Arquivo da Categoria: Televisão

filme “Brincando Com O Inimigo) – “MOBY, QUÊ? – Brincando Com O Inimigo” (filme)

rádio e televisão >> segunda-feira, 01.05.1995


MOBY, QUÊ?
Brincando Com O Inimigo
Canal 1
Filme


NÃO FIXEI o nome do tradutor do filme “Brincando com o Inimigo” (“Demonic Toys”, no original) que o Canal Um da RTP passou na madrugada de sábado, na chamada “Sessão Dupla”. Agora, “a posteriori”, depois de ter ouvido o que ouvi e de ter lido o que li, tenho pena. Mais que não fosse, para o (ou a, seja lá quem for, é um verdadeiro criativo) felicitar. É que não todas as noites que o limite é ultrapassado. Das leis da tradução e da razão. E o tradutor de “Brincando com o Inimigo” ultrapassou-as.
Foi assim. Corria a pacata acção, com uns bonecos diabólicos, género “Chucky”, a fazerem a vida negra aos marmanjões de carne e osso, quando o impensável aconteceu. Uma das cenas mostra um dos bonecos a arrastar uma das vítimas humanas – por sinal bastante gorda – por umas escadas abaixo. Eis senão quando, visivelmente incomodado com o peso da vítima, o boneco não se contém e chama à dita vítima: “You, Moby Dick!”, uma maneira literária e até certo ponto cortês de lhe chamar “ó baleia!”.
Zás! O que ele foi dizer! Para o tradutor, a quem, ao longo de todo o filme não escapou um único palavrão, tanto bastou para se encher de brios e escarrapachar por baixo da imagem a respectiva tradução: “Seu Moby-pila!”.
O impacte foi tremendo. Antes porém da vaga de fundo, como um “tsunami”, varrer à gargalhada a consciência, gerou-se na sala um silêncio de sepulcro. Ninguém compreendeu logo. Ninguém queria acreditar. Seu “moby-quê”? A verdade surgiu como um raio. Fulgurante e mortífera. “Seu moby-pila!”. O artista, vá lá saber-se porquê, fizera a tradução do calão “dick”. Assim, pela metade, quiçá num obscuro desejo de equilíbrio, numa original combinação da exactidão do cientista com a brandura casta do seminarista.
O choque justificava-se. Não só pelo facto de ter sido violada uma das regras básicas que impede a tradução dos nomes-próprios (as excepções existem, em nome de um bom trocadilho, por exemplo, mas nunca desta forma) mas também pelas suas óbvias implicações freudianas.
“Moby-pila”. Não, “Brincando com o Inimigo”, não é um filme erótico. Nada, nem antes nem depois, fundamenta o sucedido. Que filme estaria então a passar na mente do tradutor? Estaria ele a trabalhar imediatamente após o visionamento de um episódio da “Playboy”? Mas nem sequer era na SIC… Ou estaria ele (ou ela?…) a pensar numa marca comercial de próteses anatómicas, do estilo “Dinky toys”?
Talvez nunca venhamos a saber. Talvez o mistério permaneça inviolável pela eternidade. O que sabemos é que a partir de “Moby-pila” a pureza de olhar deixou de ser possível. Nunca mais veremos um filme como “Mary Poppins” com os mesmos olhos e a mesma inocência. Que diremos nós aos nossos filhos sobre aquela cena em que o actor Dick van Dyke aparece a saltar nos telhados de Londres? Como ousaremos encará-los de frente e explicar-lhes que se trata simplesmente de um “dick” aos saltos?
Desopilante, se me é permitida a expressão!

António Carlos Jobim – “Samba De Um Homem Só”

televisão e rádio >> quinta-feira, 02.09.1993
DESTAQUE

Samba De Um Homem Só

ANTÓNI CARLOS JOBIM, Tom Jobim, cronista do Rio de Janeiro, das praias do Ipanema, inventor da bossa-nova. Mito da música popular brasileira. Desafinado ou não. Esteve no ano passado nos Jerónimos. Acompanhado de “cinco raparigas lindas” e da solidão. “Com a idade, primeiro vão-se as moças, depois os rapazes, até que a gente fica sozinho.” Samba de uma nota só.
Habituámo-nos a pensar na música brasileira como uma bacanal de alegria. Como se o Brasil fosse só samba. E samba fosse igual a essa alegria. Não é. Tom Jobim ensinou-nos que não é. E inventou uma tristeza que sabe bem. Chamou-lhe Bossa-nova. Nostalgia que afinal também cabe dentro da alma brasileira. Tom Jobim garante que descende de portugueses da zona do Douro. Terá aprendido connosco a envergatr o fraque da tragédia.
O samba é negro. Irrompe das favelas. Batuque de incêndio que criou raízes na escravatura. Samba é Pelé e carnaval. O resto apenas vida. Bossa-nova é mais distância. Silhueta do crepúsculo. Um entardecer em Ipanema que parece não ter fim.
Tom Jobim cantou entre nós, em cenário secular de História tendo por fundo o mar. Trouxe consigo a família, a ironia e música para se ouvir baixinho. Danilo Caymmi, Duduca, Márcio Mallard, Tião Neto e Paulo Jobim encarregaram-se das notas instrumentais. Paula Morelembaum, Ana e Elisabeth Jobim, ymmi, as “raparigas lindas”.
Admirador de Villa-Lobos, que considera o maior músico brasileiro de sempre, António Carlos Jobim recusa-se a reivindicar em exclusivo para si próprio o título de inventor da bossa-nova. Refere o nome de João Gilberto, claro, aproveitando para elogiar Caetano Veloso, Ary Barroso, Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil, todos grandes vultos da MPB.
Hoje, Tom Jobim olha em redor, dando a vez aos novos. Aparentemente já não há lugar para a simplicidade e o som acústico que sempre caracterizaram a sua música, substituídos, no seu entender, pela tecnologia e por uma “música violenta” em sintonia com o “mundo violento em que vivemos”. Não desapareceu contudo o observador atento, armado de uma ironia fina. Ecológico, Tom Jobim, estende um sorriso largo sobre o “mundo paradisíaco” em que vivemos. “Talvez dê para salvar um pouquinho, talvez sobrem algumas árvores…” Nos Jerónimo, abandonou por instantes o português, essa “língua maravilhosa”, para cantar em inglês um tema encomendado pela Eco 92: “É tudo igual. Flor é ‘flower’, hora é ‘hour’, informação é ‘information’…” Tom Jobim encerrou o concerto dos Jerónimos com “Chega de saudade”. Mas a saudade ficou.
TOM JOBIM NOS JERÓNIMOS
TV 2, às 19h05

Vicente Amigo, Paul McCartney – “Vencedores e Vencidos” (televisão)

local >> sexta-feira >> 16.04.1993
Rádio e Televisão
Destaque


Vencedores E Vencidos



CONFESSO. Começo a ficar farto. Na RTP, os intervenientes nos programas de música são sempre os mesmos. Na modalidade “agora escolha” do Últimas Notas, o derrotado de uma emissão é guardado na manga e apresentado como alternativa na emissão seguinte. O que significa que acabam por ser apresentados todos. Se não for á primeira, é à segunda ou à terceira. Até ver e até dar. Vicente Amigo – agora acrescentado de um “d” antes de Amigo, pois convém que haja pelo menos uma diferença – foi derrotado no confronto directo com Paco de Lucia. Hoje à noite, o adversário é Paul McCartney e, em princípio, D’Amigo deverá perder de novo. Não importa. Para a semana será um mano a mano com Quim Barreiros e então D’Amigo sairá vencedor. Pensando melhor, talvez não.
Segundo esta lógica do “que ganhe o melhor”, haverá vencedores e vencidos crónicos, até ao dia em que surgir a concurso o Frei Hermano da Cãmara, o António Albernaz, o João Marcelo, a Cidalina, a Ruteca, os Cabanelas Música ou os Kaganisso, tudo nomes que constam do guia actualizado dos artistas e espectáculos.
Poderia voltar a escrever sobre Don Vicente El Amigo, mas não o faço. As pessoas são maiores e vacinadas, com obrigação de conhecer este nobre espanhol tocador de flamenco. Poderia igualmente escrever sobre Paul McCartney (aqui, a RTP resolveu acrescentar um Mc a Paul Cartney) e revelar pormenores inéditos sobre a sua vida, por exemplo, que pertenceu aos Beatles, escreveu um par de canções de parceria com John Lennon e que a sua mulher afinal não é filha do fotógrafo Fuji. Mas também neste caso me recuso. Para não criar um precedente. Por este andar teria que escrever sobre Bob Geldof, Sting, Guns ‘n’ Roses e U2, artistas com passe vitalício nas televisões de todo o mundo. E sobretudo, Phil Collins, este, sim, o verdadeiro amigo dos povos, o fenómeno mediático do século, o irmão, marido e pai que gostaríamos de ter tido, o gajo fixe que recebe dinheiro directamente das mãos de Deus, enfim, o próprio deus da música pop.
Apenas concedo em informar o seguinte: sua senhoria Don Juan Vicente D’el Amico concorre com um espectáculo gravado no Teatro Municipal de S. Luiz. Sir Paul McCartney ganhará decerto com larga vantagem com o seu “Up Close”, gravado no Ed Sullivan Theater, em Manhattan. Pobre, pobre Amigo, o telespectador não está contigo.
TV 2, às 00h50