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Filipe La Féria e João Paulo Soares + Vários: “As Maiores Vozes Do Teatro Português” (dossier / teatro / revista / compilação))

Pop Rock >> Quarta-Feira, 18.11.1992


AS MAIORES VOZES DO TEATRO PORTUGUÊS

Filipe La Féria e João Paulo Soares não têm falsas modéstias. Para eles, “Passa por mim no Rossio” é mesmo um marco do teatro português. E o disco acabado de ser lançado no mercado, uma “peça rara” que ficará para a eternidade. O êxito desta “banda sonora” do teatro das nossas nostalgias está, à partida, assegurado.



“Passa por Mim no Rossio” foi um dos grandes êxitos de sempre do teatro português. Quase dois anos em cena, filas de quilómetro, desde a madrugada, à porta do D. Maria, na esperança de arranjar bilhete, foram sinais de um fenómeno tornado raro em Portugal – o sucesso popular. A revista portuguesa revista e actualizada por Filipe La Féria jogou com as recordações de uma Lisboa mítica e ganhou. De “enfant terrible”, La Féria passou a “menino de ouro” do patriarcado de Santana Lopes. Agora segue-se o disco, um duplo-álbum composto, arranjado e organizado por João Paulo Soares e com textos escritos por La Féria. Simone de Oliveira e Luís Madureira são os principais cantores. A festa passa, assim, do palco para as colunas de uma aparelhagem. A magia não é a mesma, mas o efeito de Pavlov permanece, talvez até mais eficaz. Lá estão as vozes, bem simuladas, que aprendemos a venerar: Palmira Bastos, Amélia Rey Colaço, Beatriz Costa, Ribeirinho, Vasco Santana, António Silva, Milu, Amália Rodrigues, Hermínia Silva, Laura Alves, Raul Solnado, José Viana e tantos outros que fizeram da revista portuguesa o espelho das ânsias e alegrias do zé-povinho. Passemos por eles. Sempre e em qualquer lugar.



João Paulo Soares e Filpe La Féria são os autores, respectivamente da música e dos textos, de “Passa por Mim no Rossio”, o álbum duplo que ficará como testemunho sonoro da revista do mesmo nome. O PÚBLICO conversou com ambos, nos bastiadores do teatro Variedades, onde se ultimam os pormenores da “Grande Noite” encenada por La Féria, série sobre a revista portuguesa que a RTP apresentará a partir da noite de fim de ano. Antes ainda de “Maldita Cocaína”, ópera-rock que o autor vai levar à cena em 1993 no remodelado Politeama.
PÚBLICO – O ambiente do disco reproduz bastante bem o tom festivo da peça…
JOÃO PAULO SOARES – Foi gravado como se fosse um espectáculo ao vivo. Tem uma ambiência de “ao vivo”. Apesar de ser gravado em estúdio, não tem qualquer tipo de frieza. Houve a intenção de não perder o calor do espectáculo.
P. – Como se processou a composição das canções? Partiu de temas antigos como base?
J.P.S. – O espectáculo é uma viagem, uma história da revista que começa no final do século XIX. Houve uma recolha das canções já existentes e textos escritos propositadamente pelo Filipe La Féria. Eu compus à medida que as canções foram sendo englobadas numa determinada época. Digamos que compus ao estilo da época.
P. – Os textos foram trabalhados da mesma maneira?
FILIPE LA FÉRIA – Foram recolhidos e adaptados. Tivemos o cuidado de resumir e dar às pessoas que não viram o espectáculo uma visão global. Alguns textos foram encurtados e adaptados de maneira a formarem um todo.
P. – Até que ponto o a´lbum vale pela música e não como objecto-fetiche da peça?
F.L.F. – Acho que o disco vale por si só. É o registo de um espectáculo que se tornou histórico e numa referência, a partir de agora, de todo o teatro português. Houve milhares e milhares de pessoas que não viram o “Passa por Mim no Rossio”. A peça esteve um ano e meio no Nacional, como podia ter estado dois, três ou quatro, tal como acontece em Londres. Neste caso, provocou uma enorme polémica por estar a ocupar um espaço do Teatro Nacional que deveria ser para o teatro de reportório. Isso foi a razão principal de, precipitadamente, se tirar de cena um espectáculo que esgotava e esgotaria ainda as lotações. Mas pronto, em Portugal as coisas são muito originais – O Teatro Nacional tem agora vinte ou trinta espectadores por noite, está tudo muito contente e feliz.
P. – O álbum não deveria ter saído há mais tempo, enquanto a peça estava ainda em cena?
F.L.F. – Acho que este disco já podia ser de prata, de ouro, de platina, de cobre… Espero que na nossa próxima produção, “Maldita Cocaína”, no dia da estreia estejam o CD, o disco e a cassete à venda.
P. – Assim é mais uma recordação…
J.P.S. – O disco é um objecto completo que funciona por si próprio. Acho que não estou a ser imodesto se disser isto.
P. – O disco reproduziu a totalidade da música do espectáculo?
J.P.S. – Só metade. Ainda faltam bastantes coisas.
F.L.F. – Isso não é muito comercial dizer… Este disco, antes de ser lançado, já é uma peça rara porque, pela primeira vez, vai haver um registo das vozes dos maiores actores do teatro português. Como sabe, devido ao incêndio da Valentim de Carvalho no Chiado, perderam-se muitos dos registos históricos da revista: Vasco Santana, discos da Beatriz… todos os grandes nomes. Neste disco ficaram registadas as vozes já imoratais de Eunice Munoz, Ruy de Carvalho, Lurdes Norberto, Fernanda Borsatti, Varela Silva, São José Lapa, Maria Amélia Matta, Manuel Coelho, Henriqueta Maya, Simone de Oliveira, são tantos…
Daqui a 20 ou 30 anos, as pessoas vão dizer deles o mesmo que eu dizia quando ouvia a minha avó falar da Satanela e do Amarante. O melhor é comprarem o disco já porque vale dinheiro e é uma peça rara que vai ficar em casa!
P. – Qual o papel de Alexandre Soares na produção?
J.P.S. – Foi a pessoa que conseguiu reunir esforços, que deu o pontapé de saída nas negociações e serviu de intermediário com o David Ferreira. O Luís Madureira tomou mais conta da parte artística e da qualidade vocal em particular.
P. – Em que ponto se encontra a ópera-rock “Maldita Cocaína”?
F.L.F. – Estamos só à espera das obras do teatro Politeama. Há uns papéis do Tribunal de Contas que ainda não vieram e as obras ainda não se iniciaram. Por mim, é um projecto que acalento com mais emoção. Com “Passa por Mim no Rossio” e a próxima série de televisão, A Grande Noite, espero fechar o ciclo da revista.
P. – Nota-se em si a preocupação de estar em todos os aspectos ligados à produção de um espectáculo, desde a parte artística até à promoção…
F.L.F. – Acho que sim. Hoje em dia tudo tem que ter o seu “marketing”, não é? Ainda noutro dia fui escolhido por um grupo de alunas (isto é uma coisa anedótica) que estão a estudar “marketing” como a personalidade ideal para ilustrar a sua tese. Talvez seja um jeito natural em mim, porque nunca tirei nenhum curso de “marketing”.
P. – Afirmou uma vez que o apaixonavam as coisas efémeras…
F.L.F – Em Portugal temos uma visão muito viciada, muito “demodée”, da arte. A arte não tem nada que modificar totalmente as pessoas. Se criar uma pequenina mancha no seu cérebro já é muito bom. Ou se lhes der felicidade, ou alegria. É tão difícil, numa vida tão triste como nós temos, numa sociedade tão opressiva, numa cidade tão triste como Lisboa – que tem todos os vícios e defeitos das grandes cidades sem ter talvez as suas virtudes -, haver a festa, o lado festivo que temos obrigação de procurar na vida… Como se explica que o público esteja tão esfomeado que vá às quatro horas da manhã para uma bicha só para ver um espectáculo, como aconteceu com o “Passa por Mim no Rossio”? Como é possível que nós os intelectuais, os artistas, nos tenhamos fechado tanto em nós próprios, até ao extremo egoísmo de não olharmos para o nosso semelhante?
P. – Não receia que o público mais jovem não seja sensível ao disco?
F.L.F. – Você e eu ainda tivemos a felicidade de ouvir o Vasco Santana dizer: “Ó Evaristo, tens cá disto?” Isso foi tudo cortado. Há tempos, estava aqui a ensaiar uns jovens que queriam entrar na “Grande Noite” e tive que lhes ensinar as marchas de Lisboa! Veja a vergonha: liga-se a televisão e vê-se tudo a desfilar em Copacabana! Houve pessoas que convidei que não sabiam onde era o Parque Mayer! Embora seja preciso dizer que os jovens acorreram a ver “Passa por Mim no Rossio”.
P. – Não terão vindo atraídos pelo “kitsch”, agora muito na moda? Hoje os putos são capazes de achar piada ouvir a Simone…
J.P.S. – Eu não fui buscar o “kitsch” à Simone. De todo. Aproveitei antes o seu lado físico, visceral. A Simone é uma mulher com uma força brutal a cantar. Os números musicais dela são os mais difíceis e equilibrados de todo o disco.
P. – Simone de Oliveira será então uma presença aglutinadora no disco?
J.P.S. – A Simone de Oliveira funciona como Simone de Oliveira. O número principal do espectáculo, “Cabaré”, foi escrito de propósito para a Simone. Ele é a Simone.
P. – O álbum surge numa altura em que estão muito em voga os discos de versões de canções antigas. Por outro lado, não existe neste caso quelaquer espécie de reconversão. Os arranjos são o mais clássico possível.
F.L.F. – O João Paulo Soares teve o bom-gosto de não modernizar, no mau sentido, os temas. Deu-lhes sim um carácter de época, mas que passou pelo interior dele.
J.P.S. – Não gosto nada das pessoas que aparecem por aí com grandes orquestras e tudo em ritmo de 2disco” a cantar ”hits”. Acho uma coisa arrepiante. Por outro lado, acho que não seria útil, só por questões de fidelidade, trazer uma típica orquestra de revista do Parque Mayer que fosse má. É uma questão de bom-gosto.





O PESO DO EFÉMERO
VÁRIOS
Passa Por Mim No Rossio
2xLP, MC, CD EMI-VC



Como encarar um objecto deste tipo? Como um “budget”, uma lembrança, um complemento da peça teatral? Ou, pelo contrário, como uma obra autónoma com vida própria, independente dos alicerces do teatro? “Passa por Mim no Rossio”, o disco, é um pouco as duas coisas. Agora que a peça saiu de cena, o disco, um duplo com a chancela de João Paulo Soares na composição, arranjso e orquestração, e do próprio Filipe La Féria, nos textos, funcionará para quem viu a revista como uma espécie de testemunho póstumo, um eco remanescente do acontecimento original.
Depois, para quem, ao longo de meses e meses não esteve para se levantar às cinco da manhã para conseguir um hipotético ingresso no D. Maria II, o disco pode ser um substituto, um prémio de consolação de mais cómodo acesso. Faltam as imagens, a presença física dos actores e dos cenários, mas afinal as vozes e as canções continuam a exercer todo o seu fascínio. Curiosamente, um dos aspectos de que “Passa por Mim no Rossio” se poderia ressentir – a falta de ambiente da representação ao vivo – acaba por não se notar, pese embora tratar-se de uma gravação de estúdio. Aplausos, aqui, para João Paulo Soares, cuja inspirada partitura conseguiu fazer esquecer o colorido e a excitação do espectáculo “in loco”. O compositor optou, e bem, por uma escrita ostensivamente “passadista”, fugindo à tentação de modernização que poderia comprometer todo o projecto. Os textos de La Féria acaompanham a música no mesmo processo.
“Passa por Mim no Rossio” alterna as canções com pequenos apontamentos de diálogos, temas popularuchos com momentos de forte carga dramática, estes últimos quase sempre invocados por Simone de Oliveira de quem João Paulo Soares soube aproveitar ao máximo as potencialidades. Onde outros poderiam ter cedido à facilidade de valorizar o “kitsch”, o compositor ignorou as modas, preferindo antes firmar-se na tradição. O recerso da medalha está em que o disco poderá passar ao lado das prioridades de escuta das gerações mais novas, a quem os nomes dos grandes actores da revista portuguesa das décadas douradas de 30, 40, 50 e 60 pouco ou nada dirão.
Trata-se então de um disco destinado a alimentar a nostalgia dos mais velhos? Em parte sim. Será essa, provavelmente, a faixa de consumidores mais alargada. Por outro lado tal facto poderá ser compensado por um certo efeito “perverso” decorrente da simples existência do disco, a cujos autores não poderão ser imputadas responsabilidades. É que, se como já se disse, a redução ao “kitsch” é cuidadosamente evitada, nem por isso certa fatia de público deixará de ver nele o artefacto por excelência do mau-gosto tornado objecto de luxo, ainda nates de qualquer audição. Poder-se-á inferir que os autores se estarão nas tintas para isso e que apenas lhe importará que o disco atinja índices de êxito, senão maiores, pelo menos semelhantes aos da peça teatral. Não é um problema do foro artístico propriamente dito mas dá que pensar.
Estamos afinal perante a ambiguidade total e há que reconhecer a João Paulo Soares e Filipe La Féria o terem sabido fazer, na altura certa e com o sentido de oportunidade, uma jogada de mestre. Mas não era, no fim de contas, já “Passa por Mim no Rossio”, enquanto encenação e reconstrução da memória, esse jogo de remet~encias para ambiguidades de vária ordem. Entre o assumir-se como uma revista “à antiga portuguesa” e, na prática, como uma estilização e redução a esboços e caricaturas de todos os ingredientes que no passado eram a essência dessa mesma revista? Eis o cerne da arte de La Féria, esta capacidade de trocar as voltas e os olhos a quem anda e olha para onde os seus sonhos apontam. Mesmo que ele, com a insustentável leveza do artista, se autoproclame apóstolo do efémero. (7)

Vários – “A Outra Europa” (dossier / folk)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 30.09.1992


A OUTRA EUROPA



A outra Europa mantém-se firme. A outra Europa não diz nem não nem sim a Maastricht e não tem medo do marco. A outra Europa não passa por Paris, nem Bona, nem Londres. Muito menos por Tóquio e Nova Iorque. A outra Europa chama-se Galiza, Bretanha, Provença, Piemonte… por onde os caminhos são traçados pelas estrelas e pela Terra. A outra Europa não sofre de “stress” nem de enfartes do miocárdio. As ruínas da outra Europa aguentam-se melhor que os edifícios de vidro e betão onde os burocratas da Europa assinam as suas certidões de óbito. A outra Europa não receia o futuro porque não acredita no tempo. A outra Europa está ligada por correntes subterrâneas e é iluminada pelos raios do Sol e pelos reflexos da Lua. A outra Europa não marcha, dança. A outra Europa não grita, canta. E se, do Leste, chegam horrores e sangue, antecipando o Apocalipse anunciado, é porque ao corpo de loba da Europa faltam a cabeça de leão e o coração de pomba. E não há meio de percebermos isto. A outra Europa é a verdadeira Europa.

A selecção seguinte, subjectiva como todas as selecções, apresenta alguns dos melhores álbuns de música tradicional das respectivas regiões da Europa. Certos nomes, como é óbvio, teriam direito a figurar com mais do que um disco nesta lista. Optou-se pelo critério um nome, um disco, visando uma maior variedade. Na página seguinte, discos novos.

1 – PORTUGAL
GAC – … E Vira Bom (1977)
Brigada Victor Jara – Tamborileiro (Mundo Novo), 1979
Terra a Terra – Pelo Toque da Viola (Rádio Triunfo), 1981
Grupo de Cantares de Manhouce – Cantares da Beira (EMI-VC), 1982
Vai de Roda – Vai de Roda (Orfeu), 1983
Almanaque – Desfiando Cantigas (EMI), 1984
Ronda dos Quatro Caminhos – Cantigas do Sete-Estrelo (Rádio Triunfo), 1985
Maio Moço – Inda Canto, Inda Danço (ed. Autor), 1987
2 – GALIZA
Emilio Cao – Fonte do Arano
Amancio Parada – Caravel de Caravells (Fonomusic), 1984
Milladoiro – A Galicia de Maeloc (Dial), 1984
Pablo Quintana – O Cego Andante (Edigal), 1984
Grupo Didactico-Musical do Obradoiro – Instrumentos Populares Galegos (Sonifolk), 1987
Luar na Lubre – Beira-Atlântica (Sons Galiza), 1990
Muxicas – Desafinaturum (Edigal), 1990
3 – ASTÚRIAS
Lian de Cubel – Na Llende (Fono Astur), 1990
4 – CASTELA
Manuel Luna – Como Hablan las Sabinas (RNE), 1987
La Musgana – El Paso de la Estantigua (RNE), 1989
5 – ANDALUZIA
Rosa Zaragoza – Cancons de Noces del Jueus Catalans (Saga), 1987
Aurora Moreno – Aynadamar-La Fuente de las Lagrimas (Saga), 1988
6 – BRETANHA
Alan Stivell – Chemins de Terre (Fontana), 1973
An Triskell – Kroaz-Hent (Le Chant du Monde), 1977
Skolvan – Kerzh ba’n’ Dans (Keltia), 1991
Strobinell – Na Aotrou Liskildri (Keltia), 1991
Storvan – Digor’n Abadenn (Keltia), 1991
7 – FRANÇA (geral)
Le Bourdon – Le Galant Noyé (le Chant du Monde), 1975
Malicorne – Almanach (Hexagone), 1976
Vielleux du Bourbonnais – Vielleux du Bourbonnais (Hexagone), 1979
Mélusine – La Treizième Heure (Polydor), 1979
Jean Blanchard & Eric Montbel – Cornemuses (Hexagone), 1979
Maluzerne – Nous sommes venus vous Voire… (Le Chant du Monde), 1981
La Bamboche – Quintessence (Hexagone), 1990
8 – GASCONHA
Verd e Blu – Musica de Gasconha (Menestrêrs Gascons), 1990
Perlinpinpin Folc – Ténarèze (Compas), 1991
9 – PROVENÇA
Mont-Jòia – Cant e Musica de Provenca (Le Chant du Monde), 1976
10 – PIEMONTE
La Ciapa Rusa – Stranòt d’Amur (Madau), 1984
11 – CÓRSEGA
Les Nouvelles Polyphonies Corses (Philips), 1991
12 – SARDENHA
Elena Ledda & Suonofficina – Sonos (Biber), 1989
13 – CHIPRE
Ensemble Cypriote de Musique Ancienne – Chants Épiques et Populaires du Chypre (Arion), 1991
14 – ESCÓCIA
Silly Wizard – Caledonia’s Hardy Sons (Shanachie), 1978
Battlefield Band – Home is where the Van is (Temple), 1980
Robin Williamson – Mabinogi (Claddagh), 1983
Savourna Stevenson – Ticked Pink (Springthyme), 1985
Tannahill Weavers – DancingFeet (Green Linnet), 1987
Hamish Moore – Open Ended (Dunkeld), 1987
House Band – Word of Mouth (Topic), 1988
Gordon Mooney – O’er the Border (Temple), 1989
Catherine Ann-McPhee – Chi Mi’s Geamhradh (Green Trax), 1991
15 – INGLATERRA
Fairport Convention – Liege & Lief (Island), 1969
Shirley Collins & Dolly Collins – Antems in Eden (Harvest), 1971
Steeleye Span – Tem Man Mo por Mr. Reservoir Butler Rides Again (Chrysalis / Shanachie), 1971
Ashley Hutchings & John Kirkpatrick – A Compleat Dancing Master (Hannibal, 1973
Tim Hart & Maddy Prior – Summer Solstice (Shanachie)
Albion Country Band – Battle of the Field (Island / Carthage) 1976
June Tabor – Ashes and Siamonds (Topic), 1977
Brass Monkey – See how it Rain (Topic), 1986
Blowzabella – A Richer Dust (Plan Life), 1988
Martin Carthy – Right of Passage (Topic), 1988
Silly Sisters – No more to the Dance (Topic), 1988
John Kirkpatrick & Sue Harris – Stolen Ground (Topic), 1989
16 – IRLANDA
Planxty – Cold Blow and the Rainy Night (Polydor / Shanachie), 1974
Chieftains – The Chieftains 5 (Island / Claddagh), 1975
Bothy Band – Old Hag you have Killed me (Polydor), 1976
De Danann – The Mist Convent Mountain (Gael-Linn), 1980
Dolores Keane & John Faulkner – Broken Hearted I’ll Wonder (Green Linnet), 1981
Whistleblinkies – Whistleblinkies 4 (Claddagh), 1986
Boys of the Lough – Farewell and Remember me (Lough / Shanachie), 1987
Patrick Street – Patrick Street (Green Linnet), 1988
17 – LAPÓNIA
Mari Boine Persen – Gula Gula (Real World), 1990
18 – SUÉCIA
Filarfolket – Smuggel (Temple), 1988
19 – DINAMARCA
Dronningens Livstykke – Traditional Arranged (Pan), 1990
20 – RÚSSIA – Tüva – Voices from the Land of the Eagles (Pan), 1990
21 – HUNGRIA
Kolinda – Kolinda (Hexagon), 1978
Sebö Ensemble – Hungarian Folk Music (Rounder), 1980
Marta Sebéstyen & Muzsikas – Muzsikas (Hannibal), 1987
22 – BULGÁRIA
Bisserov Sisters – Music from the Piri Mountains (Pan), 1980
Le Mystère des Voix Bulgares (4AD), 1986


ANDY IRVINE & DAVEY SPILLANE
East Wind
Tara, distri. Mundo da Canção



Andy Irvine (ex-Planxty, no bouzouki, sanfona), juntamente com o produtor e teclista Bill Whelas, são os mentores deste projecto, dedicado ao folclore dos Balcãs. Davey Spillane, mestre das “uillean pipes”, membro dos Moving Hearts e músico muito dado aos “blues” e ao rock, deixou-se levar. Os irlandeses fazem o que podem na reprodução dos difíceis compassos típicos da música desta região (7/8, 11/16, etc). Conseguem-no em termos técnicos, falham em termos anímicos. São síncopes que não lhes saltam de forma natural no coração. Márta Sebestyen vem do céu da Hungria para interpretar as baladas, procurando levar consigo, para o alto os seus compenetrados companheiros. Seduzidos pelos ventos de Leste, participam ainda os “virtuoses” Mairtin O’Connor, no acordeão, e Michael O’Súilleabháin no piano. (7)

LA CIAPA RUSA
Betanavola
Robi Droli, import. Etnia



Quinto álbum da discografia da banda de Piemonte e quinta obra-prima. Maurizio Martinotti, Beppe Greppi e os novos elementos – Devis Longo, Patrick Novara e Bruno Raiteri – voltam a construir um monumento ao folclore piemontês. Donatta Pinti, que faltou ao recente concerto do grupo no Porto por causa dos gatos, imprime à música, com a sua voz característica, uma nota de intimismo nas baladas, que alternam com o tom mais ensolarado dos instrumentais. Os Ciapa Rusa percorrem todo o espectro que vai da música antiga à ligeireza das “monferrini” da região. A sanfona electroacústica de Martonotti, simbolizando a aliança perfeita entre as margens do tempo, lidera uma lista de instrumentos e uma diversidade de registos que parecem não ter fim. Perfeito. (10)

ELENA LEDDA & SUONOFFICINA
Sonos
Biber, import. Etnia



Pela Sardenha passaram as culturas e civilizações fenícia, cartaginesa, romana, bizantina e árabe, entre outras. Mais tarde fez-se sentir aí a influência espanhola e de regiões como a Sabóia ou o Piemonte. Na actualidade, o império americano, das centrais nucleares e do turismo, tomou o seu lugar. Na música de Elena Ledda há revolta, lirismo e dramatismo. Como no flamaneco, nos “blues” ou no canto vocal corso. “Sonos”, sobre uma textura cristalina de guitarras e percussões, recupera a linhagem nobre dos instrumentos de sopro na Sardenha, das ancestrais “launeddas” (cuja sonoridade oscila entre o clarinete e a gaita-de-foles) ao saxofone actual. Vozes antigas e contemporâneas, numa odisseia contra a dominação estética alheia em que a assimilação das diversas músicas do Mediterrâneo pode funcionar como uma estratégia de sobrevivência. Só a voz de Elena, xamânica, lunar, é toda ela uma revolução. (9)

THE HOUSE BAND
Stonetown
Harbourtown, import. Etnia



São escoceses, o que não quer dizer que sejam avaros nas músicas que tocam. Para além da Escócia e da vizinha Irlanda, os House Band interpretam, com o mesmo à-vontade, temas tradicionais da Dinamarca, Noruega, Bretanha, Bélgica e Bulgária, ao lado de uma canção de Elvis Costello, outra de Archie Fisher e originais de Ged Foley, vocalista e tocador de gaita-de-foles de Northhumbrian e antigo membro dos Battlefield Band. Os House Band passam pelas várias tradições europeias sem se comprometerem com um estilo ou região particulares, à semelhança de uns Ad Vielle Que Pourra, com quem partilham, de resto, um certo tipo de sonoridade nas combinações gaita / acordeão / bombarda. (9)

IVO PAPASOV & HIS ORCHESTRA
Balkanology
Hannibal, import. Mundo da Canção e MVM



Quem viu Ipo Papasov tocar na televisão, numa emissão recente da Música no Dois, deve ter ficado sem respiração. O búlgaro toca clarinete como um diabo. Diz-se que a mãe de Ivo lhe cortou à nascença o cordão umbilical com a palheta de uma zurna. Nas festas de casamento de aldeia, para onde é muitas vezes solicitado, é costume a banda tocar toda a tarde e toda a noite, provocando a loucura colectiva. Ivo Papasov é o John Zorn da folk dos balcãs. E “Balkanology” um vento de demência: ragtime, baladas ciganas, improvisações “free”, danças búlgaras (horo, ruchenitsi, Kopanitsa…) e turcas em ritmo de “reggae”, de rock, de swing, seja o que for, em velocidade desenfreada. Três temas chegam para a voz impressionate de “tremolo” e modulações, de Maria Karafezieva falar com Deus. (9)

MUXICAS
Escoitando Medra-la Herba
Edigal, import. Etnia



Galegos até à medula, os Muxicas são um dos poucos grupos da sua região a resistir à electricidade e à “irlandização” que parece afectar actualmente grande parte doss seus conterrâneos. “Escoitando Medra-la Herba” permanece ancorado ao compo e aos seus rituais, às “muineiras” e ao cancioneiro medieval. Percussões, muitas, gaitas e sanfonas, marcam a pulsação do sangue e da terra. Uma criança conta uma história de gnomos e de uma pulga que sorri. Uma caix-de-música faz parar o tempo, enquanto um “boneco de palla” com coração escuta a voz do senhor dos ventos. Os Muxicas são populares sem serem popularuchos. Estão nos antípodas dos Milladoir e sintonizados com os Obradoiro, a quem dedicam uma canção. “Para os que gostam de escoitar o silêncio. Sem presas, sem pausas”. (8)

THE TANNAHILL WEAVERS
Cullen Bay
Green Linnet, distri. Megamúsica



Os Tannahill Weavers são um grupo emblemático da folk escocesa, conhecido em Portugal através dos álbuns anteriores “Dancing Feet” e “Land of Light”, que voltam a estar disponíveis nos escaparates. “Cullen Bay” apresenta a música tradicional da Escócia em toda a sua integridade. Excelentes as harmonias vocais e o virtuosismo dos executantes, com destaque para Iain MacInnes, nas “highland pipes”. “Cullen Bay” sintetiza o lirismo do canto gaélico, o ritmo marcial das tradicionais “pipe bands” e uma enorme fluência instrumental. Uma das canções fala de um homem que se apaixona (literalmente) por uma ilha. Não se veja aí nenhuma perversão. “Um escocês pervertido” – dizem os Weavers – “é uma coisa completamente diferente: um homem que prefere as mulheres ao whisky”. (8)

VASMALON
Vasmalon II
RG Music, import. Etnia



Na Hungria existe uma tradição de bons agrupamentos folk: Muzsikas, de Márta Sebestyen, Kolinda ou, menos conhecidos, Zsarátnok e Sebo Ensemble, citando apenas os que tiveram direito a importação nacional. Servindo-se de elementos comuns – a música cigana, as danças típicas, a música religiosa, sagrada ou profana, as baladas de amor e de trabalho – os Vasmalon diferem daqueles por um desejo incontrolável de transgressão. Heterodoxia que os leva às proximidades do jazz, à improvisação, à utilização do estilo vocal mongol (emissão simultânea de dois sons) ou, no tema final, um “blues” à boa maneira magiar, à paródia. Fora de série são a voz de Eva Molnár, uma potencial rival de Márta Sebestyen, e os fraseados de cristal de Kálmun Balogh, no “cimbalon”, espécie de saltério gigante. (9)

Peter Gabriel – “Peter Gabriel” + “Peter Gabriel 2” + “Peter Gabriel 3” + “Peter Gabriel 4” + “So” + “Passion” + “Us” (dossier)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 23.09.1992


PERDER O MEDO AOS MONSTROS



Em Peter Gabriel tudo se mistura num cadinho em constante ebulição: os sons que aprendeu a escutar do mundo, a tecnologia sofisticada, as suas próprias emoções. Entre os temas tratados em “Us”, o seu mais recente álbum, editado em Portugal, contam-se o medo, as virtudes do vapor e a domesticação de monstros. Mais uma gama razoável de relações amorosas. Enquanto não nasce a “Gabrieland”, uma Disneylândia futurista para os artistas brincarem. O mundo real funde-se com a realidade virtual.



Há uma inquietação constante em Peter Gabriel, que determina cada um dos seus passos e serve de motor a cada novo projecto. Antigamente, chamavam a este tipo de homens “idealistas” – os que procuravam ver a realidade através do maior número possível de perspectivas e que acreditavam que qualquer sonho podia e devia ser posto em prática. Peter Gabriel é um destes homens. Desde os tempos em que, nos Genesis, procurou alargar as fronteiras do rock, até a mistura pancultural do seu novo álbum, “Us”, passando pela criação da editora Real World e pela organização do primeiro festival WOMAD, acreditou sempre que poderia ir mais longe, e que era possível transformar o sonho em realidade.
Durante os últimos cinco anos, Peter Gabriel submeteu-se ao crivo da terapia psicológica. Por culpa de um divórcio e das confusões sentimentais arranjadas com a actriz Rosanna Arquette. A terapia é uma espécie de escavação nos terrenos baldios da alma, que permite encontrar, presos à terra, jóias e esterco. Peter Gabriel escavou até libertar o monstro que hiberna em todos nós. Numa das faixas de “Us”, intitulada, “Digging the Dirt”, ele explica todo o processo e, ao mesmo tempo, sossega-nos quanto às consequências. Os monstros ou demónios, diz ele, perdem o seu poder, quando são trazidos das profundezas para a luz do dia.
O vídeo deste tema, realizado por John Downer, parece, no entanto, não confirmar esta opinião, e mostra o paciente num estranho desempenho, entre fruta podre, cadáveres em decomposição e larvas de borboleta. De resto, Peter Gabriel passara por um período mais desequilibrado, no qual manifestara a intenção de compor um álbum sobre temas como a morte, o assassínio e a pena capital.
Acabou por inflectir na direcção oposta e assinar um disco, “Us”, que ele define como de “canções de amor”. Estranhas formas de amor e estranhas canções. A união de sangue entre Adão e Eva no paraíso (“Blood of Eden”); a influência do vapor (“Steam, definida pelo seu autor como uma canção “quente e húmida”); o desejo de purificação pela água (“Washing of the water”); princesas que beijam sapos na esperança de encontrarem príncipes mais ou menos encantados (2Kiss that frog”); o mundo secreto dos objectos (“Secret world”), entre outras experiências religiosas, sexuais e emocionais, integram a lista de temas que tornam “Us” uma amálgama, por vezes confusa, de estímulos provenientes do mundo real (por vezes, demasiado real).
O som é fruto da ressaca – ainda não curada – dos excessos de “world music” cometidos em “Passion”, ou seja, instrumentos étnicos às centenas, convidados às dezenas, muitos ritmos electrónicos como condimento, e canções que reatam a tradição dos álbuns antigos de Peter Gabriel até “So”. Daniel Lanois, o produtor, porque suportou sobre os ombros a tarefa de evitar excessos em que o cantor tenderia por vezes a incorrer, mas francamente, não se nota.
Enquanto “Us” já iguala iu ultrapassa o número de vendas de “So” – e muito ajudaram a saldar dívidas contraídas com a organização do primeiro WOMAD, uma ideia pioneira que, na época, não encontrou grande aceitação – Peter Gabriel vai sonhando com a companhia de Laurie Anderson e Brian Eno, com a Gabrieland. Uma espécie de Disneylândia tecnológica de futuro, laboratório, igualmente galeria de arte e campo de ensaios – onde não faltariam máquinas indutoras de realidade virtual, o mais recente fascínio de Gabriel, para artistas, psicólogos e toda a espécie de “loucos” poderem concretizar as suas ideias ou simplesmente se divertirem. O local já existe: 12 hectares de terrenos em Barcelona esperam a chegada do novo mundo. Seja real ou virtual.

PORTAS E JANELAS

Pode dividir-se a discografia completa de Peter Gabriel em três fases: a primeira, partilhada com os restantes elementos dos Genesis, constitui um dos capítulos mais brilhantes da música progressiva dos anos 70. É a fase da valorização poética, do sonho e das grandes encenações, vocais e teatrais. A segunda, que vai do disco homónimo de 1977 até “So”, corresponde à visão solitária de um poeta que trocou, como fonte de inspiração, as fantasmagorias vitorianas pelo pesadelo urbano. Uma fase de dilaceração e, em simultâneo, de construção de uma personalidade nova. A terceira, com preâmbulo nos festivais WOMAD e na criação da editora Real World, mostra um Peter Gabriel liberto de si próprio e com o coração, os olhos e os ouvidos voltados para as músicas do mundo. Começou com “Passion” e encontrou um ponto de equilíbrio precário no novo “us”. Resta saber se tudo permanece em aberto ou se, pelo contrário, Peter Gabriel foi dar a um beco enfeitado de exotismos. Ele que um dia afirmou ser perito em abrir portas e janelas.


Peter Gabriel (1977)



Os Genesis tinham ficado para trás, mas as feridas não estavam totalmente saradas. “The Lamb Lies down on Broadway”, derradeira obra do quinteto, saíra na quase totalidade da pena do seu actor / vocalista. Era chegado o tempo de afirmação de uma personalidade… também de mudança para outras latitudes. O primeiro trabalho a solo marca a ruptura de Peter Gabriel com a viagem de contador de fábulas que os discos da banda punham em relevo. À poesia de canções como “Solsbury Hill” , “Humdrum” e “Down the dolce vita”, ainda não totalmente afastadas do veio Genesis, Gabriel contrapõe a violência ainda bastante controlada e sobretudo temática, de “Modern Love” e “Waiting for the big one”. “Moribund the Burguermeister” prenuncia, à distância de mais de uma década, o mergulho nas sonoridades world. “Here comes flood” é um hino apocalíptico que até hoje continua a queimar a memória. A guitarra de Robert Fripp ateia os primeiros incêndios.

Peter Gabriel 2 (1978)



O som torna-se mais agressivo. A magia do mundo de histórias e da Inglaterra vitoriana apaga-se em definitivo. Ficam as sombras e as ameaças. Peter Gabriel aprende cada vez mais depressa a tirar partido da paranoia. As capas dos discos acompanham o processo que em breve se mostraria ser de desagregação. Na do primeiro, o cantor parece fechado no interior de um automóvel, ao abrigo da chuva (do dilúvio). A imagem é de tristeza e abandono. Agora passa a ser de fúria. As mãos “rasgam”, do interior, a fotografia. O ar é demoníaco. Na contracapa, Peter Gabriel atravessa uma paisagem de lixo urbano. Tudo a preto e branco, como convém. “Mother of violence” e “Animal Magic” dão expressão a esse fogo. A essa quase luta pela sobrevivência. “Exposure”, recuperado posteriormente para o álbum do mesmo nome de Robert Fripp, e “White Shadow”, o tema mais perturbante, em que se torna nítida a influência das concepções musicais do antigo guitarrista dos King Crimson, balizam o caminho que viria a ser percorrido no álbum seguinte.

Peter Gabriel 3 (1980)



Até à data, o disco onde melhor se expressam as diversas divagações estéticas exploradas pelo ex-Genesis. Passando incólume pela avalancha punk, Peter Gabriel afirma orgulhosamente que sabe “qualquer coisa sobre abrir portas e janeasl”. “No self control”, “I don’t remember”, “And through the wire”, “Family snapsot” confirmam na verdade as suas reais capacidades de serralheiro. O som torna-se mais complexo, a par da violência, sempre crescente, e da teia intricada de sentidos sugerida pelos textos. Aproxima-se o ponto de combustão. E do não retorno. As preocupações sociais, que nos Genesis se ocultavam por detrás do humor “nonsense” e da simbologia surrealista, como acontecia em “Harold the barrel” (de “Nursery Cryme”) ou, de forma mais directa e interveniente, em “Get ‘em out by Friday” (“Foxtrot”), são atiradas para a primeira linha das inquietações do autor, na paródia ao eurovazio de “Games without frontiers” ou no manifesto anti-“apartheid”, “Biko”. O poder do batuque aumenta a intensidade – Gabriel dispensa a utilização de outros instrumentos de percussão para além dos tambores que aqui rivalizam com os prodígios do recém-descoberto Fairlight CMI, pai de todos os samplers. A capa apresenta o rosto do artista corrído e deformado por ácidos. O processo alquímico passava pela fase do “putrefacto”.

Peter Gabriel 4 (1982)



Regresso a casa, por ínvios caminhos. Não parece, mas é o álbum mais próximo dos Genesis, da primeira fase, evidentemente. Música progressiva, camuflada por uma utilização maciça de electrónica, em registo barroco e sobrexposição de imagens. Capa colorida por filtros e efeitos vídeo. Dentes que rangem. Dor. Poderia ser a continuação da “trip” de ácido de “The Lamb Lies down on Broadway”. “The family and the fishing net”, “Lay your hands on me” e, sobretudo, “Wallflower” não destoariam ao lado das boas canções dos Genesis. “I have the touch” e “Shock the monkey” usam e abusam dos ritmos electrónicos. “Rhythm of the heat”, “San Jacinto” e “Kiss of life” dos ritmos tribais. Faltava apenas ultrapassar a barreira do rock e do sucesso – o que Peter Gabriel conseguiu, no álbum seguinte – para se abrir de par em par a porta de acesso aos mundos do “mundo real”.

So (1986)



Entre os dois álbuns de estúdio, Peter Gabriel deixou registado o duplo “Plays live”, em cuja capa curiosamente aparece fotografado com o rosto pintado, ao estilo característico das antigas encenações nos Genesis. “So” é conciso, no título e nos sons. Mais directo e acessível do que qualquer dos discos anteriores, recupera a energia depurada do rock ‘n’ rol. “So” representa para Peter Gabriel o mesmo que “Nadir’s Big Chance” para Peter Hammill – a libertação e o exorcismo da tensão acumulada ao longo de vários anos de busca constante de novas formas musicais, a par de novos meios de expressão, poética e conceptual. O descanso do guerreiro. O disco alcança um sucesso sem precedentes. Nos Estados Unidos atinge o primeiro lugar do “top” de vendas, no Reino Unido sobe ao número quatro. “Sledgehammer”, editado em single, é ao mesmo tempo a síntese perfeita da nova orientação seguida por Gabriel e um dos vídeos mais inovadores da história do rock. Resultados compensadores para um trabalho cujo orçamento rondou as 120 mil libras e que demorou perto de 100 horas a gravar. Rentabilizam-no as presenças, entre outros convidados, do senegalês Youssou N´Dour e de Kate Bush, que ao lado de Gabriel contribui com a sua voz para um dos piores (e mais divulgados) temas do disco, “Don’t Give Up”.

Passion (1989)



Banda sonora da “Paixão” filmada por Scorceses. Primeiro volume da série Real World. O termo “world music” começou aqui. A música propriamente dita já existia há alguns milénios. Não havia era produtores interessados. “Passion” é tudo o que imaginamos a respeito de flautas de bambu, tambores do Mali e cânticos rituais das mais recônditas regiões do globo. Os sintetizadores são o catalisador que evita o choque de sensibilidades entre o Ocidente e o terceiro, quarto, quinto mundo e seguintes. “Passion” é um desfile de lugares-comuns onde a beleza é tudo menos natural. Bem mais genuíno, e sem a participação directa de Gabriel, é “Passion Sources”, o objecto intacto, não polido, o verdadeiro, o único, o inimitável “mundo real”. O álbum é também um galarim de músicos não ocidentais: Hosam Ramzy, Manu Katché, Shankar, Vatche Housepian, Mustafa Abded Aziz, Baaba Maal, Youssou N’Dour, Nusrat Fateh Ali Khan. E Jon Hassell que tem um pé de cada lado. Paixão, da que inflama sem remédio, é que não há muita.


“UNITED COLOURS OF GABRIEL”
PETER GABRIEL
CD / MC / 2xLP, Real World, distri. Edisom



Em termos conceptuais “Us” apresenta diversas pistas e coincidência interessantes. Peter Gabriel é, antes de mais, um homem de ideias, de projectos. A música vem depois, como complemento. “Us” aborda, segundo o seu autor, o problema da “união” – de dois seres, dos sexos, de culturas afastadas, das relações humanas em geral – a diferentes profundidades e com índices de êxito variáveis. Isto numa altura em que o ex-Genesis se libertara do fantasma do divórcio com Jill Moore, com quem mantivera uma relação de váriosa anos, e da relação extra-conjugal com a actriz Rosanne Arquette. O tema da união aparece logo mencionado, de forma oblíqua, na capa, com a imagem de um Petr Gabriel azul perseguindo uma figura fantasmagórica de mulher. A “outra” ou a sua própria polaridade feminina, que os antigos filósofos herméticos desiganavam por “alma” e os latinos por “anima”? O fundo aparece pintado de vermelho-rubi, cor que em termos simbólicos, alquímicos, simboliza a última fase da obra, correspondente à união final, às núpcias e ao renascimento do andrógino original.
“Us” é “nós” ou sigla acidental de “United states”? Estados Unidos, estados de união, com quê e com quem? A música, os textos, as próprias explicações do autor permitem algumas respostas.
Em termos musicais “Us” pode definir-se como um compromisso entre a visão “personalista” de toda a discografia de Gabriel até “So” e a “overdose” de sonoridaees “world” de “Passion”: ritmos tribais, instrumentos exóticos rebuscados de vários pontos do globo, electrónica em dilúvio constante e as vocalizações inconfundíveis de um Peter Gabriel que parece ter ficado refém de um número restrito de fórmulas já antes exploradas. Temas há que remetem para outros mais antigos: “Come talk to me” está na mesma linha de “I have the touch” (do álbum nº 4), “Steam” é a continuação de “Sledgehammer” (de “So”), “Only us” entronca no grupo de “Family & the snapshot” (do terceiro álbum) e assim sucessivamente, num repisar de esquemas conhecidos.
Outro esquema que se repete é a utilização de uma convidada feminina. Depois de Kate Bush chegou a vez de Sinead O’Connor acrescentar um pouco de sal vocal a temas como “Come talk to me” e “Blood of Eden”. São possíveis aproximações divertidas. “Blood of Eden” junta o violino de Shankar, a voz da vocalista careca e versos como “I feel the man in the woman and the woman in the man” (força, união!) numa espécie de “world gospel” com sabor a Paul Simon e a meninos de Deus, num registo idêntico ao dos piores horrores vocais de “Passion”. Também não deixam de ser engraçados os ocasionais pontos de encontro, ao nível das vocalizações, de Gabriel com Phil Collins, em “Love to be loved” num arranjo etéreo a que não é alheia a presença de Brian Eno, ou com Roger Waters (de “The Wall”), em “Washing off the water”, tema não muito distante de “Here comes the flood”.
“Digging in the dirt”, single lançado previamente no mercado, explora o lado negro da personalidade e lá está Peter Hammill dando o seu apoio vocal sob a forma discreta de um eco gutural, ele que sempre foi paleólogo e escafandrista das regiões interiores. “Steam”, o tal prolongamento de “Sledgehammer” é violento q.b., entre falsetos de angústica e uma secção de metais que recria os bons velhos tempos em que a Stax tinha “soul”. Neste e noutros temas, David Rhodes mostra-se um exímio guitarrista. “Only us” pisca o olho ao psicadelismo. “Fouteen black paintings” é étnico até à saturação e “Kiss that frog”, efabulação psicológica sobre a puberdade feminina, inclui alusões (Gabriel chama-lhe “subtexto”) sexuais. Finalmente, “Secret world” é maquinal à maneira dos Kraftwerk, melódico à maneira de Eno dos tempos de “Taking Tiger Mountain” e tão secreto como uma “canção de amor”. “Us” pode considerar-se, todo ele, de resto, um disco de canções de amor.
Registe-se por último – entre a miríade de músicos convidados dos quatro cantos do “mundo real”, os ilustres Sinead O’Connor, Eno, Peter Hammill e Shankar, ou os “session men” de nomeada que são Manu Katche, David Rhodes, Richard Blair, David Botrill e Tony Levin – as presenças inesperadas de Caroline Lavelle, no violoncelo, do grupo irlandês Touchstone, do mago das misturas William Orbit, mentor do projecto The Orb, ou do ex-Led Zeppelin John Paul Jones que depois da participação no novo trabalho de Brian Eno, “Nerve Net”, volta a figurar numa ficha técnica de prestígio.
“Us” é um por todos e todos por um. A união faz a força. (7)