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Marisa Monte – “Marisa Monte Traz Novo Espectáculo A Portugal – ‘Ao Vivo É A Hora De Ser'” (entrevista)

Secção Cultura Quarta-Feira, 23.10.1991 (entrevista)


Marisa Monte Traz Novo Espectáculo A Portugal
“Ao Vivo É A Hora De Ser”


Há qualquer coisa em Marisa Monte que apela aos sentidos. A cantora brasileira impressiona pel voz envolvente, mas também por uma presença física que, na pose distante, sabe atear o desejo. Arto Lindsay, John Zorn e Ryuchi Sakamoto sucumbiram ao fascínio, no novo disco da jovem diva. Lisboa e Porto vão vê-la, escutá-la e pedir “Mais”.



“A minha música e a minha presença em palco, são extensões do que eu sou” – explica ela. Talvez resida aí o segredo desse algo indefinível que “encanta as pessoas” e que os portugueses terão oportunidade de verificar “in loco”, dias 25 e 26 em Lisboa, na Aula Magna, e a 28 no Coliseu do Porto.
PÚBLICO – Em relação aos concertos de Lisboa e do Porto, quais serão as diferenças quanto à actuação de há um ano, no Festival “Sons do Mar”?
MARISA MONTE – Isso foi antes do meu segundo disco [“Marisa Monte”]. A principal diferença é que, desta vez, vou apresentar um maior aparato cénico. Trazemos alguns panos de fundo do Brasil, algumas projecções em 16 mm. É um “show” reduzido, diferente do que faço no Brasil mas, mesmo assim, bem melhor que a minha apresentação do ano passado. Vai ter uma hora e meia de duração.
P. – Que reportório escolheu para os dois espectáculos?
R. – Basicamente o meu reportório dos dois discos e músicas inéditas. Ao todo, o “show” vai ter umas 18 músicas, incluindo canções de Tim Meyer, “Não quero dinheiro, só quero amar”, Johnny Nash, “I can see clearly now”, Lennon / McCartney, “Dig a pony”, uma de Tom Waits, “Temptation”. E uma ópera, “La Sonnambula”, de Bellini…
P. – Trata-se de um regresso às origens de cantora lírica?
R. – Há muito que tinha vontade de o fazer. Mas agora cantarei a ária sobre uma base totalmente contemporânea, sem o menor compromisso com a orquestração original de Bellini. Canto a melodia sobre uma base de banda, mesmo. É uma coisa que vou estrear aqui em Portugal.
P. – Em termos de apresentação visual, como será a imagem que vai dar de si ás plateias portuguesas?
R. – É isso aí, quem vier verá…
P. – Costuma afirmar que não pretende assumir-se como estrela. Mas o facto é que, aos 23 anos e com apenas dois discos gravados, o seu sucesso já é imenso…
R. – Tenho que ter muita lucidez, porque o sucesso é uma coisa que, por pouco que nós mudemos, leva toda a gente a mudar em relação a nós. Então, não posso perder a noção de compromisso que tenho com a música, e não com a minha imagem, nem com essa coisa de ser estrela. Acredito que o meu sucesso se deve sobretudo ao trabalho.
P. – É por isso que tem o hábito de controlar até ao mínimo pormenor todos os aspectos da sua carreira, desde a preparação dos espectáculos, aos discos e à imagem?
R. – É uma característica importantíssima. O meu trabalho tem cada vez mais um traço não de compositora mas de autora. Escolher o produtor, a encenação, o reportório, ensaiar a banda, tudo isso são coisas que eu faço, pedindo sempre a opinião das pessoas que estão perto. Mas cada vez mais tenho maior autoridade sobre o meu trabalho. Autoridade, não autoritarismo.
P. – Com a sua idade revela uma grande maturidade…
R. – Não é fácil, porque se está a lidar com interesses diversos: da editora, da banda… Certas coisas podem parecer óptimas para toda a gente, mas não para você. Podem gritar “está óptimo, vamos nessa” e isso não ser realmente o melhor. Tenho o cuidado de não me expor demais. Acredito que o consumo é uma coisa perigosa por isso não o fomento: não vou à televisão, não faço “playback”. Sou uma pessoa que preza os princípios e a própria integridade.
P. – Essa recusa tem relação directa com a imagem de distanciação que parece cultivar?
R. – Mantenho essa distância em relação a certas coisas, e proximidade em relação a outras. O que não fomento é a imagem de estrela, para mim pejorativa. Sou uma pessoa normal e faço questão de o ser. Só assim é possível ter liberdade de movimentos e um mínimo de vida privada.

“Playboy”, Não

P. – Ao vivo, essa distância desaparece, anulada pela gestualização extrema e por uma entrega total ao espectáculo, que lhe são características…
R. – Ao vivo é a hora de ser. Se há um momento em que eu tenho de estar exposta, esse momento é no espectáculo. Agora não faço campanha política, nem apareço “pelada” na “Playboy”. Não faço fotografia de moda, nem cinema, nem “comerciais” na televisão. Existem muitas solicitações e oportunidades, mas nem todas são boas. Às vezes é preciso saber perder uma oportunidade…
P. – Até agora a escolha do seu reportório tem incidido em “standards” ou em temas de outros compositores. Considera-se uma intérprete de música brasileira ou apenas uma intérprete que, por acaso, nasceu no Brasil?
R. – Ah sim, o Brasil no mundo! Não o Brasil para dentro do Brasil. O Caetano fez isso no estrangeiro, entrou em contacto com a Pop internacional, com outros músicos. Lá porque sou brasileira tenho de cantar só músicas brasileiras?
P. – Mas o Caetano manteve-se de certa forma fiel às origens brasileiras. Não receia o perigo da descaracterização?
R. – Mas o meu segundo disco [“Mais”, produzido por Arto Lindsay e com a colaboração de nomes sonantes da “downtown” nova-iorquina, como John Zorn e Bernie Worrell ou o japonês Ryuchi Sakamoto] é muito mais brasileiro do que o primeiro. Acho fundamental manter essa ligação, senão teria sido uma cantora lírica. Há em mim toda uma formação ligada à música brasileira, ao Cartola, à Carmen Miranda, ao Assis Valente, compositores de todos os tempos. O Caetano, o Gilberto Gil, o João Gilberto gritam dentro de mim. Não tenho qualquer intenção de ir viver para fora do Brasil e de fazer uma carreira em inglês, tipo Cindy Lauper. Antes de ser cantora, sou brasileira.
P. – Agora que cada vez mais se fala em “world music”, apetece lembrar uma frase de um jornalista brasileiro: “estar na moda é saber renovar a tradição”. Esta frase aplica-se à sua música?
R. – Acho que sim. O mundo está cada vez mais ligado. É um só planeta. As distâncias tornaram-se menores e as músicas de cada país influenciam-se mutuamente. No Brasil isso aconteceu muito. “Mais” é um disco gravado em Nova Iorque e no Brasil mas, apesar disso, destina-se ao mercado brasileiro. Não seria louca ao ponto de fazer um disco para o mercado internacional sem ninguém me conhecer. Só que a qualidade técnica, de produção, permite o lançamento em qualquer parte do mundo.
P. – Com uma carreira ainda curta, pode dizer-se que chegou, viu e venceu. Como encaram os seus colegas da MPB, que demoraram anos a chegar ao topo, essa sua ascensão quase instantânea?
R. – É apenas uma questão de trabalho.
P. – Trabalha então mais que todos eles?
R. – Pelo menos mais do que a média… acho que sim.

Trovante – “Saudades do Futuro” / “Trovas de Saudade” (entrevista)

Pop-Rock Quarta-Feira, 16.10.1991

TROVAS DA SAUDADE

“Saudades do Futuro”, assim se intitula, saudosista e tradicional, o novo álbum dos Trovante, colectânea de canções que encerra um ciclo de vida, na já longa carreira do grupo. O disco, lançado no mercado nos formatos de duplo-álbum e CD (este incluindo mais 12 canções que o vinil), festeja o 15 aniversário da banda, ao mesmo tempo que antecipa o fecho da “tournée” nacional, em concertos a realizar nos Coliseus de Lisboa, a 24, 25 e 26 deste mês, e do Porto, a 30 e 31. O PÚBLICO juntou-se aos festejos e falou com Manuel Faria e João Gil.



PÚBLICO – Até que ponto esta colectânea assinala o fim de um ciclo e o início de outro, na vida dos Trovante?
MANUEL FARIA – Encerrámos um ciclo, quando entrámos para a EMI-Valentim de Carvalho. Outro, quando gravámos o álbum “84”. Então como agora, sentimos que era preciso mudar, que tínhamos um pouco esgotado um determinado formulário estilístico.
P. – Isso implica uma mudança radical no estilo da banda?
JOÃO GIL – Em relação ao futuro, está tudo por acontecer. O trabalho de composição, apesar de colectivo, funciona ao mesmo tempo como um trabalho solitário, em termos de direcção musical. O caminho que poderá vir a ser trilhado no futuro tem que ver com a capacidade individual de cada músico. Nos Trovante há duas ou três pessoas com essa capacidade.
P. – O disco festeja 15 anos de carreira. Referem-se já aos outros 15 que estão para vir. Qual o segredo dessa longevidade?
JG – Nunca fazemos planos a médio ou a longo prazo. Como diz a canção “Saudades do Futuro”, viramos sempre a nossa cabeça para o futuro, não para o passado. Manter, hoje em dia, um grupo com a estrutura, já de certo modo complicada e pesada, dos Trovante tem que se lhe diga. A nossa coesão passa por uma sensibilidade e por uma educação musical comuns. Crescemos juntos. Há poucos segredos entre nós. Sabemos até onde cada um pode ir.
P. – No início, os Trovante eram um grupo conotado com a esquerda, mesmo partidária. Hoje, assiste-se a uma recuperação, da vossa parte, de um imaginário e de um discurso nitidamente conservadores…
MF – Isso implica uma discussão muito profunda. O pensamento político em Portugal tem um defeito enorme. Permite-se que a bandeira do 25 de Abril seja um exclusivo da esquerda e que a bandeira dos Descobrimentos e do mar seja um exclusivo da direita. São ambas coisas que marcaram a vida deste país e de que as pessoas se deviam orgulhar. Pessoalmente não me acho mais próximo da direita. O povo português sempre foi muito marítimo, muito contemplativo…
P. – A formação desses valores, ligados à tradição, está hoje na moda…
MF – Mas essa moda, esse tipo de sentimento tem uma razão de ser. De certeza que há nele razões que se prendem com o progressivo bem-estar de uma determinada classe, se calhar aquela a que pertenço. Penso que o nosso afastamento da estrutura partidária de esquerda não tem nada a ver com a nossa dita opção de esquerda, se é que ainda hoje é possível falar-se nesses termos. Há alturas em que se torna difícil distinguir qual é o lado conjservador…
P. – Por falar em tradição, a música tradicional teve uma grande importância na fase inicial da vossa carreira. Não tencionam recuperar, de futuro, essa via?
JG – Acho que a aproximação às raízes tradicionais é evidente em toda a música dos Trovante. O lado interior da música tradicional, a sua essência, sempre nos interessou. Há uma nítida influência da postura que o Zeca Afonso, o Adriano, o Sérgio ou o Fausto, em tempos mais antigos, tomaram em relação às raízes tradicionais. Agora, o que nós abandonámos há muito, e convictamente, foi a forma da música tradicional, o folclorismo. Vivemos na cidade. Interessa-nos procurar novos sons.
MF – É mais importante transportar o sentimento do que fazer uma coisa estilo selecções “Reader’s Digest”, do que utilizar este instrumento ou aquele. Fica-se com ar de estudante da universidade, a imitar um rancho folclórico. Hoje em dia, é fácil ser-se exótico. O que está a dar é o “popular”. Engana-se meio mundo, com esse pretenso “fazer popular”…
P. – Por que razão escolheram “Saudades do Futuro” como título do novo disco?
JG – Para mim, “Saudades do Futuro” significa o relacionamento com a utopia, muito mais do que uma coisa saudosista. Ter saudades de um sonho que se acredita ser possível concretizar. Pode ser uma utopia musical. Ou uma utopia política. “Saudades do Futuro” é a nostalgia do que ainda está para acontecer. Podemos citar a propósito a filosofia chinesa, o Teixeira de Pascoaes, o José Gomes Ferreira. O título refere-se à eternidade, ao ser em vez do ter.
P. – Foram escolhidos para representar Portugal na Europália, a par dos Sétima Legião e dos Madredeus, justamente dois grupos conotados com a tal tradição conservadora…
JG – Acho que a fórmula Trovante, Sétima Legião, Madredeus, resulta excepcinalmente bem ao vivo. Mas neste tipo de exposições, seria desejável que houvesse uma melhor divulgação, mais ambição e agressividade. É preciso ter em conta que fazer uma Europália é trabalhar para fora e não para a colónia de imigrantes. Não somos um laxante para revigorar a saudade dos portugueses. Temos que nos voltar também para o resto do mundo.
P. – Afinal, ainda e sempre, a velha incapacidade dos grupos portugueses penetrarem no mercado internacional. Será possível alterar essa situação?
MF – Não acredita no esforço que foi feito, para penetrar, por exemplo, no mercado francês. Foram vendidos 500 discos, por nós próprios no átrio do “Théâtre de La Ville”, durante os cinco dias em que aí actuámos. Decidimos levar os discos à Pathé Marconi. Não ligaram nenhuma.
P. – Regresemos a Portugal. Como vai ser o concerto do Coliseu?
MF – Até agora, costumávamos começar as “tournées” em Lisboa e no Porto, antes de partir para o resto do país. Este ano, decidimos fazer o contrário – concluir a digressão nessas cidades, o que tem uma grande vantagem: o espectáculo está super-ensaiado, permitindo-nos partir para os Coliseus com uma segurança maior. O repertório vai incidir sobretudo no “Um Destes Dias”, mas, mais do que uma panóplia de várias canções, interessa-nos o ritmo do próprio espectáculo como um todo.
P. – Que conselho dariam, na qualidade de “irmãos mais velhos”, às gerações de músicos mais novos?
JG – Acho que o grande recado possível de dar à malta mais jovem que está a começar, passa por encontrar na língua portuguesa, na divisão das palavras, o ritmo certo e a maneira mais correcta de as dizer. A música portuguesa está carenciada de gente que compreenda o português na sua essência. A genialidade do Zeca Afonso consistia nisso, a maneira como cantava o português era fabulosa. Como o Alfredo Marceneiro, também. Não nos devemos iludir com o cavaquinho ou a chula. Devemos, isso sim, procurar mais fundo…
MF – … Encontrar aquilo que nos identifica perante o mundo e nos permite ultrapassar as suas fronteiras.

Vários – “Ananana: Sons Estranhos Numa Terra Estranha” (editora / importadora)

Pop-Rock Quarta-Feira, 09.10.1991


ANANANA: SONS ESTRANHOS NUMA TERRA ESTRANHA

A palavra, de ressonâncias esotéricas, é pouco esclarecedora: Ananana – designação de uma importadora de discos formada por Fred e Paulo Somsen, dois irmãos apreciadores das músicas mais esquisitas do universo, apostada em dar a conhecer, via postal, esses sons do outro mundo ao comum dos mortais. Nomes como Jorge Reyes, Erik Wollo e Vasilisk são por ora conhecidos apenas por um número restrito de iniciados. Mas a situação tende a mudar. À disposição de quem se mostrar disposto a aventurar-se está um lote de novidades discográficas, tão estranhas quanto excitantes. O futuro da música alternativa passa por aqui.



A ideia de formar a Ananana surgiu há cerca de um ano, na sequência de um programa de rádio realizado pelos irmãos Somsen, o DDD, na extinta Rádio Minuto. “Havia muita gente a telefonar para lá, a perguntar onde é que podia arranjar os discos que passávamos”, explica Fred Somsen. “Resolvemos experimentar e importar pequenas quantidades de discos, a ver o que dava. Começámos com álbuns de grupos mais radicais, como os Zoviet France. As pessoas responderam bem.”
“Radical” é de facto o adjectivo que melhor se aplica à maior parte dos discos importados pela Ananana. Os estilos abarcados são muitos, privilegiando a área das músicas electrónicas, nas suas diversas vertentes: industrial, tecnoritual, electroacústica, ambiental, minimal, new age, sound collage e outras de impossível catalogação.
De entre uma multiplicidade alucinante de nomes tão exóticos como Ordo Equitum Solis, Nouvelles Lectures Cosmopolites ou Sigillum S, é possível distinguir dois campos musicais extremados de características opostas, ilustrativos de duas concepções estéticas, senão mesmo éticas, por natureza inconciliáveis, as quais, em termos muito genéricos e recorrendo a uma linguagem simbólica, podemos designar por “música espiritual” e “música infernal”.

O Ser Humano Cobaia

Nesta última categoria, do agrado de uma certa camada de jovens que, segundo Fred Somsen, “pretende fugir à música vulgar, ao rock e à pop”, incluem-se grande parte dos itens disponíveis na Ananana: Anti-Group, Autopsia (cujo título de um dos seus álbuns não deixa dúvidas quanto ao conteúdo: “Death Is The Mother of Beauty”), Coil, Cranioclast, Dreaming Together, Hafler Trio, Lustmord, Nocturnal Emissions, Organum, Sleep Chamber ou Zero Kama, entre outros.
Todos se servem dos ouvintes, e do ser humano em geral, como cobaias. Têm em comum o gosto pela manipulação – dos sons e das mentes. Recorrem para tal à ciência psicoacústica, aos rituais mágicos antigos (sobretudo negros) ou, na maior parte dos casos, à mera sugestão. Guardam do mundo uma visão negra, embora às vezes pretendam fazer crer o contrário. Apelam ao masoquismo e ao orgulho intelectual, sempre ávido de novas conceptualizações, venham elas de Deus ou do diabo. Neste caso, do diabo.
Se não, repare-se na linguagem e na iconografia: “Great Death” (dos BDN, um dos grupos editados por uma editora que dá pelo nome de “carne fria”), “Masturbatorium” (Hafler Trio, ultra-sons à mistura com pornografia), “Heresy” (Lustmord – experiência com gamas de frequência inaudíveis, gravadas em locais como criptas, grutas e outros lugares subterrâneos, onde a luz não abunda), “Aux Morts” (Memorandum, também para as “carnes frias”), Invocation of the Beast Gods” (Nocturnal Emissions, bestiário samplado em torno do número da besta, “666”), “Music To Be Murdered By” (colectânea de várias bandas, cujo título não convém seguir à letra) ou o rebuscado “Hallucinated Moisture of synaptic Slaughterhouse” (Sigillum S, peritos nas artes mágicas e nas canhalices de Aleister Crowley), são alguns exemplos, entre outros de conotações menos evidentes, da filosofia do “antes dar que apanhar”.
Fred Somsen reconhece ter também ele, “há seis ou sete anos atrás”, apreciado este tipo de músicas. Agora já não é tanto assim, mas mesmo aqui há que ter em conta os gostos de quem consome: “Grupos como os Coil ou Current 93 são hoje, de certa forma, populares entre nós. Nos catálogos da Ananana procuramos determinadas associações e alusões a estes nomes, de maneira a que os fãs dos grupos citados procurem conhecer e experimentar ouvir os nomes menos conhecidos. Acontece comprarem, por exemplo, um disco de uma determinada editora e, se gostarem, acabam por comprar também as outras referências dessa editora.”

Ala Luminosa

Independentemente dos efeitos que o consumo de tais experiências possa provocar no ouvinte, importa em primeiro lugar dar a conhecer e, eventualmente, vender. “Somos apenas intermediários”, explica Fred Somsen, para quem esta questão não se coloca em termos éticos.
Mas há outras maneiras de ver e de sentir menos sombrias.
Erik Wollo, Hans-Joachim Roedelius, Jorge Reyes, Lights In A Fat City, O Yuki Conjugate, Pascal Comelade, Robert Rich e Tim Story são alguns dos legítimos representantes da ala luminosa presente nas preocupações e no catálogo da Ananana. Longe das mezinhas e dos xaropes banha da cobra dos subprodutos new age, e recorrendo, em alguns casos, também eles às sonoridades rituais (Erik Wollo, Lights In A Fat City, O Yuki Conjugate, Jorge Reyes), servem-se delas como ponto de partida para um trabalho de integração e não de dispersão. A diferença reside em ser-se apologista da harmonia (não se confunda o termo com estatismo, nem com concepções piegas, de todo ausentes nos casos apontados) ou, por oposição e danação, “construtor” do caos.
Dispersos entre o contingente satânico e a ala celestial, revolvem-se outros músicos e outros grupos, nas tintas para as preocupações morais ou para os furores separatistas, preocupados tão-só em criar mundos alternativos originais, sem descendência directa possível, nem hipótese de cópia credível.
Jakob Draminsky-Hojmark, Jeff Greinke, Mecanica Popular, Nurse With Wound, Peter Frohmader, PGR, Stefan Tiedje, Vasilisk (cujo CD “Liberation & Ecstasy” é, até à data, o disco mais vendido pela Ananana), Zoviet France, inventam territórios, estilhaçam fronteiras, obrigam a escutar tudo de novo.

Rituais Do “Quarto Mundo”

Impõe-se uma menção muito especial a dois dos nomes de maior impacto no leque de escolhas da Ananana: o mexicano Jorge Reyes e os britânicos O Yuki Conjugate. O primeiro dedica-se à tarefa fascinante de reinventar a tradição musical pré-hispânica, juntando, numa síntese magistral, a electrónica mais sofisticada, o primitivismo de instrumentos rituais do México anterior Às invasões espanholas, sons naturais e mesmo a amplificação de vibrações produzidas pelo corpo humano percutido.
Geniais e inovadores, álbuns como “Nierika”, “Musica Mexicana Pre-hispanica” ou o recente “Cronica de Castas” (este em colaboração com o guitarrista espanhol Suso Saiz, dos Orquestra de las Nubes) merecem pelo menos uma audição despreconceituada. Citem-se a propósito desta música estranha, e como meros vectores de orientação, as fusões tribalistas de Jon Hassell ou da dupla Roberto Musci – Giovanni Venosta.
Os O Yuki Conjugate inserem-se na mesma veia das músicas étnico-rituais do “quarto mundo”, embora enveredando por veredas bem mais obscuras. Depois de “Scenes from a Mirage” e “Into Dark Water”, a banda britânica prossegue, neste seu novo trabalho, de genérico “Peyote”, gravado no selo sueco Multimood, as incursões num mundo de sombras e geografias paralelas onde pulsam os elementos naturais e os computadores se insinuam – organismos estranhos numa terra estranha – para intensificar o mistério.
Outras bizarrias recentemente chegadas à Ananana incluem os álbuns “Greates Hits 81-91”, colectânea de pop industrial dos Psyclones, um dos múltiplos projectos de Phil Ladd e Julie Frith, “Incandescent”, de Julien Ash (dos Nouvelles Lectures Cosmopolites), “Apropos Cluster” da lendária dupla germânica Moebius-Roedelius e “Vienna 1990”, assinada pelos mestres da colagem, Zoviet France. Tempo de partir à descoberta.