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Bob Dylan + Sérgio Godinho + Laurie Anderson – “Três Maneiras De Escrever Uma Canção”

cultura >> quarta-feira, 23.06.1993


Três Maneiras De Escrever Uma Canção

LAURIE ANDERSON e Sérgio Godinho asseguram a primeira parte do espectáculo de Bob Dylan a 10 de Julho no Coliseu do Porto e a 13 no Estádio do Restelo, em Lisboa. O concerto de Dylan no Coliseu do Porto contará apenas com a presença do autor do álbum “Tinta Permanente”. Uma dupla de “escritores de canções”, diferentes no estilo, juntos pela primeira vez para contarem as suas histórias de hoje e de sempre. Dylan, o mítico “cantor de protesto” dos anos 60, cuja mensagem cabou por ser “levada pelo vento” e que recentemente regressou às origens da música rural americana, no álbum “Good as I Been to You”; Sérgio Godinho, o cronista do quotidiano e dos sonhos da pequena e média burguesia portuguesas.
Mais amplo é o uso que Laurie Anderson faz das palavras. Servindo-se da electrónica como filtro transformador da voz e dos sons produzidos pelo próprio corpo, a poetisa, compositora, violinista e “performer” esculpiu os sinais e paisagens interiores das grandes metrópoles norte-americanas em álbuns como “Big Science”, “Home of the Brave”, “Strange Angels” ou a mega-antologia “United States”.

Bob Dylan – “Mudam-se Os Ventos, Mudam-se As Vontades” (documentário / tv / rtp2)

rádio e televisão >> terça-feira, 19.01.1993
DESTAQUE


Mudam-se Os Ventos, Mudam-se As Vontades



O HOMEM é um mito. Símbolo de uma América marginal nada e criada no pacifismo “hippie” dos anos 60. Bob Dylan fez da palavra a sua arma, numa época em que a mensagem valia acima de tudo. O maior poeta do rock. Um génio. Desafina. Um traidor e um vendido que canta uma coisa e faz outra. De tudo já chamaram a Robert Allen Zimmerman, a quem, por comodidade de escrita, passaremos a chamar Bob Dylan. Ele esteve-se sempre nas tintas para o que lhe chamaram. Chamem-lhe Fred ou “acabado” que ele prosseguirá imperturbável o seu caminho. Há poucos meses, espantou meio mundo com um novo álbum onde interpreta em exclusivo temas tradicionais, apoiado numa guitarra acústica, na voz nasalada e na harmónica de sempre.
É esta figura lendária, este gigante da música popular, enfim, alguém cuja música não aprecio especialmente mas a quem reconheço um certo estatuto, que alguns colegas, da sua e de gerações mais novas, homenagearam num espectáculo realizado a 16 de Outubro do ano passado, no também mítico Madison Square Garden. Que ao mesmo tempo serviu para celebrar 30 anos de gravações do músico na editora Columbia.
Entre os homenageantes figuravam algumas “trutas” do “AOR” (“adult orientated rock”), que é uma maneira airosa de definir quem se habituou a descansar sobre o colchão dos tops (Willie Nelson, Eric Clapton, George Harrison, Tom Petty), mas também um “outsider” que, pelo contrário, jamais se acomodou ao que quer que fosse (Neil Young) e ainda uma cantora careca que errou na profissão (Sinead O’Connor). Esta última, protagonista do célebre episódio de acusação ao Papa, teve honras de receber, em pleno concerto, uma vaia monumental de desaprovação, deixando no ar a suspeita de a audiência ser na maioria constituída por elementos do Vaticano. Dylan, conta quem esteve lá (e esperemos que a RTP mostre o episódio), não terá pronunciado uma palavra de apoio ou de conforto à rapariga, que se desfez em lágrimas. O que, por seu lado, vem mostrar até que ponto o outrora “cantor de protesto”, autor de “Blowin’ in the wind”, se encontra ligado aos meios eclesiásticos.
O velho Bob esqueceu-se por certo de uma digressão que efectuou em 1966, quando o público reagiu mal a uma alteração de estilo do cantor, mimoseando-o com assobiadelas monstruosas e objectos atirados para o palco. “The times they are changin’”, é verdade. Mudam-se os ventos, mudam-se as vontades, e o espectáculo, em ambos os casos, teve de continuar.
Espectáculo que a RTP dividiu em três partes, completando-se a série, em princípio, a 26 de Janeiro e 2 de Fevereiro. Com todos os matadores.
Canal 2, às 00h35

Bob Dylan – “Good As I Been To You”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 04.11.1992


BOB DYLAN
Good As I Been To You
LP / MC / CD Columbia, distri. Sony Music



Que se pode esperar do velho Fred, hoje em dia? Palavras levadas pelo vento? Lições de harmónica? Suspiros de enfado? Publicidade ao Nasex? “Good as I Been to You” acaba por conseguir o inesperado: surpreender-nos. Uma voz, um nariz e uma guitarra afinal são mais do que suficientes para fazer um disco de boas canções. Há também as palavras, às quais já ninguém liga muito, mas pronto, é Bob Dylan, grande poeta, a “beat generation”, blá, blá, blá… Neste caso é diferente. As canções são todas tradicionais, arranjadas por Dylan da forma mais simples possível: em baladas intimistas, de uma serenidade típica de quem já disse há muito o que tinha a dizer, e também dos velhos. Mas nem é esse o caso. “Goo as I Been to You” soa surpreendentemente fresco, limpo e despoluído, num regresso às raízes “country” e dos “blues” que pelo caminho dá a escutar algumas das mais sentidas interpretações do trovador: “Black Jack Davey”, “Canadee”, “Sittin’on the top of the world”, “Arthur McBride”, “You’re gonna quit me”. Apetece dizer que Bob Dylan soa desta vez quase como um “absolute beginner”. (6)