Arquivo da Categoria: Colectânea

Vários – “Heat”

pop rock >> quarta-feira >> 28.02.1996


Vários
Heat
WARNER BROS., DISTRI. WARNER MUSIC



É uma espécie de compilação de alguns dos filhos pródigos das chamadas vanguardas pop que responderam ao convite do realizador Michael Mann para ilustrar sonoramente o encontro explosivo de Al Pacino e DeNiro no grande ecrã. Alegrem-se os que franzem o nariz à simples menção da sigla “OST” (“Original Sound Track”), como sinónimo de cinzentismo e amputação. “Heat” sobrevive, mais ou menos incólume, à ausência das imagens. Se a partitura orquestral de base, composta por Elliot Goldenhal, não é particularmente excitante, já as frequentes interferências dos artistas convidados constituem uma boa motivação para uma escuta mais atenta. Os Kronos Quartet agasalham-se na orquestra e Michael Brook faz o número ambiental do costume. Bastante mais dura é a contribuição dos Einsturzende Neubauten, com “Armenia”, enquanto Terje Rypdal acetina a guitarra num par de temas “new age” e Moby faz o oposto, encharcando de acidez a versão “New dawn fades”, dos Joy Division. O mesmo Moby que em “God moving over the face of the waters” dá um golpe de rins de todo o tamanho, sendo mais papista que o papa, com uma orquestração convencional… Lisa Gerrard, gótica, não esqueceu os This Mortal Coil e Eno contribui com um paisagístico “Force maker”, digno de figurar num hipotético volume quatro de “Music for Films” e ao lado dos U2, no figurino Passengers, com um instrumental pop das cores de “Zooropa”. (6)

“Temps Perdu?” – “Terra Incognita” + Vários – “Twilight Earth”

pop rock >> quarta-feira >> 31.01.1996


Temps Perdu?
Terra Incognita (7)
Vários
Twilight Earth (8)
TIMEBASE, IMPORT. ANANANA



Mais uma editora a preencher o território “new age” para eruditos, geólogos e viajantes do “continuum” espácio-temporal, na linha dos catedráticos da Califórnia Steve Roach e Robert Rich. Os Temps Perdu? São um duo constituído por Catherine Ledit-Grützmann e Dirk Grützmann. Tocam instrumentos étnicos como flautas, ocarinas e xilofones, que juntam á parafernália digital mais requintada.
“Terra Incognita” é o seu segundo álbum, depois de “Athanor”, de 1993, onde exploraram musicalmente as terras vulcânicas de Lanzarote, nas Canárias, algo que o espanhol Ildefonso Aguilar já havia feito, nos anos 70, em “Erosión”. Agora foram buscar inspiração aos arquétipos de todas as culturas ancestrais, ao “espaço profundo” e à ficção científica. “Terra Incognita”, “lugar de luz e sombras”, sem grandes rasgos criativos, consegue prender a atenção, em parte devido à produção “estúdio igual a cosmos” de Steve Roach. Bons sons na onda do novo psicadelismo ecologista.
A colectânea “Twilight Earth” soa igualmente bem e vai até um pouco mais longe na originalidade das suas diversas propostas. Nela encontramos nomes importantes doo género, como Suspended Memories, Stephen Kent, Robert Rich, Bruno Heuzé (ex-Lightwave) e os próprios Temps Perdu? Com Anna Homler. Não há dúvida de que a Natureza está a tornar-se cada vez mais um lugar virtual.

The Beatles – “Anthology, vol. 1”

pop rock >> quarta-feira >> 06.12.1995
reedições


The Beatles
Anthology, vol. 1
2XCD APPLE, DISTRI. EMI-VC



O que dirão os miúdos de doze, treze anos, que apenas ouviram os pais falar com devoção do grupo, não conhecem os discos antigos mas lá condescenderam, instigados pelo “bruá” mediático, em deitar um ouvido a esta antologia? O mais certo é exclamarem: “Ganda banhada!” E t~em razão. “Anthology, vol. 1” banaliza a imagem que deveria ter permanecido intocável dos “fabulous four”. Teria sido talvez aconselhável fazer uma edição limitada para colecionadores, a um preço exorbitante, como quem diz: “Objecto raro, só para fanáticos.” Mas não, quis-se facturar, ainda por cima à custa de um morto, John Lennon, que assim voltou a cantar com os seus antigos companheiros, no célebre tema inédito, “Free as a bird”, único motivo relevante num apanhado monstruoso do que, basicamente, não passa de lixo, por mais reciclado que seja. Mas “Free as a bird” é fraco. Pior, é banal. Lá se ouve Lennon a cantar com os outros três, ao empurrão sobre uma harmonia imediatamente identificável como “beatliana”, e uma banda tão, tão primária, de Ringo que até faz corar de vergonha. E pronto, as restantes 59 faixas ouvem-se com esforço e o respeito devido à memória do grupo, entre discursos de várias das personalidades em questão e faixas “raras” recolhidas de diversos contentores. São “takes” alternativos, gravações da sessão com Tony Sheridan, pedaços inacabados de canções célebres e algumas desafinações que têm o condão de transformar os deuses em músicos de carne e osso, sujeitos às armadilhas do ouvido. Enfim, não é que nada disto seja capaz de travar a romaria às discotecas, das turbas enfurecidas que se excitam à simples menção do nome mágico, ainda para mais espicaçadas por uma operação de “marketing” que soube mexer bem os cordelinhos. Os admiradores, que guardam com fervor religioso discos como “Rubber Soul”, “Revolver”, “Sgt. Peppers…” e o “álbum branco”, encolhem os ombros e passam ao lado. Os putos gozam à brava e fazem pouco dos pais. Os tais colecionadores ferrenhos espumam de raiva e acotovelam os broncos que os estirvam na fila de espera. Os Beatles vivos estão-se nas tintas e embolsam mais algum. John Lennon só pede que dêem descanso à sua alma. (4)