Arquivo da Categoria: Electronic Pioneers

Kraftwerk – “Kraftwerk” + ” Kraftwerk 2″

pop rock >> quarta-feira >> 12.10.1994
REEDIÇÕES


Energia Em Estado Bruto
Kraftwerk
Kraftwerk (8)
Kraftwerk 2 (8)
Germanofon, import. Carbono



Havia quem já desesperasse de encontrar estes discos. Os dois primeiros da banda germânica liderada por Ralf Hütter e Florian Schneider, dupla da qual existe ainda uma obra anterior, sob a designação colectiva “Organization”. À partida estes dois discos têm todo o aspecto de serem piratas, sendo de admitir que as “masters” (editadas em 1971 num duplo álbum com o selo Vertigo Internacional) se tenham perdido, já que há muito se justificava a reedição em CD dests obras seminais.
O som é bom, embora a gravação apresente alguns ruídos típicos de uma cópia feita a partir de um disco em vinilo. Mas nada disto deve constituir impedimento para os apreciadores dos Kraftwerk ou, em geral, da chamada “escola de Berlim” do início dos anos 70 correrem desesperadamente a comprar esta prenda caída de pára-quedas no nosso país.
Mesmo assim falta editar em compacto o álbum seguinte, “Ralf and Florian”, cujo vinilo ostenta também o selo Vertigo. A partir daqui, com “Autobahn”, nasceria o som techno “avant la lettre” que influenciou meio mundo activo nas pistas de dança da Europa e dos Estados Unidos, desde os anos 80 até hoje. Mas neste par de álbuns datados, respectivamente, de 1980 e 1981 não havia nada que fizesse prever o som inconfundível e robótico que tornaria a banda célebre a partir de “Autobahn”. No seu lugar havia uma violência de metal, clamores concretistas, influências do acid rock californiano, experiências de físico-química minimalistas, curtos-circuitos e emissões clandestinas de energia em estado bruto. Os Kraftwerk moviam-se então nas regiões escarpadas da electro-acústica, fazendo parte da mesma família dos Neu ou dos Cluster (na fase inicial, percursora da vaga industrial), antecipando num ano a própria estreia arrasadora dos Faust.
Apesar do abismo que separa eta música da dos discos seguintes, é possível detectar nela os germes da estética futura dos Kraftwerk. “Ruckzuck” liga o motor de ignição no mesmo andamento que “Elektrisches roulette”, uma faixa de “Ralf and Florian”, enquanto os 17 minutos de “Kling Klang” (título que seria aproveitado para a designação do estúdio da banda) são a versão embrionária e sacudida de “Ananas Symphonie”, também de “Ralf and Florian”, ou dos pequenos excertos abstractos incluídos no segundo lado de Autobahn”. Depois, os Kraftwerk entraram na auto-estrada, fecharam-se num “chip” (do casulo nasceu a espécie dos homens-máquina que, surpreendentemente, mostraram ter também alma) e entretiveram-se, como que na brincadeira, a inventar as leis pelas quais se regeria a música de dança do futuro.

Yellow Magic Orchestra – “Technodon”

pop rock >> quarta-feira >> 20.07.1994


Yellow Magic Orchestra
Technodon
Toshiba EMI, distri. EMI – VC



Em plena euforia “techno”, é bom recordar os progenitores do movimento e que esta música não é obrigatoriamente sinónimo de batida primária enfeitada com o menu de demonstração do último modelo de “sampler”. Os japoneses Yellow Magic Orchestra (YMO), com os alemães Kraftwerk e os suiços Yello (estes numa vertente mais humorista) foram os pioneiros. Seguiu-se-lhes a vaga de electronic body music, personificada por milhares de bandas, com os belgas na dianteira (Front 242, Front Line Assembly, etc.) e, já com a discoteca na hora do fecho, a ressaca a prazível da ambient house.
Como costuma acontecer sempre que um ciclo se completa, volvidos 16 anos sobre a sua estreia discográfica, de percursores do movimento, os YMO passaram a incorporar na sua música elementos estéticos introduzidos posteriormente pelos seus discípulos. É assim que em “Technodon” os puros exercícios de batida infernal de “Dolphinicity” e “Waterford” enfileiram ao lado de ambientalismos como “Nostalgia” e dos últimos resquícios de um orientalismo perdido, em “Pocketful of rainbows”, curiosamente o único tema que não é composto por nenhum dos elementos da banda. Assinale-se ainda algumas coincidências, ou não, como a proximidade estreita de “Nanga def?” com a cadência militar e os mesmos registos de sintetizador dos D.A.F. (de notar a própria semelhança fonética entre a designação deste grupo alemão e o “def” do título…); “High-tech hippies”, cuja vocalização lembra de imediato os New Muzik, e a utilização, em “Be a superman”, de um inconfundível som de computador, popularizado pelos Kraftwerk desse “The Man Machine”, antecedido, não sem uma nota de ironia, pela voz “fetiche” de William Burroughs, que volta a empastelar-se um pouco mais em “The merli”. Talvez faça então algum sentido procurar uma decifração das motivações e estrutura de “Technodon” na frase que os YMO afixam na capa: Afundar-se na loucura é positivo, em nome da comparação.” (7)

Suicide – “Suicide” + Suicide – “Alan Vega – Martin Rev – Suicide”

pop rock >> quarta-feira >> 04.05.1994


A MAIOR PROVA DE AMOR

Suicide
Suicide (10)
Alan Vega – Martin Rev – Suicide (7)
Restless, import. Contraverso



Em plena fúria “punk”, os Suicide foram mais longe que todos os outros. Alan Veja, o anjo negro do “rockabilly” martirizado, e Martin Ver, percursor da “techno” industrial, provocaram em 1977 arrepios na espinha de muita gente com o seu disco de estreia intitulado simplesmente “Suicide”, as letras do título a vermelho e a escorrerem sangue. Veja, espécie de duplo negro de Elvis, cantava então num registo semideclamado de palavras, gritos e murmúrios de uma América em galopada para o abismo, sobre os ritmos metálicos e saturados de electricidade e veneno de Martin Ver. Um coração em chaga a agonizar, no meio dos horrores de uma serração fantasma. “Cheree” ficará para sempre como a última canção de amor deste século e “Frankie teardrop” – história de um trabalhador enlouquecido que assassina toda a família para finalmente se lançar de uma janela sobre o tráfico da cidade – como documento, de audição quase insuportável, versão dos anos 70 de “The end” dos Doors, da paranóia urbana e do caos psicológico. Extremos de um álbum todo ele elaborado sobre o excesso que prolonga e supera a estética de demência anunciada pelos Velvet Underground (grupo que os Suicide são os herdeiros directos, transpostos para um contexto industrial) e levada ao niilismo absoluto por Lou Reed em “Metal Machine Music”, Veja e Ver habitavam nessa época em pleno coração das trevas, num ciclo de amigos que a morte ia levando uma um, enquanto nos concertos a banda era sistematicamente agredida em palco. “Ainda uma prova de amor, a última das provas de amor”, diziam então os Suicide, “preferível à pior das mortes, que é a indiferença.”
Comparado com este pesadelo, o álbum seguinte, “Alan Veja – Martin Ver – Suicide”, gravado três anos mais tarde, perdera já grande parte da energia e da raiva originais pelo caminho, dando início a um processo de domesticação do som levado a cabo por Ric Ocasek, dos Cars, produtor de serviço da banda a partir deste disco. Em vez do massacre, passou a haver um “techno pop” minimalista. Operação de limpeza que limou as arestas mais salientes do som Suicide, tornando-o porventura mais suportável e apto para o consumo das massas. Dois álbuns seminais reunidos pela primeira vez num CD simples.