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Artigo de Opinião: Rock Progressivo – “Progredir de A a Z” ou “Work In Progress”

Pop Rock

5 de Junho de 1996

“Work in progress”

Progressivo. O termo seduz muitos e assusta alguns. Hoje, porém, já há quem escreva, sem vergonha, coisas como “progressive house”, “progressive techno”. Mais do que uma estética ou um estilo, o Progressivo foi – é -, antes de mais, uma atitude que vingou em Inglaterra, entre 1970 e 1975. Todas as modas que atravessaram a década seguinte não foram suficientes para apagar aquela que foi uma das épocas mais originais e produtivas da música popular. É assim que 1996 assiste à consagração de velhos dinossauros como os Jethro Tull, este ano nas comemorações do seu 30º aniversário, mas também ao ressurgimento de fenómenos como “rock alemão”, ou Krautrock, na expressão agora recuperada por Julian Cope, no seu livro “Krautrock Sampler”, tornado bíblia do Progressivo. Grupos como os Faust, Amon Düül II, Can e Neu! voltaram a gravar e a tocar ao vivo, com os primeiros a assinarem um dos grandes álbuns do ano passado, “Rien”. O facto ganha maior relevância quando se sabe que bandas recentes como os High Llamas ou Stereolab reivindicam os papas do rock alemão como uma das suas principais influências. Quem se aproveitou do período de sombra que cobriu o Progressivo, em Inglaterra, ao longo da década de 80, foram os chamados “neo progs”, aprendizes bem-intencionados mas de magros recursos no que respeita a criatividade e personalidade próprias, que copiaram sem moderação os modelos antigos. “Neo progs” como Marillion, Twelfth Night, Pallas, I. Q. ou Pendragon. Pelo contrário, editoras como a Cuneiform ou Recommended, mantiveram acesa a chama, com muitos dos seus artistas a passarem por uma quase clandestinidade sob o caudal das modas, enquanto outras, como a francesa Musea, a Si-Wan coreana ou a Repertoire alemã, se têm dedicado sobretudo à reedição tanto de clássicos como de trabalhos mais obscuros do Progressivo, preenchendo um mercado em franca ascensão. Os verdadeiros “progressivos”, posteriores aos anos 70, de um e do outro lado do Atlântico, davam por nomes tão estranhos como Univers Zero, Art Zoyd, Birdsongs Of The Mozosoic, Aksak Maboul, 5 Uu’s ou Motor Totemist Guild. Por outro lado, a implantação das chamadas “músicas do mundo” provocou um interesse renovado pelas bandas pioneiras do folk “progressivo”. Numa altura em que cada vez mais bandas novas descobrem as virtudes da electrónica analógica, o PÚBLICO apresenta o seu manual de orientação, de A a Z, do Progressivo.

PROGREDIR DE A A Z


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Americanos – Foram eles que deram má reputação ao Progressivo, conotando-o com o “rock sinfónico”. Mas a decadência vingou, nos Boston, Kansas, Journey e quejandos.

Bandas – Na década de 70, o colectivo sobrepôs-se ao individual. Foram os grupos que ficaram para a História. Era difícil a uma pessoa só tocar 40 instrumentos ao mesmo tempo… Personalidades, houve Robert Wyatt, Kevin Ayers, Daevid Allen (os excêntricos de Canterbury), Brian Eno, John Martyn, Nick Drake, Neil Ardley, Mike Oldfield e o seu parceiro das orquestrações David Bedford, Roy Harper, Robert Fripp. E David Bowie e Peter Gabriel, mundos à parte. E Peter Hammill, um mundo ainda maior e mais à parte.

Canterbury – Em 1961, um grupo de estudantes de arte – Robert Wyatt, Mike Ratledge, Kevin Ayers e Daevid Allen – formava na pequena localidade de Canterbury, no Sul de Inglaterra, um grupo, os Wilde Flowers, que estaria na origem do subgénero mais importante e “cool” do Progressivo e ficaria para sempre designado pelo seu local de origem. O som “canterbury” caracterizava-se por vocalizações pastoris, experimentalismo pop, jazz diletante e um órgão electrónico saturado de “fuzz”. Soft Machine, Gong, Egg, Caravan, Hatfield and The North, Gilgamesh, Matching Mole, os primeiros Camel, National Health, Soft Heap, Khan são nomes de ponta de um movimento que nos Estados Unidos se prolongou pelos Happy The Man, However e Muffins. No Japão, os Ain Soph são os representantes oficiais de Canterbury. Na Internet, existem pelo menos dois sítios que lhe são dedicados – Calyx e Musart.

Dean, Roger – Não se falava em crise e as capas dos álbuns desdobravam-se em metros e metros de papel. Álbum “progressivo” digno desse nome era obrigado a ter uma capa de abrir. Entre os desenhadores de capas que fizeram escola, Roger Dean distinguiu-se pelo onirismo e originalidade dos seus traços, criando um estilo inconfundível que outros, depois dele, copiaram. Ficaram célebres as capas dos Yes, mas também os Budgie, Greenslade, Gentle Giant, Uriah Heep e Osibisa tiveram a sua música embrulhada nos sonhos gráficos de Roger Dean. A capa do “Mellon Collie”, dos Smashing Pumpkins, é “progressiva”.

Electrónica – Fez escola na Alemanha, mas também em Inglaterra (David Vorhaus/White Noise, Seventh Wave, Ron Geesin, Tonto’s Expanding Head Band), Itália (Franco Battiato, Pierrot Lunaire), Estados Unidos (Ned Lagin, Beaver & Krause) e, sobretudo, em França, sob a tutela de Pierre Henry (Pôle, Heldon, Lard Free, Bernard Szajner, Alan Markusfeld). A parafernália electrónica posta à disposição dos músicos favoreceu igualmente o aparecimento de monos como os de Hot Butter, primeiro grupo a levar a pop electrónica ao 1º lugar do “top” de singles britânico, com “Popcorn”.

Folk “progressivo” – Nasceu da fusão do psicadelismo com a folk tradicional, casando bem com a inventividade do Progressivo. Steeleye Span, Fairport Convention, Pentangle e Strawbs inventaram o “folk rock”, deixando para as bandas “menores” a missão de se perderem em sons menos catalogáveis. Trees, Dando Shaft, Spirogyra, Mellow Candle, Dr. Strangely Strange, Tudor Lodge, Magna Carta, Trader Home, Forest, C.O.B., Fuchsia… Os Incredible String Band constituem uma lenda à parte. Na altura eram “hippies” e loucos. Em 1996, começa-se a compreendê-los.

Gentle Giant – Os estetas do movimento. Fizeram a síntese da música contemporânea, das polifonias medievais, no minimalismo, da “folk”, do “hard rock”, do psicadelismo, de tudo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Os manos Shulman e o teclista Kerry Minnear tocavam todos os instrumentos e todas as culturas, “Gentle Giant”, “Acqiuring The Taste”, “Three Friends”, “Octopus” e “In A Glass House”, os cinco álbuns da fase inicial, são obras-primas do Progressivo que ainda hoje se escutam como se fossem novidades.

Harvest – Selo célebre, dos poucos a poder competir com a Vertigo. O seu maior troféu são os Pink Floyd e as capas da Hypgnosis, que se juntaram no marco do Progressivo, “Atom Heart Mother”. Albergou uma chusma de lunáticos: Tea & Symphony (“Na Asylum For The Musically Insane” deve ser o álbum mais esquizofrénico de todo o Progressivo ou lá o que for…), Battered Ornaments, Pete Brown & Piblokto, Quatermass, The Greatest Show On Earth, Third Ear Band, Forest…

Italianos – Em Itália, os “progressivos” liam pela pauta, não desdenhando a sua herança clássica. Van Der Graaf Generator, King Crimson e Emerson, Lake & Palmer foram os modelos eleitos por grupos como Premiata Forneria Marconi, Banco, Celeste, Le Orne e Il Balletto di Bronzo. Bastante mais interessantes são as propostas radicais dos Area, Arti & Mestieri, Dedalus, Stormy Six ou Picchio Dal Pozzo, que preferiram expor-se à audição de Zappa e dos Henry Cow.

Jazz – Miles Davis aproximou-se do Progressivo em “Pangaea”. E Sun Ra, nos álbuns com lados inteiros com solos de Moog, como a gravação ao vivo “Nuits de la Fondation Maeght” e “It’s After the End of the World”.

Krautrock – Julian cope recuperou para a actualidade um termo que designa uma infinidade de propostas musicais originárias da Alemanha. A “kosmische Muzik” de Klaus Schulze, Ashra e Tangerine Dream. O rock anarquista dos Guru Guru, Grobschnitt, Amon Düül II e Floh de Cologne. O romantismo dos Wallenstein, Hoelderlin e Parzival. O tribalismo dos Can e Embryo. O jazz-rock híbrido dos Release Music Orchestra, Annexus Quam e Kraan. O misticismo dos Popol Vuh e Yatha Sidhra. O industrial “avant la lettre” dos Cluster e Kraftwerk. O minimalismo dos Neu!, Harmonia e La Dusseldorf. A revolução total dos Faust. Pete Namlook, Jeff Greinke, Peter Frohmader, Holger Hiller e Asmus Tietchens são alguns dos seus actuais sucessores.

LSD – Lucy desceu do céu e trouxe diamantes. O consumo baixou, em comparação com a gulodice dos psicadélicos que na década anterior provocaram a ruptura de “stock”. Os “progressivos” também tomaram a pastilha mas a necessidade de rigor não se compadecia com as desbundas do “acid rock”. Os filósofos “sérios” e a literatura fantástica e de ficção científica foram dissecados enquanto Timothy Leary ficou guardado para os feriados. Era preciso ter a cabeça no lugar, para juntar o onirismo a um perfeccionismo por vezes quase maníaco. Os Gong nunca tiveram esse problema…

Moog – Durante o Progressivo, o reinado das guitarras cedeu ao dos teclados electrónicos. O sintetizador Moog e o “mellotron”, um órgão de cassetes que reproduz sonoridades orquestrais, funcionaram como símbolos da aventura sonora de uma época. Actualmente, assiste-se à recuperação destes dois instrumentos. Nenhum “sampler” conseguiu igualar o calor do LFO (Low Frequency Oscillator) do velhinho Moog analógico. É preciso ouvir “Lucky man”, dos Emerson, Lake & Palmer.

Nórdicos – Apanharam a tempo o comboio. Jazz, pop transviada, folk, minimalismo. Wigwam, Tasavallan Presidentti, Burnin’ Red Ivanhoe, Sammla Mammas Manna, Day of Phoenix, Bo hansson. Lars Hollmer e Pekka Pohjola são dois dos maiores compositores europeus da actualidade. A Resource tem estado atenta no capítulo das reedições.

Orquestras – Nunca casaram bem com o Progressivo, paradoxalmente um movimento que muitos, de forma errada, definiram como “rock sonfónico”. As experiências dos Moody Blues, Procol Harum, Deep Purple e Rick Wakeman ficaram como curiosidades.

Peel, John – O papa do éter britânico. Passou no mítico Top Gear da Radio One (vencedor crónico dos “polls” da imprensa musical na década de 70) os grupos todos. Criou a sua própria editora, Dandelion. Algumas das suas “Peel sessions”, gravadas ao vivo no estúdio, são pérolas do Progressivo, como as dos Can e Soft Machine.

Quantidade – De instrumentos, de cartão para as capas, de títulos incríveis, de tendências absurdas, de palavras incompreensíveis, de golpes de génio. O Progressivo foi o reino da quantidade e do excesso. Uma cornucópia a jorrar para os anos 90.

Recommended Records – A editora mais “progressiva” dos anos 80, fundada pelo baterista e teórico dos Henry Cow, Chris Cutler. Nela estão registadas algumas das propostas mais arrojadas deste período: Art Bears, Cassiber, Wha Ha Ha, After Dinner, Steve Moore, Biota, Jocelyn Robert, Univers Zero, Negativland, Charles W. Vrtacek. Tem editoras irmãs espalhadas pela Europa: Rec Rec, Woof, These, No Man’s Land, Points East (dedicada à música do Leste)…

Segunda linha – Se os grupos principais, ingleses, do movimento, Genesis, Camel, Gentle Giant, King Crimson, Van Der Graaf Generator, Yes, Jethro Tull e Gryphon, foram aqueles que ficaram nos registos, outros houve, com menor projecção mediática, que definiram as linhas menos ortodoxas do Progressivo. É por estes que o coleccionador se interessa, idiossincrasias às quais o tempo conferiu uma aura de mistério. East of Eden, Ben, Tea & Symphony, Secondhand, Gracious, Gnidrolog, T. 2, Stackridge, The Greatest Show On Earth, Clarck Hutchinson, High Tide, Comus, Spirogyra, entre muitos outros, mais do que os consagrados, sustentaram a mística do Progressivo.

Tantra – A banda de Manuel Cardoso foi a única, em Portugal, a levar o progressivo às últimas consequências, juntando o profissionalismo e a teatralidade em álbuns como “Mistérios e Maravilhas” e “Holocausto”. José Cid gravou “Dez Mil Anos depois, entre Vénus e Marte”, muito considerado nos meios coleccionistas internacionais. Os Petrus Castrus ficaram-se por “Mestre” e os GNR desistiram, depois de “Avarias” de “Independança”. Os Beatnicks nunca chegaram a gravar o épico “Cosmonicação”. Ainda hoje se segreda aos ouvidos o nome dos Ephedra.

Uma vez – Era uma vez uma palavra que se julgava enterrada para sempre. Não estava porque a atitude que lhe estava subjacente nunca morreu. Venham de lá os que nos anos 90 primeiro se aproximaram do Progressivo, embora deixando cair a alma pelo caminho. Main, My Bloody Valentine, Spacemen 3, A. R. Kane.

Vertigo – A editora clássica da primeiro fase do Progressivo. Foi a primeira editora a apostar em exclusivo no mercado dos longas-durações. As reedições excelentes, têm estado a ser efectuadas de forma metódica pela Repertoire. Gentle Giant, Nucleus, Ben, Cressida, Fairfield Parlour, Affinity, Beggars Opera, Catapilla, Gracious, Tudor Lodge, Bob Downes Open Music, Manfred Mann Chapter Three, Keith Tippett Group, os melhores. E coisas raras, esquisitas e valiosas como Still Life, Hokus Poke, May Blitz, Nirvana (não confundir com…), Dr. Z, Clear Blue Sky, Warhorse, Legend…

White Noise – Reparem bem neste nome. “An Electric Storm”, álbum de 1969, é um dos maiores rasgos de futurologia que se conhecem. Pop saturada de LSD, electrónica espacial, surrealismo “bubblegum”, vozes astrais, risos de pulgas e uma missa negra, debaixo de trovoada, celebrada no Inferno.

X – “Mister X Gets Tense” e “Saculty X”, de “Get Tense Ph7”. “Xmy Heart”, o álbum mais recente. Até quando Peter Hammill terá a energia necessária para se manter como porta-voz da voz mais profunda e perturbada do Progressivo dentro de uma cabeça só? A incógnita…

Yes – Sim… Talvez… Não… Nenhum outro grupo congregou em igual percentagem o ódio e a veneração como os Yes. Simbolizam em simultâneo o lado melhor e pior do Progressivo. Em termos de virtuosismo instrumental, eram imbatíveis. Os excessos, praticaram-nos todos. O duplo “Tales Of Topographic Oceans”, com os seus quatro longuíssimos temas, é para alguns uma obra-prima, enquanto para outros representou o pior pesadelo do Progressivo. Sobre a voz andrógina de Jon Anderson, há quem, só de a ouvir, jure que sobe ao céu, e quem vomite.

Zeuhl – Termo que designa o universo estético e ideológico criado em França pelos Magma. Antes deles eram os Ange que lideravam o Progressivo em França, mas foi a banda de Christian Vander a definir a linha mais forte e original do movimento. Deixaram uma legião de discípulos “zeuhl” como os Zao, Weidorje, Xalph, Eskaton, Shub Niggurath, Musique Noise, cuja característica comum era a paixão por Nietzsche, Wagner e Coltrane. Em oposição a tudo andaram os Etron Fou Leloublan e Albert Marcoeur.



The Incredible String Band – “Earthspan” + “No Ruinous Feud” + “Hard Rope And Silken Twine”

Pop Rock

3 de Maio de 1995
álbuns poprock
reedições

A INCRÍVEL SERIEDADE

INCREDIBLE STRING BAND
Earthspan (7)
No Ruinous Feud (4)
Hard Rope and Silken Twine (5)

Edsel/Island, distri. Megamúsica


isb

Os Incredible String Band são hoje uma espécie de lenda. Há quem lhes chame pioneiros da “world music” mas a sua importância histórica não se esgota nessa catalogação, antes radica numa atitude de verdadeiros “outsiders” perante a música. Basicamente, os ISB – desde sempre um núcleo duro formado por Mike Heron e Robin Williamson, este último tornado hoje num nome respeitável da “folk” escocesa – juntaram a vertente “Folky” muito em voga a partir de meados da década de 60 com a vaga de fundo do psicadelismo surgida mais ou menos na mesma altura. Ainda nos anos 60, os ISB gravam dois álbuns marcantes, “The Hangman’s Beautiful Daughter” e o duplo “Wee Tam and the Big Huge”. Muito do fascínio que envolve estes discos (aos quais poderemos ainda juntar outro duplo, “U”, uma experiência no entanto algo desequilibrada) vive da liberdade total com que os ISB encaravam a elaboração de cada tema. O termo “canção” faz pouco sentido para definir sequências de poesia e alucinações lisérgicas que tanto podiam durar alguns segundos como estender-se por longas “suites” de dez e quinze minutos. Era, no fundo, a adopção de estruturas formais não-ocidentais aplicadas ao formato pop, o que resultou numa espécie de histórias musicadas onde a riqueza expressiva dos textos casava de modo sempre imprevisível com o exotismo dos arranjos e da inspiração de momento. Na prática, tudo cabia na música dos ISB. Os anos 70 – correspondentes à passagem da Elektra para a Island – marcaram uma viragem, na medida em que o grupo normalizou o seu discurso, adaptando-se a normas de composição mais convencionais, ao mesmo tempo que o lado “naïf” e “hippie” – garantido em grande por duas raparigas, Rose Simpson e Licorice – desaparecia. Há ainda assim dois álbuns fabulosos editados nos primeiros anos da década de 70, a banda sonora para um documentário naturalista, “Be Glad fo the Song has no Ending” e “Liquid Acrobat as Regards the Air”. Refira-se entretanto que de todos os álbuns até aqui citados apenas “U” e “Be Glad…” não têm por enquanto reedição portuguesa em CD. “Earthspan”, gravado a seguir a “Liquid Acrobat”, apresenta ainda relativamente intacta a visão descentrada dos ISB. Heron e Williamson mantinham o “élan” composicional e o álbum inclui pérolas como “Antoine” e “Sunday song”, ambas com a assinatura de Heron, ao lado de três instantes de pura magia, como só Robin Williamson era capaz de criar (aliás Williamson sempre mostrou ser o elemento mais original da dupla, recorrendo a um leque de referências – poéticas e musicais – mais extenso que o do seu companheiro): “Restless night”, “Banks of sweet Italy” e “Moon hang low”, este último um clássico de sempre das noites etílicas ao luar.
A partir daí, os ISB tornaram-se uma banda vulgar. “No Ruinous Feud”, de 73, mostra que o grupo já dominava as regras de funcionamento da canção “normal” mas isso pareceu funcionar em seu desfavor. Tudo o resto tornou-se igualmente normal e previsível. Gravado no mesmo ano, “Hard Rope and the Silken Twine” salva um pouco a face do grupo, com uma composição de Williamson à altura dos seus pergaminhos, “Dreams of no return”, antecipando já a sua futura fase de bardo com os Merry Band, e uma longa composição de Heron, “Ithkos”, inspirado no folclore grego, mas que não consegue escapar aos clichés do rock sinfónico, soando amiúde como um “pastiche” dos Procol Harum.



Kevin Ayers – “Still Life With Guitar”

Pop Rock

25 MARÇO 1992

SOL, CHAMPANHE E BLUES

KEVIN AYERS
Still Life with Guitar

LP/CD, Fnac Music, distri. Variodisc

ka

Depois de debilidades como “As Close as You Think” (1986) e “Falling Up” (1988), e a par de uma reconhecida tendência para deixar andar as coisas, é de todo inesperado este regresso em força de Kevin Ayers. “Still Life with Guitar” é “só” o melhor álbum de ex-Soft Machine da sua fase, digamos, “normal”, que inclui todos os discos posteriores à esquizofrenia genial de “Joy of a Toy” e “Shooting at the Moon” e o parênteses da sequência que ocupa todo o primeiro lado de “The Confessions of Dr. Dream”, com Nico e Brian Eno – fase de que fazem parte, portanto, os imprescindíveis “Whatevershebringswesing” e “Bananamour”.
É como se Kevin Ayers acordasse da longa letargia que o levou a estiolar ao sol e no lazer da Cote d’Azur e do Sul de Espanha, onde durante os últimos anos foi deixando secar a inspiração, para finalmente se lançar em busca do tempo perdido.
Diga-se desde já que o conseguiu. “Still Life with Guitar” tem todas as características da fase dourada: a excentricidade elegante, uma maneira de contar histórias capaz de transformar a frase mais vulgar numa peça de um “puzzle” montado por um internado do Rilhafoles, os balanços rítmicos empurrados pelo álcool e, sobretudo, a inconfundível voz de barítono, mais “blasée” e profunda do que nunca. Num total de dez temas que compõem “Still Life with Guitar”, pela menos metade vai direita á galeria dos clássicos do autor: “Something in between”, “Thank You Very Much”, “Fhost Train”, “I don’t depend on you” e “M 16”. Os outros cinco estão em fila de espera. Desde a abertura – que, nas primeiras notas, remete para Lou Reed – de “Feeling this way” ao tradicional que encerra o disco “Irene good night”, escreve-se, à luz branca da Lua (a luz que enlouquece no “Lunatic’s lament” de “Shooting at the Moon”), um compêndio de canções fora de moda, fora do tempo, mas mesmo a tempo de nos desintoxicar do verniz tóxico com a maioria da actual produção pop nos envenena.
Não falta nenhum capítulo: a balada estelar e pianística de “Something in between”, o regresso ao café surrealista de “May I”, com mesa reservada em “Thank you very much”. Novos uivares à Lua em “Ghost train”, depois do comboio-fantasma não ter parado ao sinal de “Stop this Train” (do álbum “Joy of a Toy”, a rádio sintonizada nos “blues” etilizados pelos vapores de um vibrafone em “I don’t depend on you” (os conhecedores saberão reconhecer e apreciar, neste e noutros temas, a construção de frases e as rimas típicas do compositor), as ondulações vocais do “crooner” à beira do naufrágio em “M 16”. Mas há mais: as aventuras de Johnny, o mentecapto romântico, ao ritmo “zydeco” de um acordeão rural em “There goes Johnny”, o retorno do “cowboy que gosta de champanhe” em “When your parents go to sleep”, sem esquecer o diálogo instrumental “cool” entre a guitarra de Ollie Halsall (há muito companheiro habitual de Ayers), o contrabaixo de Danny Thompson e a bateria de Roy Dadds ou a personificação de Georges Moustaki em jeito de “country blues” no tradicional “Irene good night”. Uma referência especial a dois dos convidados: Mike Oldfield, num regresso em força desde os bons velhos tempos em que integrava a Whole World, de “Shooting at the Moon”, e Anthony Moore – ex-Slapp Happy, eventual desestabilizador nos Henry Cow e autor de uma das obras-primas mais menosprezadas de sempre da música popular, “Flying doesn’t Help”. A surpresa do ano. (9)

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