Arquivo da Categoria: Poesia

José Cid E Amigos – “Camões, As Descobertas… E Nós”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 24.06.1992


JOSÉ CID E AMIGOS
Camões, As Descobertas… E Nós
LP / MC / CD Mercury, ed. Polygram



Camões, vá que não vá! As descobertas… por que não? Todos se aproveitam delas. Agora… nós? Calma aí! O povo é sereno mas não aguenta tudo. Música é história. Camões é cultura. Cid é foleiro. Os Descobrimentos são pau para toda a obra e o disco é um bico de obra. Os amigos, percebe-se, aparecem porque a editora deve ter feito sinal. António Pinto Basto, Rita Guerra, Jorge Palma, Paulo Bragança, João Paulo e A Praia Lusitana (grande nome, grande banda, grande patriotismo). Mas vós, Carlos do Carmo gentilmente cedido pela UPAV, por que vos traístes? E vós, Pedro Caldeira Cabral, gentilmente cedido pela Valentim de Carvalho, porque cedestes? Já para não falar de vós, Jorge Palma, que vos abandalhastes! Quanto a Cid, tem como desculpa o ser quase tão bom poeta como o autor dos lusíadas. Qual deles escreveu os versos imortais: “Estamos a viver / uma nova epopeia / que nos vai devolver / o orgulho em nós próprios / os heróis aqui estão / avançaremos gente / no futuro em questão”? (1)

Peter Hammill – “Peter Hammill, No São Luís – Ritual De Êxtase E Possessão” (concerto)

Cultura >> Sexta-Feira, 19.06.1992


Peter Hammill, No São Luís
Ritual De Êxtase E Possessão


DURANTE DOIS dias, na quarta-feira e ontem, o Teatro de São Luís, em Lisboa, transformou-se na catedral onde se celebrou o ritual da entrega de um homem à sua música. Peter Hammill arde literalmente no canto. Cada espectáculo seu é ao mesmo tempo um acto de catarse e uma dádiva de amor. De alegria e de crucificação. Único e, como tal, irrepetível.
Em palco, um piano e uma guitarra. Palavras e canções. Peter Hammill vive cada uma delas como se dessa assumpção dependesse a existência de si próprio e do universo. Foram ao todo quinze canções, escolhidas de entre uma lista imensa, de uma vida imensa. “Não interessam os títulos, mas a canção em si e a ‘performance’” – disse o cantor – “poderia cantá-las de forma totalmente diferente”.
Cada actuação ao vivo de Peter Hammill é uma parcela de eternidade. Qualquer coisa de muito íntimo, entre o silêncio e o grito,m ofertada à partilha dos “outros”, à massa anónima constituída por cada um de nós que, num momento ou outro da vida, interiorizou ou exorcizou as palavras do poeta. “All things are universal”.
Ficou a certeza, se dúvidas ainda havia, de que, pelo menos ao vivo, a grande arte de Peter Hammill permanece intacta e assim permanecerá para sempre. E o momento alucinante, na parte final de “Stranger still”, do artista possuído pelo génio e pelos deuses, na exaltação dramática do canto e da voz, na repetição demencial do verso final – “a stranger, a wordly man” – que o impeliu a saltar do banco do piano e a correr de braços abertos, triunfante, na direcção da assistência, perdido e encontrado, fora de si – em êxtase.
Para a posteridade, aqui fica o registo das canções onde, na quarta-feira, se cumpriu o ritual, por ordem de interpretação. Com Hammill ao piano: “Childlike faith in chilhood’s end” (única do período Van Der Graaf, do álbum “Still Life”), “Just good friends” (“Patience”), “Curtains”, “His best girl” (ambas de “Fireships”), Mirror images” (PH7”). Na guitarra: “The comet, the course, the tail” (“In Camera”), “I will find you” (“Fireships”), “Something about Ysabel’s dance” (Out of the Water”), “Ophelia” (“Sitting Targets”), “If I could” (“The Future Now”), “Patient” (“Patience”). De novo ao piano: “A way out” (“Out of Water”), “Stranger still” (“Sitting Targets”), “Traintime” (“Patience”). No “encore”: “Modern (“The Silent Corne rand the Empty Stage”. A perfeição.

Peter Hammill – “Fireships”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 17.06.1992


PETER HAMMILL
Fireships
CD Fie!, import. Megamúsica e Contraverso



Palavras que o vento não leva. Palavras que, mais do que nuinca, parecem constituir o cerne do “opus” artístico / vivencial de Peter Hammill. Neste particular, a cada novo álbum, o autor descentraliza a sua visão pessoal, fazendo-a incidir sobre o mundo circundante, na globalidade, como em “Gaia”, em pessoas com nome próprio, como em “Curtains” (Tommy e Sylvia, em vez de Mike e Susie), ou em situações “reais” transpostas num “GT Cabriolet” para uma dimensão metafísica, como em “His Best Girl” (Pessoa viajava pelo interior, de Chevrolet, a caminho de Sintra). Há versos evocativos de outros antigos, como um “puzzle” que continuamente se faz e desfaz. O choque dos planetas e das estrelas, em “Incomplete surrender”, por exemplo, remete para a explosão cósmica que já antes deflagrara em “Tapeworm”, de “In Camera”. Se, em termos formais, o álbum não apresenta grandes inovações, navegando por águas bem mais calmas do que as da ópera “The Fall of the House of Usher”, nem por isso é menor o deleite com que se escuta, pela enésima vez, a espantosa expressividade da voz, as contorções líricas do saxofone de David Jackson ou os arranjos orquestrais de David Lord. A viagem continua. (7)