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Vários – “Festivais De Verão – ‘Monstros’ Sagrados No Jazz De Verão” (concertos / festivais / artigo de opinião)

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sexta-feira, 4 Julho 2003
destaque


FESTIVAIS DE VERÃO

“Monstros” sagrados no jazz de Verão

Grandes nomes do jazz passarão por Portugal na temporada de festivais de Verão que já neste fim-de-semana se inicia



Wayne Shorter e Dave Holland no Estoril Jazz. Eddie Prévost e John Butcher no Funchal. Aldo Romano, Louis Sclavis e Henri Texier no Porto. Franco Ambrosetti e Benny Golson em Loulé. Marty Ehrlich e Eric Boeren em Lisboa.
O Estoril Jazz receberá dois monstros sagrados: Wayne Shorter e Dave Holland. Shorter, o multifacetado saxofonista dos Weather Report com escola feita com Art Blakey e Miles Davis; Holland, um dos mais extraordinários compositores, arranjadores e contrabaixistas do jazz atual.
Com uma programação eclética, o Estoril Jazz coloca em destaque, este ano, as “big bands”. Além da liderada por Dave Holland, o programa apresenta a Vanguard Jazz Orchestra, fundada por Thad Jones e Mel Lewis, a orquestra do veterano pianista português Jorge Costa Pinto, numa homenagem a Stan Kenton e Woody Herman, e a Jean-Pierre Gebler Belgian All Stars. Outra homenagem, desta feita a um dos criadores do “bop”, Dizzy Gillespie, estará a cargo de um quinteto liderado pelo trompetista brasileiro Cláudio Roditi.
No Funchal, poderão ser ouvidas as fusões latinas do pianista Gonzalo Rubalcaba com o grupo do saxofonista porto-riquenho David Sanchez e, num miniciclo de música improvisada, o saxofonista ultra-radical John Butcher medirá forças com Vítor Rua, enquanto o outro Telectu, Jorge Lima Barreto, fará o mesmo com Eddie Prévost, percussionista dos lendários avatares da música improvisada designados pela sigla AMM.
No Jazz do Parque do Porto, além da homenagem ao pianista “bopper” Herbie Nichols, pelo The Herbie Nichols Project, será de cortar a respiração assistir ao desempenho do trio que junta a bateria de Aldo Romano, os sopros de Louis Sclavis e o contrabaixo de Henri Texier.
Em Loulé haverá uma homenagem a Django Reinhardt, mas a não perder, neste jazz ao sol do Algarve, será a apresentação do trompetista Franco Ambrosetti e de um nome emblemático do “hard bop”, o tenorista Benny Golson, fundador dos Jazztet com Art Farmer.
Este ano em formato mais contido, o Jazz em Agosto incidirá, como é hábito, nas novas tendências do jazz contemporâneo. Tudo poderá acontecer num programa que terá o saxofonista Marty Ehrlich a comandar um sexteto que homenageia e recria a música de Julius Hemphill, os dois trombonistas alemães Johanes e Conrad Bauer e uma “big band” holandesa com direção de Eric Boeren e o saxofone de Sean Bergin –“free sounds” em formato alargado. O piano de Veryan Weston e a voz de Phil Minton arriscarão tudo nos 4 Walls. Han Bennink estará sob as ordens de Tobias Delius, mas a surpresa poderá vir da Brian Ervine Ensemble, orquestra oriunda da Irlanda onde se abriga o já “habitué” deste festival, Paul Dunmall, o homem da gaita-de-foles e outros sopros dos Mujician de Keith Tippett.
Lançados os dados, resta a cada um optar pelo jazz que melhor lhe convier.


Festa no bosque dos druidas

Vizela, Sines e Sendim são os polos da música tradicional neste Verão


No ainda jovem Intercéltico de Vizela, o ambiente conta muito para o sucesso das celebrações em torno da nova cultura com origem na história e imaginário célticos. Os galegos Berroguetto, do multi-instrumentista Anxo Pinto, garantem nota máxima para um festival que terá bandas de gaitas a tocar pelas ruas e uma festa no “bosque dos druidas”, onde público e músicos se juntam para uma viagem pelas tradições milenares, de união e convívio com a música e a Natureza. Em Sendim os celtas estão vivos. Além da presença dos espanhóis Luétiga, o acontecimento será o regresso a Portugal dos Dervish (e, logo, da voz de Cathy Jordan), num festival que encerra com o ritual de uma Missa Intercéltica, onde os homens e os deuses comunicam ao som das gaitas-de-foles. Mais a sul, o castelo de Sines abre-se às músicas do mundo. Como sempre com uma proposta de programação que distingue várias vertentes da “world”, ao ponto de, este ano, trazer o Kronos Quartet, grupo de cordas com especial predileção pela destruição dos dogmas. Para derreter, haverá “reggae” pelos The Skatalites.

Chris Cutler + Eugene Chadbourne + Phil Minton + Jon Rouse + … – “Improvisação Sem Rótulos No Festival Co-Lab” (concertos / festivais / artigo de opinião)

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sábado, 20 Setembro 2003


Improvisação sem rótulos no Festival Co-Lab

Chris Cutler, Eugene Chadbourne, Phil Minton e Jon Rouse são os convidados de honra do festival internacional de música experimental/improvisada do Porto



Phil Minton

Co-Lab, laboratório de colaborações musicais em torno de um conceito de liberdade que nasce da improvisação. É também nome de festival: Co-Lab, Festival Internacional de música experimental/improvisada – de hoje a 28 no Teatro Carlos Alberto, no Porto –, um dos menos comprometidos com as regras do “mainstream”, ao qual não escapam nem as “novas músicas”. Diz a organização que “de fora, ficam todos os rótulos – free jazz, rock progressivo, minimalismo, pós-serialismo and so on”. Descontando o “and so on”, género ainda pouco conhecido entre nós, o Co-Lab despreza, de facto, o imobilismo e a arrumação em prateleiras.
As atenções centram-se em quatro nomes sonantes da música improvisada europeia: Chris Cutler, Eugene Chadbourne, Phil Minton e Jon Rose. Vão colaborar uns com os outros, trocar ideias e sons, em formatos que vão do solo ao quarteto.
Chris Cutler é o baterista-aranha (os seus ritmos estendem-se dos materiais mais elementares à bateria eletrónica), o anarquista, o esteta e o apreciador de vinhos que militou nos anos 70 e 80 em algumas das mais importantes formações de “art rock”, como os Henry Cow, Art Bears, News from Babel e Cassiber, imbuídas do espírito de intervenção política que levou à criação da cooperativa “Rock in Oposition”. Onde a música nasce espontânea, lá está ele a impor a ordem, a única não totalitária, que advém da inteligência, em colaborações que vão de antigos colegas seus nos Henry Cow, como Fred Frith, a Lutz Glandien e aos portugueses Telectu.
Eugene Chadbourne é o guitarrista excêntrico que adaptou a música de Bach ao banjo. Transforma numa espécie de “country music” de insetos Duke Ellington e Albert Ayler e colaborou com os Butthole Surfers, rockers sujos e subversivos. Não menos desalinhado, Jon Rose é o violinista sem escalas nem modelos fixos (incluindo os dos violinos que toca, mutações aberrantes que fariam arregalar os olhos de espanto a Paganini: mecânicos, eólicos, de duplo braço, etc.) e o humorista que já gravou um “Music for Restaurants”, com direito a poesia fonética e colagens delirantes em ementa de “haute cuisine” musical.
Phil Minton, o vocalista doido que canta como se estivesse a viver os últimos segundos de vida e o homem que, na sua estreia ao vivo em Portugal, quase nos atingiu em cheio com uma escarreta (sim, o canto de Minton tem origem no fundo) proveniente de uma “performance”, digamos, mais visceral, completa o quadrilátero de grandes improvisadores deste Co-Lab (dias 24, 26 e 28, às 21h30).

Os portugueses
Paulo Raposo, músico e videasta dos Vitriol, junta forças com o alemão Marc Behrens, criador de atmosferas eletrónicas, e Jeremy Bernstein, autor de um “ambiente informático multidimensional de processamento de dados” (hoje, às 21h30). Pierre Redon improvisará ao lado de Etsuko Chida. O primeiro, influenciado por Cage e Derek Bailey, faz “uma música que tem sobretudo em conta a espacialização da matéria sonora, a polifonia e uma construção rítmica alicerçada sobre pulsações irregulares”. A segunda toca koto (instrumento tradicional japonês) e canta (hoje, às 21h30).
Ernesto Rodrigues, com Guilherme Rodrigues, Manuel Mota, José Oliveira e Margarida Garcia, são outras presenças portuguesas no Co-Lab (dia 24, às 21h30). Ernesto Rodrigues, esgotada a paciência com o rock, dos tempos em que integrava a banda de Jorge Palma, partiu para os limites mais radicais da música improvisada até chegar à chamada “micro-música” ou “near silence”, apropriação das diretivas de John Cage, mestre-escultor do silêncio ou, melhor dizendo, poeta-cientista munido de microscópio sonoro de alta potência.

Festival Co-Lab
PORTO Teatro Carlos Alberto. Tel.: 223401910. Hoje e dias 24, 26 e 28, às 21h30. Bilhetes de 7 a 15 euros.

Crammed Discs – “Le Crème De La Crammed” (artigo de opinião / crítica de discos)

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25 Julho 2003

Nos anos 80, a editora belga Crammed provou que a música popular podia voltar a ambicionar ser obra de arte. Ou, se não, a pôr um bigode no nariz do classicismo. Afinal de contas, Dada também se podia dar ao luxo da luxúria.


Le crème de la Crammed



Os “eighties” foram mais do que o reservatório de óleos pesados, faíscas elétricas e quinquilharia “glamour” que hoje, devidamente reciclados, tomaram a forma de “electroclash”, “tecnocoisa” e outras designações estapafúrdias que mais não servem do que para embalar produtos, na sua maioria, absolutamente destituídos da menor mais-valia musical.
Havia, é certo, os Human League, Orchestral Manoeuvres in the Dark, Tubeway Army ou Berlin Blondes para fazer a ligação entre a monstruosidade industrial dos Throbbing Gristle, Test Dept., SPK e os primeiros Cabaret Voltaire, e as afetações dos chamados neo-românticos (Spandau Ballet, Duran Duran, Classix Nouveaux, etc). Era a maneira de tornar inofensiva uma atitude que levava a rebeldia “punk” aos extremos da ideologia, da tecnologia e da magia. A par destas manobras mais ou menos subversivas, a pop, claro, continuou a sua viagem de longo curso.
No continente, porém, uma terceira via emergiu, o lado “arty” dos anos 80, ponto de cruzamento de mil e uma estéticas, da pop à música contemporânea, da étnica à eletrónica, da clássica ao minimalismo, do jazz às sínteses mais inverosímeis – repondo a questão, deixada em aberto com a irrupção explosiva do “punk”, de como continuar as experiências direcionadas para uma música, dita “pretensiosa”, encetadas na década anterior pelo rock progressivo.
Em Inglaterra já havia quem tratasse do assunto, na cooperativa, editora e distribuidora Recommended que, a partir das sementes lançadas pelos Henry Cow e pelo movimento RIO (“Rock In Opposition”), criara o chamado “rock de câmara”, personificado por bandas como os Art Bears, News from Babel, Present, Conventum, Univers Zero e Art Zoyd.
Na Bélgica constituiu-se a sede do contrapoder, com a criação, em 1981, por Marc Hollander, e Véronique Vincent, da editora Crammed, rapidamente extensiva a uma sua subsidiária, a Made to Measure, vocacionada para a divulgação de propostas mais elitistas e totalmente desfasadas da “normalidade”. A Cramworld, especialista em “world music” surgiria alguns anos mais tarde. Tinha assim início uma aventura “com base em encontros, paixões, ruturas e flirts musicais”, mas também resultante de uma rede de cumplicidades que viria a envolver ainda Hann Gorjaczkowska, responsável pela direção artística e gráfica, Vincent Kenis e Samy Birnbach, dos Minimal Compact, hoje operativo nas pistas de dança com a designação DJ Morpheus.
Marc Hollander e Véronique Vincent eram, são, ambos músicos. Marc fundou um dos grupos mais importantes dos anos 80, situado na charneira entre o polo Recommended e o europeísmo “dandy” da sua própria editora, os Akasak Maboul. Véronique era a cantora dos The Honeymoon Killers. Grupos que, curiosamente, permaneceram até à data com dois dos seus trabalhos a não merecerem honras de reconversão para CD. O presente pacote de 12 reedições, genericamente embalado com o rótulo “Crammed Global Soundclash, 1980-1989” (mais duas coletâneas, uma centrada nas fusões “world”, outra na “electrowave”) disponibiliza-os, enfim: “Onze Danses pour Combattre la Migraine”, que tanto pode ser encarado uma proto-encarnação dos Aksak Maboul como um trabalho a solo de Hollander, e “Les Tueurs de la Lune de Miel”, álbum único dos The Honeymoon Killers.

feito à medida. À Made to Measure, subsidiária da Crammed, coube a tarefa de abrir os portões de um novo mundo. De súbito, a Europa começou a reparar na existência de uma nova música, luxuosamente embalada e produzida, que escapava às habituais catalogações de estilo. Álbuns “feitos à medida” de uma conceção estética que poderíamos designar por “neoclássica” de acordo com o propósito da criação de uma coleção de objetos únicos – obras de arte na verdadeira aceção da palavra. Foi, além disso, uma das primeiras editoras, senão mesmo a primeira, a lançar o conceito de “série”, englobando a diversidade em caixas com selo de marca num misto de obscurantismo quase esotérico e apelo gráfico irresistível. Mais importante que tudo: as músicas que ostentavam na capa a tira “Made to Measure” eram garantia de surpresa e de associações musicais sem paralelo.
O cartão de visita, com número de série MTM1, veio à luz em forma de antologia, com a participação dos Aksak Maboul, Tuxedomoon, Minimal Compact e Benjamin Lew em inéditos compostos de propósito para ela. O destino estava traçado e os números da série seguinte dariam a conhecer algumas obras marcantes da música alternativa dos anos 80. Os melhores: “Reivax au Bongo”, de Hector Zazou (faz parte do atual pacote), “Colorado Suite”, de Blaine L. Reininger e Mikel Rouse, “western spaghetti” em forma de “opus” minimalista (“Philip Glass meets Bonanza”, como escreveu alguém), “A Walk in the Woods”, de The Mikel Rouse Broken Consort, minimalismo com eletrónica e costela romântica, “Sedimental Journey”, de Peter Principle, fragmentos quebrados e incongruentes dos Tuxedomoon, misturados com poemas e interferências cósmicas. “Géographies”, de novo Hector Zazou, Wagner, Raul Ruiz e ZNR em sinfonias de ópio, “Stranger than Paradise”, de John Lurie, “Desert Equations: Azax Attra”, de Sussan Deyhim e Richard Horowitz (incluído no pacote), “Music for Commercials”, de Yasuaki Shimizu, electroanúncios para televisão. “If Windows They Have”, de Daniel Schell & Karo, neo-tudo e obra-chave dos 80, “Down by Law”, de John Lurie, mais BSO em formato de jazz “downtown” de câmara, “Douzième Journée: Le Verbe, la Parure, l’Amour”, segredos e romances eletrónicos, outro clássico, e a sua sequela, “A Propos d’un Paysage”. “Tone Poems”, de Peter Principle, o título diz tudo e não diz nada, “Géologies”, de Hector Zazou, na linha de “Géographies”, “Pretty Ugly”, de Peter Scherer e Arto Lindsay, “noise” e “no rock” domesticados mas não menos sinistros para um “ballet” de Amanda Miller, “Arrows”, de Steve Shehan, “world music” de uma galáxia distante.
Mais recentes: “Le Secret de Bwlch”, de Daniel Schell e Karo, refinamento da nova “chamber music” deste grupo suíço, “Domino One”, de Ramuntcho Matta, “kitsch”, vudu, carnaval, sons de água e de galinhas. Mais convencionais, semi-fracassados ou “excêntricos” pelos motivos errados (exibicionismo sem nexo nem propósito), encontram-se discos de Benjamin Lew, Samy Birnbach e Benjamin Lew (“Nebka” e “Le Parfum du Raki” não estão ao nível dos duetos com Steven Brown), Fred Frith (a BSO, pouco gratificante, “The Top of His Head”), Steven Brown & Delphine Seyrig, Zelwer, Gabor G. Kristof, Karl Biscuit, Seigen Ono, David Cunningham (fez bem melhor do que aqui, com “Water”), ainda Hector Zazou (o redundante “Sahara Blue” e “Glyph”, com Harold Budd), Brion Gysin (neste caso, a conversa é mais que música…) e John Lurie National Orchestra.
Tudo somado, dá para uma quantidade de horas de audição, deslumbramento e, eventualmente, desorientação. As medidas da Made to Measure variavam com a mesma facilidade que a arquitetura das cidades obscuras em BD de Schwitens e Peeters. Mas a Crammed reservou outras das suas preciosidades para o seu próprio catálogo. O bolo teve mais do que uma cereja no topo.


doze danças para combater a enxaqueca

AKSAK MABOUL
Onze Danses pour Combattre la Migraine (1977)
8|10

Fica finalmente disponível em CD o antecessor de “Un Peu de l’Âme des Bandits”. Marc Hollander assegura a quase totalidade da composição e instrumentação deste disco em que o rock de câmara ganha as tonalidades de música de feira, com as suas caixas-de-ritmo de primeira geração, minimalismo “kitsch”, divagações de jazz e variedades impressas em cartões de visita desbotados que evocam os “orgues de barberie” de Pascal Comelade. Um álbum que ditaria algumas das vias posteriormente seguidas por outros artistas do catálogo.

TUXEDOMOON
Desire (1981)
10|10

Exilados na Europa, os norte-americanos Tuxedomoon abandonaram o pós-punk erudito que marcou o seu álbum de estreia na Ralph, inevitavelmente influenciado pelo som dos Residents, para mergulharem no crepúsculo de uma música que aliava a nostalgia ao futurismo. Ritmos automáticos, o violino “alien” de Blaine L. Reininger, o arsenal de efeitos eletrónicos desconjuntados de Peter Principle e os teclados e sopros de Steve Brown, capazes de se infiltrarem no sangue de um jazz doente como um antibiótico, servem canções sobre a decadência do amor e do Ocidente.

HONEYMOON KILLERS
Les Tueurs de la Lune de Miel (1982)
8|10

Os assassinos da lua-de-mel, bizarra formação franco-belga liderada pelo saxofonista, já falecido, Yvon Vromann, não são assim tão violentos, embora se inspirassem no “punk” e na “new wave”, mas seguindo um figurino francês. O lado “arty” emerge, porém, quando menos se espera, nas aproximações jazz/burlescas de uns Etron Fou Leloublan enquanto o sorriso pop chega a ser pateta numa faixa como “Histoire à suivre”, com sabor a Jane Birkin. Tudo estaria bem se não houvesse um saxofone a gritar “free jazz”. E há coisas como faziam os Kas Product (lembram-se?) e os Alésia Cosmos (ninguém se deve lembrar…). Eletrónica no batedor e ritmos Recommended integram igualmente este curioso objeto que agora surge aumentado por temas extra, entre os quais um “live” com os Aksak Maboul.

BENJAMIN LEW
Compiled Electronic Landscapes (1982)
8|10

Antologia de fragmentos e paisagens eletrónicas extraídos dos álbuns a solo “Nebka” e “Le Parfum du Raki”, bem como das anteriores e francamente superiores colaborações com Steven Brown. Os títulos e ambientes dir-se-iam recortados de um filme de Marguerite Duras ou do “Marienbad” de Resnais. Portos do Mediterrâneo, ventos do deserto, as aventuras de Adéle Blanc-Sec e de Arsène Lupin na Paris da Belle Époque em quadros eletrónicos onde a influência de Eno se veste com o onirismo dos filmes do inconsciente.

ZAZOU, BIKAYE, CY1
Noir et Blanc (1983)
8|10

Desta colaboração entre Hector Zazou, previamente nos ZNR, o cantor congolês Boni Bikaye e o grupo de eletrónica Cy1 resultaria um dos primeiros exemplares de etnotecno, antes da queda na variante etnoseca. As programações, imbuídas do calor próprio dos sintetizadores e sequenciadores analógicos, seguram danças dervíshicas enfeitadas pelos cânticos afro de Bikaye. Absolutamente hipnótico ou, como alguém descreveu na altura esta fusão de prototecno e arvoredos “world”: “Fela Kuti meets Kraftwerk on the dance floor. Arrumar ao lado da variante kraut e, inevitavelmente, mais fria, “Zero Set”, de Dieter Moebius, Conny Plank e Mani Neumeier.

MINIMAL COMPACT
Deadly Weapons (1984)
6|10

Samy Birnbach e a israelita Malka Spiegel fizeram dos Minimal Compact uma das bandas da Crammed com maior projeção fora de portas. A mistura de elementos rock com melodias e sonoridades do Extremo Oriente, onde alguém, mais excitado, viu o encontro de Ian Curtis com a cantora folk egípcia Oum Kalsoum, não resistiu ao desgaste do tempo, ouvindo-se hoje como um típico objeto dos anos 80 pós-Joy Division, já impregnado pelo espírito electro.

KARL BISCUIT
Secret Love (1984)
5|10

Karl Biscuit era uma figura enigmática que aparece na capa de “Secret Love” a fazer o número do manequim romântico. Apesar das referências aos Depeche Mode e aos Human League e da graça de lhe terem chamado “Julien Clerc em três dimensões”, a pop eletrónica e as “torch songs” de pacotilha servidas em bandeja de mambo e eletrobeats baratos é pouco convincente enquanto testamento musical deste francês hoje responsável pela companhia de dança Castafiore.

HECTOR ZAZOU
Reivax au Bongo (1986)
9|10

Registado originalmente na Made to Measure, “Reivax au Bongo” é um daqueles discos que parecem saídos do sonho de um louco. Composto como banda sonora para uma telenovela imaginária (!), o “primeiro lado” experimenta, num contexto de desenhos animados, as vocalizações étnicas de Boni Bikaye, Kanda Bongo Man e Ray Lema. Tão delirante como exótico, este primeiro segmento não faz prever o que se segue: naipes grandiosos de música coral cantada por donzelas e querubins que se elevam nas alturas como um madrigal pré-barroco de Gabrielli ou Heinrich Schütz.

COLIN NEWMAN
Commercial Suicide (1986)
6|10

Pop eletrónica com dose de excentricidade q.b. pelo ex-vocalista dos Wire, em colaboração com John Bonnar, Malka Spiegel e o engenheiro de som/produtor e alicerce do chamado “som belga”, Gilles Martin. A par de canções padronizadas na pop eletrónica da época, a presente reedição junta-lhes um inédito com Newman a falar da sua música, sobre fundo sonoro. Os mais exagerados viram neste álbum as mesmas qualidades de “Rock Bottom”, de Robert Waytt, e de “The Madcap Laughs”, de Syd Barrett, mas a verdade é que a este “suicídio comercial” falta tanto a tragédia como a loucura.

SONOKO
La Débutante (1988)
7|10

Disco de uma beleza fora do vulgar a deste baile de debutante de uma cantora japonesa com voz de boneca caída no jardim de Virginia Astley. O som de dar corda a uma caixa-de-música dá o mote a uma coleção de melodias frágeis, por vezes arrebatadoras, que incluem uma mutação cândida de “Cheree”, dos Suicide, modificada para “Cheri cheri”, uma letra de Shakespeare, uma dedicatória a Brigitte Bardot, “La poupée qui fait non”, de Michel Polnareff, música de igreja, um requiem de Gabriel Fauré (1888) e uma arrepiante, porque falsamente ingénua, versão de “In heaven”, da banda sonora de “Eraserhead”, de David Lynch. No filme o tema é cantado por uma bailarina que vive dentro de um radiador, ao mesmo tempo que pisa espermatozoides: “In heaven everything is fine”.

SUSSAN DEYHIM & RICHARD HOROWITZ
Desert Equations: Azax Attara (1987)
8|10

Étnica, técnica, tecno, cânticos da Pérsia, programas de computador, “drones” e dunas. Danças eletro em contraponto com uma voz planetária. O escritor Paul Bowles perguntou, a propósito, se esta música foi composta sob a influência de algum alucinogénico, enquanto Jaron Lanier, cientista, compositor e inventor da realidade virtual fala de uma genuína viagem dos corpos através de uma paisagem hi-tech. “Azax Attra” percorre-se como se pisássemos o solo de uma ilusão e subitamente sentíssemos no rosto o choque da areia empurrada pelo vento.

BEL CANTO
White-out Conditions (1988)
7|10

Muito antes dos icebergs imóveis dos Sigur Rós, os noruegueses Bel Canto, da cantora Annelli Marian Drecker, lançavam ao mar o conceito de pop ártica que viria a ramificar-se na atualidade por nomes como Biosphere, Chiluminati e Röyksopp. Apesar da rítmica ser de gelo, chovem melodias capazes de inflamar os corações, como “Blank sheets”. Fizeram-se comparações com os Cocteau Twins, Sara MacLachlan, Dead Can Dance e Talk Talk, mas é mais singelo do que isso.