adeus, adeus, adeuses
Tudo o que estamos a dizer é
Dêem uma oportunidade à paz

Deixem-me agora falar de
Revolução, evolução, masturbação,
Flagelação, regulação, integrações,
Meditações, Nações Unidas,
Parabéns.
Toda a gente fala de
John e Yoko, Timmy Leary, Rosemary,
Tommy Smothers, Bobby Dylan, Tommy Cooper,
Derek Taylor, Norman Mailer,
Alan Ginsberg, Hare Krishna,
Hare
Krishna.

“Give Peace A Chance” surgiu como single em 1969, assinado sob o rótulo “The Plastic Ono Band” (nome dado por John a várias formações com que gravou, esta incluindo Petula Clark e Allen Ginsberg). O tema foi escrito durante o chamado “período da cama”, forma de protesto do casal Lennon contra o belicismo, que se tornou em hino definitivo dos pacifistas. Já não pertence ao domínio da poética Beatles, mas ao estilo de jornalismo pragmático que o músico viria a colmatar em “Sometime In New York City”. A melodia e o refrão sloganístico justificam a popularização, o simplismo legitima as críticas de vazio fundante.
—-
(1) Texto basicamente intradutível, pelas constantes “invenções” e associações de palavras envolvidas. Na primeira estrofe, Lennon cria palavras acrescentando “ismo” a palavras que se podem traduzir por “devastação”, “desgrenhamento”, “pressão”, “loucura”, “desordem” e “rotulação”. Na segunda estrofe forma as palavras com os sufixos ingleses “ters” (“ministers”, “banisters”) e “Hops” (“bishops”, fishops”) que não permitem efectuar operação semelhante em português sobre os seus correspondentes. Já se pode fazer qualquer coisa, na terceira estrofe, traduzindo o sufixo inglês “tion” por “ção”, menos com “United Nations”.

PAZ – UM COMEÇO, PAZ – UM FIM
PETE SINFIELD, KING CRIMSON

Sou o oceano
Que a chama ilumina
“Paz” – é o meu nome.
Sou o rio
Que o vento aflora
Sou a história
Sem fim

“Paz” – é uma palavra
Do mar e do vento
“Paz” – é uma ave que canta
Enquanto sorris
“Paz” – é o amor
De um inimigo convertido em amigo
“Paz” – é o amor que dás
A uma criança.

Quando me buscas
Procuras por todo o lado
Esquecendo-te de olhar para o teu lado.
Quando te buscas
Procuras por todo o lado
Esquecendo-te de ver dentro de ti.

“Paz” – é um rio
Que brota do coração de um homem
E um homem do tamanho da aurora
“Paz” – é uma aurora
De um dia sem fim
A Paz é o fim, tal como a morte,
Da guerra.

“Peace – A Beginning” e “Peace – na End” constituem respectivamente a abertura e fecho de “In The Wake Of Poseidon”, segundo álbum de originais dos King Crimson, lançado em 1970. A guerra como metáfora do eterno retorno – morte e renascimento, somente transcendido pelo amor -, mensagem poética de Peter Sinfield, que acabaria por soçobrar diante da violência musical, estóica e luciferina de Robert Fripp.

MARCHAVAM EM FILAS
IAN CURTIS, JOY DIVISION

Bebiam e matavam por entretenimento
Fardados em uniformes impecáveis
Exibindo a vergonha dos seus crimes
Marcando passo marchavam em fila
Marchavam em fila

Traziam retratos das esposas
E chapas numeradas para se saberem vivos
Marchavam em fila
Marchavam em fila

Cobertos de glória nunca vista
Triunfaram através de toda a engrenagem
Para nunca mais questionarem
O hipnótico transe nunca visto
Marchavam em fila
Marchavam em fila

“They Walked In Line” do primeiro disco (o de estúdio, o outro é ao vivo) do duplo álbum “Still” dos Joy Division, compilação póstuma editada em 1981, na sequência do suicídio do cantor e autor das letras, Ian Curtis. Aparentemente, é uma condenação da guerra, mas a um nível mais profundo, em particular na articulação da sonoridade possessa da voz com o tom assombrado dos instrumentos, verifica-se que na atrocidade da chacina militar, como de resto em tudo o que é cruel, há um estranho e perverso fascínio para Curtis e companhia. Isso é, aliás, patente no nome da banda, inspirado na designação de um campo de concentração nazi no romance “A Casa Das Bonecas”.

1999
PRINCE

Estava a sonhar, quando escrevi isto.
Desculpem se devaneio,
Mas ao acordar hoje de manhã
Era capaz de jurar que era o dia do juízo final.
O céu estava todo púrpura, havia gente a correr por todo o

[lado]
Tentavam escapar à destruição e, sabes,
Eu nem sequer me preocupei porque, é como eles dizem…
2000 zero zero, a festa acabou, ups, o tempo esgotou-se.
Portanto, esta noite vou festejar como se fosse 1999.
Estava a sonhar, quando escrevi isto.
Por isso desculpem-me se alucino.
Mas a vida não passa de uma festa
E as festas não foram feitas para durar.
A guerra circunda-nos por todos os lados,
O meu espírito diz-me que me prepare para combater.
Então, se vou morrer, vou escutar o meu corpo porque, é como

[eles dizem…
2000 zero zero, a festa acabou, ups, o tempo esgotou-se.
Portanto, esta noite vou festejar como se fosse 1999.
Se tu não vieste para festejar,
Não vale a pena bateres-me à porta,
Tenho um leão no bolso
E, querida, ele está pronto a rugir.
Toda a gente tem uma bomba,
Podemos todos morrer um dia destes.
Mas antes que deixe que isso aconteça
Vou morrer a dançar porque, é como eles dizem,
2000 zero zero, a festa acabou, ups, o tempo esgotou-se.
Mamã— Porque é que toda agente tem uma bomba?

“1999” do duplo LP homónimo, de 1982. Foi o disco que lançou Prince na primeira divisão dos tops mundiais, o que se deve atribuir, em particular, à faixa do mesmo nome. Dois traços originais e complementares: a articulação da síndrome da guerra com a diversão, a orquestração do terror do genocídio com ritmos infectadamente dançantes. Muitas estrelas pop reflectiram sobre a pop, mas poucas, como sua alteza de Minneapolis, propuseram uma solução. Pela provocação: se a guerra pode rebentar a cada instante, o melhor é não esperar e começar já a aproveitar a vida. Dionísios contra Apolo em versão acção directa.
——
Nota: uma vez que a primeira prensagem em CD incluía menos uma faixa que a edição original em vinil (para caber num só compacto), a Warner acaba de lançar uma reedição integral em laser.

CONSTRUÇÃO NAVAL
ELVIS COSTELLO / ROBERT WYATT

Valerá a +ena?
Um casaco de Inverno, novo, e um par de sapatos para a mulher
É uma bicicleta pelo aniversário do rapaz
Não passa de um boato que as crianças e as mulheres espalham pela cidade
Em breve construiremos navios
Vejam bem
O rapaz disse: “Papá, vão dar-me emprego
Mas estarei de volta pelo Natal”.

Não passa de um boato espalhado pela cidade
Alguém disse que houve quem ficasse com cadastro
Só por dizer que as pessoas morrem
Em consequência da construção naval.
Francamente…
Mergulhar por uma questão de sobrevivência
Quando podíamos fazê-lo para apanhar pérolas…

Não passa de um boato espalhado pela cidade
Culpa de um telegrama ou de um postal ilustrado.
Dentro de semanas voltarão a abrir o estaleiro
E a notificar os parentes mais próximos.

“Shipbuilding”, original de Elvis Costello incluído no álbum “Punch The Clock”, de 1983, transformou-se em melancólico grito de protesto na voz de Robert Wyatt, editado em single no mesmo ano e posteriormente na minicolectânea “1982-1984”. Comentário à guerra das Malvinas que a cadência lenta e cinzenta do ex-baterista dos Soft Machine e actual comunista convicto tornou imortal. A Inglaterra crepuscular ou o mundo que envia os seus filhos para o naufrágio, com palmadinhas nas costas e promessas de medalhas. “The United States of Amnesia” e “East Timor” são outras tantas canções de Wyatt. Mas só “Shipbuilding” atingiu os tops…

A GUERRA
EDWIN STARR / BRUCE SPRINGSTEEN

A guerra
Serve para quê?
Absolutamente para nada

A guerra é, para mim, desprezível
Porque implica a destruição de vidas inocentes
A guerra faz brotar lágrimas dos olhos de milhares de mães
Cujos filhos vão combater, sacrificando a vida.

A guerra
Limita-se a destroçar corações
A guerra só interessa aos cangalheiros
A guerra é inimiga da Humanidade inteira.
Só de pensar nela, enlouqueço
É um legado que, de geração em geração,
Induz à destruição.
Quem quererá morrer?

A guerra reduziu a pó os sonhos de muitos jovens
Ao torna-los deficientes, amargos e mesquinhos
A vida é demasiado preciosa para ser desperdiçada em guerras, todos os dias
A guerra não pode dar a vida só tirá-la

Limita-se a destroçar corações
A guerra
Só interessa aos cangalheiros
Paz, amor, compreensão
Tem de haver um lugar, hoje, para estas coisas
Dizem-nos que temos de lutar para preservarmos a nossa liberdade
Mas, Senhor, tem de existir um processo melhor
Melhor que a guerra.

A “War”, segundo o original de 1970 de Edwin Starr, passou, sem que a levassem muito a sério, pelos Frankie Goes To Hollywood, até atingir a notoriedade, em 1985, na voz cristã e muito americana de Bruce Springsteen. Foi a leitura de “Borna t the 4th of July” de Ron Nevic que levou o “boss” à elaboração de “Born in the USA”, enésimo exorcismo dos fantasmas complexos, não resolvidos, do Vietname. Qual o sentido que faz hoje gritar que a guerra é “desprezível” e “não serve absolutamente para nada”? O rock servirá ainda para despertar os adormecidos?

OS DIAS DE ARMAGEDÃO ESTÃO À PORTA (DE NOVO)
THE THE

Estão a oito mil metros de altura voando em linha recta, deixando
[um rastro de vapor contra um céu vermelho de sangue.
Vêm de Oriente para Ocidente com gorros Balaclava (1) nas
[cabeças… Sim!

Mas se pensas que Jesus Cristo está para regressar,
Meu amor, é outra coisa a chegar.
Se alguma vez ele descobrir quem lhe contrabandeou o nome,
Extirpará o coração e revolver-se-á na campa.

O Islão está a crescer.
Os Cristãos mobilizam-se.
O mundo está de rastos,
Esqueceu a mensagem e idolatra os dogmas.

“É a guerra”, gritou ela…
“É a guerra”, gritou ela…
“Isto é a guerra!”
Larga os teus bens, ó povo simples.
Hás-de combatê-los nas praias… em roupa interior.
Hás-de agradecer ao bom deus por erguer a bandeira britânica.
Hás-de ver os barcos sair da barra e os cadáveres voltarem a
[boiar.

Se o verdadeiro Jesus Cristo hoje se erguesse,
Seria alvejado a sangue frio pela CIA,
Oh, as luzes que agora mais brilham por trás de vidros coloridos
Projectarão as mais negras sombras sobre o coração humano.
Mas Deus não edificou para si esse trono.
Deus não vive em Israel ou Roma.
Deus não pertence ao cabaz do dólar ianque.
Deus não lança bombas contra o Hezbollah.
Deus nem sequer vai à igreja.
E Deus não nos manda morrer por Alá.
Não, Deus lembrar-nos-á o que já sabemos – Que a raça humana está prestes a colher o que semeou.

O mundo está de rastos,
Esqueceu a mensagem e idolatra os dogmas.
Os dias de Armagedão estão à porta… de novo

“Armageddon Days Are Here (Again)” de “Mind Bomb”, terceiro álbum de Matt Johnson, sob a designação The The, datado de 1989. Até ao momento, o álbum mais comprometido do autor é, nas suas palavras, “acerca das forças ocultas que estão por trás de todas as coisas”. Parte crucial desse álbum conceptual, a faixa que aqui se refere, constitui uma das melhores reflexões de origem musical sobre as causas do escaldante ambiente no Médio Oriente, colocando judiciosamente o acento nas fricções de ordem religiosa e opondo a verdadeira espiritualidade ao cego fanatismo gregário, tanto a Ocidente como a Oriente.
———
(1) Espécie de gorros, em malha metálica, vulgarizados pelos guerreiros da Idade Média.

TRADUÇÃO E COMENTÁRIOS
DE: FERNANDO MAGALHÃES E LUÍS MAIO

Luís Cília – “Em Público” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira, 22.12.1993


LUÍS CÍLIA *
EM PÚBLICO


Já por diversas ocasiões referiu o medo que sentia em tocar ao vivo. Nunca conseguiu libertar-se dele?
– É uma coisa que nasce com as pessoas. Há aqueles, como eu, que hão-de ter medo sempre. Os franceses chamam-lhe “trac”. O Ferré tinha. No meu caso, é daquelas coisas um bocado inexplicáveis porque, apesar do pavor que tinha do palco – tinha que ir para as salas duas horas antes e não largava a guitarra, a rememorar as canções e a fazer escalas, um estado de nervos enorme -, quando estava no palco e o espectáculo corria bem, claro que sentia um grande prazer. E não era só no palco. Dois dias antes já estava nervoso. Voltei a tocar há pouco tempo, excepcionalmente, para uma homenagem ao cantor catalão Raimon, e andei um mês só a tocar duas coisas. Foi para um espectáculo directo na televisão, num sítio com 19 mil pessoas, em Barcelona, andei em pânico. Entraram o Paco Ibanez, o Pete Seeger, o Ferrat, o Pi de la Serra, o Daniel Viglietti…

Não encara a hipótese de voltar a actuar ao vivo?
– No estado em que está actualmente o aspecto cultural e, sobretudo, dos espectáculos em Portugal, não me dá grande vontade de voltar. Quando regressei de França tentei instituir, em vez de fazer um grande espectáculo por ano, alugar uma sala por dez, quinze dias, como fiz há alguns anos na Comuna e no Teatro Aberto, e no porto, no TEP. O problema é que em Portugal se prepara um espectáculo e depois fazemos em Lisboa, no Porto, talvez em Coimbra, e depois ficamos à espera… É pouco gratificante. Ainda agora, por exemplo, vi os espectáculos do Sérgio no São Luiz, de que gostei muito, e pronto, depois fica-se à espera que alguém convide para um, depois para outro, não há uma continuidade que permita fazer uma “tournée” durante seis meses seguidos, em pequenas cidades. Quando vivia em França, ia por exemplo à Bretanha e fazia quinze espectáculos em salas pequenas. Era o que eu gostaria de fazer cá, nem que fosse para tocar para 30 ou 40 pessoas, mas com continuidade.

Além dessa, houve outras razões que o tenham levado a abandonar os espectáculos ao vivo?
– Não foi uma decisão que tivesse tomado de repente. De facto, de cada vez em que preparava espectáculos, havia músicos que colaboravam e ensaiavam comigo em minha casa durante uns dois meses, os últimos dos quais foram o António Ferro e, se não me engano, o José Peixoto. Claro, não podia pagar-lhes os ensaios. Cada vez era mais angustiante não haver a tal continuidade. Por outro lado, comecei a ter convites para compor, na área do bailado, o que me tomava bastante tempo. Comecei também a dedicar-me à informática. Tive que fazer uma escolha.

Ainda há muita gente que associa o seu nome ao músico de intervenção, sem referir o compositor. Ter-se-á dado o caso de um excessivo envolvimento ao nível partidário, em concreto com o PCP, para quem compôs, aliás, o hino do partido.
– Não posso fazer nada quanto a isso. Em Portugal há uma certa inérciamental demuita gente em tentar conhcer as várias facetas de um compositor. As pessoas ficam à espera que lhes tragam a papinha toda feita e não querm saber o trajecto de um determinado músico. O que eu faço actualmente é composição. Agora se isso chega ou não ao conhecimento das pessoas, ou se leas continuam com a imagem do baladeiro de metralhadora em punho… Sobre o tema do “Avante”, é muito simples: um dia estava em casa e o Carlos Antunes, um funcionário do PC, chegou ao pé de mim e pediu-me para fazer uma música para passar na rádio clandestina, que tivesse um certo impacto. Fiz aquilo em quatro ou cinco dias, acho que não tem valor nenhum, era uma coisa imediatista, entreguei a pauta ao Carlos Antunes e nunca mais pensei nisso, nem sequer sei a letra. Não é que renegue o que faço. Mas o trajecto que essa canção teve depois disso já me ultrapassou.



Consegue situar o ponto de viragem na sua carreira?
Quando estudei composição, estudei os clássicos. Como comecei tarde, utilizei um método um bocado rápido de estudar harmonia e contraponto, o método de Schoenberg. Sempre me interessei pela música clássica. Dos cerca de 4000 discos que possuo, metade são de música clássica. E tive lições de guitarra de jazz com o Carlos Menezes. A canção foi, em França, o meio que tinha para me exprimir naquela altura, de uma forma política e directa.

Não gostaria de retomar o formato de canção? Abandonou de todo a faceta intervencionista, mesmo fazendo-o por outras vias musicais?
– A minha intervenção agora é mais emotiva. Politicamente, neste momento, não tenho nenhuma intervenção. Porque não sou solicitado nesse sentido e porque o quadro político português neste momento deixa-me um bocado indiferente. O que não quer dizer que não me continue a sentir uma pessoa de esquerda.

Essa indiferença não pressupõe um certo comodismo?
– Como dizia o Jô Soares: amancebei-me [risos]. Não, penso que não. Estou desperto para o que se passa e folgo com as vitórias das forças progressistas, sejam elas quais forem. Mas não sou interveniente, não vou cantar a campanhas… Também ninguém me pede!…

Se pedissem, intervinha?
– Depende… Se fosse absolutamente necessário, era capaz de intervir. Por exemplo, achei que era interessante e importante, porque era uma tomada de posição, participar no tal espectáculo de homenagem ao Raimon. Quis mostrar que estava ali e que ainda estou, se for preciso. Mas também acho que em Portugal aquele grande movimento da canção que houve depois do 25 de Abril – um movimento fortíssimo – se diluiu. Cada um foi para o seu lado. É pena.

O seu trabalho actual de composição para bailados não será em parte um refúgio? Por que motivo não voltou a editar discos que não fossem trabalhos de encomenda?
– Talvez haja um bocado de inércia da minha parte. Eu estava habituado a trabalhar com editoras, até um certo momento, em que havia uma relação de absoluta confiança entre o artista e a casa editora. Em França tive um editor, o Moshe Naim, a quem eu pedia para marcar o estúdio e ele só ouvia o disco no fim. Por cá, com a Sassetti, foi o mesmo tipo de relação. Hoje tem que se fazer cassetes e andar a mostrá-las, eu recuso-me a entrar nesse esquema. Tenho material suficiente para gravar um disco e estou a pensar editá-lo, mas sou um bocado preguiçoso nesse aspecto, ter de procurar uma editora.

Para além das tais composições por encomenda, não tem outros objectivos musicais?
– Sinto um especial prazer em fazer esses trabalhos que não implicam qualquer tipo de sacrifício da minha parte. Mas também gostaria de produzir discos, mas lá está outra vez a minha inércia. Fiz a produção do disco da Né Ladeiras, “Corsária”, que depois não tece seguimento. Talvez não ande à procura. E as pessoas talvez continuem com a tal imagem que referia há pouco.
Quando laguém quer fazer um disco, não selembra de mim como produtor, que é uma coisa que eu penso que poderia fazer bem, sem falsas modéstias. Em termos gerais, não vou dizer como o Picasso: “O que procuro, encontro.” Mas enfim, todos os dias trabalho no meu estúdio. Se não são encomendas, é o estudo. Depois, em Portugal, uma pessoa não pode ter grandes ambições.

Em França tinha outro tipo de oportunidades, mas apesar disso voltou…
– Era um exilado, as condições que me obrigaram a esse exílio acabaram, portanto voltei. E quando voltei vi que as coisas, mentalmente, não tinham evoluído muito. Mesmo hoje não creio que haja condições em Portugal para que se possa fazer uma carreira aqyui.

Disse uma vez que foi “a febre dos tops que acabou por dar cabo disto tudo”…
– Havia em Portugal um movimento de canção de textos que era muito respeitado. Mas num determinado momento começou-se a querer entrar nos tops à força. Passou a haver uma concorrência mesmo entre os cantores daquela área. Isso acabou por desvalorizar opróprio movimento. Por mim, sempre tive a consciência de que a música que fazia era minoritária. Nunca pretendi com osmeus discos, ser um rei de vendas. Creio que o grande erro foi as pessoas que estavam na minha situação tentarem entrar naquele esquema. Sei que com a música que fazia nunca poderia ir ao Coliseu. O meu trajecto era outro: tocar em pequenas salas, durante mais tempo. Tentar encontrar um público que me seguisse ao longo dos anos.

* Cantor e compositor, de música de intervenção nos anos 60, às actuais peças electrónicas feitas em computador. Autor do hino do PCP, “Avante camarada”, tem gravados e editados, em Portugal e em França, 18 álbuns, entre os quais “Portugal, Angola – Chants de Lutte”, três volumes de genérico “La Poésie Portugaise”, “Contra a Ideia de Violência, a Violência da Ideia”, “Memória”, “Transparências”, “O Peso da Sombra” (sobre poemas de Eugénio de Andrrade), “Cancioneiro” (com temas tradicionais), “Sinais de Sena” (sobre poemas de Jorge de Sena), “Penumbra” (idem, de David Mourão Ferreira) e “A Regra do Fogo”. Entre as encomendas contam-se música para peças de Strindberg, Pasolini, Agustina Bessa-Luís e Marguerite Yourcenar, e coreografias de bailado de José Seabra, Rui Nunes, Paulo Ribeiro, Rui Horta e Clara Andermat. Trabalha actualmente numa peça a levar à cena pelo Centro Dramático de Évora, da autoria de Valle Inclam, com encenação do espanhol Pedro Alvarez Ossorio.

Filipe La Féria e João Paulo Soares + Vários: “As Maiores Vozes Do Teatro Português” (dossier / teatro / revista / compilação))

Pop Rock >> Quarta-Feira, 18.11.1992


AS MAIORES VOZES DO TEATRO PORTUGUÊS

Filipe La Féria e João Paulo Soares não têm falsas modéstias. Para eles, “Passa por mim no Rossio” é mesmo um marco do teatro português. E o disco acabado de ser lançado no mercado, uma “peça rara” que ficará para a eternidade. O êxito desta “banda sonora” do teatro das nossas nostalgias está, à partida, assegurado.



“Passa por Mim no Rossio” foi um dos grandes êxitos de sempre do teatro português. Quase dois anos em cena, filas de quilómetro, desde a madrugada, à porta do D. Maria, na esperança de arranjar bilhete, foram sinais de um fenómeno tornado raro em Portugal – o sucesso popular. A revista portuguesa revista e actualizada por Filipe La Féria jogou com as recordações de uma Lisboa mítica e ganhou. De “enfant terrible”, La Féria passou a “menino de ouro” do patriarcado de Santana Lopes. Agora segue-se o disco, um duplo-álbum composto, arranjado e organizado por João Paulo Soares e com textos escritos por La Féria. Simone de Oliveira e Luís Madureira são os principais cantores. A festa passa, assim, do palco para as colunas de uma aparelhagem. A magia não é a mesma, mas o efeito de Pavlov permanece, talvez até mais eficaz. Lá estão as vozes, bem simuladas, que aprendemos a venerar: Palmira Bastos, Amélia Rey Colaço, Beatriz Costa, Ribeirinho, Vasco Santana, António Silva, Milu, Amália Rodrigues, Hermínia Silva, Laura Alves, Raul Solnado, José Viana e tantos outros que fizeram da revista portuguesa o espelho das ânsias e alegrias do zé-povinho. Passemos por eles. Sempre e em qualquer lugar.



João Paulo Soares e Filpe La Féria são os autores, respectivamente da música e dos textos, de “Passa por Mim no Rossio”, o álbum duplo que ficará como testemunho sonoro da revista do mesmo nome. O PÚBLICO conversou com ambos, nos bastiadores do teatro Variedades, onde se ultimam os pormenores da “Grande Noite” encenada por La Féria, série sobre a revista portuguesa que a RTP apresentará a partir da noite de fim de ano. Antes ainda de “Maldita Cocaína”, ópera-rock que o autor vai levar à cena em 1993 no remodelado Politeama.
PÚBLICO – O ambiente do disco reproduz bastante bem o tom festivo da peça…
JOÃO PAULO SOARES – Foi gravado como se fosse um espectáculo ao vivo. Tem uma ambiência de “ao vivo”. Apesar de ser gravado em estúdio, não tem qualquer tipo de frieza. Houve a intenção de não perder o calor do espectáculo.
P. – Como se processou a composição das canções? Partiu de temas antigos como base?
J.P.S. – O espectáculo é uma viagem, uma história da revista que começa no final do século XIX. Houve uma recolha das canções já existentes e textos escritos propositadamente pelo Filipe La Féria. Eu compus à medida que as canções foram sendo englobadas numa determinada época. Digamos que compus ao estilo da época.
P. – Os textos foram trabalhados da mesma maneira?
FILIPE LA FÉRIA – Foram recolhidos e adaptados. Tivemos o cuidado de resumir e dar às pessoas que não viram o espectáculo uma visão global. Alguns textos foram encurtados e adaptados de maneira a formarem um todo.
P. – Até que ponto o a´lbum vale pela música e não como objecto-fetiche da peça?
F.L.F. – Acho que o disco vale por si só. É o registo de um espectáculo que se tornou histórico e numa referência, a partir de agora, de todo o teatro português. Houve milhares e milhares de pessoas que não viram o “Passa por Mim no Rossio”. A peça esteve um ano e meio no Nacional, como podia ter estado dois, três ou quatro, tal como acontece em Londres. Neste caso, provocou uma enorme polémica por estar a ocupar um espaço do Teatro Nacional que deveria ser para o teatro de reportório. Isso foi a razão principal de, precipitadamente, se tirar de cena um espectáculo que esgotava e esgotaria ainda as lotações. Mas pronto, em Portugal as coisas são muito originais – O Teatro Nacional tem agora vinte ou trinta espectadores por noite, está tudo muito contente e feliz.
P. – O álbum não deveria ter saído há mais tempo, enquanto a peça estava ainda em cena?
F.L.F. – Acho que este disco já podia ser de prata, de ouro, de platina, de cobre… Espero que na nossa próxima produção, “Maldita Cocaína”, no dia da estreia estejam o CD, o disco e a cassete à venda.
P. – Assim é mais uma recordação…
J.P.S. – O disco é um objecto completo que funciona por si próprio. Acho que não estou a ser imodesto se disser isto.
P. – O disco reproduziu a totalidade da música do espectáculo?
J.P.S. – Só metade. Ainda faltam bastantes coisas.
F.L.F. – Isso não é muito comercial dizer… Este disco, antes de ser lançado, já é uma peça rara porque, pela primeira vez, vai haver um registo das vozes dos maiores actores do teatro português. Como sabe, devido ao incêndio da Valentim de Carvalho no Chiado, perderam-se muitos dos registos históricos da revista: Vasco Santana, discos da Beatriz… todos os grandes nomes. Neste disco ficaram registadas as vozes já imoratais de Eunice Munoz, Ruy de Carvalho, Lurdes Norberto, Fernanda Borsatti, Varela Silva, São José Lapa, Maria Amélia Matta, Manuel Coelho, Henriqueta Maya, Simone de Oliveira, são tantos…
Daqui a 20 ou 30 anos, as pessoas vão dizer deles o mesmo que eu dizia quando ouvia a minha avó falar da Satanela e do Amarante. O melhor é comprarem o disco já porque vale dinheiro e é uma peça rara que vai ficar em casa!
P. – Qual o papel de Alexandre Soares na produção?
J.P.S. – Foi a pessoa que conseguiu reunir esforços, que deu o pontapé de saída nas negociações e serviu de intermediário com o David Ferreira. O Luís Madureira tomou mais conta da parte artística e da qualidade vocal em particular.
P. – Em que ponto se encontra a ópera-rock “Maldita Cocaína”?
F.L.F. – Estamos só à espera das obras do teatro Politeama. Há uns papéis do Tribunal de Contas que ainda não vieram e as obras ainda não se iniciaram. Por mim, é um projecto que acalento com mais emoção. Com “Passa por Mim no Rossio” e a próxima série de televisão, A Grande Noite, espero fechar o ciclo da revista.
P. – Nota-se em si a preocupação de estar em todos os aspectos ligados à produção de um espectáculo, desde a parte artística até à promoção…
F.L.F. – Acho que sim. Hoje em dia tudo tem que ter o seu “marketing”, não é? Ainda noutro dia fui escolhido por um grupo de alunas (isto é uma coisa anedótica) que estão a estudar “marketing” como a personalidade ideal para ilustrar a sua tese. Talvez seja um jeito natural em mim, porque nunca tirei nenhum curso de “marketing”.
P. – Afirmou uma vez que o apaixonavam as coisas efémeras…
F.L.F – Em Portugal temos uma visão muito viciada, muito “demodée”, da arte. A arte não tem nada que modificar totalmente as pessoas. Se criar uma pequenina mancha no seu cérebro já é muito bom. Ou se lhes der felicidade, ou alegria. É tão difícil, numa vida tão triste como nós temos, numa sociedade tão opressiva, numa cidade tão triste como Lisboa – que tem todos os vícios e defeitos das grandes cidades sem ter talvez as suas virtudes -, haver a festa, o lado festivo que temos obrigação de procurar na vida… Como se explica que o público esteja tão esfomeado que vá às quatro horas da manhã para uma bicha só para ver um espectáculo, como aconteceu com o “Passa por Mim no Rossio”? Como é possível que nós os intelectuais, os artistas, nos tenhamos fechado tanto em nós próprios, até ao extremo egoísmo de não olharmos para o nosso semelhante?
P. – Não receia que o público mais jovem não seja sensível ao disco?
F.L.F. – Você e eu ainda tivemos a felicidade de ouvir o Vasco Santana dizer: “Ó Evaristo, tens cá disto?” Isso foi tudo cortado. Há tempos, estava aqui a ensaiar uns jovens que queriam entrar na “Grande Noite” e tive que lhes ensinar as marchas de Lisboa! Veja a vergonha: liga-se a televisão e vê-se tudo a desfilar em Copacabana! Houve pessoas que convidei que não sabiam onde era o Parque Mayer! Embora seja preciso dizer que os jovens acorreram a ver “Passa por Mim no Rossio”.
P. – Não terão vindo atraídos pelo “kitsch”, agora muito na moda? Hoje os putos são capazes de achar piada ouvir a Simone…
J.P.S. – Eu não fui buscar o “kitsch” à Simone. De todo. Aproveitei antes o seu lado físico, visceral. A Simone é uma mulher com uma força brutal a cantar. Os números musicais dela são os mais difíceis e equilibrados de todo o disco.
P. – Simone de Oliveira será então uma presença aglutinadora no disco?
J.P.S. – A Simone de Oliveira funciona como Simone de Oliveira. O número principal do espectáculo, “Cabaré”, foi escrito de propósito para a Simone. Ele é a Simone.
P. – O álbum surge numa altura em que estão muito em voga os discos de versões de canções antigas. Por outro lado, não existe neste caso quelaquer espécie de reconversão. Os arranjos são o mais clássico possível.
F.L.F. – O João Paulo Soares teve o bom-gosto de não modernizar, no mau sentido, os temas. Deu-lhes sim um carácter de época, mas que passou pelo interior dele.
J.P.S. – Não gosto nada das pessoas que aparecem por aí com grandes orquestras e tudo em ritmo de 2disco” a cantar ”hits”. Acho uma coisa arrepiante. Por outro lado, acho que não seria útil, só por questões de fidelidade, trazer uma típica orquestra de revista do Parque Mayer que fosse má. É uma questão de bom-gosto.





O PESO DO EFÉMERO
VÁRIOS
Passa Por Mim No Rossio
2xLP, MC, CD EMI-VC



Como encarar um objecto deste tipo? Como um “budget”, uma lembrança, um complemento da peça teatral? Ou, pelo contrário, como uma obra autónoma com vida própria, independente dos alicerces do teatro? “Passa por Mim no Rossio”, o disco, é um pouco as duas coisas. Agora que a peça saiu de cena, o disco, um duplo com a chancela de João Paulo Soares na composição, arranjso e orquestração, e do próprio Filipe La Féria, nos textos, funcionará para quem viu a revista como uma espécie de testemunho póstumo, um eco remanescente do acontecimento original.
Depois, para quem, ao longo de meses e meses não esteve para se levantar às cinco da manhã para conseguir um hipotético ingresso no D. Maria II, o disco pode ser um substituto, um prémio de consolação de mais cómodo acesso. Faltam as imagens, a presença física dos actores e dos cenários, mas afinal as vozes e as canções continuam a exercer todo o seu fascínio. Curiosamente, um dos aspectos de que “Passa por Mim no Rossio” se poderia ressentir – a falta de ambiente da representação ao vivo – acaba por não se notar, pese embora tratar-se de uma gravação de estúdio. Aplausos, aqui, para João Paulo Soares, cuja inspirada partitura conseguiu fazer esquecer o colorido e a excitação do espectáculo “in loco”. O compositor optou, e bem, por uma escrita ostensivamente “passadista”, fugindo à tentação de modernização que poderia comprometer todo o projecto. Os textos de La Féria acaompanham a música no mesmo processo.
“Passa por Mim no Rossio” alterna as canções com pequenos apontamentos de diálogos, temas popularuchos com momentos de forte carga dramática, estes últimos quase sempre invocados por Simone de Oliveira de quem João Paulo Soares soube aproveitar ao máximo as potencialidades. Onde outros poderiam ter cedido à facilidade de valorizar o “kitsch”, o compositor ignorou as modas, preferindo antes firmar-se na tradição. O recerso da medalha está em que o disco poderá passar ao lado das prioridades de escuta das gerações mais novas, a quem os nomes dos grandes actores da revista portuguesa das décadas douradas de 30, 40, 50 e 60 pouco ou nada dirão.
Trata-se então de um disco destinado a alimentar a nostalgia dos mais velhos? Em parte sim. Será essa, provavelmente, a faixa de consumidores mais alargada. Por outro lado tal facto poderá ser compensado por um certo efeito “perverso” decorrente da simples existência do disco, a cujos autores não poderão ser imputadas responsabilidades. É que, se como já se disse, a redução ao “kitsch” é cuidadosamente evitada, nem por isso certa fatia de público deixará de ver nele o artefacto por excelência do mau-gosto tornado objecto de luxo, ainda nates de qualquer audição. Poder-se-á inferir que os autores se estarão nas tintas para isso e que apenas lhe importará que o disco atinja índices de êxito, senão maiores, pelo menos semelhantes aos da peça teatral. Não é um problema do foro artístico propriamente dito mas dá que pensar.
Estamos afinal perante a ambiguidade total e há que reconhecer a João Paulo Soares e Filipe La Féria o terem sabido fazer, na altura certa e com o sentido de oportunidade, uma jogada de mestre. Mas não era, no fim de contas, já “Passa por Mim no Rossio”, enquanto encenação e reconstrução da memória, esse jogo de remet~encias para ambiguidades de vária ordem. Entre o assumir-se como uma revista “à antiga portuguesa” e, na prática, como uma estilização e redução a esboços e caricaturas de todos os ingredientes que no passado eram a essência dessa mesma revista? Eis o cerne da arte de La Féria, esta capacidade de trocar as voltas e os olhos a quem anda e olha para onde os seus sonhos apontam. Mesmo que ele, com a insustentável leveza do artista, se autoproclame apóstolo do efémero. (7)